Misfits troublemakers

5 Capítulo 5 — A fenda


Aquela era Kyara Harbeck e seu senso incomum de heroísmo. Não que fizesse por mal, era um instinto protetor natural, mas as vezes sua imprevisibilidade a metia em mais encrencas do que necessário. Aquilo foi tão abrupto que o grupo não reagiu de imediato, apenas observaram a asteca mais nova prestes a entrar em combate e sem hesitar, saltar sobre o grandalhão do meio, agarrando em seu pescoço e o puxando para baixo, lançando-o ao chão no impulso. Rolou para o lado e se colocou de pé rapidamente, rosnando enquanto ameaçava o trio com as próprias garras. Aquilo fez a poeira levantar, formando uma nuvem ao redor. Era impressionante, ela não deveria ter pouco mais que 1,56 de altura, mas demonstrava bastante força e precisão em seus movimentos, além de uma coragem admirável. Aquela era Kyara Harbeck e seu senso incomum de heroismo, acreditava em atos de bravura.

O homem da direita se abaixou para ajudar o amigo a se levantar, este que já se encontrava na forma glabro, onde os pelos são mais presentes além de um nariz largo, caninos e garras, que combinadas com sua força, são capazes de dilacerar qualquer coisa. Nada tão bonito quanto em Teen Wolf, parecia uma aberração e de fato, era.

— Uou, uou, vai com calma... Só queremos conversar. — Comentou o da esquerda, erguendo as mãos em rendição, impressionado. Ele tinha o rosto deformado por uma cicatriz que cortava transversalmente de seu nariz até a bochecha.

— Vão embora! — Disse-lhes a mais nova, estava em posição de ataque apesar de sua forma humana ser mais frágil e esguia. — AGORA! — E rosnou alto, potente, ainda impedindo que se aproximassem muito.

— Você sabe o que acontece se não vir com a gente, ômega — E deu um passo à frente. — Nós vam...

O homem foi interrompido apenas pelas presenças que se aproximavam, eram Joshua e Daren. Kyara notou com os cantos dos olhos que Sofie permanecia segurando Andy mais afastada, tentando acalmar a garota que esbravejava “ Me deixa ir lá! Me deixa ir, eu vou agora! Vou acabar com eles!”, o que chegava a ser cômico por seu tom infantilmente indignado. Os lobisomens que restaram aos poucos foram transmutando para a forma Glabro, contorcendo seus corpos entre grunhidos de fúria, prontos para atacar e menos dispostos ao tal diálogo.

— HEY! — Joshua sorriu. — Por que não brincam com alguém do seu tamanho?

— Usem seus poderes, vão! — Ordenou Daren sem esperar a resposta, sua voz alta e grave parecia surtir efeito tão rápido quanto a adrenalina que corria em suas veias, a aura se expandia, dando-lhes motivo para batalharem com mais vigor.

E naquele instante, uma poderosa e sagaz... Pedra tamanho de uma bola de ping-pong foi lançada contra a testa do grandalhão do meio. Um filete mínimo de sangue escorreu, embora aquilo só serviu para deixá-lo ainda mais irritado, bufando o ar pelas narinas.

— Sério isso, Joshua? — Daren o encarou, indignado.

— O quê? É o Grand Canyon! Não posso fazer nada, se fizer talvez soterre todos nós, é perigoso!

— Hm, Kyara?

— Nem vem. — A mais nova franziu o cenho, sem desviar o olhar do trio.

— Essa é a hora em que você usa seus poderes e...

— Não tenho poderes.

Daren arregalou os olhos, parecia prestes a agarrar o pescoço da menor ou ter um surto psicótico.

— E VOCÊ FALA ISSO AGORA!?

— Cala a boca...

— Que tipo de semideusa é você que não tem poderes?

— Cala a boca. — Rolou os olhos.

— Mas você deveri...

— Cale a boca!

— Péssima hora pra ser inútil. — Resmungou com desprezo.

— Ah, vai se ferrar. — Kyara socou o ombro do maior.

Ela era impressionante. Apesar de não parecer, era forte suficiente para fazer Daren dar um passo atrás, levando a mão ao ombro e exclamando um "Ai!" surpreso. Por sorte, a pequena discussão distraiu e refreou o trio de lobisomens, deixando-os confusos suficiente para ganharem alguns segundos a mais, embora nada do que fizessem pudesse evitar aquele confronto. Joshua especificamente não queria escapar, tampouco Kyara. E foi assim que a dupla investiu na primeira abertura.

