— Aposto que você era uma líder de torcida no seu tempo no ensino médio – Theo diz.

Reviro os olhos.

— Eu não era líder de torcida, eca, Theo. – Digo – Além do mais, eu já tinha missões naquela época, além de treinamento. Não tinha tempo para pensar em coisas como líderes de torcida.

— Ah, verdade, você era a garota prodígio que tinha missões com 15 anos – Ele diz.

Reviro os olhos novamente.

— Você é tão idiota. – Digo, Theo finge estar ofendido – Todos nós tínhamos missões nessa idade. E, não é minha culpa se você teve que fazer o ensino médio todo.

Agora é a vez dele revirando os olhos. Nós só estamos falando disso por conta da nova missão que está no ar, a Missão em Vermelho. Eu, Theo e Markita somos os principais candidatos a ela, nós três somos os mais jovens já formados e aqueles que passariam bem por alunos do ensino médio.

Theo é meu melhor amigo, nos conhecemos no treinamento, eu tinha 8 anos e ele, 9, mas mesmo assim nos tornamos amigos. Agora, dez anos se passaram e ainda somos eu e Theodore.

Markita é uma garota alta e esbelta, tem cabelos loiros e olhos azuis, bem mais russa que eu e Theo juntos. Ela fez treinamento conosco e a considero uma vaca, Theodore não compartilha essa opinião comigo, provavelmente porque eles tem umas atividades extracurriculares juntos, algumas pessoas preferem utilizar palavras menos sutis para defini-los, talvez amantes seja um bom adjetivo.

— Alguém viu Leena? – A voz de Czar interrompe meus devaneios, saio de trás da mureta onde estava conversando com Theo, ele vem atrás.

— Estou aqui. – Digo.

Os olhos de Czar circulam de mim para Theo, ele deve estar tendo alguns pensamentos incoerentes. Todos da Vila acham que eu e meu amigo somos algo a mais, não adianta falar que não, eles nunca entendem.

— Lee, exatamente quem eu estava procurando. – Czar diz – Você vai ficar com a missão. Passe no meu escritório daqui a uma hora para pegar todos os detalhes. Parabés, Leena. Você merece.

Ele vai embora do refeitório e deixa todos do ambiente me encarando. A missão vem sendo um evento importante. As acusações são graves e todos queriam saber quem ficaria com ela.

Me viro para Theo. Ele sorri, quase como se a missão fosse dele.

— Estou tão orgulhoso de você, Lee.

Rio.

—Obrigada, papai. – Digo provocando-o.

— Não, sério. Essa missão é muito importante, você mereceu.

— É acho que sim – Digo – Só estou meio nervosa, ir para o ensino médio, de novo.

— Posso te ensinar alguns truques.

— Cala a boca, T. – Rio – Você não sabe nada sobre isso.

— Sei mais que você. – Ele diz – Pelo menos eu não me formei com 16 anos.

É verdade, eu me formei no colégio com 16 anos, pulei alguns anos, eu era esperta e a escola tomava muito tempo, claro que Czar mexeu uns pauzinhos para isso acontecer.

— Theo, acho que vou aprender sozinha.

Ele revira os olho. O ouço resmungando alguma coisa como 'mau agradecida'.

Rio.

— Vou sentir sua falta, Lee. – Theo diz.

A missão durará entre 4 e 6 meses.

— Eu também vou, T.

Volto para meu dormitório depois de falar com meu amigo. Quero arrumar as malas antecipadamente, ainda não sei muitos detalhes da missão, nem sei direito para onde irei, dizem que é na Flórida.

Sento na cama e olho meu quarto, três das qutro paredes são brancas e a outra é preta, pintada com tinta de quadro negro, ou seja, dá para escrever e desenhar nela. Vou até a parede de quadro negro, pego um giz e escrevo:

Missão em Vermelho. Duração 4 a 6 meses. Objetivo: Espionar e descobrir se enventuais acusações de traíção são verdadeiras. Encarregada: Leena Renzik.

Sublinho meu nome diversas vezes, tentando me fazer acreditar. Não que eu estivesse tão abismada assim, sabia que tinha uma grande chance de eu ser a encarregada, mas é que ir novamente ao ensino médio me parece uma ideia ruim. Eu gosto mais das missões diretas, aquelas em que as acusações já foram confirmadas, que falta apenas a execução, nessa parte sou muito boa. Saio de perto da parede e vou até o armário, separo algumas peças de roupas que quero levar e sento na cama, fico girando o anel de rubi em meu polegar. Todos os formados no treinamento ganham um desses, é um juramento de fidelidade a Companhia.

Sento no chão e me estico para pegar a caixa. É um baú simples de madeira. Levanto e ando até a cadeira, pego a chave de onde a escondi. Volto para o baú, giro a chave e o abro. As admiro em um primeiro momento, minhas armas, tão mortais quanto doenças, mas mais dolorosas. Facas, armas de fogo, seringas, tudo que você pode imaginar, fico imaginando o que precisarei para essa missão, espero que não seja uma morte muito sangrenta, já passei dessa fase, agora, procuro coisas mais práticas.

Separo minha faca preferida e algumas seringas com veneno, pego uma pistola também. Coloco tudo em uma mala e fecho.

Saio do dormitório e tranco a porta. Caminho sem pressa pelos corredores até a sala de Czar. Bato duas vezes e uma voz rouca me manda entrar.

– Leena? – ele questiona – Feche a porta, por favor.

Entro e fecho a porta, faço uma reverência desajeitada e me sento em uma cadeira.

— Você foi escolhida para a missão em vermelho por conta de sua disciplina e habilidades. É uma missão muito importante, esse é um aliado muito importante e se confirmada a traição... Bom, se for confirmada, conversaremos depois.

Dava para ver pelo modo com que ele falava que esse era um aliado importante, alguém com que Czar se importava.

Esperei ele continuar.

— Você vai para Filadélfia, na Pensilvania. Eu sei que os boatos diziam que era na Flórida, mas boatos são boatos. Você ficará na casa de dois colaboradores, Mona e Alek Antonier, e já está matriculada na escola. Aqui está sua identidade. – Ele me passa uma carteirinha – Seu nome será Lilian Phersine e seus pais morreram em um acidente de carro em sua cidade natal, na Carolina do Norte, você teve que se mudar para a casa de seus tios, Mona e Alek.

Ele me passa duas fotos.

— Esses são Richard e Thomas Cummins, pai e filho. Você deverá extrair informações sobre Richard, suas divisões de vendas, funcionários e tudo mais. Por isso te matriculamos na mesma escola de Thomas, será mais fácil. – Ele faz uma pausa procurando sinais de que eu estou com alguma dúvida, não estou — Você parte amanhã, às nove. Arrume uma mala para 10 meses, esse é o tempo máximo da Missão. Boa sorte, Leena.

Saio da sala e volto para o dormitório. Me sento no chão contra a porta. Boa sorte, Leena.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.