Misconception
2 Whisky de Fogo
Notas iniciais
Dormitório feminino da Sonserina, Quarta-feira, 6:20 a.m.
— Por favor, Beatrice — supliquei em um sussuro — fala baixo.
Aquela era provavelmente a maior ressaca de todos os tempos, e contando com o número de vezes que isso acontecera, poderia-se dizer que era uma ressaca consideravelmente grande. Desde o quarto ano, Trice e eu tivemos a chance — e o prazer — de descobrir as vantagens de Hogsmeade fora dos dias de visita. Descobrimos uma saída por meio de uma passagem que nos levava diretamente a Dedosdemel. No começo usávamos isso como desculpa para ter o que fazer nos sábados de manhã, nos quais as masmorras costumavam ficar sem movimento algum por conta dos jogos de Quadribol.
Beatrice e eu nunca gostamos de andar em grupos. Não que na Sonserina fosse comum de se encontrar grupinhos de meninas que se interessassem pelos mesmos assuntos fúteis e fizessem aquelas risadinhas agudas quando algum garoto cobiçado passasse por elas. Na verdade, os grupos eram formados por interesses em comum, sim, mas envolviam as famílias e toda a questão de linhagem pura. Nunca me achei nada a respeito disso, acho que eu nem deveria achar. Eu estava ali por algum propósito, mesmo não sendo uma deles com toda essa questão de sangue-puro, eu estava ali, e o fato deles desconsiderarem minha existência era o que eu mais gostava, e deste ponto surgia a sensação de liberdade que só Hogwarts me dava. Com a descoberta brilhante das passagens secretas na escola, começamos a fazer visitas mais frequentes a Hogsmeade, em outros horários, outros locais, e ah, pobre Argo Filch, já fora vítima de tantos Confundus conjurados por uma de nós quando chegava perto de nos flagrar, que creio que o velho já tenha a reação do feitiço só de encontrar com a gente pelos corredores da escola.
— Charlie, vai tomar um banho e vamos descer para comer alguma coisa, antes que todos desçam e sejam obrigados a olhar para a nossa cara de intoxicação aguda por álcool – falou a menina que já dava um nó sem jeito em sua própria gravata.
— Ressaca, Beatrice – falei enquanto sentava devagar na cama – falar bonito não disfarça a derrota.
Ela deu de ombros e eu levantei de vez cambaleando até o banheiro. Havia algumas garotas por lá já escovando os dentes e eu caminhei direto para a cabine disponível e tomei um banho rápido, logo depois me direcionando a uma das pias para acabar minha higiene, quando fui pega de surpresa por barulhos de sapato batendo estrondosamente alto no chão – ou poderia ser apenas um efeito colateral da dor de cabeça que eu sentia.
— Parece que a noite rendeu, Ledger – falou uma voz feminina que parou ao meu lado para se olhar no espelho.
Levantei a cabeça para o espelho esperando meus olhos focarem na figura pequena de cabelos pretos, curtos e jeitosos ao meu lado. Pansy Parkinson me lançava um riso sem mostrar os dentes.
— Um pouco mais do que deveria para uma terça-feira. – falei rindo pelo nariz e murmurando um feitiço breve para que minha higiene fosse feita e meu cabelo se ajeitasse.
— Tome – a menina me estendeu um pequeno frasco de uma poção e eu franzi o cenho – relaxe, é para a dor de cabeça, eu sempre tomo essa, é melhor do que as que Pomfrey irá te dar.
— Obrigada – aceitei e despejei o líquido todo de uma vez na minha boca devolvendo o recipiente para ela.
Ela apenas o pegou e saiu andando. Parkinson normalmente era uma garota que não era lá das mais fáceis de conviver, mas eu a considero uma pessoa franca ali dentro, pelo menos ela nunca tinha tentado me aborrecer mesmo reconhecendo que eu era irrelevante ali, o que era surpreendente se comparasse com o grupo de pessoas que ela se relaciona.
Um arrepio percorreu a minha espinha e eu acabei o de me arrumar para me dirigir até o salão comunal, onde estava um movimento muito grande, e até mesmo festivo, coisa que não era comum de se ver por ali – a não ser que o assunto fosse quadribol.
