Missão Neve Mortal
4 O milagre de natal
O sol da manhã da véspera de Natal não trouxe calor, apenas uma luz pálida e sem graça que iluminou um mundo ainda gélido. Kiba acordou encostado na parede, seu corpo dolorido e sua alma exausta. A esperança havia se esvaído durante a noite, deixando para trás um vazio resignado.
Pensou no momento mágico que foi ouvir um sim. E aqueceu-se um pouco com a lembrança do primeiro beijo. A fogueirinha se extinguiu, mas sair ferido durante a noite estava fora de cogitação. Apenas tirou o casaco e usou para cobrir o namorado, fingindo não sentir frio como se aquilo pudesse convencer seu corpo.
Uma de suas conquistas foi enfeitar a casa dos Aburame com luzinhas de natal. E uma árvore cheia de bolinhas coloridas. Aquele Clã não tinha tal tradição, ao contrário dos Inuzuka. O próximo passo seria fazer biscoitos na véspera do natal, assistir os fogos no centro da vila e fazer uma bela ceia. O primeiro natal como um casal! Se a guerra permitisse.
Mas a guerra era cruel. Tinha o toque apodrecido que matava a tudo que tocava. E parecia ter tocado o futuro daqueles dois.
A passagem do dia foi fria e longa. Por diversos momentos Kiba perdeu a consciência e delirou de febre, pensamentos confusos e sem sentido que traziam imagens do natal maravilhoso que planejava ter com Shino, misturadas com cenas da infância ao lado do querido ninken e momentos do ataque sofrido na fronteira que patrulhavam. Conquanto fizesse parte do Clã Inuzuka, conhecidos não apenas pela afinidade com cães, mas por características simbióticas com esses animais: eram leais, amigos, sobreviventes natos. Ou talvez fosse apenas a força de vontade do rapaz, de quem se agarra à vida com unhas e dentes. À própria vida e à vida de pessoas amadas. Era o que fazia Kiba vencer esses intervalos febris e voltar a realidade excruciante em que a dor nas costelas lhe dava náuseas. Realidade em que a situação de Shino era nada confortante.
Foi então que ele ouviu, ao cair da tarde.
Não era o vento. Não era um galho quebrando. Era um som ritmado, ofegante, o som de patas correndo pesadamente na neve fofa. Um som que ele conhecia melhor do que o próprio batimento cardíaco.
O corpo reagiu antes de sua mente. Ele se levantou num pulo, o coração disparando contra as costelas que reagiram muito mal. A dor foi insana, o jogou de joelhos no chão, tremendo de leve.
Precisou de alguns segundos para recuperar o fôlego e encontrar a própria voz. Apesar disso, arrastou-se até a entrada da pequena caverna, a esperança sendo o impulso mais poderoso que jamais existiu. Não apenas para salvar a si mesmo, mas principalmente pelo jovem inconsciente ao fundo, a quem amava tanto que escolheu não se salvar caso significasse abandoná-lo ferido à solidão.
— Akamaru?! — seu grito foi um misto de esperança renovada e terror agonizante.
E então, ele viu. Surgindo entre os pinheiros, ofegante, com o pelo branco sujo de lama e neve, os olhos cansados mas brilhando com uma determinação familiar, vinha Akamaru. Visivelmente exausto, mas vivo.

— AKAMARU! — Kiba gritou, caido de joelhos na neve na entrada da caverna, a mão segurando o lado direito do peito, como se pudesse amenizar a dor.
Mas o milagre não parou por aí. Enquanto ele enterrava o rosto no pelo frio e molhado do cão, soluçando de alívio, mais figuras emergiram da floresta. Atrás de Akamaru, movendo-se com a velocidade e o propósito de uma ninja médica em missão, vinha Haruno Sakura, seu cabelo como um estandarte de esperança contra o branco, seguida por dois outros médicos de Konoha com uma maca e mais três ninjas por segurança.
