Local: Portão principal de Konoha | Final da estadia de Gaara na Vila da Folha.

O dia amanhecia devagar, como quem ainda não queria existir. Uma névoa tênue escorria pelas montanhas que cercavam Konoha, enquanto os primeiros raios dourados espiavam por entre os telhados, tingindo de cobre as telhas molhadas pelo orvalho da madrugada.

Akari estava lá, encostada de leve na estrutura de madeira reforçada do portão. A bandana pendurada no pescoço, a postura relaxada, mas o olhar... o olhar entregava o caos.

Ela não sabia por que tinha acordado cedo. Mentira. Sabia. Tinha sido automática — como quando a gente sente que algo vai embora e o corpo tenta chegar antes pra impedir.

Gaara estava a poucos passos de partir. Seu manto esvoaçava com o vento matinal, a cabaça pesada nas costas como uma extensão inevitável do seu ser. Ele parecia calmo. Mas havia algo nos olhos... um leve atraso no piscar, um olhar que voltava sempre pra ela, mesmo quando tentava focar no horizonte.

— Então... — Akari tentou. Mas a frase morreu na garganta. Que se dizia, afinal? “Boa viagem”? “Volta logo”? “Não sumir seria legal”?

Gaara parou a dois passos dela. O silêncio entre os dois era um tipo de linguagem à parte. Nem sempre precisava de som pra significar.

— Obrigado, Akari — ele disse, voz baixa. Mas firme. — Por mais do que você imagina.

Ela sentiu a pele arrepiar. O nome dito assim, sem pressa, com aquele tom de quase ternura, mexia com alguma coisa nela que era difícil de nomear.

— Volta com calma, Kazekage — respondeu, erguendo uma sobrancelha, num esforço de manter o tom leve. — Suna sobrevive sem você uns dois dias, mas não testa a sorte, não.

Gaara soltou um quase sorriso. Quase. O tipo de sorriso que não chega a tocar os lábios, mas transforma os olhos.

Ele virou-se para partir. Cada passo dele parecia pesado, como se as solas resistissem ao chão.

Akari ficou parada. Assistindo a figura dele diminuir na estrada de terra batida.

Os ANBUs de escolta estavam ali, claro, mas ela só via um.

E então veio o pensamento.

"Se eu fosse impulsiva como meu pai... teria corrido atrás. Teria puxado o manto dele, dito alguma idiotice que talvez soasse como poesia, e teria beijado aquela cara séria só pra ver se ele enrubescia."

Mas não era.

Era Akari. Médica. Séria. Calculista. Controlada.

Exceto quando ele estava por perto.

Suspirou. O vento frio cortou o momento e trouxe com ele o cheiro de areia distante. Um lembrete silencioso de que ele era de outro lugar. Outro clima. Outra lógica.

E mesmo assim…

Mesmo assim, algo nela se revirava sempre que ele estava por perto. Algo primitivo e doce. Como se o coração, há muito tempo anestesiado, estivesse começando a cutucar de novo. Devagar. Cauteloso. Mas insistente.

Voltou andando devagar para dentro da vila. Ainda era cedo, e a maioria dos moradores dormia. As ruas estavam vazias, como se Konoha inteira tivesse parado um segundo pra dar espaço ao que ela sentia. Ou talvez fosse só ela imaginando. A mente preenche onde o peito dói.

Passou pela floricultura dos Yamanaka.

Entrou no hospital.

Sentou na mesa da sala dos médicos e abriu um prontuário.

Mas ao invés de olhar os números do último relatório de chakra pós-cirurgia, se pegou rabiscando o símbolo de Suna no canto do papel.

E riu. Baixo.

— Ridícula — murmurou pra si mesma.

Mas o riso foi sincero.

Porque no meio do cansaço, do estresse, da responsabilidade absurda que era viver numa aldeia ninja em reconstrução... ele tinha sido uma pausa.

Uma brisa morna no meio do caos.

Um Kage.

Mas naquele tempo curto em que se deixaram acontecer... quase um abrigo.

E Akari sabia:

Ele ia voltar.

O protocolo ia exigir. A aliança também.

Mas mesmo que não exigisse...

Ele voltaria.

E dessa vez, ela estaria pronta.

Ou fingiria muito bem que estava.