Miss Parliament
1 Capítulo 1
I.
A balbúrdia descontrolada ainda ecoava em seus ouvidos quando fechou a porta de madeira de seu escritório. Sentia as pernas trêmulas sobre os saltos, bem como a respiração rasa e o coração batendo rapidamente contra seu peito. Tinha a chance de fazer história ali, se conseguisse manipular o jogo da forma correta; se jogasse as cartas certas, agradasse aqueles que importavam e, principalmente, ganhasse um público mais cativo.
— Não chegaram a um acordo. – Harry constatou somente ao encarar sua face corada pela ansiedade. – Nenhum dos Partidos alcançou a maioria absoluta.
— Eles estão em polvorosa com a ideia formar um governo minoritário ou de coalização entre os Partidos. – Ela respirou fundo, indo até a janela e encarando a paisagem que fazia parte de sua diária pelos últimos nove anos, pensativa. – É o momento de tentar, sei que é.
— Precisará de apoio. – O amigo ajeitou os óculos pensando por um momento, começando a fazer anotações, tão eufórico quanto Hermione, embora ela se contivesse quanto à possibilidade que a vinha tentando há algum tempo. – Incentivo dos dois lados, jogo de cintura para lidar com aqueles homens ensaboados e, principalmente, propaganda.
— Tenho convicção de que posso dobrá-los, se quiser. – Voltou-se a figura sentada próxima à poltrona, os cabelos ruivos caindo muito lisos pelo ombro e o rosto iluminado de alguém que carrega seu bem mais precioso junto de si. Ginny Potter tinha os olhos esverdeados sobre James, seu primeiro filho, o qual tentava dar seus primeiros passos sobre o tapete persa de sua sala e encarava cada objeto com muito interesse. – Weasley?
— As pessoas lhe adoram, Hermione. Conhecem seu rosto, sua história... – Ginny levantou-se, a maquiagem no rosto marcando sua expressão ambiciosa. – Você é uma exceção. O menor boato sobre uma candidatura sua a este cargo... Não haverá fagulha que possa ser contida por nenhum dos lados.
— Precisamos buscar doadores, nomes conhecidos que possam apoiar sua causa para fazer com que os deputados sintam a pressão da opinião pública, e então...
Harry continuou a enumerar sua grande lista de coisas a fazer, enquanto que seus olhos recaíram sobre Ginny, que a encarava com aquele semblante óbvio que a acusava de saber o que fazer. Revirou os olhos e sentou-se à sua mesa, considerando que a realidade poderia ser uma vadia. Quando conseguira um assento de forma independente na Câmara dos Comuns do Parlamento do Reino Unido, não pensara que esse momento chegaria tão rápido em sua carreira. Tinha ambições, obviamente. Sua vontade de governar para o melhor era conhecida por todas – e fora um dos motivos pelos quais se tornara a primeira Parlamentar eleita sem qualquer partido em muitos anos. Uma exceção, como Ginny dissera.
Entretanto, agora que era hora de dar um passo à frente, o mais decisivo, sua primeira ação seria revisitar o passado? Era mesmo necessário que tentasse vender-se à ele e aos seus objetivos pessoais? O concederia qualquer poder sobre ela, novamente e de bom grado? Suspirou, mais resignada do que dolorida, percebendo a discussão que se instalara entre o casal de amigos e assistentes exatamente sobre o assunto que mais a perturbava. Porém, percebera que a ruiva ganhara quando, antes de voltar-se a Tiago, a encarou decidida.
— Terá que procurá-lo.
II.
— O Sr. Malfoy está em uma viagem de negócios no Canadá. Mas posso anotar seu recado, Srta. Como disse que se chama?
Hermione revirou os olhos à pergunta da mulher do outro lado. O tom era educado, mas fino como o de uma ave de rapina e quase podia apostar saber de quem se tratava. Porém, preferiu sorrir, embora estivesse sozinha em sua própria sala, educadamente respondendo que sabia que o “Sr. Malfoy” não estava viajando e que tinha assuntos urgentes a tratar com o mesmo.
Havia buscado em sua antiga e quase que completamente detonada agenda física o telefone de Montague, um dos antigos amigos de Draco, e herdeiro de um grande império têxtil, aproveitando a oportunidade de pedir apoio em seus círculos para sua campanha à Primeira-Ministra e especular não muito discretamente a respeito da estadia do Sr. Malfoy na cidade. Satisfatoriamente, Montague lhe concedera total apoio ao cargo mais importante da política inglesa, “em nome dos velhos tempos”— no que Hermione obrigou-se a sorrir, embora mordiscasse os lábios em incômodo – e dissera que tinha um jantar entre amigos naquela noite, em que Draco compareceria.
— Passe para o Sr. Malfoy e diga que Hermione Granger está na linha, é urgente.
Houve um momento de silêncio do outro, onde quase podia ver a mulher prendendo a respiração, mas não demorou muito a que concordasse. Sentia-se como uma adolescente em seu primeiro encontro, como se nunca tivesse falado com Draco Malfoy em toda sua vida. Seus dedos apertaram-se ao redor do telefone, suados, a garganta tão seca que precisou alcançar um copo d’água em sua mesa e tomar em goles rápidos antes que ouvisse o bip do outro lado e a voz dele soasse grave.
— Hermione? — O tom era duvidoso, como se não acreditasse que pudesse mesmo ser ela ligando-o.
—Draco. – Era até mesmo estranho pronunciar seu nome depois de tantos anos. – Como vai?
— Er... – Ouviu o pigarro incomodado. – Por que está ligando?
— Acredito que tenha ouvido falar sobre minha candidatura ao cargo de Primeira-Ministra. – Ele confirmou brevemente e Hermione ensaiara aquela fala tantas vezes perante o espelho que tudo saiu de forma quase mecânica. – As coisas aconteceram muito rápidas e inesperadamente. Como sabe, me elegi de forma independente ao Parlamento, então... para que eu realmente consiga ser eleita preciso de apoio.
Outro silêncio prolongado em que Hermione sentiu o peito contrair-se e os dedos contorcerem o canto de uma folha de papel a seu alcance. Pedira para que não fosse incomodada enquanto fazia aquela ligação, mas agora quase se arrependia de não ter ninguém com quem compartilhar aquilo. Porém, precisava agir como adulta, fazer o que precisava, tirar o curativo há muito esquecido sobre a ferida.
— Parabéns. Digo, pela candidatura. – Ele parecia escolher as palavras muito minuciosamente. – Que tipo de apoio precisa?
— Podemos conversar pessoalmente?
Já estava para revirar os olhos pela clara hesitação do outro lado da linha, mas Draco marcou o encontro no mesmo local onde seria sua reunião de amigos, que incluía Montague. Eles se despediram formalmente e Hermione bateu o telefone contra o aparelho, quase forte demais, como se a mão queimasse apenas por segurar o objeto em que falara seu ex-marido.
III.
Hermione checou a imagem no espelho ao menos cinco vezes, somente com aquela roupa. Lembrava-se da ansiedade ao arrumar-se para vê-lo quando tinha somente vinte anos e estava completamente apaixonada. Persuasivo, talvez, fosse a palavra mais adequada para descrevê-lo. O primeiro sorriso que ele lhe direcionara com a intenção de convidá-la para sair nunca deixara sua mente. Era o mesmo que o acompanhara pelos dez anos de casamento em que eles viveram juntos.
Parou por um momento, sentada a cama, o pelo macio do tapete acariciando seus pés após um dia de trabalho sobre saltos altos. Sabia exatamente qual fora o momento de ruptura entre eles, além da crise familiar que nunca deixava de acompanhá-los. Agora, arriscava colocar de lado a paz forjada que tanto almejara durante os últimos seis anos. Tinha em mente que Malfoy poderia ser tanto sua salvação na eleição quanto sua ruína pessoal.
Porém, quando se forçava a colocar isso na balança, a candidatura sempre ganhava, pois essa decisão representava exatamente quem ela era, afinal governar sempre fora seu objetivo. Era assim que poderia ajudar quem precisasse, tomar as decisões que o país necessitava de forma mais justa, assim como entender quem as tomava e seus motivos. Estava abrindo mão do próprio orgulho por algo que, até então, era somente uma jogada, algo que poderia não ocorrer, que não era certeiro. Talvez essa fosse a maior política de todas.
Assim, decidiu-se por uma bota vermelha para combinar com o vestido branco e o grosso casaco de lã bordô, subindo aos saltos novamente para emendar um terceiro turno apenas naquele dia. Harry estaria orgulhoso por seu esforço. Desde que se tornara Parlamentar, o homem ocupava o cargo de seu assistente enquanto Ginny, com sua assessoria de imagem trabalhava esporadicamente, mesmo porque nos últimos tempos vinha se dedicando a cuidar do filho deles.
