Notas iniciais
Uma nova fase (:

Alice passou as semanas seguintes trancada em seu quarto. Saía apenas para o treino diário e também quando precisavam de sua ajuda na cidade. Tinha cansado de tentar convencer Ichiro da revogação dos poderes, ele sempre mudava de assunto ou dizia simplesmente: não. Sua vida tornava-se cada vez mais monótona, não aguentava aquele suspense todo de Ichiro e se sentia infeliz. Almoçar nos Oota não era tão legal mais. Assistir The Lea’s Show agora, parecia fútil e nada divertido e o pior: Ichiro parecia não entender.

Estavam sentados na grama, pela primeira vez em semanas. Ichiro tentava animar Alice.

— Disseram que tem um molho novo lá, típico mexicano...Seria legal se fossemos...

— Eu não quero ir a lugar nenhum com você, Ichiro...que saco. — respondeu com raiva.

— Por que diabos você tá assim? Eu não entendo.

— Eu que não entendo essa sua cara de pau... tenta fingir que tá tudo bem, mas não está...NÃO ESTÁ! — gritou Alice. Estava a ponto de chorar. — E quer saber de uma coisa? — disse olhando nos olhos de Ichiro. Não esperou a resposta. — Pra mim já deu. — antes que pudesse levantar, Ichiro agarra seu braço.

— Por favor, para de ser tão mimada...

— Mimada? Ah, vá a merda.

— É sim, mimada. Você não vê o que eu to fazendo é pra o nosso próprio bem? O silêncio as vezes é o melhor antídoto.

— E as vezes o pior veneno. — disse, saindo em direção ao portão. Ichiro continuo no mesmo lugar, imóvel.

— Talvez isso seja um indicio. — disse, a si mesmo.

Alice andava rápido. Queria ir para qualquer lugar, mas não tinha direção. De repente aquele momento passou em sua mente, como já tivesse vivido.

Déjà vu!

Talvez não fosse um simples Déjà vu. Pela primeira vez, Alice desejou que tudo não passasse de um sonho. Que logo, logo, estaria sendo acordada por sua mãe para ir à escola.

Qual mãe? Qual escola?

Caminhava lentamente agora. Estava em uma rua movimentada de Los Angeles, sua casa ficava nos arredores, mas não estava muito perto. Distraia-se com as roupas glamurosa nas lojas chiques de lá. Pela vitrine impecavelmente brilhosa, notou que todos ao seu redor observavam o céu, apontavam e falavam sem parar, intrigados. Alice levantou a cabeça e fez esforço para enxergar entre os arranha-céus. Suas sobrancelhas arquearam.

Que o espetáculo comece! Lia-se no céu, as letras, formadas por fumaça, agora dissolviam-se. Uma grande seta apontava para o palco principal: o prédio que ficava entre as duas ruas, a qual a principal dividia-se. Alice e os pedestres giraram a cabeça quase simultaneamente, todos olhavam o homem no alto do edifício.

Um suicida...perfeito, bufou.

Quando o homem pulou, todos gritaram (menos Alice, é claro). Antes que pudesse se mexer, a última coisa que Alice imaginou acontecer...aconteceu. O suicida, ao invés de se esborrachar no cão, levantou voo. Incrédulos, os pedestres começaram a correr de um lado pro outro em busca de refúgio, pois além de voar, ele também lançava objetos ao chão, contra todos.

Eu não acredito...i-isso só podia acontecer agora...eu vou acabar com a raça desse otário.

O sangue pulsava, Alice sentiu-se ligeiramente mais baixa. Sua cabeça doía e seus músculos se contraíram. De súbito, agarrou o carro, que Dom Dominus lançara contra uma senhorinha. Alice esticara os braços, mas não foram com eles que segurou o carro.

— Mas o quê? — suas palavras saíram abafadas pelo som de um grito. — E-eu, segurei o carro sem tocar... — disse incrédula. Seus cabelos, agora curto, voavam. Seus olhos tornaram-se pretos. — Deve ser uma nova fa... — antes que pudesse terminar, um toldo a atingiu. Miss Popper permaneceu imóvel alguns segundos, caída na calçada. Em seguida, o toldo é lançado para cima, novamente sem Popper tocar, em direção ao seu arremessador, ele desviou e deu risada. Olhava fixamente para Alice.

Você vai desejar nunca ter mexido comigo, pensou Alice.

Alice, como da primeira vez que voara, fazia força, mas logo percebeu que essa fase não possibilitava isso. Tentou mudar de fase, mas também não deu certo, porém, antes que pudesse pensar em uma saída, o homem voador atacou. Segurou em seu pescoço de maneira que não podia respirar e voou com ela para o alto dos prédios. Ele apertava cada vez mais e Alice balançava os pés compulsivamente.

