Mirtilo
64 Extra - O caçador
O frio na barriga chegou primeiro que a constatação do erro em si, mas Kris já estava longe demais para fazer alguma coisa. O gosto de sangue ainda estava na boca, manchava a roupa, o cheiro de ferro e sal parecendo tudo o que restava daquele momento insano. A roupa amassada, o cheiro na sua pele, aquele gosto doce na ponta da língua, não queria pensar em nenhuma dessas coisas porque parecia tudo tão perigoso. Fazia-o se sentir perigoso.
O mundo rugia nos seus ouvidos, fazia-o pensar que a polícia ia pará-lo a qualquer momento. Usar arma de choque, paralisa-lo na frente dos seus pais antes de contar toda a barbaridade que havia feito. Matara aquele garoto? O que tinha acontecido? O que ele havia feito?
Esbarrou em alguém, recebeu resmungos mal-educados quando se afastou sem pedir desculpas. Os pensamentos giravam em sua mente, tão rápido que foi obrigado a se inclinar na primeira lixeira que viu. Vomitou todo o café da manhã ali, mas o estômago ainda estava se contorcendo diante do gosto adocicado que havia na ponta da língua. Sentia que mesmo se a cortasse fora não conseguiria se livrar daquilo.
Afastou-se da lixeira, pegou os olhares de outras pessoas na sua direção. Deveriam achar que estava drogado ou algo do tipo. Abaixou os olhos e notou o cinto aberto denunciando tudo o que tinha feito, o seu crime mais grave. O lábio tremeu e os olhos encheram-se de lágrimas diante da forma como a imagem daquele garoto inundou sua mente. O que tinha feito? Droga!
Arrumou o cinto e apressou o passo de volta para casa, os pensamentos ainda estavam uma bagunça. Tudo nele era uma bagunça porque não conseguia nem ao menos sentir culpa totalmente. Havia alguma coisa borbulhando no seu interior, um rugido, um resmungo dolorido de algo que ele não conhecia. O corpo estava quente pedindo mais uma dose daquela pobre vítima que Kris nem ao menos sabia o nome. Instinto, era como chamava aquela vontade, mas naquele momento achou que maldição era um nome mais apropriado.
Kris Wu era amaldiçoado.
Sempre soubera disso, por que estava tão surpreso agora? Desde quando era criança, no momento em que foi concebido, havia sido amaldiçoado. Aquilo estava mais do que estampado em cada ato seu até aquele dia. Havia sido uma criança relativamente diferente e quando entrou na adolescência tudo parecia culminar para o dia em que perdesse o controle de vez. O dia tinha chegado e constatar isso o assustava mais do que podia imaginar.
Quando chegou em casa, percebeu que nenhum dos seus pais tinha voltado do trabalho ainda, por isso, aproveitou para subir pro quarto. Tomou um banho demorado, esfregou a pele o máximo que pode tentando se livrar do cheiro daquele beco, mas tudo o que teve foi sua mente lembrando-o mais uma vez do que tinha acontecido. O gosto que ele tinha, o cheiro, a cor dos olhos, a forma como a pele dele chocou-se contra a sua, a pele macia contra seus dentes...
Rosnou ao apoiar a mão contra a parede do banheiro, a água do chuveiro desceu contra suas costas e a mão livre deslizou por seu abdômen até o pênis teso. Não pensou muito no que fazia, só desejava um pouco de alívio para sua mente e corpo. Masturbou-se com a lembrança do que tinha feito viva na mente e chorou embaixo do chuveiro quando terminou, encolhido em si mesmo. E medicou-se para pode dormir antes que voltasse até aquele beco e fizesse tudo de novo.
***
Yerim jogou-se na cadeira vazia ao seu lado no refeitório da escola, o cabelo vermelho preso em um rabo-de-cavalo e os olhos pintados com uma maquiagem forte. Kris levantou o rosto para observa-la ao mesmo tempo que ela lhe sorria, maliciosa do jeito que sempre era. Eles namoravam há alguns meses apesar do mais alto ter tentado terminar algumas vezes.
— Não me ligou ontem. — ela cobrou e Kris revirou os olhos.
— Eu dormi cedo. — contou parte da verdade.