As conversas foram abaixando o tom até se tornarem pequenos múrmuros quando eu cheguei mais perto, apressei meus passos em direção de Beatrice, quando uma voz alta se sobressaiu em meio às conversas sussurradas.
— Parabéns, Ledger – uma garota loira do quinto ano passou por mim e falou sorrindo entre dentes.
Lancei um olhar questionador para Beatrice que apenas fez com a cabeça para o grande quadro de informações sobre as atividades letivas que estava a poucos metros dela. Dei alguns passos devagar, incomodada pelo silêncio que pairou a partir de então, e senti o meu coração palpitar, decidindo se continuaria batendo ou pararia para que eu morresse ali mesmo. No meio do quadro de avisos estava um pedaço de pergaminho pautado com o símbolo da Sonserina, e logo abaixo uma relação escrita com uma caligrafia cuidadosa, que continha cada nome dos selecionados para o time de Quadribol deste ano letivo. Lá no fim da lista, eu já não sabia como reagir. Charlotte Ledger — Artilheira. Então Malfoy teria chamado Powell e Crawford para reprová-los?
Rapidamente meus olhos buscaram os outros dois nomes, que se encontravam em uma lista ao lado. Powell havia sido desclassificado, já Crawford estava como Artilheiro-reserva. Era muita informação para eu captar com o corpo funcionando no máximo cinquenta por cento. Continuei a encarar o quadro até me certificar de que a conversa iria retomar e a atenção sairia de cima de mim. Logo me virei à procura de alguém. Ou melhor, de um alguém. E lá estava ele esperando com que meu olhar se encontrasse com o dele. Avistei o garoto alto e com cabelos platinados apoiado em uma das mesas de longe colocando sobre mim um olhar gélido e distante. Provavelmente esperando algum tipo de protesto de minha parte. Resolvi que não seria uma boa ideia no momento impor a minha postura prepotente igual à dele, apenas quebrei o olhar duro que costumava lançar para ele sem perceber, e até cogitei arquear uma das sobrancelhas, mas antes que isso se tornasse amigável demais, um movimento mais agitado começou dentro do salão comunal, e eu pude perceber que as pessoas estavam se dirigindo para o Grande Salão já que o café da manhã seria servido.
— Se apresse, Charlie! – falou Beatrice me fazendo quebrar o olhar que sustentara com Malfoy por alguns segundos.
— Um – disse enquanto me concentrava no que a menina dizia – sim, guarde um lugar para mim, está bem? Eu vou buscar os meus livros para que possamos ir direto para a aula depois.
Beatrice apenas assentiu com a cabeça e saiu. Eu me dirigi ao banheiro outra vez, ainda um pouco confusa, chequei minha aparência no espelho, e por mais que a derrota fosse notória nas minhas olheiras, eu estava me sentindo como não havia sentido há muito tempo. Talvez fosse orgulho, ou só uma sensação nova demais ao ponto de me revirar o estômago. Mas a questão é que, pela primeira vez eu não me sentia tão pequena, mesmo que se sentir pequena nunca tenha sido um problema para mim e sim uma válvula de escape, que eu teria de abdicar a partir de agora. E por mim, eu enfrentaria o que fosse para ver onde isso vai dar.
Respirei fundo encarando mais uma vez o meu cabelo desgrenhado e minha pele pálida e abatida devido ao cansaço. Enxaguei meu rosto na pia mais algumas vezes e me sequei, decidida a encarar todas essas sensações – gritando dentro de mim – como se elas não existissem. Eu não deixaria isso transparecer de maneira que todos achassem que eu deveria ser grata a Draco Malfoy por uma conquista inteiramente minha.
Ao me dirigir de volta ao salão comunal, peguei a minha bolsa em cima da cadeira que eu havia deixado e caminhei à porta que me levaria para o corredor longo para fora das masmorras, quando senti dedos gelados e fortes segurarem o meu braço. Meu corpo deu um leve salto com o susto ao ver a imagem daquele garoto alto e com uma notória expressão de desprezo se formando no rosto.