Joshua pulou por sobre uma das rochas. No entanto, ao pousar já não era mais um humano comum, grunhia, rangia e se contorcia, esbanjando sua forma glabro de presas afiadas, olhos amarelos vívidos e pelos negros espalhados pelo rosto. O Inca avançou contra o do meio como um quarterback, afundando as garras em seu peito, rasgando a camisa e abrindo três entalhes de 10 centímentros, fazendo o inimigo rugir. Joshua não parou, desferia repetições contra o abdômen, intercalando entre as duas mãos na horizontal, o sangue espirrava em sua pele morena. Somente Kyara parecia incapaz de realizar tal transformação, mas investiu como podia, se agarrando à coxa do beta da direita, que utilizava as garras para tentar rasgar seu pescoço na horizontal, mas ela era esguia e esperta, passou por baixo de suas pernas, girando o corpo em uma finta para levantar e chutou a base de sua coluna. Ele caiu de joelhos, a mais nova abraçou seu pescoço por trás, tentando encaixar um mata leão. Infelizmente foi jogada para frente, batendo as costas no chão com força, gemendo de dor e acabou imobilizada pelo maior, que prendeu seus pulsos. A batalha era intensa, havia sobrado um lobisomen e este cometeu um erro grave: Atacou Daren, que por sua vez estendeu o poderoso punho no exato instante em que ia ser atingido. O impulso, se somado à força do semideus, fez com que o soco no maxilar ricocheteasse e quebrasse ao meio o pescoço do beta como se dobra um canudinho.

O estalo chamou a atenção da audição sensível dos comparsas. Todos se voltaram para Daren.

Aquele momento de distração foi perfeito para Joshua e Kyara, que estavam em maus lençóis naqueles segundos. O inca agarrou o braço do beta que estava segurando seu pescoço, girando-o e puxando para trás até deslocar seu ombro, ouvindo o urro de dor seguido de um longo grito desesperado. Havia o empurrado do precipício. Já a semideusa aproveitou para inverter as posições na qual se encontravam, soltando os pulsos e rolando para o lado até sentar no abdômen do beta. Ali descontou toda sua raiva e frustração, socava o rosto desfigurado com força diversas vezes, repetidamente sem cansar. O sangue manchava os nós de seus dedos e mesmo após os olhos se fecharem, continuou socando e rosnando. Só parou forçadamente quando Joshua a puxou, passando os braços em torno de seu corpo para conter aquela explosão.

— ME SOLTA! ME LARGA! — Se debatia, tentando avançar contra o corpo inerte no chão.

— Já chega! Kyara, acabou! — Joshua a arrastava para longe, lutando para segurar a mais nova agora que havia voltado à forma humana. — PARE!

Daren chutou os corpos caídos ao chão, um por um, somente para verificar se estavam mortos. Finalmente Sofie e Andy se aproximaram, Joshua ainda segurava Kyara, que bufava e estava vermelha de tanta raiva, fazendo as veias pulsarem. A loirinha parecia preocupada, segurou o rosto da asteca mais nova com ambas as mãos, fazendo-a olhar em seus olhos cinzentos e tempestuosos. Respirou fundo, tentando acalmá-la.

— Olha pra mim... Tá tudo bem, Ky. — Andy sussurrou, acariciando a bochecha da semideusa com o polegar. Esboçou um sorriso meigo.— Já passou. O que aconteceu, aconteceu. Nós temos que ir...

— Nós... — Kyara fechou os olhos. Permaneceu assim por longos segundos antes de assentir, umedecendo os lábios. —... Tudo bem. Desculpe. Eu só...

— Eu sei. — Sofie se interpôs, encolhendo os ombros. — Não importa agora, só não queremos que se machuque.

— Vem... — Aos poucos Joshua foi afrouxando o aperto na semideusa, deslizando o braço por seu ombro, deixando um beijo no topo de sua cabeça. —... Vamos pra casa.

O moreno abriu os braços, as garotas se aproximaram e todos se abraçaram, fechando o cerco entre os quatro. Daren era o único observador, analisava o grupo com seu habitual ar superior, sem compreender quão bela era aquela amizade. Mal sabia o grandalhão que ali descobriria como era ter um coração, afinal, era impossível não se cativar por aqueles encrenqueiros. Durante o trajeto de volta para a toca, não falavam muito. Já no metrô, Andy usava a manga do moletom para limpar cada gota de sangue que manchava o rosto de Joshua vez ou outra, enquanto Sofie fazia o mesmo por Kyara. Pareciam tão imersos em seus próprios pensamentos que encaravam um ponto fixo distante, intercalando os cochilos entre eles. Quando finalmente pararam na Wall Street Station 45, desceram.

Exaustos demais para se importarem em levantar suspeitas ou não, adentraram no banheiro, um por um em fileira. Kyara era a última e pôde vislumbrar pelo canto dos olhos uma figura largada no chão, metros à frente. Era uma garota, parecia estar ferida mas não teve tempo de reagir ou se aproximar, os xingamentos indignados e interjeições surpresas que vinham de dentro desviaram seu foco, havia algo errado.

A fenda havia se fechado.

Notas finais
É isso, pessoal! Deixe seus comentários, favorite e acompanhe, isso ajuda bastante. Até o próximo capítulo.