Misfits troublemakers

9 Capítulo 9 — Isso não é um plano!


O sinal tocou.

E então a ilusão acabou, as rachaduras se fecharam, a névoa se dissipou e as luzes tremeluziram até acender por completo. Quando os alunos saíram do transe, pareciam confusos sem entender o que havia acontecido, mas bastou os olhos se focarem na cena à frente para os queixos caírem: Gaspar, Emilly, Kyara e Andy ao redor do corpo inerte do professor. “Ele está morto!” Alguém gritou. “Não! Eles mataram...” Completou outro, logo o burburinho foi crescendo e tomando proporção, os semideuses ficaram agitados. Nervosamente Emilly se afastou do cadáver e se colocou de pé. Exclamações pasmas a acompanharam.

— Não! Não é o que estão pensando. — Gesticulou, abanando freneticamente as mãos. — Nós nunca...

A porta se abriu bruscamente, dela irradiaram Sofie e Joshua.

— NÓS VIEM...— Joshua calou no instante em que os olhos pousaram no corpo do professor. — Eita.

— Só acho... — Sofie murmurou, cutucando Joshua.—... Que chegamos meio tarde.

— Ah você jura? — O moreno ironizou, dado um tapinha na mão da mais velha.

— PESSOAL! — Kyara interveio, se levantando. — Por favor, não é hora. Parecem duas crianças e... Pelos Deuses, como eu senti falta disso. — A morena se lançou nos braços de ambos, agarrando-os com força. — Temos de ir embora. — Sussurrou. — Eu vou ver se está tudo limpo, tirem os outros daqui. Nos encontramos no estacionamento.

Se soltou do abraço dos mais velhos e saiu correndo por entre a multidão de alunos proveniente da troca de horário. Misturou-se até sumir de vista.

— Então eu vou... ANDY! — Joshua entrou na sala, arregalando os olhos. — Solta esse giz, pelo amor de Inti! — Só então o Inca notou que os alunos ainda não haviam saído, na realidade, os encaravam com um misto entre horror e surpresa. Alguns falavam ao telefone com a polícia. — Érr, quer dizer...

— VAMOS EMBORA DAQUI! — Sofie escancarou a porta, deixando espaço para passarem.

Joshua puxou Emilly e Andy pelos pulsos, arrastando-as para fora enquanto esta última puxava Gaspar pela gola, o levando junto. Eles tropeçaram pelo corredor, entre esbarros e empurrões conseguiam abrir caminho em meio aos outros alunos, que vez ou outra lançavam algum xingamento. Desceram dois lances de escadas correndo, desesperados pelo som da sirene até encontrar a porta dos fundos, abrindo bruscamente na afobação. Os carros da polícia estavam estacionados alguns metros à frente, mas não havia sinal dos policiais.

Também pudera, Kyara estava no centro do estacionamento vazio, sentada sobre uma pilha de corpos fardados. Apoiava o queixo na parte menor do taco, enquanto a mais larga afundava em uma pequena poça de sangue. Ergueu os olhos, soprando uma mecha de seu rosto.

— Vocês demoram muito. — Murmurou, entediada.

— O QUE VOCÊ FEZ? — Joshua levou ambas as mãos aos fios negros, alisando-os para trás, incrédulo.

— Ela cuidou dos caras maus! YAY! — Andy pulou animada, batendo palmas entre risadinhas. Policiais em sua visão eram os caras maus, principalmente porque eles geralmente a levam de volta para o internato quando foge.

— Isso foi incrível.... E assustador. Eu não me decidi ainda. — Sofie prendeu o lábio inferior entre os dentes, erguendo as sobrancelhas. — Aliás, quem é esse aqui? — Ela puxou Gaspar pela camisa, apoiando ambas as mãos nos ombros do rapaz.

— Boa pergunta. — Kyara saltou da pilha com uma expressão intrigada, arrastando o bastão pelo chão e deixando uma trilha avermelhada. — Quem é você?

O ruivo se soltou de Sofie, puxando a jaqueta contra o corpo timidamente, unindo as mãos. Apesar de não demonstrar, estava assustado por tudo que havia acontecido momentos antes e mais ainda, pelo cerco de desconhecidos potencialmente perigosos.

— Gaspar Ulliel. — Respondeu em tom baixo. Todos tiveram que se aproximar caso quisessem ouvir o resto. — Eu sou um romano desertor. Filho de Justitia.

— Justitia? — Sofie semicerrou os olhos.

— Um romano? — Andy tombou a cabeça, confusa.

— Desertor? — Emilly pela primeira vez falou.

— Significa que ele é filho da Deusa da Justiça e dualidade — Kyara explicou, ainda o analisando de baixo à cima. — E desertor, hm. Ele recusou treinamento militar junto a outros semideuses romanos, é como se ele tivesse... Negado suas origens, então não pode mais fazer parte. Chamem de exilado, eu chamo de Ômega. — Ela deu de ombros e se afastou.

— Não parece muito seguro... — Comentou Sofie, olhando o restante do grupo.

— Tem razão! — Andy exclamou — Você vem com a gente?

— Pra onde? — O ruivinho semicerrou os olhos, se afastando alguns passos.

Todos se voltaram para Kyara, em busca da resposta que ninguém mais sabia dar. A menina deu de ombros, lançando um olhar de canto à Joshua e ambos assentiram.

