Local: Vila Oculta da Areia | Residência do Kazekage

O calor de Suna era diferente. Não era apenas uma questão de temperatura — era uma presença. Uma entidade silenciosa que abraçava os ossos, arranhava a pele e fazia o tempo parecer mais lento. Quase cruel.

Gaara entrou nos próprios aposentos como quem atravessa um portal para uma versão alternativa da sua vida: uma vida onde Akari não estava, onde o som das folhas ao vento havia sido substituído pela dança abafada da areia no ar.

Fechou a porta atrás de si.

Lentamente.

O quarto estava como sempre.

Impecável.

Estéril.

Inacreditavelmente vazio.

A cabaça foi colocada no suporte no canto. O manto, dobrado com precisão sobre a poltrona de linho cru. A pequena mesa de chá estava intocada, com a chaleira de cerâmica verde-musgo que Temari havia lhe dado meses atrás ainda no mesmo lugar.

Mas havia algo fora do lugar.

Ou melhor — faltando.

Ele se aproximou da janela. Dali via boa parte da vila. As dunas ao fundo tremulavam sob o calor ondulante, e os telhados de argila refletiam o sol como espelhos distorcidos.

Gaara apoiou uma mão na moldura da janela e fechou os olhos.

"Ela teria odiado isso. Essa luz... esse ar seco... esse silêncio."Mas depois sorriu."Ou teria fingido que odiava, só pra me provocar."

O pensamento surgiu como um sussurro. E ele não teve forças pra combatê-lo.

Porque era verdade.

Porque ela era isso — uma presença que se infiltrava devagar, que não pedia licença, mas também não destruía. Apenas... ocupava.

Havia areia nos sapatos, mas Akari nos pensamentos.

Do outro lado da sala, o assistente do Kazekage bateu levemente na porta e entrou com uma prancheta.

— Senhor, os documentos sobre o novo tratado médico com Konoha estão prontos para revisão. E o Conselho quer sua presença na reunião sobre o projeto de intercâmbio de...

— Adie. — A voz de Gaara saiu firme, porém baixa.

O assistente congelou.

— Com todo respeito... adiar a reunião do Conselho?

Gaara voltou-se devagar. O olhar calmo, mas com a firmeza de quem poderia mover a areia inteira da vila se fosse contrariado.

— Eles podem começar sem mim. Eu reviso os papéis mais tarde.

O jovem assentiu e saiu, claramente desconcertado.

Gaara ficou mais um momento ali, olhando para o horizonte como se esperasse ver Konoha surgindo entre as dunas.

Ele caminhou até a poltrona. Sentou-se devagar.

Algo escorregou do bolso do manto dobrado. Um papel. Dobrado duas vezes, com bordas amassadas.

Ele arqueou uma sobrancelha. Pegou o papel.

Abriu.

Era um bilhete. Rápido, simples, escrito com letra firme e ligeiramente inclinada.

_“Suna tem areia demais. Devia vir com filtro solar e um kit de primeiros socorros emocional. Mas... Você faz o calor parecer suportável.— A.”_

Gaara respirou fundo.

Quase um riso silencioso escapou.

"Ela me deixou um bilhete. No meu casaco.""Como se eu fosse um alvo fácil. Como se eu fosse... alguém a ser lembrado assim."

Mas ali, sozinho, sem olhos curiosos por perto, ele permitiu-se sorrir de verdade. Um sorriso leve, pequeno... mas real.

A areia pode até apagar pegadas — mas não apaga presença.

E ali, entre os grãos infinitos e os documentos urgentes, Akari ainda estava.

Nos pensamentos.

No bolso do casaco.

E, cada vez mais, em algum canto da alma que ele fingia não ter espaço pra isso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.