— Não vou aliviar as coisas para você – falou ele entre dentes e em um tom baixo – eu apenas precisava me certificar que nossa casa iria obter melhores resultados nas partidas, e não é só porque você acabou se saindo melhor que os idiotas do Powell e Crawford, que você já é uma vitória garantida.
— Eu não estou pedindo para você aliviar nada para mim, Malfoy – respondi sem igualar a prepotência, mas igualando o tom de voz – enquanto estivermos em time, somos uma equipe e assim como você, eu estou com toda disposição para ganhar. Mas enquanto estivermos fora daquele campo, você não tem que ficar julgando minha performance como se quisesse ver gratidão em meus olhos.
— Eu não preciso de sua gratidão, Ledger – o garoto retrucou defensivo – para mim é muito fácil te expulsar do time e treinar Crawford como um cachorro até ele aprender a jogar.
— Você é quem decide, capitão – respondi desvencilhando meu braço de sua mão – até o próximo treino.
Apertei meus passos para fora, o deixando – mais uma vez – para trás. A imaturidade de Malfoy era tão grande, que seria burrice minha querer tratá-lo da mesma maneira que ele me tratava. Eu iria fazer o jogo inverso ao dele, não daria de bandeja um motivo a mais para ele me tirar à paciência.
Cheguei ao Salão Principal e o café da manhã já estava para acabar, nem me sentei, apenas me dirigi até Beatrice, peguei uma maça e a puxei pelo braço.
— Vamos, aula de Defesa Contra as Artes das Trevas em cinco minutos, com Snape. – falei depressa e a menina se levantou despedindo-se das pessoas com quem conversava.
— Charlie, você é muito chata com essa história de horário – disse Beatrice atrás de mim acompanhando meus passos rápidos – você sabia disso?
— Eu nunca tive um atraso, Beatrice, e nem vou ter – abri a porta da sala na qual teríamos aula e o professor Snape já se encontrava lá, com uma postura séria e expressões frias – Com licença, professor? Podemos pegar nossos lugares?
— Ledger – respondeu o homem levantando o olhar e mantendo a mesma expressão – eu não tolero alunos que se atrasam e tampouco os que acham que vão conseguir me bajular chegando antes do horário. Mas ande, sentem-se.
Entrei em silêncio quase que revirando os olhos. Bajular? Esse homem era insuportável. Me dirigi ao fundo da sala já me sentando e chegando para o lado para Beatrice se sentar.
— Viu só? – perguntou a garota sussurrando – poderia ter evitado essa se tivesse me deixado terminar de comer.
— Pare de reclamar – fechei a cara ainda emburrada com o professor e coloquei meus livros sobre a mesa.
— Ei, amanhã é aniversário da Parkinson, ela vai comemorar hoje a noite lá no Três Vassouras, convidou a gente para ir – ela falou ainda mais baixo tentando fazer com que eu desfizesse a cara fechada.
— A gente nem chama a garota pelo nome, Beatrice – respondi ainda séria – ta mais do que na cara que ela quer saber quais são os nossos meios de sair de Hogwarts à noite.
— E se for? – ela perguntou com uma expressão risonha na cara – pelo menos ela disse que vai pagar tudo para todo mundo a noite toda.
— Então eu acho que vale a pena abrirmos mão de uma das passagens – falei fazendo com que o clima tenso passasse sendo substituída por risadas nossas e um olhar de repreensão de Snape.
Logo os outros alunos preencheram a sala e um silêncio entediado tomou conta enquanto o Snape falava e fazia perguntas sobre o conteúdo. Nunca havia me acostumado com um método específico de aprender Defesa Contra as Artes das Trevas, afinal desde o meu primeiro ano os professores sempre abandonam o cargo. Mas agora, estava mais familiar, era como as antigas aulas de Poções antes de Slughorn assumir. Snape explicava o conteúdo rapidamente, provocava Potter, fazia perguntas, ignorava Granger levantando o seu braço quase que desesperadamente, tirava alguns pontos da Grifinória e passava deveres que levariam a semana inteira para serem feitos. Mas agora que ele assumira o cargo que tanto almejou por anos, parecia ainda mais determinado a incomodar todos os alunos que se quer respirassem fora do tempo adequado.