Havia ingerido um dos muitos remédios da mãe para insônia e dormira como uma pedra, nem sequer havia escutado quando os pais chegaram. Achava que assim ia conseguir se livrar daquelas imagens na sua mente, mas quando acordou, ainda estavam lá, flutuando no seu pensamento e incitando-o a ir atrás daquela pessoa. E havia ido. De madrugada, como um criminoso, pulara a janela do seu quarto e correra até aquele beco, contudo, não havia nada para ver. Só havia lixo amontado ali e o rastro de sangue seco no chão, no lugar exato onde aquilo acontecera ontem.
— Seus pais? — questionou mais um pouco, a sobrancelha erguida, parecia pronta para fazer um comentário maldoso sobre os mais velhos e Kris sabia disso.
Assentiu, sem ter muita vontade de falar ou mentir. Não fazia aquele tipo de pessoa. Mentiras sempre o deixavam desconfortável, achava que era culpa da sua criação quando seus pais costumavam ser bastante honestos consigo principalmente depois que descobriu ser adotado. Yerim não falou coisa alguma sobre, apenas aproximou-se mais um pouco de si, deixou uma mão sobre sua coxa e encostou o queixo sobre seu ombro só para começar a sussurrar coisas no seu ouvido.
— Meus pais não vão estar em casa hoje. — era um convite, uma quase ordem, Kris sabia, contudo não sentia vontade de acatar quando sua mente ainda estava borbulhando com os acontecimentos de ontem.
Sentia-se um tanto esquisito, como se estivesse esquecido alguma coisa importante. Algo essencial. E mesmo que tivesse revisado os itens dentro da sua mochila mais de uma vez para ter certeza de que não esquecera nada, a sensação ainda estava ali, martelando no seu pensamento de uma forma que começava a deixa-lo irritado.
— E-eu não... — gaguejou quando sentiu a mão dela subir por sua coxa, parar perto da virilha. Yerim riu, baixinho, o ar quente da sua risadinha alcançou sua pele e Kris arrepiou-se inteiro.
Não era difícil reagir a ela. Yerim era incisiva, precisa como um bisturi a cada vez que se concentrava em provoca-lo, parecia ter aprendido o caminho para desconcerta-lo, deixa-lo rendido em tão pouco tempo enquanto Kris ainda se embaralhava com a forma como seus gostos mudavam tão rápido, às vezes, tinha a impressão de que não passava de um experimento nas mãos dela. Algo que ela moldava só para testar novos prazeres e então, utilizar seus conhecimentos com outras pessoas, pois bem tinha escutado os boatos pela escola, a amizade esquisita que ela mantia com Irene, os cochichos ao pé do ouvido com Mark.
Ela riu mais um pouco, provocante o suficiente para fazê-lo ceder. O sinal do colégio tocou dando fim ao intervalo, Yerim afastou a mão de si com um sorriso ainda na boca. Deixou um beijo no canto da sua boca e a certeza de que se veriam no fim das aulas. Kris ficou de pé, devolveu a bandeja ao lugar depois de despejar o resto da comida no lixo. Seguiu para a aula, conversou com outros colegas de classe, respondeu as questões da matéria e ainda deu o seu melhor na aula de educação física. O dia havia sido incrivelmente normal fazendo com que se sentisse do mesmo jeito. Encontrou Yerim no fim do dia e juntos seguiram para a casa dela.
Como esperado, a casa estava vazia. Yerim entrou primeiro e Kris a seguiu até o quarto. A garota largou a mochila perto da porta enquanto Kris fazia reconhecimento do local como se nunca estivesse estado ali, ela quase riu diante da forma pensativa com que o ele observava as fotos pregadas na parede do seu quarto. Haviam fotos suas ali, eles juntos ou apenas Kris. Encontrou fotos em demasia da namorada com Irene e uma solitária de Mark, sozinho olhando para o nada. Havia sido pego desprevenido, constatou.
— Quer comer alguma coisa? Podemos pedir uma pizza. — ela retirou o blazer do uniforme, largou sobre a cama e começou a desabotoar a camisa branca.
Kris fitou-a de canto de olho, andou até a cama e sentou-se na ponta.
— Não estou com fome. — respondeu e ela assentiu antes de ir até o guarda-roupa, pegar uma muda de roupa e ir para o banheiro.
Kris jogou-se na cama, a mochila nas costas incomodou e por isso voltou a ficar sentado, tirou-a das costas, deixou no pé da cama. Teria voltado a se deitar se o celular não tivesse tocado novamente. Era o alarme. Desligou-o e procurou o frasco de pílulas que tomava desde quando era criança. Estabilizadores de humor. Duas pílulas por dia para não surtar como um maluco, pensou, enquanto as engolia. Só assim para se manter na linha.