— KIBA! SHINO! — a voz de Sakura ecoou, cheia de uma urgência profissional e um alívio palpável.
Kiba não conseguia falar. Ele apenas segurou Akamaru, suas lágrimas quentes derretendo a neve no pelo do cão. Ele tinha voltado. Ele tinha realmente voltado, não apenas para a segurança de casa como tanto desejou. Mas voltou ao perigo e à insegurança do campo de batalha. Trazendo consigo a salvação.
Sakura não perdeu tempo. Ela se ajoelhou ao lado de Shino, as mãos já envolvidas no verde curativo de sua técnica médica:
— A perna está feia, mas eu consigo lidar com isso. A febre é o maior problema agora — ela aplicou analgésicos e, com um cuidado meticuloso, começou a estabilizar o ferimento, os ossos se realinhando sob o brilho de seu jutsu.
— Ele... ele vai ficar bem? — Kiba perguntou, a voz ainda trêmula.
— Vai ficar bem — Sakura afirmou, sorrindo enquanto trabalhava — Graças ao Akamaru. Ele chegou à vila ontem à noite, quase desmaiando de exaustão nos portões principais. Ele não parou de latir e puxar a minha roupa até que o Shikamaru entendesse. Ele foi um mensageiro, Cara de Cachorro. O seu herói.
Não comentou como foi difícil achá-los, os rastros perdidos na neve, até mesmo o olfato apurado do ninken encontrou obstáculos. Só com a força de vontade e grande obstinação Akamaru os guiou ao local certo.
Kiba olhou para o parceiro canino, que agora se deitava ao seu lado, ofegante mas com a cauda batendo fracamente no chão. O orgulho e o amor que ele sentiu naquele momento foram tão avassaladores que quase o sufocaram.
— Obrigado, amigão!
— Terminando aqui já cuido de você — Sakura decretou — Seu chakra está oscilando, tem um ferimento grave. Não é mortal, mas temos que dar um jeito nele!
Kiba não respondeu, abraçado ao ninken. Apenas concordou com um gesto de cabeça, saboreando a sensação maravilhosa enquanto assistia o namorado sendo cuidado.
***
Enquanto eram preparados para a viagem de volta, Shino, já consciente e com a dor amenizada, virou a cabeça na maca improvisada. O rosto, ainda pálido, estava sereno. Kiba permanecia ao lado, segurando com cuidado na mão de dedos longos, já quentinha e mais firme.
— Ele é um membro notável da matilha — sussurrou, um genuíno tom de carinho e reconhecimento dourando as palavras.
Kiba sorriu largo, uma expressão cansada, mas sincera. Ele olhou para o céu noturno que começava a se revelar entre as nuvens dispersas. As primeiras estrelas cintilavam, frias e distantes, mas para Kiba, o mundo nunca pareceu tão cheio de calor.
— Feliz Natal, Shino. Eu amo você pra um caralho — era a primeira vez que dizia aquilo, sempre sentindo-se envergonhado das palavras. E percebeu que poderia ter perdido o namorado sem que ele tivesse ouvido tais palavras. “Gosto de você” era fácil e confortável de dizer. Conquanto o sentimento que nutria era muito mais profundo e enraizado do que isso. Não era meramente um gostar. Era um amar.
Shino merecia saber disso.
A vida era tênue. E Kiba jurou que nunca mais deixaria coisas importantes pendentes. Diria a todos que amava, o quanto os amava. Viviam uma guerra que lhe ensinou a lição. Cada nova manhã era uma dádiva de valor inestimável. Não desperdiçaria um segundinho sequer.
Shino fechou os olhos, sua respiração finalmente tranquila:
— Feliz Natal, Kiba. Eu também amo você — o sentimento era real: natal significa bênçãos. Estarem vivos era a maior de todas elas.
E sob o sol pálido da manhã de inverno, a matilha, finalmente completa, começou sua jornada para casa.
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