A aula demorou um pouco para passar, e tivemos dois tempos de Herbologia em seguida, também acompanhados pela Grifinória. Herbologia era particularmente uma matéria que eu nunca apreciei, talvez pelo fato de nunca ter sido uma das minhas melhores notas. E como se não bastasse, Sprout resolveu dividir-nos em grupos baseados em nossas classificações obtidas nos N.O.Ms, e como a minha não havia sido das melhores, ela achou prudente me colocar no grupo de Longbottom, um grifinório, que aparentemente era um destaque ali entre nós. Por sorte, Beatrice fora um desastre e precisava de mais ajuda que eu, então estávamos no mesmo grupo. Me diverti com o anúncio de Sprout, ao dizer que teríamos que concluir os deveres juntos caso precisássemos de ajuda, Longbottom esboçou uma cara de desespero nítida, provavelmente porque teria que dividir o seu tempo de estudo para sua matéria preferida com duas sonserinas. Confesso que por mais engraçado que fosse ver o temor do garoto, estava com pena dele por estar longe de seus amigos, então quando os grupos se dividiram, perguntei para a professora se não teria como ela fazer algo para aliviar a tensão que haveria ali. Sprout aparentemente ficou feliz por eu ter me esforçado para ter uma melhor condição de desempenho e disse que colocaria Potter na vaga que faltava para completar meu grupo, já que o mesmo não estava na aula por estar em uma reunião na sala de Dumbledore – algo que vinha acontecendo frequentemente – e então acrescentou alguns pontos para a Sonserina pela minha “empatia com um colega de outra casa”.
Dirigi-me ao centro da estufa onde Beatrice estava, e me inclinei para Longbottom falando um pouco baixo para que os demais sonserinos não escutassem.
— Ei, não se preocupe, Potter está no grupo, não faremos nada com você – o garoto piscou algumas vezes e eu dei um riso pelo nariz, voltando a prestar a atenção na aula.
— Olha só, que menina bondosa – sussurrou Beatrice no meu ouvido me fazendo rir.
— Imagina, coitado do garoto – dei de ombros – achei mais fácil do que perder meu tempo tentando explicar que nem somos tão ruins assim.
Depois de mais dois tempos estudando sobre as propriedades mágicas das raízes de Mimbletonia, a professora encerrou a aula pedindo algumas pesquisas para a próxima semana a respeito da matéria do próximo capítulo, e recomendou que os grupos divididos por ela se reunissem para efetuar o trabalho. Não que fosse obrigatório, mas seria lucrativo – aparentemente.
Eu e Beatrice corremos os infinitos corredores até o Grande Salão para poder desfrutar o máximo possível do almoço. Logo pegamos um lugar no meio da mesa da Sonserina e os recipientes, assim como os copos em nossa frente, foram preenchidos por diversas comidas. Mantinhamos uma conversa casual sobre o trabalho que havia sido agendado agora pouco quando uma figura de cabelos curtos e morenos nos surpreendeu.
— Olá, Campbell – Parkinson se sentou ao lado de Beatrice oferecendo-lhe um meio sorriso.
— Olá, Parkinson – ela respondeu com a mesma entonação, como se as duas fossem amigas há tempos.
Abaixei meu olhar para a comida e fiquei revirando no prato enquanto as duas conversavam sobre como seria hoje a noite e como se vestirem para passarmos despercebidas pelo vilarejo de Hogsmeade sem que percebessem que éramos estudantes.
— Hey, Ledger – ela falou e eu levantei a cabeça para ela dar continuidade. – você vai comer só isso? Como pretende desviar de balaços?
— Eu sou vegetariana – respondi indiferente – não tem muita opção, mas eu como bastante.
— Vegetariana? Isso é uma tradição trouxa ou o que? – ela perguntou, porem sem maldade explicita na voz.
— Significa que ela não come animais, Pansy – explicou Beatrice – portanto ela não pode comer a torta de frango.
— E não é uma tradição trouxa – respondi meio ríspida – na verdade poucos trouxas conseguem se quer saber.
— Na verdade – ela disse recuando – eu achei interessante a iniciativa, mas não sei se eu conseguiria. De qualquer maneira, você não iria querer ficar fraca no primeiro treino de Quadribol, se quer saber, Draco está esperando a primeira oportunidade para colocar Crawford no seu lugar.