Ocupou a cabeça com uma entrevista que teria no dia seguinte e, em sua distração, não percebeu que chegara ao Connaught Hotel até que o motorista estacionasse e desce a volta no carro para abrir sua porta. Assim que sentiu a brisa fria de Mayfair naquela época do ano, quase se arrependeu de não ter se importado com o par de luvas displicentemente jogado sobre sua cômoda. Porém, adentrando a recepção com suas luzes amareladas e carpete avermelhado, percebeu que talvez o frio não fosse somente devido ao clima, mas também ao nervosismo.
Não pelo ambiente sofisticado, constatou ao ser encaminhada ao Connaught e Coburg, o bar do hotel, mas em razão da situação em si, mas em razão da situação em si. Mesmo os olhos que se voltaram a ela, cientes de sua candidatura não a intimidaram tanto quanto o fato de que seria a primeira vez que veria Draco em muitos anos. Concorria com Sylvia Hartnett, do Partido dos Trabalhadores, e Thomas Widmore III, do Partido Conservador. Ou seja, Londres estava em polvorosa com a possibilidade de uma eleição tão concorrida entre aqueles três personagens. O desastre era iminente ou daí nasceria uma nova e mais democrática forma de governar?
Os questionamentos foram deixados de lado, no entanto, quando avistou o grupo de homens acomodados a uma das maiores mesas do local, próximos à janela, conversando alto e rindo largamente sobre uma piada qualquer ao redor da mesa redonda. Montague, Nott, Bletchley, Zabine, Puccey, Lestrange, Black, Malfoy; os três últimos unidos pelo parentesco, todos servidos de uísque caro e conhaque forte. Eles não perceberam sua aproximação, até que os saltos soassem em anunciação e seus olhares recaíssem sobre ela, como se estivessem vendo um fantasma.
— Ora, Draco, você não disse que estava se reconciliando com Hermione. — Sirius Black externou em tom jocoso, no que o próprio Malfoy revirou os olhos e levantou-se, seguido por todos em educação. – Garoto esperto.
— Não estamos nos reconciliando, Sirius.
Ela percebeu como os olhos do homem encontravam-se moles pela bebida e só então o sentimento de saudade a tomou. Dos primos de Draco, aquele era o seu preferido, embora o próprio Lestrange, marido de uma das tias, não fosse de todo ruim, relevado o elitismo exacerbado e o egocentrismo. Sentia falta das pérolas inconvenientes de Sirius nos jantares de família e até mesmo da educação polida demais de Narcissa Malfoy. Mas era passado e, após cumprimentar a todos como se não fizesse anos que não via seus rostos outrora tão familiares, encarou Draco, que se aproximava ajeitando o terno.
— Temos negócios a tratar. – Ele parecia mais decidido do que ao telefone, como se quisesse terminar aquilo o mais rápido possível, e Hermione despediu-se dos homens à mesa, tomando nota que ligar para cada um deles era prioridade, todos com dinheiro de sobra para apoiar sua campanha, bem como contatos importantes e um assento na Câmara dos Lordes ocupado por Sirius Black. – Prefere acomodar-se aqui no bar ou dar uma volta enquanto conversamos? O balcão parece vazio o suficiente...
— Vamos andar.
Assim, não precisariam ficar obrigatoriamente encarando-se e analisando cada mínimo gesto do outro, questionando o que um determinado olhar significava, ou um repuxar de boca ou qualquer coisa estranha que pudesse surgir daquele encontro. Assim, aliás, não pareceria um encontro, como tantos outros que tiveram. Além disso, o bar tinha um clima ambiente íntimo demais, com suas luzes baixas, mesas pequenas demais e banquetas muito próximas, no caso do grande balcão.
Automaticamente encolheu-se pelo frio ao pisar na calçada do hotel e encaminhar-se lado a lado com ele até contornarem a esquina e o silêncio se instalar. Hermione sentia que precisava iniciar a conversa e, como ao telefone, tinha o que deveria dizer completamente ensaiado, mas estando em sua presença imponente e sentindo o mesmo perfume pelo qual se apaixonara há quase vinte anos não ajudava muito.
— Sua ligação me surpreendeu. – Os olhos cinza encontraram os dela. O tom que ele mantinha era baixo e retilíneo, sério e muito diferente do que esperava, pois Draco sempre arranjava jeito de fazer qualquer gracinha sobre o que quer que estivesse ao alcance de sua língua ferina. – Faz seis anos.
— Me desculpe por incomodá-lo com isso. – Ela optou por não prolongar o assunto, sem corrigir o fato de que, na verdade, a separação faria quase sete anos e que o homem estava contando somente a data em que oficializaram o divórcio. – Sei que, quando nos separamos, disse que não queria nada do que era seu e foi assim que acordamos, mas... Preciso de apoio para suportar a campanha e a concorrência com dois Parlamentares de partidos grandes. Temos de arcar com despesas de campanha, muita propaganda, toda a logística e, é claro, a política envolvida nisso tudo. Diferente de Widmore e Hartnett, não tenho os partidos para me proverem o necessário. Apenas que...
— Respire, Hermione. – Pediu em seu tom mais tedioso, exatamente como fazia quando ela começava a falar rápido demais, no que a castanha obedeceu e o encarou com seus grandes olhos pedintes.
— Essa eleição é importante para mim, sabe disso. – Ele estacou na calçada, obrigando-a a imitá-lo, mas ainda demorando algum tempo observando o movimento da rua antes de dedicar-lhe atenção. – E sabe também que farei um bom trabalho, que tudo que venho fazendo nos últimos nove anos tem valido à pena.
Tinha focado seu trabalho como Parlamentar na tentativa de minimizar os impactos da pobreza na vida de crianças e adolescentes, a partir de projetos de leitura e oficinas de música, além de criar centros especializados no atendimento de idosos que, por qualquer motivo, não tinham família, sem importar-se com a renda financeira. Não fora fácil e tivera de adaptar-se à forma como a política movia-se na Sede do Governo e na Câmara dos Comuns, mas ainda estava de pé e, mais do que qualquer um, sabia merecer o cargo de Primeira-Ministra.
— Passe-me a conta e eu mandarei depositar a quantia que precisa.
Hermione abriu a boca, pronta para retrucar e continuar dizendo a ele todos os motivos que a levaram a buscar seu apoio, mas conseguiu processar o que ele dissera antes disso, encarando-o com surpresa pela facilidade com que concordara, os olhos percorrendo o rosto sério e sisudo que a encarava, diferente do homem que poucos minutos atrás ria de qualquer coisa com seus amigos.
— Só isso? – Ele levantou uma sobrancelha, estranhando.
— Era o que queria, não era? – Confirmou e sacou da bolsa uma caderneta, de forma trêmula escrevendo o número da conta, vendo-o guardar o pequeno papel no bolso da calça.
— Obrigada, Draco.
Malfoy meramente despediu-se e passou por ela, fazendo o caminho de volta ao Connaught Hotel e, obviamente, ao bar onde seus companheiros estavam. Contudo, antes que Hermione pudesse digerir o que acabara de acontecer, ele a chamara novamente, os olhos cinza novamente a analisando com aquela profundidade que sempre lhe pertencera.
— Eu... Prefiro o seu cabelo comprido.
E, em outros tempos, ele teria soltado aquele sorriso jocoso e emendado com uma frase de pior gosto, mas não havia sorriso e nem seus cachos compridos, cortados propositalmente para evitar que lembrasse a preferência de Malfoy e seu antigo hobby em torcê-los por entre os dedos.
IV.
Harry Potter andava de um lado a outro falando ao telefone, enquanto, encarando o inseparável I-pad em suas mãos, falava rápido demais para que pudesse acompanhar, provavelmente acertando os detalhes de uma de suas entrevistas. Haviam crescido juntos no subúrbio de Londres, ambos inteligentes e ambiciosos demais para qualquer trabalho que não os fizessem grandes e/ou fosse indiferente a vida das pessoas. Demorou algum tempo, muita paciência e esforço, no entanto, até que alcançassem seus objetivos.
Hermione previsivelmente se enfiara em livros na faculdade de Direito em Cambridge, onde decidiu que se utilizaria do diploma e sua disposição em ajudar pessoas para conseguir um cargo público em que pudesse fazer mais pelos outros. Pela primeira vez em anos de amizade, estava longe de Harry, que cursava Relações Internacionais em Oxford. Porém, nem a distância foi capaz de enfraquecer a amizade e foi justamente em uma das visitas que fizera ao amigo que conhecera Draco Malfoy.
Vinte Anos Antes
The Hilda Mug estava lotado. O pub, que ficava próximo a última universidade completamente feminina de Oxford, St. Hilda’s, tinha cheiro de álcool, tabaco e algo doce que faria com que seu estômago enjoasse se não estivesse tão acostumada à bagunça que precedia os jogos de futebol. Por ser o maior polo de concentração feminina universitária por metro quadrado na cidade, muitos estudantes se deslocavam para lá a fim de assistir aos jogos e se utilizar dessa desculpa para flertar desmedidamente.