— I-isso n-não...faz sentido — disse Alice, com dificuldade — Quem você pensa que é pra... — Dom Dominus apertou mais o pescoço de Alice, silenciando-a.

— Quem sou eu? Ah, minha querida, logo, logo saberá, isto é, se conseguir sobreviver...A única coisa que quero que saiba é que Los Angeles não precisa de você, ficamos todos esse tempo sem sua ajuda e não é agora que vamos precisar. Então...

O homem solta Miss Popper, deixando-a mergulhar no mar de concreto. Ela grita, balançando os braços e pernas desesperadamente na tentativa de voar ou... qualquer coisa que não a transforma-se em patê, porém ela chega rápido demais ao chão, chocando-se no asfalto de barriga pra cima. A dor é lancinante, sua visão escurece alguns segundos, enquanto se esforça em enxergar o vulto preto no céu azul. Ele voa em sua direção segurando um...

— Tridente? — Alice resmunga a si mesmo, tentando distinguir a arma vindo em sua direção.

Dom Dominus voa apontando o tridente diretamente para a cabeça de Alice. Está, ainda sente as dores do impacto e não consegue se mexer para sair do lugar, então lembrando do carro e de como conseguiu segura-lo só com a força da mente, Popper tenta entortar as pontas do tridente para cima. A lança estava a um metro de distância.

Vamos lá, só mais um pouquinho...

As pontas entortam completamente e Alice escuta um urro de fúria. O homem bate o tridente contra o asfalto destruído por Popper, confuso.

— Seus reflexos são uma merda... — Dom Dominus escuta uma voz atrás de si e vira. — Seu idiota... — Alice dá um soco no homem, escutando o ranger de seus dentes. Começa uma sequência de golpes sem dar chance de Dom Dominus se defender, ele perde o equilíbrio e cai sentado, mas antes que Alice pudesse dar o golpe final, Dom Dominus materializa uma espécie de pó preto e joga entorno dos dois. Alice tosse e fica às cegas por um momento, quando o pó finalmente se dissipa, o homem não está mais lá.

Não é que o filho da puta fugiu? Covarde desgraçado...

Miss Popper senta no asfalto esgotada. Observa uma aglomeração de curiosos se aproximar e percebe que é hora de partir. Se estivesse na fase amarela, teria ajudado a consertar as coisas, cumprimentado os policias e os civis, porém na fase preta, ela mandou um foda-se para o primeiro policial que apareceu e mostrou o dedo do meio para uma criança que gritava dizendo que preferia a loira.

— Seu pivetinho, comedor de meleca de merda. É melhor mesmo você preferir ela, porque eu odeio crianças. E não ligo de atira-las na frente de um ônibus. — A crianças desatou a chorar.

Alice fazia o caminho de volta ainda enfurecida e pensativa. Não entendia o que tinha acontecido, porquê aquele homem a atacara e como ele conseguiu os mesmos poderes da fase amarela. Quando chegou em casa, ainda relutante, foi até Ichiro e explicou-lhe o que aconteceu.

— É, eu também não entendo... — disse Ichiro sem esperanças.

— É possível que exista um outro herói, e é claro que neste caso, virou um anti-herói?

— Não. Todos os heróis que já existiram, como eu já disse, desistiram de seus poderes e voltaram a ser mortais, o último foi no século XIX, impossível estar vivo ainda... — Mas, mudando de assunto — disse percebendo os cabelos de Alice voltando lentamente ao comprimento e a cor normal —, você liberou uma nova fase, não é mesmo?

— Pois é, acho que sim... — respondeu alisando as pontas de seus cabelos, agora bicolor. — Quando estávamos lutando, tentei voar e logo percebi que está fase não tinha esse poder, mas quando tentei mudar de fase para poder voar, não consegui.

— Normal. Você ainda não dominou totalmente as duas fases, lembra quando eu lhe expliquei sobre elas? — Alice assentiu — Eu disse que você poderia aciona-las quando quisesse quando as dominasse. Até você tomar controle totalmente delas, não poderá mudar. Dependerá totalmente do seu humor, e principalmente, de seus sentimentos.

— Isso é meio ruim... e confuso. — Alice voltara totalmente a sua forma normal.

— Mais ou menos — responde Ichiro, rindo. — Agora, acho que é melhor você tomar um banho e assistir The Lea’s Show. Com certeza, hoje ela vai ter muito assunto para falar sobre você.

Notas finais
Comenta, vai *-*