— Eu sei que vou fazer um bom treino – chequei o relógio me levantando – estou satisfeita. Vocês vêm assistir ou vão combinar melhor como será hoje a noite?
Beatrice me olhou mordendo o lábio inferior, eu já soube da resposta sem que ela falasse.
— Tudo bem – falei levantando as mãos – eu não vou achar ruim.
Ela me lançou um beijo e pude ver sussurrar um “acabe com ele” mas preferi guardar apenas para o meu ego, sem lhe responder.
— Até mais, Ledger – Parkinson disse com um aceno.
— Boa sorte, Charlie – Beatrice falou e eu rumei para fora do Salão.
Campo de Quadribol, Quarta-feira, 1:33 p.m.
Apertei meus passos quando percebi que o time já se reunia no centro do campo para ouvir as estratégias de jogada propostas para hoje. Logo eu, que odeio atraso, estava tendo que me apressar no primeiro treino. Quando adentrei a quadra e me aproximei, senti os olhares do time sobre mim, e pude por fim escutar a voz de Malfoy, que estava de frente para os demais jogadores.
— Você está três minutos atrasada, Ledger – ele falou interrompendo as explicações sem ao menos virar-se para mim.
— Me desculpe, capitão. – falei sem deixar que meu sarcasmo escapasse de maneira sutil.
Logo me juntei ao restante do time para escutar as técnicas de jogo, que a meu ver, estavam muito vagas e amontoadas, em um time daqueles ninguém compreenderia de fato o que era para ser feito. Quando Malfoy acabou de dar o seu discurso, todos subiram em suas vassouras e se posicionaram para receber as bolas. Logo os balaços já estavam no ar e os batedores faziam o possível para rebatê-los para longe do apanhador. O apanhador havia voado um pouco mais alto que os demais jogadores, para ficar mais fácil de visualizar o pomo. Eu me afastei um pouco para receber a goles com um impacto menor, o que foi uma ótima tática, pois quando Crawford, o artilheiro reserva fez o lance para mim, eu consegui agarrá-la muito sutilmente e contornar o campo, fazendo com que o goleiro só desse conta quando a goles já havia passado pelo aro do meio.
Meu trabalho de passe estava indo melhor do que o esperado com os outros dois artilheiros do time, quando Elliott, um setimanista, teve sua vassoura atingida por um balaço e só teve tempo de arremessar com força para o alto. Lerman, o outro artilheiro, estava muito longe do local em que a jogada foi feita, então caberia a eu fazer com que a goles permanecesse em jogo. Comecei a analisar a onde ela faria a curva para baixo e voei o mais rápido na mesma direção, que era bem mais alta de onde eu estava. Quando finalmente agarrei a bola, avistei Lerman perto de um dos aros e calculei que seria mais fácil lançar para ele, quando estiquei meu braço para trás tomando força, senti um forte impacto no meu cotovelo que fez com que a goles caísse de minha mão e um choque corresse pelo meu braço esquerdo.
— Malfoy pegou o pomo! – um dos batedores gritou para o time, que já desciam de suas vassouras.
Olhei para trás e encontrei uma figura loira segurando o pomo de ouro na mão direita e com a mão esquerda sobre o canto da boca.
— Olhe o que você fez, Ledger – Malfoy falou cuspindo meu sobrenome e analisando o sangue entre seus dedos.
— Ora, você é quem fez a minha goles cair. – retruquei voando até ficar próxima o suficiente para analisar o corte que havia feito em seus lábios.
— Eu sou o apanhador, você é quem não deveria estar voando tão alto – o garoto alterou seu tom de voz.
— Pare de drama, Malfoy, deixe-me ver isto – peguei em seu braço com força para que ele tirasse os dedos do canto da boca.
— Ai, solte meu braço – ele gritou se desvencilhando com uma expressão de dor maior ainda.
Pensei em fazer mais algum comentário para tira-lo do sério mais um pouco, mas percebi que ele realmente estava com uma expressão de dor e resolvi descer para poupar a dramatização do garoto.
— Mandou muito bem, Ledger. – Lerman disse me lançando um sorriso – você calculou tudo muito bem.