Sentada ao balcão, utilizava um moletom negro da Universidade de Oxford emprestado de Harry, complementado por uma faixa de seu time ao redor do pescoço nas cores azul, branca e dourada com os dizeres em latim “Superbia in Proelio”, que remetia ao lema do Manchester City: orgulho em batalha. Tinha as mãos geladas contra o rosto, atenta à TV, a qual transmitia a partida contra o Liverpool, tão fanática era pelo esporte devido à influência de seu pai.
A caneca de cerveja à sua frente quase intocada somente estava para molhar o balcão, visto esquentar a medida que Hermione a ignorava, ao contrário de Harry, que provavelmente já bebia a terceira ou quarta, assim como Ron e Ginny Weasley, Luna Lovegood e todos os outros amigos do moreno de olhos verdes. Àquela época, a ruiva era somente a irmã do cara com quem ele dividia o dormitório e Harry mantinha certa predisposição para flertar com qualquer uma que lhe olhasse duas vezes, então eles só se tornaram um casal alguns anos após saírem da faculdade.
— Você não é daqui, é? – Demorou algum tempo para Hermione perceber que o homem ao seu lado falava com ela, então apenas confirmou que era uma intrusa de Cambridge em vestes Oxford, voltando os olhos à televisão. Dessa vez, ouviu uma risada baixa e sentiu a aproximação do homem, enfiando-se entre ela e a pessoa que ocupava a banqueta ao seu lado, tão próximo quanto a física permitia, desafiando os bons modos exigidos para dois completos estranhos. – Quer dizer, eu não esqueceria esses cachos, se já os tivesse visto em algum momento.
Sentiu o rosto esquentar, certa de que ele poderia acompanhar todo o processo muito de perto, visto que o sentia completamente confortável contra ela, como se tivesse intimidade para se manter daquela forma. Foi só então que, realmente o encarou, os olhos deixando a TV e os últimos sete minutos de jogo, analisando-o em seu aspecto alto, sorriso pequeno e confiante, olhos cinza e cabelos muito loiros.
— Draco Malfoy. – Ele estendeu a mão através do pouco espaço que dividiam no balcão, mas o público do bar gritou devido a um lance contra o Manchester e Hermione voltou a atenção à TV, ainda segurando a mão dele. Um jogador acabara de ser expulso e o City perdia de 2 para 3, ou seja, a comoção era plausível. – Você tem nome, citizen?
A forma como ele se referira a ela fez com que o encarasse quase indignadamente, mas lá estava o sorriso confiante de novo, lhe dizendo que não queria ofendê-la, afinal era realmente o modo como chamavam os torcedores do Manchester. Percebeu que ele não usava adereço de qualquer time, somente um moletom azul escuro e liso, o que a fez suspeitar que poderia ser adepto ao Liverpool e não estava usando nada porque escolhera ir falar com ela. Porém, não era tão autoconfiante assim.
— Hermione Granger.
— Não pode vir ao Hilda Mug e deixar sua caneca intocada assim. – Ele constatou olhando para sua cerveja, no que Hermione apenas sorriu, informando que não bebia. Havia pedido uma caneca somente por educação, pois Harry estava muito animado, embora, já ao final do jogo, praticamente não enxergasse um palmo à sua frente e estivesse mais concentrado em convencer uma garota loira a ir para sua cama. – Posso?
Ele gesticulou em direção à cerveja e Hermione somente lhe entregou a caneca, sem realmente se importar, visto que faltavam somente dois minutos para o final do jogo e seu time partia para mais um ataque a fim de garantir um empate. Por alguns momentos, o pub manteve-se quase em completo silêncio, os olhos concentrados na partida e em como os jogadores tentavam se infiltrar na área do time adversário. Desviou a atenção rapidamente para o homem ao seu lado, que encarava a TV ostentando o mais absoluto tédio possível, o que a fez estranhar, sendo despertada de sua pequena e rápida distração quando o gol foi anunciado.
O pub ficou em polvorosa. Hermione ainda foi abraçada por Harry, que parecera materializar-se ao seu lado a partir de lugar nenhum, utilizando vestes e cachecol do Manchester, os quais, obviamente, sequer pertenciam a ele – pois seu amigo gostava de futebol, mas nem tanto -, antes de voltar a encarar Draco Malfoy, que ainda tinha os olhos insistentemente sobre cada reação sua em relação ao jogo e à sua presença tão próxima.
— Você não torce?
— Não gosto de futebol. – A castanha claramente indignou-se, o que o fez sorrir ainda mais, bem como aproximar-se, uma das mãos alcançando a faixa futebolística que trazia no pescoço, ajeitando-a e raspando levemente sobre seu pescoço, antes de correr para seus cachos, àquela época volumosos, caindo soltos e quase desgrenhados até o meio de suas costas. – Mas gosto dos seus cabelos. E de como a cor da sua pele combina com o moletom da minha universidade.
Os olhos muito claros do homem recaíram em seus lábios e Hermione estava pronta para retrucar que não cederia a uma cantada tão barata, embora todo seu corpo tivesse reagido à forma como ele se expressara, quando o apito soou e o fim da partida mandou o Manchester à final do campeonato inglês, apesar do empate, devido ao resultado do jogo anterior. A balbúrdia da comemoração soou alta ao redor deles e uma versão de Blue Moon, a música oficial da torcida de seu time, soou alto, fazendo com que todos a acompanhassem, bêbados e empolgados.
Contudo, pela primeira vez, Hermione não se viu tão eufórica quanto o esperado, concentrada em Malfoy e em como ele parecia à vontade, mesmo estando próximo a ponto de poder sentir o perfume masculino envolvendo-a e atraindo-a, provavelmente da forma como ele queria que estivesse. Conhecia vários caras como Draco Malfoy em Cambridge — até mesmo já ouvira o sobrenome em algum lugar — mas tentava por todos os meios não se fazer de frágil perante eles. Ser uma garota em uma universidade que tinha 70% de seus discentes masculinos exigia mais.
— Se não torce, o que veio fazer aqui hoje?
— Conhecer uma garota de Cambridge!
Ele falou como se fosse óbvio, os olhos brilhando animadamente, no que Hermione não pode evitar uma risada, ainda um tanto desacreditada na facilidade com que ele estabelecia aquele contato, como se a conhecesse há mais do que os reais dez minutos em que se encontrava ao seu lado. Foi então que decidiu lhe dispensar a atenção que merecia e realmente conversar com o homem, da maneira que queria.
O flerte durara a noite toda. Ele era bom nisso e Hermione era boa em retrucá-lo, o que parecia instigá-lo cada vez mais. Descobriu que cursava Economia, último semestre. Malfoy gostava de cerveja, apesar do gosto refinado de sua família por qualquer tipo de destilado forte, detestava seu chá preferido e dissera que vê-lo de moletom era uma raridade, o que queria dizer, na verdade, que era bastante privilegiada por isso.
No meio da conversa, a pessoa que ocupava o banco ao seu lado, levantou-se, dando espaço para que ele finalmente se sentasse, agora mais afastado, justamente quando já estava quase acostumada à forma como ele a rodeava e ao perfume que parecia mais acentuado quando ele se mexia. Seus joelhos se tocavam e ele a deixava completamente à vontade, embora seus amigos bêbados já tivessem ido embora e o pub começasse a se esvaziar.
— O que pensa em fazer após se formar? – Ele levantou uma sobrancelha, examinando-a enquanto tomava mais um gole de sua cerveja. – Eu não a vejo trabalhando em um grande e pomposo escritório.
— Serei Primeira-Ministra. – Ao contrário do que esperava, Malfoy não riu, somente a encarou por alguns segundos até que ela fizesse a mesma pergunta, visto que o futuro dele batia à porta, faltando só alguns meses para que terminasse a faculdade, enquanto que Hermione ainda tinha dois anos de universidade pela frente. – Você?
— Sou filho único, então darei continuidade aos negócios da família. Minha mãe quer que me case com uma das filhas de uma de suas amigas... Há tantas que não importa qual. – Ele recitava tudo de forma tranquila e lenta, como se o álcool da cerveja começasse a fazer efeito e somente por isso ele tivesse se aproximado de forma a que lhe contasse um segredo. – Mas eu irei me casar com a futura Primeira-Ministra.
Tempos Atuais
O ruído do telefone a tirou de seu devaneio e, mesmo sem ver de quem se tratava, atendeu ao telefone imediatamente, sentindo o comum e esperado aperto no peito que sempre a alcançava quando pensava em Draco e em todos os momentos que dividiram. No entanto, a voz que soou do outro lado do telefone, em seu atual tom sério e impessoal a colocou em alerta.
— Draco, aconteceu algo?
A convivência com o homem a fez perceber que o tom vivo e brincalhão que ele usara com ela na primeira vez, no pub, se reservava a poucas pessoas. Draco não sorria muito, não se abria com ninguém – exceto sua mãe – e levava seu trabalho muito a sério, por isso era muito mais fácil encontrá-lo vestido em trajes sociais do que em um moletom surrado de faculdade.