— Não existe mais lugar seguro, pessoal. — A asteca mais nova começou. — A fenda já era. Três meses atrás éramos dois, hoje somos seis. Amanhã, só os Deuses sabem quantos mais vão aparecer! Os sonhos estão constantes, coisas estranhas estão acontecendo, Deuses e monstros nos perseguem... E vocês, — Ela se voltou para Andy e Gaspar — ouviram o que Ah-Puch disse. Estamos sendo observados e precisamos entender o motivo, precisamos de respostas.

— E é por isso... Que eu sugeri procurar uma Huaca. — Joshua interveio. — Eu pesquisei sobre os Incas, entre eles era muito comum os lugares sagrados. Não propriamente sagrados porque algo aconteceu lá, mas porque próprio lugar é uma espécie de Deus. Podem ser cavernas, montanhas, lagos ou árvores... Kyara e eu descobrimos uma na Dakota do Norte, há alguns quilômetros da nossa tribo.

— Joshua é o único Inca, pode tentar se comunicar com a Huaca em busca de conselho ou proteção. — Kyara deu de ombros. — O que vier primeiro é lucro.

— Então... Nós vamos viajar?! — Andy arregalou os olhos, abrindo um sorriso largo e feliz.

— Hã, eu não chamaria de viagem mas...

— YEAH! Vamos viajar, vamos viajar... — A loirinha não conseguia se conter. — Vai ser tão legal! Você vem, Gaspar? — Ao dizer aquilo, cutucou Kyara com o cotovelo.

Mas o ruivo não notou, estava encarando uma moeda prata na palma de sua mão, a mesma que as garotas haviam visto mais cedo. Ele estava em silêncio, respirou fundo e a jogou para cima, fazendo a moeda girar algumas vezes no ar, como se estivesse em câmera lenta e enfim caiu de volta em sua palma. Cara. Ulliel ergueu o olhar e assentiu, guardando a moeda no bolso novamente.

— Sim. Vamos... Estão atrás de nós agora, mais policiais devem chegar. E temos muito o que explicar.

[...]

Durante todo o trajeto, Andy e Kyara contaram com o máximo de detalhes possíveis tudo o que aconteceu no encontro com o Deus Maia, deixando Sofie, Joshua e até mesmo Emilly surpresos, esta última que teve de complementar a história contando sobre como recebeu os dons de se transformar em víbora. Gaspar acabou ouvindo as apresentações rápidas de cada um com atenção, sentindo-se deslocado por ser o único pertencente a um panteão completamente divergente, mas até que estava começando a gostar daquelas pessoas. Combinaram que Sofie buscaria Daren e ambos iriam de moto para o hotel escolhido na beira da estrada, enquanto o restante encheria o carro de Joshua com mantimentos para a viagem. Eles não tinham realmente um plano, apenas intenções as quais se agarrar e muita lábia para tapear o que mais ousasse aparecer em seu caminho. Eles já provaram serem mais que capazes.

Logo que se acomodaram no hotel — o mais isolado possível — dividiram dois quartos entre meninos e meninas, afinal já era noite. Não era um hotel cinco estrelas, mas ao menos cabia todos em um só quarto enquanto discutiam quais seriam os próximos passos. Usavam apenas as roupas do corpo, não tinham tempo e nem paciência para se preocuparem com aquilo no momento.

— Então todos concordam, uh? Amanhã bem cedinho partiremos para a Dakota do Norte. — Kyara murmurou, escorada na parede. — Devemos cruzar o país.

— A gente pode parar no parque de diversões? — Sofie perguntou após levantar a mão. Todos olharam pra ela com um cara óbvia — O que? É uma boa ideia, eu nunca fui em um. — Deu de ombros.

— É, isso é verdade... — Andy soltou uma risadinha. —... É mesmo uma boa ideia.

— Não é?! A gente pode ir da roda gigante... — Sofie lançou um olhar um tanto suspeito à Daren, era quase como se o convidasse silenciosamente.

— SIM! Eu nunca fui na roda gigante! — Galilahi bateu mais palminhas animadas. Pobre Andy, viraria vela.

— Definitivamente não vamos na roda gigante, é uma coisa chata que gira devagar e te deixa entediado. — Kyara revirou os olhos. — Prefiro a montanha-russa, é mais radical.

— Não é chato, você só tem que ir com a pessoa certa. — Gaspar exibiu um sorrisinho malicioso. Kyara se recusou a o fitar.

— Josh, podemos ir? Podemos? Por favoooor! — Galilahi se escorou no Inca, praticamente abraçando seu pescoço.

— Nós NÃO vamos ao parque, acordem. — Daren bufou. — É uma ideia imbecil, vão mesmo ouvir as duas menos qualificadas do grupo?

— Nossa, Daren... — Andy fez biquinho. — O que isso quer dizer?

— Que nenhuma de vocês tem cérebro.

— Não seja tão mal! — Emilly o repreendeu, afinal, Kyara e Joshua estavam ocupados demais gargalhando para isso.

E foi assim que terminou a pequena reunião, com garotas unindo as camas para formar apenas uma grande enquanto os meninos deixavam o quarto. O último era Daren, que teve a bunda apertada por Sofie assim que passou, deixando um tapa fraco na mão da garota e resmungou algo que apenas a fez sorrir. Tsc, tsc. Seria uma longa viagem.

Notas finais
Um oferecimento a todo mundo que eu devia capítulo e já postei dois de uma vez ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.