— É claro que calculou – a voz de Malfoy soou rispidamente atrás de mim me fazendo revirar os olhos. – calculou tão bem que nem precisa de aulas de Aritmancia mais.
— Malfoy, ao menos reconheça que ela foi muito rápida em pensar na jogada que fez – comentou Crawford – e no final das contas, você apanhou o pomo do mesmo jeito.
— Cale a boca, Crawford – ele se virou para o garoto – se você entendesse tanto de jogadas não seria a droga de um artilheiro reserva.
— E se você soubesse conter o seu ego absurdamente grande e frágil pelo menos nos treinos, a Sonserina já teria ganhado pelo menos uma taça desde quando você virou capitão do time – falei cruzando os braços – então acho que ninguém aqui calcula bem o suficiente.
Ele não se deu o trabalho de virar-se para me encarar, no entanto observou os olhares que o time estava trocando a partir do meu comentário. Peguei a minha vassoura e me dirigi até o armário guardando-a e em seguida caminhando até o vestiário das jogadoras para tomar um banho e voltar para a sala comunal.
Dormitório feminino da Sonserina, Quarta-feira, 11:20 p.m.
— Vamos, Charlie – Beatrice implorou mais uma vez enquanto passava um forte batom no lábio – se o seu dia foi estressante o mínimo que você pode fazer é aproveitar as rodadas de hidromel que Pansy vai bancar.
— Eu só não estou no clima de ficar numa rodinha de pessoas que eu não dou a mínima e que coincidentemente não dão a mínima para mim. – me joguei na cama de barriga para cima e fiquei encarando o teto por uns minutos até ser atingida por alguma coisa.
— Vista esse sobretudo, fica lindo em você, e as botas estão do lado do meu malão – ela disse antes que eu protestasse.
Coloquei o sobretudo preto por cima da blusa fina que eu estava me levantando em rendição e calçando as botas. Não fiz muita cerimônia, só passei o batom escuro que estava na mesa ao lado da cama de Beatrice para que os meus lábios não cortassem com o vento frio que fazia em Hogsmeade.
— Vamos? – Beatrice perguntou dando pequenos pulinhos por eu ter finalmente cedido.
Peguei a minha touca e vesti dando um sorriso para ela e seguindo-a para uma das saídas que nos levaria até o Três Vassouras.
Três Vassouras, Hogsmeade, Quarta-feira, 11:50 p.m.
No momento em que adentramos o pub, eu fui pendurar nossos casacos na entrada enquanto Beatrice se dirigia animadamente para abraçar Parkinson.
— Ei, Charlotte – Parkinson disse sorrindo abanando os braços – sente-se aqui.
Ela apontou para a mesa que eles estavam sentados – Parkinson, Zabini, Nott e Bulstorde – perto do balcão, já havia garrafas de hidromel vazias por ali, sentei-me ao lado de Beatrice bem na ponta da mesa e dei um breve aceno para todos com um sorriso meio torto.
— Feliz aniversário, Pansy – falei tentando parecer simpática, e acho que funcionou.
— Obrigada – ela falou me entregando uma garrafa e se direcionando para o restante do grupo.
Eu continuei no meu lugar, em alguns momentos eu ria de alguma coisa que Blaise dizia, mesmo eu estando a fim de acabar com aquilo logo. E Beatrice estava se divertindo tanto – que não sei se era pela quantidade de hidromel que ela já tinha bebido ou se era a felicidade de estar ampliando sua vida social – ela era uma pessoa muito mais sociável do que eu conseguia ser.
— Beatrice – falei sussurrando perto dela para não tirar a atenção da conversa – olha eu vou ali no balcão ver se eu consigo uma dose de whisky de fogo.
— Tudo bem, Charlie – ela se virou falando um pouco alto e me dando um sorriso.
— Se comporte – falei tirando a franja dela do olho.
— Você é muito preocupada – ela disse – do chão eu não passo.
Por fim eu dei uma risada balançando a cabeça como quem reprovasse o comentário dela e fui até um dos bancos no balcão me sentando, quando um homem alto por volta de seus vinte e poucos anos me atendeu.