Assim, seus dias preferidos ao lado dele facilmente se tornaram os domingos, onde o mesmo deixava de lado a formalidade e Hermione o ensinava a torcer pelo Manchester enquanto ele a convencia de que cerveja não era tão ruim quanto julgava, se soubesse apreciar de verdade. Teve que concordar, por fim, e, por muitos anos, o acompanhara em seu gosto por cerveja, mas perdeu o hábito assim que se separaram.
— Mencionei ao meu pai que tinha feito uma doação para sua campanha e ele ficou bastante interessado em conversar com você sobre. – Houve um momento de silêncio, onde Hermione estava surpresa demais para responder. – Minha família dará um jantar hoje, em comemoração aos 90 anos do meu avô e... Enfim, haverá muita gente que pode se interessar por sua causa.
— Mas... O seu pai é Conservador. Por que ele me apoiaria, ao invés de Widmore? – Perguntou em dúvida, ganhando a atenção de Harry imediatamente.
—Meu pai adora você, não é? – Hermione franziu o cenho, sem discordar. – Irei mandar o convite ao seu gabinete, não deixe de ir.
Ele desligou sem esperar por resposta e ainda estava um pouco em choque pela maneira com que veio o convite. Então, encarou o amigo, que lhe levantava uma sobrancelha em questionamento.
— Tenho um jantar para ir hoje à noite.
V.
A antiga casa de pedra avermelhada erguia-se de forma imponente ao final da estrada, rodeada de arbustos, vários de tipos de planta e grama bem cuidada. Tanto as luzes do térreo quanto do segundo andar encontravam-se acesas em esplendor e era possível ver toda a movimentação que ocorria lá dentro. O carro de Hermione estacionou perante a varanda que precedia a tradicional porta negra, que se encontrava aberta, e logo desceu do carro para o ladrilho pavimentado da escada que a levaria a entrada.
Não podia afirmar que não se encontrava nervosa. Era a primeira interação que tinha com qualquer membro da família de Draco após o divórcio, a primeira vez que ia ali após tantos anos frequentando o lugar para os almoços de domingo de Narcissa Malfoy, embora a mesma claramente somente a suportasse porque fora a escolha de seu filho. Por ela, Cisse — como a chamavam –, teria casado seu filho com Astoria Greengrass, Pansy Parkinson ou Tracey Davies, todas as garotas que faziam parte de seu círculo de amigos e que haviam crescido com o mesmo.
Seus olhos percorreram o jardim à frente, com sua fonte quadrada, jorrando água em três pisos antes de cair no maior e fazer o mesmo e eterno caminho iluminado enquanto estivesse ligada. Aquela não era a Mansão Malfoy, a grande, clássica e suntuosa casa que ficava em Wiltshire, num terreno cedido pelo rei Guilherme I a um dos antepassados de Draco como pagamento por serviços desconhecidos e possivelmente ilegais. Porém, era de uma arquitetura tão rica quanto.
Assim que adentrou o primeiro hall, seus olhos recaíram sobre o casal que se encontrava recepcionando os convidados. Lucius e Narcissa Malfoy sorriam e cumprimentavam a todos de forma amistosa, pois, se havia algo que sabiam fazer com maestria, esse algo era receber pessoas. Narcissa já não era tão jovem quanto se lembrava. É claro que, linda como sempre, o tempo não poderia se fazer tão cruel, mas já podia ver as linhas de expressão ao redor da boca e dos olhos, que aparentavam cansaço, embora soubessem ser ferinos quando queria. Exatamente como no momento em que colocou os olhos sobre a antiga nora, fez uma nota mental sobre isso, mas aproximou-se sem hesitações.
— Hermione! – Lucius se adiantara, segurando sua mão. – Draco realmente lhe mandou o convite. Por um momento duvidamos e até fizemos uma aposta sobre, mas não lembre a Black que ele ganhou.
— Duvido muito que Sirius, mesmo bêbado, se esqueceria de suas apostas. – Voltou-se a Cisse, que mantinha um sorriso ameno no rosto. – O tempo parece não ter passado, Narcissa.
— Bonito vestido, Srta. Granger.
Somente sorriu em educação para a mulher, ciente de que elogiara por nenhum outro motivo além da etiqueta. Usava um modelo que deixava seus ombros à mostra em um decote estilo princesa, marcando sua cintura por uma faixa na mesma cor púrpura e forte do tecido, que caía de forma harmônica e leve até o chão. Narcissa nunca tentara mudá-la, mas fazia frequentes comentários ácidos a respeito de seu estilo, sempre mais discreto que o da antiga sogra.
Ao contrário dela, não usava nenhum tipo de joia no pescoço ou pulsos, somente um brinco de pérolas, rodeados por uma auréola em dourado. Os cabelos encontravam-se ajeitados em cachos bagunçados e presos somente por uma presilha, que era mais um adorno do que qualquer outra coisa. Não chegavam aos ombros, cortados em um desfio desigual e jovem, diferente do coque elaborado e inseparável que sempre fizera parte da vida de Narcissa. A maquiagem, por sua vez, também era um ponto de divergência, visto que seu rosto encontrava-se somente iluminado enquanto que a maquiagem da senhora era mais marcada nos olhos e nos lábios rosados.
— Papai está em algum lugar lá dentro, provavelmente tentando olhar debaixo das saias de uma garçonete, você o conhece.
Lucius completou e Hermione não prolongou o tópico machista da conversa, pois sabia exatamente como Abraxas Malfoy agia na presença de mulheres jovens, embora lhe houvesse repetido diversas vezes que aquilo era errado. O ruído alto de conversas a inundou assim que adentrou o Salão Maior. Podia ver vários rostos conhecidos e muitos que lhe interessavam em razão de sua campanha, o que fez com que o estômago revirasse em ansiedade, pensando sobre como poderia abordá-los, afinal era para isso que servia o jantar.
— Hermione Granger! – Virou-se, já com uma taça de água à mão, para encarar a mulher de cabelos negros muito compridos, usando um vestido preto e de mangas que marcava todo o seu corpo e combinava com a maquiagem da mesma cor ao redor dos pequenos olhos verdades. Daphne Greengrass era perturbadoramente bonita, mas nunca a vira como uma ameaça. Aliás, sempre fazia exercícios internos para não encarar outras mulheres como ameaça a seus relacionamentos. – Ouvimos o burburinho de que voltaríamos a vê-la após tanto tempo, mas ninguém acreditou realmente. E aqui está você!
— É bom vê-la novamente, Daphne. – Disse após abraçá-la rapidamente. Era uma das poucas pessoas com as quais poderia conversar sem realmente medir as palavras e também a única que a ligou para perguntar se estava bem após a notícia de seu divórcio se espalhar. – Ouvi dizer que se separou de Nott.
— Aquela paixão do começo, que você mesma viu nascer, acabou.
— Sinto muito por isso. – Daphne deu de ombros, sem realmente se importar com a discrição, pois via o próprio Nott em uma conversa com Zabine do outro lado da sala.
— É claro que gostaria que tudo houvesse dado certo, mas o que se pode fazer quando as duas partes não se esforçam mais, não é mesmo? Mamãe nunca irá compreender, é claro. – Porém, logo ela abria um sorriso no rosto angular e sisudo, cumprimentando alguém que se aproximava às suas costas. – Como vai, querido?
Hermione sentiu o perfume, tão perturbador quanto a beleza de Daphne Greengrass, antes de voltar-se a figura alta, com sua palidez ainda mais destacada pelo terno negro e bem cortado, que fazia conjunto com a camisa e a gravata da mesma cor. O negro o precedia e sempre fora assim quando se tratava de Draco, embora tentasse fazer com que ele colocasse ao menos alguns conjuntos em cinza ou azul no guarda-roupa.
Ele cumprimentou Daphne com um beijo no rosto, um copo de conhaque à mão, e voltou-se a Hermione, analisando-a rapidamente de cima abaixo, embora não pudesse ter certeza da conclusão a que chegara, visto que Draco era uma pessoa diferente após tantos anos. A falta de convivência leva ao desconhecimento, supôs.
— Sirius quer falar com você. – Informou como se já a houvesse cumprimentado antes daquele momento.
Então sorriu para Daphne, a qual não se importou pela interrupção, e afastou-se ao lado de Draco, percebendo que seguiam pelo caminho que os levava ao escritório. Era agora que faria o que importava, o que a levara até aquela casa em primeiro lugar, algo que deveria se sobrepor a todas as lembranças que lhe ocorreram enquanto se arrumava para comparecer aquele jantar.
O silêncio os perseguiu, pois, por mais incrível que fosse, não sabia o que dizer e aparentemente Draco também não. Antes era muito fácil que desatasse a falar sobre qualquer coisa que pudesse; era, simplesmente, fácil demais se sentir confortável com ele. No entanto, tudo se transformara num triste e decadente pisar em ovos, que não previu, mas que deveria ser esperado.
— Você não vai ficar?