Voltou a se jogar na cama, fitou o teto cor-de-rosa do quarto e suspirou. Ao fundo conseguia escutar o som da água do chuveiro contra o chão, a voz de Yerim cantarolando alguma canção baixinho, o cheiro de sabão de camomila e se ele se concentrasse mais um pouco, conseguiria sentir o cheiro da grama recém-cortada do lado de fora. Era como um superpoder, dizia a si mesmo desde criança. Conseguia perceber detalhes que nenhuma outra pessoa podia, sentia coisas no seu interior, como um instinto. Tentara explicar aquilo para o pai algum tempo atrás assim como tentara falar para a psiquiatra responsável por seu tratamento, mas nenhum dos dois o levou a sério.
— Hey. — a namorada apressou-se em sua direção, subiu sobre si tão rápido que Kris se assustou apenas para tê-la rindo de si no minuto seguinte. — Não durma. — ela pediu, a voz baixinha cheia de uma delicadeza que ele raramente via nela.
— Eu só fechei os olhos. — disse e Yerim incrivelmente deitou a cabeça sobre seu peito, os cabelos vermelhos estavam molhados mas Kris não se incomodou em enfiar os dedos ali, também não reclamou da camisa que ela encharcava, em parte porque era bom ter Yerim daquela forma, sem sexo ou a intensidade que ela insistia em jogar para cima de si e depois de ontem, tudo o que Kris queria era algo para segurar.
Ele tinha ela.
A mão livre pousou sobre sua cintura por cima do tecido da toalha. Ela não havia se trocado ainda. Ficaram por bastante tempo daquela forma até a garota decidir que havia sido melosa o suficiente naquele dia. Kris quis rir da forma como o seu semblante mudou rapidamente, mas limitou-se a deixa-la se trocar. Às vezes, achava que ele e Yerim eram mais amigos que namorados e pensava em usar isso como justificativa para o término, mas sempre abandonava a ideia rápido. Não tinha coragem de terminar.
— Você parece tão pensativo hoje. — Yerim disse e Kris balançou a cabeça, não queria entrar naquele assunto.
Apanhou sua mochila e decidiu que era melhor ir embora, mesmo se quisesse, não conseguia entrar no clima para ter uma noite romântica com Yerim. E a garota percebendo que seria abandonada colocou-se em frente a porta do quarto.
— Não estou no clima hoje. — confessou e ela fitou-o, um tanto desconfiada, queria saber o que se passava consigo mas nem mesmo Kris sabia o que acontecia. — Vamos remarcar, ok? — ele se aproximou e deixou um beijo na sua testa, afastou-a com delicadeza da porta e então, saiu sem esperar qualquer resposta, em parte porque sabia que não teria e quando olhou para trás, viu-a com os braços cruzados e o rosto emburrado na sua direção.
Yerim era bonita, inteligente e imprevisível. E talvez, fosse por isso que não se sentia seguro ao seu lado, era sempre difícil acompanha-la, o fazia ter medo de se perder no caminho e para o bem da verdade, achava que já tinha se perdido. Ele avançou pela casa até encontrar a saída. Quando do lado de fora, encarou o céu que se fechava para dar lugar a noite e a rua parcialmente movimentada.
A garota não morava tão longe da sua casa, por isso, conseguia voltar andando. Enfiou as mãos no bolso do casaco e suspendeu o capuz para esconder as orelhas do vento frio, atravessou a rua e começou a andar. Não olhou para trás, pois sabia que encontraria a figura contrariada de Yerim na janela do seu quarto. Limitou-se a continuar seu caminho, era o melhor a se fazer. Eventualmente, ela se acalmaria em algum momento e também, não era como se ela fosse realmente ficar sozinha. Era só uma questão de tempo até que ligasse para alguma amiga ou amigo.
Suspirou.
Vez ou outra, se pegava odiando cada uma das amizades da namorada. Desejava tanto manter a atenção dela somente nele que sequer reconhecia o sentimento de posse no seu interior. Vinha tão forte, que assustava. Mas tentava não pensar nisso, sabia que quanto mais imerso naqueles sentimentos ficasse, mais difícil era de sair. Os reguladores de humor que tomava faziam a sensação desaparecer por um tempo, mas também o deixavam aéreo demais. Era sempre complicado prestar atenção nas aulas durante o dia, por isso, tinha diminuído a dosagem por conta própria. Sabia que não era a melhor coisa a se fazer e que se seus pais descobrissem, poderia ficar de castigo pelo resto da vida, mas também sabia que estava cansado de ser Kris, o bobão; aquele que sempre estava com a cabeça nas nuvens. Queria os pés no chão ao menos uma vez.
