Misguided Angel
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Ela estava num corredor totalmente escuro, movia-se tateando a parede. Para falar a verdade, uma de suas mãos tocava a parede, enquanto ela corria cada vez mais em direção a escuridão. Por um longo tempo correu, até que seu corpo não agüentar mais aquele ritmo. Escorou-se na parede, arfando cansada. Anna levou as costas da mão à testa, para secar seu suor e quando foi abaixá-la, notou algo estranho. Levou as mãos ao seu cabelo e o percorreu com os dedos. Algo de errado, ele estava longo demais para ser o dela. Preso numa trança, ele alcançava metade de suas costas. Mas antes de poder analisar mais claramente o que estava acontecendo, escutou um longo grito. E dessa vez, sentiu um medo real. O mais real que tinha sentido até então. O grito era de desespero, um lamento que não parava. Anna levou as mãos aos ouvidos, mas foi inútil. E aquele grito gelava seu sangue e acelerava sua pulsação. E ela voltou a correr, e corria na direção do grito.
Dessa vez, enquanto corria, pensou. A última coisa que se lembrava? Terminar com o namorado e voltar para seu apartamento. Logo, aquilo só podia ser um sonho. Ou um pesadelo, ao que parecia. Mas fazia anos que tinha sonhos tão realistas, em que ela podia realmente sentir dor e cansaço. Talvez os pais estivessem certos afinal, talvez alguém realmente estivesse à espreita. Mas isso não importava no momento, só tinha que chegar na origem do grito. E estava cada vez mais perto. E estava cada vez mais difícil prosseguir.
Com a mão na parede notou a mudança do local, o corredor se alargava, talvez se abrindo numa câmara. Mas Anna não conseguia enxergar. E sabia que quem gritava estava ali, ao lado dela. E o motivo estava bem diante dos seus olhos, mas ela não conseguia ver. Forçou a visão, enquanto caminhava passo a passo para cada vez mais perto do grito. Sentiu algo molhado pingar em seu ombro, tocou o liquido e o cheirou, sangue. Sangue escorria pelos seus ouvidos. Mas ela continuou caminhando e forçando seus olhos. E, de repente, a escuridão abriu-se para ela, revelando tudo que escondia. Mas eram coisas demais para que ela captasse de uma vez só, seus olhos fixaram-se na direção do grito. Olhos vermelhos a encaravam, antes que pudesse fazer ou falar algo, sentiu-se atingida por uma energia tão forte que a arremessou contra uma parede.
- Saia daqui!
Acordou em sua cama. Olhos alertas, a boca cerrada com força para não gritar. Estava sozinha e agradecia por isso. Mas mesmo assim, recusou-se a chorar. Esfregando os olhos, irritada com as lágrimas que queriam escapar. Contou até quarenta e três, mentalmente, até conseguir se acalmar o suficiente para olhar o relógio. Ainda era cedo demais. E não conseguiria voltar a dormir e, definitivamente, não queria ficar sozinha em casa. Raciocinou que o sonho deveria ter começado assim que começara a dormir, algo meio impossível, mas quem era ela para questionar.
Anna enfiou-se numa roupa qualquer e saiu de seu apartamento apressada, quase fugindo. Pegou um táxi para um dos bares distante de seu campus. Não queria encontrar ninguém conhecido.
Ele só a notou por causa do seu cheiro. Não que não fosse bonita, mas não chamava absurdamente a atenção ali. Ainda mais com aquelas roupas que estava usando, mas seu cheiro poderia ser a explicação do porque ela estar tão desarrumada. Ele farejava medo. E um medo muito forte, para falar a verdade. Ficou seguindo-a com o olhar. Ela pediu uma bebida e sentou-se num canto isolada, perturbada demais para notar alguma pessoa ao seu redor. James conjeturava, acertadamente, por sinal, que ela só estava ali em busca de um lugar cheio. Como estava entediado, resolveu aproximar-se dela. Ah, no que a curiosidade nos mete.
Ele aproximou-se num silêncio total, levantando a mão para tocá-la no braço e chamar sua atenção. Por mais que ela estivesse amedrontada, ele não conseguiu se conter e se aproximar desse jeito. Mas antes que ele pudesse tocar nela, Anna já havia virado metade do seu corpo na cadeira e segurava o braço dele, olhando-o com desconfiança. James piscou os olhos, surpreso, ela não deveria ter notado sua aproximação.
- O que quer? – Ela o soltou e ele ainda a encarava meio pasmo. E então aquela pergunta, num tom tão frio.
- Eu só... – Não, não, estava tudo errado! Não deveria se sentir encurralado por alguém que fedia a medo. Recuperou sua autoconfiança num piscar de olhos. – Queria me apresentar. – Abriu um largo sorriso brilhante e estendeu sua grande mão calorosa e convidativa. – Meu nome é James.