— Um whisky de fogo, por favor – pedi com bastante convicção.
— Creio que a senhorita não possa beber isso... – ele indagou.
— É. – concordei com ele arqueando a sobrancelha e sorrindo de lado – realmente não posso.
O rapaz riu pelo nariz, sabendo que seria inútil não ceder e foi preparar a minha dose, logo me trazendo o copo. Acenei com a cabeça agradecendo e dei um gole, sentindo o percurso da bebida quente em minha garganta.
— O mesmo que o dela, por favor – a voz rouca de um homem sentado dois bancos ao meu lado com um capuz cobrindo o rosto soou impactante.
Continuei encarando em meio aos goles o homem próximo de mim. Parecia ser jovem ao analisar pelo porte e pelas mãos que seguravam o copo. Continuei analisando quando uma parte de sua franja balançou para fora do capuz com o vento da porta do pub se fechando. A franja era de um loiro quase branco, sem igual. Sem igual mesmo...
Apoiei meus braços no balcão fazendo um impulso para ver o rosto dele e concretizei a imagem que meu cérebro havia formado só pelo movimento do cabelo do sujeito.
— Não pode ser – falei soltando uma risada alta – me deixa adivinhar: você não sabia que eu viria, e quando me viu chegar se levantou da mesa antes que eu contasse que a responsável por isso no seu rosto era eu, não é?
— O mundo não gira em torno de você, Ledger. – ele cuspiu as palavras dando ênfase no nojo de pronunciar meu sobrenome. – eu não vim para comemorar o aniversário da Pansy, vim me encontrar com uma pessoa, que consequentemente não virá mais.
— Então o menino Malfoy levou um bolo! – disse rindo e vendo-o dar um gole com raiva em seu whisky. – seu orgulho está mais ferido que seu rostinho?
— Era algo sério, garota – ele falou revirando os olhos – não é como se eu precisasse sair com alguma garota pra conseguir algo com ela.
— Já pode se acalmar, eu não estou com disposição para te tirar do sério hoje – falei pegando o meu copo e me sentando no banco ao lado dele.
— Não que você precise de muito esforço para fazer isto. – ele disse.
— Então estamos quites – retruquei.
— Com certeza não estamos, olha o estrago que você fez – ele virou o rosto mostrando a face que eu havia machucado. Onde era só um corte estava um enorme hematoma roxo.
Não consegui segurar a minha gargalhada e percebi que até umas pessoas que estavam nas mesas próximas estavam olhando. Eu não conseguia parar de rir da cara de panaca que ele tinha.
— Como foi que você disse? – eu perguntei cessando a risada e fazendo ele olhar para mim, bem bravo por sinal. – “Pelo menos o estrago que eu fiz te deixou sexy” – imitei a voz dele ironicamente.
— Cale a boca, Ledger – ele falou desviando o olhar envergonhado.
— Bom, eu acho que já te envergonhei demais por hoje – concluí tendo sua atenção novamente – então você provavelmente sentiu pelo menos um oitavo da raiva que eu senti de você no jantar de retorno das aulas...
— Significa que você vai finalmente parar de falar? – ele perguntou.
— Errado. – disse em seguida – vou te deixar em paz por hoje, apenas.
Fiz um sinal para o mesmo homem que havia me atendido quando cheguei ao balcão e ofereci-lhe o meu melhor sorriso.
— Mais dois copos de whisky de fogo, por favor – pedi educadamente – bem fortes.
— Então é com essa técnica que você consegue o que quer? – ele perguntou debochado.
—Para a maioria das coisas – respondi dando de ombros – mas dizem por aí que eu consegui uma vaga no time de quadribol por puro talento.
Ele riu pelo nariz e abaixou a cabeça, logo depois os whiskys foram servidos e eu empurrei um dos copos para ele.
— A próxima rodada eu peço para você ver como é conseguir as coisas usando apenas convicção – ele disse aceitando o copo.
— Eu sou convicta! — exclamei — Você está querendo me embebedar, Malfoy?
— Eu posso não pedir – dessa vez ele quem deu de ombros – já que você é fraca para isso, eu...
— Desafio aceito – respondi dando um gole e lançando-lhe um sorriso debochado.
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