Contudo, ficar preso ao chão o fazia lembrar do garoto no beco, da pele dele contra seus lábios, do rugido que habitou seu peito. Kris fechou as mãos em punho e respirou fundo. Pensar naquilo era o pior a se fazer, não ajudaria no seu humor. Passou por um ponto de ônibus e pegou alguns olhares na sua direção, sentiu que seus passos estavam sendo vigiados, mas aquilo era loucura. Ninguém sabia o que tinha feito. Uma mulher esbarrou no seu ombro, Kris a encarou por tempo suficiente para que ela se afastasse assustada e continuou seu caminho.
Quando chegou em casa, percebeu que sua mãe havia voltado cedo do trabalho. A cozinha estava cheirando a temperos diversos quando passou por lá e um pequeno sorriso apareceu no seu rosto. Ele encostou-se na entrada da cozinha, a mulher lá dentro estava em frente ao fogão cozinhando. Quando ela o notou, sorriu na sua direção.
— Como foi a escola? — Kris se aproximou e passou os braços pela cintura da mãe.
Ele era mais alto que ela, também era mais alto que o pai e qualquer um da sua família. Era um fato engraçado que sempre arrancava alguns sorrisos nos jantares de família no fim de ano.
— Foi bom. — respondeu.
A mãe continuava mexendo nas panelas, meio sorrindo. Kris era feliz com os pais mesmo que não sentisse que se encaixava ali. Os dois pareciam tão normais, nenhum deles precisava frequentar um psiquiatra ou fazer terapia. A mãe tomava remédios para dormir, às vezes, mas isso não era nada grave. Kris era a bomba relógio da família.
— Perfume novo? — a mãe tirou-o dos pensamentos.
Kris soltou sua cintura e a encarou, sobrancelhas franzidas em confusão.
— Esse cheiro. — ela tentou mais um pouco. — O cheiro que está vindo de você, é de algum perfume novo?
O garoto encarou suas roupas, aproximou o nariz do seu pulso e franzio mais um pouco as sobrancelhas. Ele podia sentir o cheiro, forte. Vinha direto da sua pele, como se ele tivesse se banhado em perfume dos pés a cabeça, mas Kris lembrava-se de não ter usado nada no corpo além do desodorante. Aquele cheiro não era seu, mas quanto mais mantia o nariz na sua própria pele mais se dava conta de que já havia sentido aquela fragrância antes. Era o cheiro que tinha limpado da sua pele na noite anterior. Era o cheiro do garoto no beco.
— É... acho que sim. — ele sussurrou, um tanto assustado.
A mãe estava concentrada demais na comida para notar seu torpor, por isso, quando ele se afastou com olhos arregalados de medo, ela não achou estranho. Kris correu direto para o quarto. Arrancou as roupas do corpo, passou a ponta do nariz pelas partes do seu corpo que alcançava, farejou a si mesmo como um predador. Aquilo era loucura, pensou. Havia lavado qualquer rastro do garoto do seu corpo. Sabia que aquilo não era imaginação sua porque a mãe havia sentido o mesmo cheiro, então, o que estava acontecendo? Ele correu para dentro banheiro e passou mais de meia-hora embaixo do chuveiro.
Naquela noite, ele teve pesadelos com olhos violeta.
***
Os dias continuavam passando por Kris como se ele não passasse de um mero espectador. Havia voltado a tomar as doses corretas do medicamento, então sentia suas emoções embaralhadas e comprimidas bem no interior de si. Durante o dia, sentia-se como um pedaço de poeira, pairando e sendo levado pelo vento. Yerim estava acostumada com seu jeito distraído de ser, então parecia ser a única pessoa não afetada. Os professores, por outro lado, não eram tão compreensivos, exigiam demais da sua mente confusa. Mas mesmo Kris não entendia porque estava tão afetado.
Tomara aqueles remédios durante a vida inteira, seu corpo já deveria estar acostumado. Mas as doses o estavam deixando letárgico como se fosse a primeira vez que tomava. Pensou em falar sobre aquilo com a psiquiatra, mas abandonou a ideia quando percebeu que teria que contar sobre como havia cortado as doses pela metade. Eventualmente, ele se acostumaria com tudo outra vez, pensava.