Se fosse outra pessoa, ela teria esnobado prontamente. Mas apesar do jeito furtivo, ele passava uma certa segurança. Talvez porque ele realmente parecesse caloroso, com sua juba ruiva e olhos verdes brilhantes. Ela apertou a mão dele e seu aperto era firme, embora suave. Mas ela não facilitaria, não tinha ido ali atrás de contato humano, por melhor que ele parecesse ser. – Anna.
- Isso já é um começo. – Seu sorriso alargou-se e ele pediu para o barman, com alguns gestos, uma dose para ele do que ela estivesse bebendo.
— E o fim também. – Respondeu, irritada por ele se sentar ao seu lado.
- Ah, não seja assim, não quer companhia nessa noite?
- Não. – Sua resposta foi fria, monossilábica e decidida. Realmente, não sairia nada dali com aquela abordagem. Então, James decidiu ser direto.
- Você está com medo demais para ficar aqui sozinha. – Os olhos dela não se arregalaram de surpresa, mas estreitaram-se furiosos.
- O que você quer? E é melhor responder dessa vez.
- Se não...? – Ele sorriu e sorveu um gole de sua bebida. – Eu só gosto de damas em perigo, nada de mais.
- Eu não estou em perigo. E não sou uma dama. Portanto, tchau. – Deixou uma nota sobre a bebida e levantou-separa sair, mas ele não desistiria tão fácil. Segurou o braço dela, sendo mais rápido, porque viu que ela desviaria.
- Anna, Anna. Não estou te afugentando. Você está com medo e isso é um fato. E eu passo segurança e isso também é um fato. – Deu de ombros. – Eu não quero nada demais. Apenas te achei interessante. – E era verdade, ela havia notado sua aproximação, isso o intrigava. – Então, vamos conversar. Isso não vai te fazer mal nenhum.
Ele a viu suspirar e soube que tinha ganhado. Anna voltou a sentar e o olhou nos olhos.
- Ok, ok. James, não é? – Ele concordou com a cabeça. – Vamos conversar.
E até que o resto da noite foi agradável. Eles ficaram conversando sobre nada especifico, apenas uma conversa de jovens natural. James não tentava seduzi-la ou perguntar o que não deveria. Isso logo a fez deixar para lá o sonho e seu medo sumiu como tinha aparecido. E ele se surpreendeu mais uma vez, ao notar que o cheiro de medo se esvaia rapidamente. E, então, o cheiro verdadeiro dela o atingiu como um soco no estômago, capaz de desestabilizá-lo por segundos suficientes para que ela notasse que tinha algo de errado com ele.
- Ei! Está tudo bem? O que aconteceu? — O tom de Anna era preocupado, ela se debruçou para tocá-lo no braço. Mais do que tudo, ele queria se desviar daquele toque, mas manteve-se firme.
- Nada, nada. Eu só notei a hora e percebi que estou muito atrasado! – Deu um sorriso de desculpas. – Me desculpe, Anna. – Ele parecia realmente chateado. – Seria pedir demais o número do seu telefone?
- Não, não. – Anna disse seu numero e ele anotou em seu celular. Despediu-se dela com outro firme aperto de mão. Ao sair do bar, literalmente correu até um lugar escuro e vazio qualquer. Aquele cheiro era poderoso demais! Afinal de contas, quem era ela? Quando o farejou, após o medo ter se esvaído, seu sangue correu quente, ansiando por algo que ele não podia fazer ali. Por outro lado, o que ela temia devia ser algo realmente terrível, por ter abafado um cheiro tão poderoso como o dela.
Anna não tinha mais o que fazer ali e também saiu do bar, decidida a ir para casa. Não notou o enorme lobo que a seguia pelas sombras. Era estranho ele se esconder tão bem, já que seu tamanho era descomunal e seu pêlo era de um castanho-avermelhado, mas as sombras pareciam se mover para cobri-lo. O lobo, que na verdade era a forma metamorfoseada de James, a seguia, mas não representava perigo algum para Anna. Não, ele não queria machucá-la. A ânsia que havia sentido era de transformação. E, agora, o que o movia era curiosidade. E, enquanto fazia isso, agradecia seu olfato. E agradecia mais ainda o fato de apenas ele e alguns membros do seu pequeno clã, espalhados pelo mundo, terem um olfato tão bom. Seria um perigo se todos pudessem captar o cheiro dela, principalmente se um vampiro o fizesse. E, então, estremeceu com a verdade óbvia. Se ela estava com tanto medo assim, só podia ter um vampiro nobre por trás disso...
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