Perguntou quando o mesmo parou à porta do escritório e escondeu as mãos nos bolsos, como se sua tarefa fosse somente levá-la até ali. Draco a encarou, o cenho levemente franzido, como se se perguntasse onde Hermione queria chegar ou onde Hermione queria levá-los com aquilo, fosse a reaproximação repentina e interesseira ou a simples pergunta.
— Não tenho nenhum interesse sobre a sua eleição. – Sentiu-se repelida e precisou lutar para não recuar um passo, mantendo-se reta e tensa. – Sirius tem, meu pai tem, Abraxas tem. Não se preocupe, tem bastante gente aqui hoje muito mais interessada do que eu.
Então, ele deu meia volta e refez o caminho pelo corredor, mas sequer teve tempo de digerir o que dissera antes que a porta fosse aberta e a figura sorridente de Sirius Black a conduzisse para dentro e colocasse sua cabeça somente nos negócios. Era para isso que estava ali, não para lidar com a crueldade gratuita de Draco.
VI.
Sirius queria um acordo, estava ali para representar seus colegas da Câmara dos Lordes, afinal ele e Hermione havia sido família. Tinha a intenção de garantir que teriam uma parceria e uma linha direta dos Parlamentares com a Chefe do Governo, algo que de que não desfrutavam com o antigo Primeiro-Ministro.
Por isso, assegurou que faria o que pudesse para que tivessem boa relação, como era de se esperar. Então, começaram a discutir sobre projetos, o que fez com que os rumos da conversa se tornassem nebulosos. Hermione era uma defensora dos direitos humanos, sabidamente de esquerda, embora não fizesse parte do maior partido esquerdista, pensava que tal limitação era prejudicial ao povo, enquanto que a visão de Sirius defendia o lucro acima de tudo.
Era exatamente o que o pai de Draco gostaria de se certificar – que seus negócios não seriam atrapalhados pela ascensão dela ao cargo -, percebeu quando o mesmo adentrou o escritório e sentou-se ao seu lado, mascarando com piadas e um copo de uísque o fato de que estava ali para negócios. Redução de custos era algo pelo que Lucius vinha lutando há muito tempo, mas devido a poluição cada vez mais prejudicial nenhum governante deixava passar qualquer projeto nesse sentido para o setor da indústria automobilística.
— Vamos lá, Hermione, tem de admitir que o que mantém a economia funcionando nos dias de hoje são nossas indústrias. – Ele levantou-se, servindo-se pomposamente. – Só não exportamos mais que o setor de alimentos. Além disso, se diminuir nossos custos de produção, podemos abrir nosso capital para mais investidores e, consequentemente, injetar mais dinheiro no mercado.
— A questão é que o país faz parte de acordos internacionais que não permitem esse tipo de ação por parte do governo. – Hermione cruzou as pernas, raciocinando rápido para lidar com homens tão experientes quanto Lucius Malfoy e o falso filho pródigo Sirius Black, que com seus sorrisos e comentários indiferentes ao mundo, escondia a expertise pertencente a antiga Família Black. – Sem contar que não seria justo com os outros setores qualquer tipo de redução de impostos para essa indústria em específico. Vocês fazem parte do 1%, como ficariam os produtores rurais, as pequenas empresas?
— O século XXI é uma vadia que promete muito, faz um boquete caprichado e, na hora H, finge um orgasmo meia boca. – A voz arrastada de Abraxas Malfoy soou às suas costas e Hermione voltou-se para ver o velho, que aproximava em uma cadeira de rodas automática. – Você já fala como se morasse em Downing Street, bonitinha.
— A ideia me soa tentadora, Ab.
Junto do senhor, vieram outros que tinham a mesma intenção. Nott com sua extração de minerais, Bletchley com sua fábrica têxtil, o pai de Montague e a fábrica de pneus. Dali poderia sair uma mina de ouro, visto que todos eles tinham contatos com diversos Parlamentares da Câmara dos Lordes, os quais, segundo os mesmos, lhes deviam favores, bem como poderia ser sua ruína caso não tivesse jogo de cintura suficiente.
Por isso, a reunião seguiu-se naquele mesmo tom até concordar que, se conseguisse o cargo, faria de tudo para não deixar nenhum projeto prejudicial a eles passar, afinal não poderia ultrapassar os limites de suas ideias pessoais. Era o que queriam ouvir, afinal de contas, de uma candidata que não fazia parte da ideologia de nenhum partido, o que também a colocava mais aberta a um diálogo com todos os lados, além, é claro, de garantir que suas portas sempre estaria abertas à eles devido ao fator “família”, que os envolvia.
VII.
Hermione sentou-se ao lado de Blásio Zabine durante o jantar e não pôde evitar passar por todo o flerte pelo qual ele a submeteu enquanto tentava conversar com Rabastan Lestrange, cunhado de uma das tias de Draco. O homem de aspecto tranquilo, tão alto quanto seu ex-marido, de terno azulado, marcado por um lenço branco no bolso, possuía ascendência francesa e passava mais tempo em Portofino, Itália, desfrutando do dinheiro da família, do que qualquer outra coisa.
O Lestrange a encarava de forma despretensiosa, embora claramente tivesse algum interesse. Dissera que não acompanhava de perto a política inglesa, mas lá estava Hermione, uma candidata independente ao cargo de Primeira-Ministra, uma exceção – como dissera Ginny – e estava acostumada a aproximações com segundas intenções. Além disso, o homem obviamente era acostumado a utilizar-se de seu charme para conseguir o que queria, o que a colocava em guarda — alta para não falar besteira.
Foi assim durante toda a noite. Sua função ali era agradar aqueles homens e as poucas mulheres que tinham poder suficiente para elegê-la, apresentar-se a eles, mantê-los interessados por sua pessoa, expor suas ideias sem ofender ninguém e, principalmente, concordar sem parecer que estava cedendo tão fácil, fazê-los parecerem os mais espertos da sala, como se estivessem manipulando aquela que poderia ser – e essa possibilidade se tornava cada vez mais real – a Primeira-Ministra do Reino Unido.
Por isso, quando percebeu que Abraxas já não se encontrava à vista e que os olhos dos convidados encontravam-se moles demais, tanto quanto as falas sem a convicção anterior, e que o local esvaziava-se rapidamente, decidiu que era hora de ir embora. Lucius fora generoso com o convite, apesar de toda a intenção política que o cercava. Sabia por experiência que aquela era uma festa para poucas pessoas e, cedendo a ela um lugar à mesa, teve a oportunidade de falar com muita gente que sequer encontraria normalmente.
Havia acabado de despedir-se de Lucius, sem fazer muita questão de procurar por Narcissa, que obviamente deveria estar dedicando toda sua atenção a um grupo de senhoras, provavelmente, de sobrenomes como Parkinson, Carrow, Goyle, Crabbe, possivelmente todos eles juntos, quando Draco a abordou, já próxima ao hall de entrada, segurando seu cotovelo somente até que ela se voltasse a ele. Estranhou a aproximação repentina, visto que ele parecia abominar o que ela fora fazer ali.
— Desculpe-me por falar com você daquela forma. – Ele foi direto, como de costume, mas ainda assim a pegando desprevenida. – Sei como isso é importante para você, sempre soube. Não tenho o direito de recriminá-la por se esforçar de todas as formas... Como fiz.
— Estou feliz que reconheça isso sem precisarmos entrar em uma discussão a respeito. – O viu segurar-se para revirar os olhos, satisfeita que ao menos seu lado ranzinza continuava intacto.
— Como foi a reunião?
— Foi lindo, deveria estar lá. – Relatou a ele sobre a comparação de seu avô sobre capitalismo e prostitutas, no que ele soltou um pequeno sorriso, comentando como Abraxas era o maior falador de besteira que conheciam. – [...] e então falamos sobre charutos, uísque e todos os tipos possíveis de mulheres. Se eu estivesse de calça, certamente teriam se esquecido por completo que sou uma mulher.
— Inacreditável.
Hermione deu de ombros e mordeu os lábios, incerta sobre como prosseguir. Ele não a olhava, estava mais concentrado na pista de dança instalada no jardim, completamente iluminado por vários tipos de luzes espalhadas por todos os cantos, onde uma banda conduzia o ritmo de dança de vários casais. Era mais fácil assim, apesar de ambos continuarem pisando em ovos. Ela suspirou, decidindo que não fazia sentido continuar ali, principalmente ao sentir o costumeiro olhar ferino de Narcissa, observando-os de longe.
— Eu tenho que ir. – Anunciou, ganhando a atenção dele novamente. – Minha agenda está completamente cheia essa semana e amanhã...
Entretanto, antes que pudesse completar, o conhecido acorde soou pelo jardim. A música parara e recomeçara, mas agora mais familiar do que gostaria para aquele momento, o jazz convidativo fazendo com que fosse inundada de lembranças sobre aquela canção em específico. Era a música deles, oficialmente, apesar disso soar brega o suficiente para quase fazê-la se encolher do alto de seus 40 anos. Detestava ouvir Blue Moon, a música de seu primeiro encontro, a música que substituíra a valsa de seu casamento, a música que, por coincidência, era uma das preferidas de Abraxas Malfoy.
