Misfits troublemakers
2 Capítulo 2 — Chewbacca esfolado
Já durante a madrugada, Kyara avista duas figuras deixando o beco. A menina, que estava escorada na entrada da escadaria do metrô, franziu o cenho. Uma das figuras parecia robusta, alta e corpulenta enquanto a outra tinha segurança em seus passos, mas ambas corriam em sua direção. Ela se pôs de pé. Girou o bastão de baseball entre os dedos, semicerrando os olhos, pronta para chutar a bunda de quem quer que fosse a atazanar e não seria a primeira vez. Era uma garota durona, sem dúvidas. A figura menor, da direita, ergueu as mãos.
— KYARA! — Era a voz de Joshua. — ENTRE NA FENDA. AGORA!
Confusa e atônita, foi empurrada pela força dos corpos escadaria abaixo, aos tropeços. Ouviu um último e alto rugido ao fundo antes de dar por si. Jogada através da fenda, caiu de joelhos no chão. A morena grunhiu, esfregando as palmas nos jeans e ergueu o olhar, fuzilando Joshua.
— ORA, SEU... — E se levantou, indo para cima do moreno, agarrando-lhe a camisa. Ela era ligeiramente mais baixa, tinha de ficar na ponta dos pés para fitar seus olhos de igual para igual.
Naquele instante, Sofie se aproximou. A cara amassada e as pálpebras cerradas indicavam que havia acabado de acordar com a barulheira. Tinha os fios úmidos devido ao trabalho que realizara na água da pequena fonte do altar parcialmente destruído, purificando-a de forma que agora poderiam usufruir. Esfregando os olhos, bocejou.
— O que as crianças estão fazen...? — Sofie se interrompeu ao fixar a figura atrás de Joshua. Seu queixo caiu, os olhos brilharam.
Kyara seguiu seu olhar, ainda de cenho franzido. O homem de braços cruzados era negro, os dreadlocks estavam presos para cima por uma bandana, deveria ter quase dois metros de altura e um rosto marcado, extremamente rígido. Seus olhos cor de mel brilhavam com curiosidade, os músculos dos bíceps se contraíam.
— Mas o quê... Quem é ele?! — Kyara brandiu, puxando Joshua para si. Estavam extremamente próximos.
— Me escuta... — Ao invés de tímido, parecia acuado pelo maxilar trincado da mais nova, prestes a ter um acesso de raiva. —... Encontrei ele em um bar, se chama Daren. É um semideus, juro! — A morena semicerrou os olhos, afrouxando o aperto em sua gola. Sentiu-se encorajado a prosseguir. — Ele acabou de sair da cadeia e...
— CADEIA? — Disseram em uníssono as garotas, indignadas.
— É, mas...
— Como pôde trazê-lo para cá?! — Sofie de repente parecia bem desperta. Seu olhar desbravava o mais alto, analisando-o minunciosamente. Seu interesse era indecifrável, parecia um tanto vidrada, como se visse potencial ali. Ou apenas admirava os músculos saltados.
— Não, não, não! — Kyara empurrou Joshua para o lado e avançou contra o brutamontes. Ele era quase o dobro de sua altura, mas ela não se intimidava. Empinou o nariz. — Escuta aqui seu... Seu argh! Se você pensa que...
A voz morreu no instante em que seus olhos bateram na altura do abdômen do homem. Ruborizou. Ele estava sem camisa, deixando à mostra o corpo escultural, quase como uma obra neoclássica de um Deus Grego, exaltando seu físico de dar inveja. A garota piscou por alguns instantes, atônita, o silêncio que se seguiu foi constrangedor até que ela despertou do torpor.
—... Vai ficar, e-está... Está... — “Absurdamente certo! ”. — M-Muito enganado!
E afundou o indicador em seu peito, empertigada, no entanto seu olhar nada discreto tornou a percorrer uma última vez por aqueles braços fortes. Daren abaixou o olhar com desprezo e escárnio, como se debochasse da presença tão pequena e enérgica. Kyara não se importou, manteve a pose firme, irredutível. Era como uma disputa de personalidades fortes da qual ela não estava disposta a perder, muito menos recuar. Rosnou. O contato visual só foi interrompido por Joshua, que se colocou entre ambos, cruzou os braços.
— Por favor! Podemos dar uma chance...?
— Uma chance de quê? — Gesticulou, abanando as mãos rumo à Daren.—Chance dessa coisa matar um de nós? Quem garante que ele não...
— Kyara. — Sofie colocou a mão em seu ombro. Nenhum deles haviam escutado a asteca mais velha se aproximar. — Nós demos uma chance pra Andy.
— Sim, mas ela...
— ... Ela está ajudando e melhorando a cada dia. — Concluiu Joshua.
Não podia ir contra os dois. Ou melhor, podia, mas não deveria. Não queria.
— Se ficar... — Olhou Daren por cima do ombro de Josh. —... Vai ter de trabalhar. — Kyara rolou os olhos e grunhiu irritadiça, se afastando com os punhos cerrados.
Ao passar pela bancada, onde a garrafa de coca-cola ainda tinha um quarto do refrigerante, simplesmente a socou, fazendo o vidro trincar no mesmo instante e se espatifar contra a parede devido à força. O liquido espumou. Joshua e Sofie negaram com a cabeça, ponderando o que fariam com Daren a partir de agora. Ele parecia forte suficiente, os treinos geralmente liderados por Kyara pareciam bem mais interessantes e talvez, só talvez conseguissem erguer uma pilastra caso trabalhassem em conjunto. Infelizmente não tiveram tempo de abrir a boca.