— Dance comigo, futura Primeira-Ministra.
Ele não pediu, pois pedir não era de seu feitio. Ele não pedira para se aproximar vinte anos atrás, apenas o fizera, da mesma forma fácil com que agarrara sua mão e a conduzira para a pista de dança à meia-luz. Seus dedos se entrelaçaram ao mesmo tempo em que uma das mãos a manteve próxima, apoiada contra suas costas, totalmente desconforme com as regras de etiqueta, mas exatamente da mesma maneira que a conduzia quando ainda eram casados.
— A versão de Sinatra ainda é a preferida de Abraxas?
Perguntou de forma baixa, evitando olhá-lo e concentrando-se nos passos. Sempre foram ótimos dançarinos juntos, não esforçar-se para acompanhá-lo não era uma novidade. A única surpresa era a facilidade com que fazia após tantos anos. Era quase surreal constatar que a habitualidade de estar com ele fizera parte de sua vida, pois, quando pensava em Draco, lembrava-se de forma quase impessoal, como se tudo tivesse acontecido com outra pessoa. Porém, naquele momento, sentindo o perfume que sempre fora seu fraco, que era uma das coisas que o mantinham como aquela figura segura, tornava-se cada vez mais difícil deixar de lado todas as emoções que sempre estiveram ali, guardadas em uma caixa bem trancada.
— Ele deve estar cantarolando sozinho em seu quarto, resmungando que os americanos precisam de algo para se vangloriar. – Ele segurou sua cintura mais forte, girando-a no ritmo da canção. – Você não pode culpá-lo quando sua banda favorita é ABBA.
— Por favor, não conte a ninguém. – Encarou-o rapidamente, vendo um pequeno sorriso brincar em seus lábios.
— Porque ABBA só tem clássicos? – Parafraseou ironicamente o argumento que Hermione sempre utilizara para defender sua preferência.
— Exatamente.
— Você está linda. – Draco disse baixo o suficiente para que, realmente, encarasse os típicos olhos cinza. Eram os mesmos, exatamente os mesmos, que a olhavam com um brilho diferente quando queria elogiá-la. – Falei sobre seu cabelo antes, mas está linda... Exatamente assim.
— Obrigada. – Ela forçou um sorriso, tirando a mão do ombro dele para ajeitar aquela mesma mecha que sempre caíra por sua testa, quase expressando que gostaria de tê-lo visto mais vezes durante os últimos anos, pois assim não precisaria ter se desacostumado à beleza dele. – Você também está ótimo.
Eles continuaram no mesmo ritmo leve, embora seu coração estivesse se acalmando à medida que tornava-se cada vez mais familiarizada com a presença do outro. Draco não a deixava nervosa, desde a primeira vez. Não entendia muito bem a dinâmica que os envolvia, mas se sentia cada vez mais confortável e sabia que tal feito devia-se somente a ele. Cada vez mais, para Hermione, o silêncio deixava de ser um inimigo.
— Sinto falta de nós dois.
A voz dele, dessa vez, saíra em um sussurro, quebrando-a por dentro, fazendo com que apertasse os dedos contra os dele, a mão tão confortável e familiar quanto o jeito com que ele a tocava. Abaixou a cabeça, apertando os lábios e prendendo a respiração para evitar que qualquer lágrima esperada escorresse por seu rosto, murmurando tão baixo quanto ele uma resposta que não poderia ser diferente.
— Eu também.
Draco somente suspirou e ambos continuaram, agora mais lentamente, somente sentindo a presença um do outro depois de tanto tempo. Amenos e quietos, calmos como há muito haviam deixado de ser, torcendo para que a música demorasse mais alguns acordes antes que tivesse de se despedir. Mas não houve prolongamento e logo a banda encerrava aquela apresentação, levando-os a se afastarem relutantemente, com Hermione apertando a carteira entre as mãos enquanto o loiro pigarreava e enfiava as suas no bolso, somente para ter algo que fazer com elas.
— Boa sorte com a eleição.
VIII.
Seis anos antes
Enquanto subia as escadas, não ouvia o ruído de seus saltos. Segurando as sandálias em uma das mãos e a pequena e brilhante carteira na outra, andava lentamente, sentindo a textura do piso escuro de madeira envernizada. Um de seus prazeres secretos da vida era chegar a casa, tirar os saltos e sentir os pés diretamente contra o chão, não importasse a temperatura. Quando não tinha de trabalhar, não usava calçado algum. Também era uma forma de lembrar a si mesma a vida simples de onde ela saíra, onde brincava na rua com todas as crianças filhas dos vizinhos de seus pais.
Ocupava o cargo de Secretária de Governo do Estado, um dos mais importantes do país e que, certamente, lhe abrira muitas portas, além da função de deputada, fazendo seu nome conhecido nos nichos certos, assim como nas notícias – nem sempre boas. O jantar com os Secretários do Governo correra conforme o planejado. Mascarava com uma confraternização de fim de ano o fato de que o Primeiro-Ministro para o qual trabalhava estava conversando e testando quem mereceria mais verbas no ano seguinte, quem estava alinhado com sua maneira de pensar.
O vestido rosa claríssimo deixava parte de suas costas à mostra, mas não tinha nenhum decote recortado no tecido nobre que se ajustava bonitamente a seu corpo. O cabelo fora arranjado apenas do lado esquerdo, caindo pelos ombros, longos e cacheados, exatamente do jeito que Draco gostava. Mas ele não estava mais ali para reconhecer isso como sempre fizera, o que causava certa estranheza e fazia com seu peito se ardesse.
A separação física ainda era recente. Estar naquela casa fazia com que todas as lembranças que dividira com ele viessem à tona. Moravam ali desde que se casaram, três anos após namorarem. Era uma construção luxuosa e tradicional, que ocupava três andares em Lancaster Gate, Westminster, e tinha a vantagem de ser um bairro rodeado por área verde, além de ser relativamente próximo de seu trabalho. A concentração de vizinhos milionários também fora um diferencial quando Draco decidira comprar a propriedade.
No entanto, agora só restava ela e o luxo exagerado que fazia tudo ficar maior e mais solitário do que já era quando somente ambos ocupavam o lugar, pois quando concordaram em “dar um tempo” ele saíra imediatamente da casa, deixando-a apenas para Hermione. Assim que adentrou o quarto, que tomava boa parte do último andar, simplesmente descartou os sapatos e a bolsa, mais mal humorada do que de costume, e enfiou-se embaixo do edredom após abrir o zíper do vestido e desfazer-se dele também.
De maneira alguma queria que as coisas acabassem daquele jeito. Era triste e decadente, mesmo porque não era o plano inicial. Ele os mudara, por um motivo qualquer, e agora os papéis que oficializavam o divórcio estavam jogados na mesinha de centro próxima a lareira. Fazia sentido, ponderou tentando manter a calma que precedia o momento que sabia ser iminente, pois Draco fora embora há meses e eles não haviam se falado realmente desde então. Ligava para perguntar como ele estava, mas havia muita mágoa para que o assunto se estendesse e Hermione não sabia mais o que dizer.
Verificando uma última vez o celular sobre o criado-mudo logo abaixo do alto abajur, percebeu o brilho do objeto em seu dedo anelar esquerdo. Seu anel de noivado era de ouro dourado, rodeado por brilhantes e com uma pequena pedra de diamante no centro. Usava junto da aliança, da mesma espessura, que veio depois de somente cinco meses planejando uma cerimônia intimista e para poucas pessoas. Foi uma das raras coisas que Narcissa concordou que tivesse controle, pois alegara que uma festa com muitos convidados poderia desagradar aqueles que não haviam entrado na seleta lista por motivos diversos.
Dessa vez, não reprimiu as lágrimas, pois antes o cheiro dele ainda se encontrava nas roupas do closet, no travesseiro bem ao seu lado, assim como os objetos pessoais no banheiro. Agora, tantos meses depois, não havia quase nenhuma recordação de que ali foi onde ele morara nos últimos dez anos. Onde eles moravam, aliás, pois a decoração continha traços das personalidades de ambos. Nem isso, no entanto, poderia ser considerado consolador. Assim, decidida, jogou os cobertores de lado e, de lingerie como estava, sentou-se no sofá para ler cuidadosamente o contrato de divórcio que ignorara por vários dias.
Não haviam feito um contrato nupcial, o que foi considerado descuido por parte da família de Draco. Estavam apaixonados demais, ele confiava nela cegamente, ela o estava manipulando, disseram. Enxergara como uma afronta, obviamente. Não estava interessada no dinheiro dele e, ainda que sua família não tivesse um império de bens como o deles (sendo seu pai um banqueiro e sua mãe, consultora financeira), Hermione sempre fora independente demais para ser uma “caça-dotes” — Cisse adorava falar sobre elas. Por isso, riscou do contrato todas as vantagens colocadas de bom grado por Draco e abdicou de qualquer coisa que precisassem dividir, como a casa.
Assinando no fim, exatamente onde estava indicado, descartou a caneta e voltou para a cama, agora ciente de que aquele era o ponto final. Então, retirou a aliança e o anel, guardando-os de qualquer forma junto com outras parafernálias na gaveta do criado-mudo, e apagando a luz do abajur. As lágrimas escorreram por mais algum tempo, mas a sua mente só chegava a última conversa de verdade que tiveram, o que a fazia questionar o motivo de terem chegado àquele ponto.
Meses Antes
Hermione havia percorrido aquele mesmo caminho, sozinha. Escadas acima, sandálias à mão, vestido de festa. Desfizera-se de tudo isso, retirara a maquiagem, acomodara-se na cama, tentara se distrair com um livro qualquer que não falava sobre política. Porém, sua cabeça girava e seu peito apertava. Sabia o que viria a seguir e não estava satisfeita, pois nunca imaginara que seu casamento com Draco pudesse chegar àquele ponto.
Sempre fora uma mulher decidida, aquela que não hesitava quando certa de seu objetivo, mas vinha hesitando e procrastinando há mais de dois meses. Colocara de lado sua convicção, o fato de que não estava mais feliz, que haviam se distanciado como nunca, que estavam praticamente se ignorando dentro da própria casa, usando como desculpa para tanto seus respectivos trabalhos e a falta de tempo para mascarar o fato de que sequer iam aos mesmos lugares.
Aquela noite fora uma exceção, pois Hermione confirmara há semanas a presença de ambos no aniversário de um dos representantes da Câmara dos Lordes, Mr. Alter. Era importante estabelecer conexões, mesmo em uma festa, afinal todos estavam lá com segundas intenções. Não se falava de trabalho, é claro, mas se passava a conhecer mais pessoas e Draco sabia como, no meio em que ela se atuava, esse era um detalhe essencial. Porém, assim que decidiram ir embora, ele informara que Sirius o esperava em sua casa para uma rodada de pôquer, onde cada um tomou seu caminho.
Três horas depois, lá estava ela, sozinha em seu quarto iluminado pela meia-luz do abajur, ainda com os olhos pregados no livro, embora já não lesse mais nada. Ouvira o ruído no andar de baixo, o que indicava que ele chegara junto com o motorista e, provavelmente, não se encontrava sóbrio, visto que as visitas a seu primo precediam o álcool, embora Draco fosse bastante controlado nesse sentido. Enquanto o esperava subir as escadas espirais de forma arrastada, sentia a tensão tomar todo o seu corpo. Quando ele, finalmente, entrou no quarto, contudo, pareceu surpreso por encontrá-la ainda acordada.
— Você demorou.
— Há dias em que Sirius não aceita perder, você o conhece. – Ele revirou os olhos, retirando o terno e indo em direção ao closet.
— Hoje é dia 05. – O ouviu meramente concordar de longe, sentindo o coração apertar ainda mais enquanto fechava o livro e o colocava no criado-mudo. Esperou que ele voltasse, já de calça e camiseta. – É 05 de Abril, Draco.
Ele estacou no meio do caminho para a cama, parecendo alarmado, mas não muito surpreso, como se estivesse calculando em sua mente para confirmar que aquele era mesmo o dia do aniversário de dez anos de casamento deles e que havia esquecido, o que nunca acontecera durante aquele tempo.
—Eu... Eu me esqueci. – Constatou simplesmente, parecendo pasmado consigo mesmo.
— Eu sei. – O observou sentar-se a seu lado da cama, lentamente, tão pensativo quanto Hermione se encontrava, provavelmente tentando descobrir como lidar com aquilo.
— Porque não me falou? – O silêncio prolongou-se, pois não era somente obrigação dela lembrar-se, mas ele insistiu. – Antes de ir para Sirius, poderia ter me lembrado. Eu poderia ter vindo para casa, para ficarmos juntos.
— Não queria estar aqui, Draco. Se quisesse, você estaria e não precisaria da desculpa do aniversário. – Hermione manteve seu tom calmo. – Acho que devíamos dar um tempo.
— Está brincado, não é? – Ele colocou-se pé, finalmente encarando-a, a incredulidade estampando seu rosto, embora a cada segundo percebesse que estava realmente falando sério. – Hermione, nós não damos tempo, somos casados!
— Mas não sabemos como continuar casados. Nem levamos mais uma vida de casal. – O cortou pensativamente. – Francamente, foi ao aniversário hoje porque sua presença havia sido confirmada semanas antes. Do contrário, eu sequer o colocaria na lista. Você comparece a vários eventos da empresa sem mim. Nenhum de nós, realmente, precisa um do outro para continuar, Draco.
Ele abriu a boca para retrucar, obviamente muito surpreso com a passividade de Hermione, lidando com tudo aquilo com aparente calma. Por isso, quase o agradeceu quando, em meio a um suspiro, ele sentou-se do jeito que estava antes, de costas para ela, as mãos apoiadas no joelho, digerindo muito lentamente seu ponto de vista.
— Está... Está apaixonada por outra pessoa? – Draco perguntou em tom baixo.
— Eu amo você, Draco. – Ela engasgou, enxugando rapidamente uma lágrima. – Só... Não sei se irei continuar amando se não mudarmos.
O viu acenar positivamente com a cabeça e ainda demoraram alguns segundos para que se levantasse e voltasse a ela. Suas feições ainda se encontravam um pouco perdidas e, com um olhar a Hermione, percebeu que ela se encontrava chorando e desviou rapidamente, pois nunca havia sido bom com emoções, tanto suas quanto as alheias. Ele sempre esperava que ela se recuperasse e, então, se aproximava novamente. Draco era, tipicamente, ação, mas parecia anestesiado quando se pronunciou pela última vez antes de sair do quarto.
— Eu irei dormir num hotel a partir de amanhã.
IX.
— Esse lugar não mudou nada.
Comentou quando o sino soou anunciando sua presença e seus olhos percorram o Hilda Mug. As banquetas estavam no mesmo local, assim como as mesas conjugadas próximas à parede, com poltronas de estofado verde escuro. As paredes de madeira, tanto quanto todo o resto, envernizadas e bonitas, eram cobertas por fotos de ex-estudantes de Oxford. Tinha certeza, porém, de que se procurasse com atenção encontraria alguma dela com Harry, Ginny, talvez até mesmo com Draco.
Quem a esperava também não mudara. Ele se encontrava em uma das mesas mais afastadas da porta, onde ninguém pudesse atrapalhá-los com qualquer indiscrição que agora a perseguia. Duvidava muito, no entanto, que qualquer repórter a estivesse seguindo àquela hora da madrugada. Provavelmente, cada um teria presumido que sua jornada diária terminara quando chegara ao Macdonald Randolph Hotel, onde estava hospedada para cumprir com seus compromissos na cidade. De qualquer forma, nenhum compromisso às 02h30min AM poderia ser considerado oficial. Ainda mais naquele lugar, cheio de história, e justamente com aquela pessoa.
— Você está diferente.
Ele lhe percorreu os olhos dos pés a cabeça, quase impressionado por encontrá-la tão despojada, após praticamente todos os dias vê-la em roupas sociais e saltos altos. Desde que se tornara Primeira-Ministra, era o que sua jornada de trabalho e encontros com estadistas exigia de manhã até a noite, às vezes sem intervalos. A urgência de alguns compromissos tornaria seus dias quase estafantes, se não gostasse tanto da função que desempenhava. Porém, não resistia a tênis, calça jeans, moletom e cabelos soltos úmidos, sem maquiagem alguma. Olhando-se no espelho mais cedo, percebera que aquela forma de se vestir a deixava até mesmo mais jovem.
— Só estou cansada. – Mas não no sentido ruim e ele sabia, pois era possível ver pelo sorriso que habitava seus lábios quando sentara à sua frente. Draco a conhecia até mesmo quando não precisava dizer nada. – Desculpe o atraso.
— Como sabia que eu estava na cidade? – Ele perguntou após dispensar as desculpas.
— Encontrei Ab e Lucius no almoço com os empresários hoje. – O observou segurar um revirar de olhos, pois é claro que eles tentariam reaproximá-los agora que ela era Primeira-Ministra. Estar no topo nunca deixara de importar aos Malfoy. – Não se preocupe, eles só disseram que um telefonema bastava para você desmarcar todos os outros compromissos.
— Isso, é claro, porque estamos falando da Primeira-Ministra. – Ela mordeu os lábios, percebendo a ironia e a forma como, aos poucos, restabeleciam o contato há muito perdido. No entanto, viu como as feições descontraídas do homem mudaram para algo mais sério enquanto a analisava. – Estou orgulhoso de você, Hermione.