Tum. Estalos e chiados de protesto na Fenda. Tum. Eles se entreolharam. Tum. Algo estava tentando invadir.
—... Ataque! — Kyara brandiu, seus olhos azulados assumiram um tom ícor, como uma injeção de adrenalina. Saltou por cima de um barril tombado, avançando.
E então ele conseguiu.
Avançou dentro da caverna, fazendo Joshua e Sofie serem arremessados para longe com o impulso. Apenas Daren, dos que estavam próximos da fenda, permaneceu de pé. Aquela coisa deveria ter aproximadamente três metros de altura e bolas de basquete ao invés de músculos por baixo da pelagem cinzenta. As mãos de quatro dedos tinham garras e a cara ossuda parecia ter sido dilacerada por uma hélice de avião, deixando apenas os olhos esbugalhados inteiros e algumas penas saltando do topo do crânio. Ao menos tinha a decência de vestir uma tanguinha de sacos de lixo. Até mesmo o robusto recém-chegado parecia pequeno se comparado ao monstro, mas era impressionante a calma que mantinha, cara a cara com o perigo. Ele rugiu, todo o recinto estremeceu. Joshua correu para a esquerda, Sofie para a direita – em suas orbes oculares, esferas d´água haviam substituído os olhos de tão claros, límpios e azuis. Daren estava no meio, imóvel e Kyara mais atrás.
O monstro ameaçou avançar.
— Se afaste! — Sofie ordenou para o negro, que não lhe deu ouvidos.
Joshua intercedeu e fez o chão estremecer, mas no susto, apenas levantou a poeira, fazendo ser praticamente impossível enxergar o que aconteceu em seguida. Nada pôde ser feito, a aberração avançou contra Daren em um bote, o silêncio reinou. À medida que o pó ia se assentando, a cena foi se tornando mais clara: O homem travava uma batalha corporal com a criatura, agarrando seus braços, mas os próprios pés arrastavam a terra quinze centímetros atrás, ambos utilizando a força de igual para igual. O queixo dos três caiu. Entre grunhidos, demorou segundos para que a adrenalina voltasse à tona para comoção geral.
Kyara analisava toda a situação com frieza, seu olhar atento buscava quaisquer estratégias enquanto não encontrava seu taco, até fixarem em um detalhe no teto da caverna. Buscou por Joshua e quando seus olhos se encontraram, indicou o que havia acima. O plano estava traçado naquele instante. O moreno abriu os braços e tentou um novo tremor, desta vez forte suficiente para fazer com que uma estalactite pesada e grande se soltasse, descendo disparada em cima da cauda peluda, prendendo-a contra o chão. O rugido de dor ecoou pela caverna, ensurdecedor. A audição sensível da asteca mais nova a traiu, seus ouvidos pareciam prestes a sangrar mas não estava disposta a desistir. Mesmo com lágrimas nos olhos, a expressão dura não deixava passar uma imagem fragilizada, correu junto à Joshua para a fenda, cada um agarrou um lado e juntos, a expandiram com auxílio de suas auras mágicas. O problema é que não aguentariam por muito tempo, aquele portal era mais forte e poderoso. Daren aproveitou a distração e empurrou o monstro para o lado, dando passagem para Sofie que avançava, arrancando do cinto uma adaga.
— ARRASTE PRA FORA! — Ela gritou, erguendo o olhar para conferir se o homem tomava impulso. E então, cortou o rabo, soltando a fera.
Daren não esperou, avançou contra ele como um quarterback, agarrando-lhe a cintura em direção à fenda com tudo. A batalha agora era no mundo mortal.
Ambos caíram em cima de uma das cabines do sanitário, quebrando duas portas de madeira e fazendo um buraco na parede de tijolos com o impacto. Sofie, Joshua e Kyara saltaram logo em seguida, a mais nova se adiantou e agarrou Daren pelos ombros em um pulo, puxando-o com violência de cima do monstro, que já dava sinais de vida. Estavam preparados para um segundo round, arfantes. E ele se ergueu, ainda mais irritado agora que sua cauda jorrava sangue, sacudindo e espirando para todos os lados, manchando os semideuses. Joshua deu um passo à frente, uma rachadura se abriu no chão e foi crescendo, engolindo os pés da aberração, que em um último impulso antes de ficar preso, agarrou o braço de Kyara. A menina se debateu.
— ME SOLTA! ME SOLTA CHEWBACCA ESFOLADO! — E usando o cotovelo, passou a desferir golpes repetidos contra o pulso do monstro.
Ele agarrou seu outro braço, a deixando impossibilitada. A menina grunhiu, irritadiça. Lançou por cima do ombro um olhar expressivo à Sofie, como se ela soubesse o que fazer, mas franziu o cenho ao notar Daren cochichando para Joshua. Ela captou algumas palavras-chave como “ Poderes “ e “ Inútil”. Aquilo fez seu sangue ferver.
—... AGORA!
Sofie cerrou os punhos e fechou os olhos. Todos os canos do banheiro estouraram com uma pressão gigantesca, fazendo as pias entrarem em erupção como gêiseres. A água espirrou para todos os lados, surpreendendo os rapazes e principalmente o monstro. Kyara escorregou por entre seus dedos e escalou seu braço, agarrada aos tufos de pelo, esgueirando sem ser pega até estar sentada em seus ombros com agilidade.
Ela levou as mãos até a cabeça ossuda e girou para o lado, quebrando o pescoço do monstro. Fim de jogo, ele tombou, caindo por cima da garota.
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