Hermione escondeu um sorriso, pois estava acostumada a ouvir e ler sobre sua genialidade, sua popularidade entre os ingleses, que também fizeram pressão nos deputados para escolherem-na como Primeira-Ministra, mas aquilo vindo de Draco era mais forte e perceptivelmente sincero, pois ele a tocava – e isso fora assim desde o início – de uma maneira diferente. Receber seu elogio, seu orgulho, a fazia constatar que tudo tinha realmente valido a pena.
— Você disse que se casaria com a futura Primeira-Ministra, não? – Só então percebeu que o barman aproximou-se com duas grandes taças de cerveja. – Eu queria agradecê-lo. Pela confiança que teve em mim quando... Pedi seu apoio. Se eu tivesse perdido, teria jogado todo aquele dinheiro fora.
— Por favor, nós sabíamos que ia vencer. – Abriu a boca para contestar, porque era óbvio que não era a maior aposta. Hermione se lançara como uma candidata independente e unir os partidos da Câmara dos Comuns para chegarem a um consenso nunca fora tarefa fácil. No fim das contas, Conservadores e Trabalhistas constataram que não conseguiriam maioria para indicar alguém e preferiram elegê-la a ter um Parlamento Suspenso devido a um Governo de Minoria. No entanto, ele a impediu, levantando uma das mãos sobre a mesa. – Hermione, sinto que lhe devia. Você mereceu aquele dinheiro.
— O que quer dizer?
— Nós construímos muita coisa juntos. – Ela franziu o cenho, remexendo-se incomodada, os dedos distraidamente enrolando-se no cordão comprido do capuz de seu moletom cinza. – Havia muito naquele contrato que era, realmente, seu. A casa era só uma parcela disso tudo. Devia ter ficado com ela, ao menos.
— Não queria ficar com a casa sem que você estivesse também. – Confessou em tom baixo, revirando os olhos e olhando em direção ao balcão, onde não havia mais a presença do barman. É claro que seus seguranças haviam dado um jeito que ele fosse embora, sem levantar qualquer alarde sobre o que ocorria ali. – Nunca mais conversamos sobre nós, não é?
Draco simplesmente se fora de vez e Hermione não o procurara para contestá-lo. Suas atitudes eram recados suficientes para ambos os lados da corda bamba em que passaram a viver. Estavam em momentos muito diferentes de suas vidas profissionais, o casamento já não batia com o que queriam, não tinham tempo, nem vontade o suficiente para se esforçar e tentar encontrar um resquício da paixão antes de antes e salvar todos aqueles anos de casamento. Eles apenas se deixaram ir.
— Eu não sabia o que você queria, além daquele tempo. – Draco pensou por um momento antes de continuar, pesando cada palavra. Não o encarava, quase não respirava, porque reviver aquilo era tão triste quanto havia sido à época. – Hoje... Entendo que a ideia era que pensássemos sobre e chegássemos juntos a alguma conclusão. Mas, por causa daquilo, eu não via nenhuma solução além do divórcio.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Eu sei. Sei como se sentia sobre “dar um tempo”. – Mordeu os lábios, engolindo em seco, os olhos molhados pelas lágrimas não caídas. – Estávamos ocupados demais buscando o que queríamos. Não havia espaço para mais ninguém, não é?
— Por muito tempo, durante a época mais importante da minha vida, você foi a coisa mais constante dela. E então estava deixando de ser por que... – Ele abriu as mãos, admitindo. – Realmente, não estávamos fazendo a coisa funcionar.
Diferente do Draco de sete anos antes, ele falava sobre isso de forma muito simples. Após quebrar a barreira do tempo, que os colocava a milhas de distância um do outro, falar sobre o passado, sobre o término e o divórcio não era mais um pesadelo ou um tabu, apesar de ainda ser difícil e dolorido. Seus olhos, então, recaíram sobre a caneca de cerveja à sua frente, que molhava o porta-copos enquanto esquentava. Limpou parte do suor, que escorria do lado de fora e voltou a olhá-lo.
— Não voltei a tomar cerveja. – Ele meneou a cabeça.
— Nunca mais vi jogos do Manchester.
O silêncio os embalou por muito tempo enquanto degustava novamente um gole da bebida, que não consumia há mais de sete anos, enquanto que ele simplesmente encostara a cabeça no estofado do banco e passara a observá-la fixamente com seus olhos cinza, ainda mais claros pelo pequeno abajur com tapume esverdeado que se encontrava no centro da mesa e que era praticamente a única iluminação do ambiente.
— Acho que nunca mais tive domingos como aqueles.
Hermione sabia a que ele estava se referindo e, por um momento, mesmo que já não fosse mais uma menina, permitiu-se corar. Não eram somente jogos e cervejas, passavam quase o dia todo na cama. Era o dia deles. O viu sorrir, talvez pela primeira vez desde que voltara a vê-lo nas últimas semanas, aquele sorriso jovial que se abrira somente para ela exatamente ali, vinte anos antes, tão deliciado quanto àquela época por suas respostas, pela língua afiada, pelo quase puritanismo (que ela chamava de “mínimo senso de decência”), por ser uma intrusa naquele pub.
— Você encontrou alguém?
Questionou quase nervosamente, no que ele levantou-se calmamente e revirou os olhos, bufando como se ela falasse apenas besteiras e sentasse logo ao seu lado, totalmente voltado para ela, encarando-a de tão perto que era possível ver seus poros e sentir sua respiração cadenciada. Ele a concedeu seu tempo, distraidamente remexendo os dedos e pensando, tentando digerir o que estava acontecendo ali ao mesmo tempo em que tentava ignorar quão enlouquecedor sempre fora o perfume dele e os dedos... Os dedos que ajeitavam seu cabelo atrás da orelha, desciam pelo pescoço e subiam de volta percorrendo a linha da mandíbula.
— Não poderia haver ninguém além de você.
Draco confessou seriamente, talvez seu ponto mais sério naquela madrugada. Ao longe ouviu os sinos que indicavam a virada de hora começando a soar em uma igreja qualquer. 03h00 AM. Seus olhos encontraram os dele, aqueles mesmos e familiares olhos, que sempre a levaram conforto e segurança. Foi ela quem deu o primeiro passo, aproximando-se lentamente para que seus lábios se encontrassem depois de tanto tempo. Seus queixos encaixaram-se, como sempre havia sido; assim como a curva grossa que seu lábio inferior fazia ao encontrar o dele, fino, nobre e deliciosamente molhado. No entanto, antes que pudesse aprofundar o hesitante selinho, afastou-se levemente.
— Draco, já percorremos esse caminho.
Em um suspiro, ele apoiou a cabeça contra a sua, por muito tempo o silêncio a recolhendo em dúvidas sobre o que aquilo significava. Estavam ali, no mesmo local onde tudo começou, mas vinte anos depois e tudo era muito diferente. Agora tinham uma história, uma bagagem que os possibilitava conhecer todos os defeitos do outro – assim como as qualidades. Ao contrário do início, onde se deixaram levar sem medir as consequências porque se apaixonara de tal forma que as coisas apenas fluíram da maneira que deviam. Ter de medir cada passo seu, e principalmente esse, no entanto, a agoniava. Estar ali, a alta madrugada, às escondidas, a contrariava ao extremo. Esse, talvez, fosse o pior efeito colateral de um trabalho como seu: às vezes, não podia se deixar levar; às vezes, não podia ser somente Hermione Granger.
— E quero refazê-lo. – Ele teimou, como era de seu costume desde sempre, os lábios voltando a percorrer sua pele, descendo por sua bochecha até beijá-la de novo. – Iremos refazê-lo quantas vezes forem necessárias, você sabe. Não há nenhum motivo para não fazermos isso.
— Mas... – Apertou os olhos, quase batendo em si mesma por estar interrompendo um momento que poderia ser único. Afinal, não sabia o que seria deles no dia seguinte. – Faz sete anos.
— Exatamente. Há sete anos não a beijo, então... Beije-me direito, garota de Cambridge.
Lá estava o sorriso novamente. Lá estava os olhos cinza desviados para seus lábios, malicioso como sempre fora a respeito de sua boca e de seus cabelos cacheados. Tanto quanto na primeira noite, o desafio estava posto, mas dessa vez o beijo fora de saudade, as línguas entrelaçando-se com conhecimento, lentamente, do jeito que sabiam que o outro gostava. Sentia os dedos dele em sua nuca, inevitavelmente desfrutando do arrepio gostoso que tomava sua coluna, e percebia o sorriso se formando contra sua boca, mesmo em meio ao beijo.
Continuava não sabendo o que seria deles no dia seguinte, quando amanhecesse, e precisassem lidar com suas personalidades difíceis e resolver os problemas trazidos pela vida – os mesmos problemas que os levaram ao iminente divórcio. Porém, senti-lo sorrir contra ela, por ela, com ela e para ela a fazia querer descobrir, visto que a situação era completamente nova para ambos. Pois ninguém a beijava daquela forma, ou a deixava de pernas bambas somente por seu orgulho manifesto, ou a fazia se sentir novamente como a garota de vinte anos, que há muito deixara de ser.
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