Mas o costume nunca vinha, o que vinha era uma inquietação. Brotava no interior do seu peito e se alastrava pelo resto do corpo como erva-daninha. Kris não entendia o que era e nem porque estava ali, só tentava empurrar aquilo tudo para longe de si. Não queria pensar ou falar sobre. Queria que tudo voltasse a ser como antes, todavia, no fundo, sabia que não tinha como. Já estava estragado. Não, amaldiçoado.
O remédio perdeu seu efeito aos poucos para total desespero do garoto. Tentara aumentar as doses, mas quando percebeu que não fazia diferença, só se deixou afundar em desespero. O cheiro continuava na sua pele, as lembranças pareciam mais vivas e seu temperamento se tornava mais e mais imprevisível com o passar dos dias. Era uma questão de tempo, Kris sabia. Era uma questão de tempo antes que explodisse.
O estopim, no entanto, veio de em forma de febre. A doença se arrastou para cima de si em uma segunda-feira chuvosa e o fez ficar de cama pelo resto da semana. Os pais o levaram ao médico, mas os remédios passados não fizeram efeito no seu corpo. Depois de alguns exames, os médicos chegaram a conclusão de que Kris estava sofrendo de algum tipo de febre emocional. Era a única explicação que eles tinham, mas aquilo não deixou seus pais felizes. Na verdade, também não deixou Kris feliz, porque isso significava que a hora de contar sobre o garoto no beco estava mais próxima.
A febre durou mais dias do que imaginava e vinha sempre acompanhada de pesadelos que o faziam gritar tarde da noite e deixar seus pais preocupados. Yerim veio o visitar em algum momento, mas Kris se sentia tão aéreo por conta dos medicamentos, que sequer notou a presença dela. Na verdade, ele havia sentido o seu cheiro mas parecia tão distante que achou que havia sonhado. Ela voltou em outros dias, quando ele estava mais sóbrio e dissertou sobre como a escola andava chata sem sua presença e sobre como algumas pessoas sentiam sua falta. Kris sabia que era mentira, porque ele não tinha amigos exatamente. Ele tinha Yerim e Yerim tinha amigos, pessoas com quem ele costumava se encontrar e rir. Eles eram mais próximos dela do que dele, mas se forçou a acreditar nela mesmo assim.
Duas semanas depois da última visita dela, Kris sentiu que estava piorando. A febre havia abrandado, mas o seu interior se revirava inteiro a cada passo que dava. O médico foi chamado novamente, mas nada foi encontrado no seu corpo que explicasse o que estava acontecendo. Era um problema psicológico?, Kris se perguntava, estava enlouquecendo?
***
— Kris? — escutou seu nome ser chamado e virou o rosto em direção a voz.
Yerim estava olhando-o com uma sobrancelha arqueada, o rosto todo contorcido em preocupação. Kris não gostava do jeito como ela parecia vulnerável ao seu lado, tão menor que si que. Ele gostava quando ela era atrevida e animada, mas sabia que a garota estava passando por sua própria auto-recuperação, afinal havia sido difícil para ela ver o namorado reduzido a uma cama de hospital, sem que ninguém soubesse a real causa disso. Seus pais também estavam passando pelo mesmo processo, sua mãe havia se tornado mais protetora e seu pai mais presente. Agora eles jantavam juntos todas as noites e conversavam sobre o dia a dia. Era legal, acolhedor de uma forma que Kris costumava sentir falta. Contudo, não conseguia parar de pensar no quanto essa situação só ocorrera por conta da sua doença misteriosa.
— Sim? — ele meio sussurrou e a garota encostou o ombro no seu.
— Eu estava falando sobre a festa na casa de Sunoh. — ela explicou suavemente e Kris já podia imaginar o que vinha em seguida. — Nós vamos, não é?
Não, pensou mas a palavra ficou travada na garganta. Era o jeito esperançoso com que a namorada olhava para si que fazia Kris hesitar. Ela quase nunca usava aquele olhar, aqueles toques ou encostava em si daquela maneira. Yerim não costumava ser carinhosa, tudo que vinha dela costumava ser envolto em malícia. Kris achava estranho, mas não questionava. Na verdade, se sentia meio culpado. Todo aquele tempo doente havia assustado todo mundo que conhecia. No entanto, ele estava sob controle agora, os sintomas haviam regredido junto com o cheiro na sua pele. Ninguém mais falava sobre como seu cheiro era estranho, sobre a cor dos seus olhos ou sobre o tamanho das suas unhas. Todos agiam como se ele fosse o bom e velho Kris, mas ele sabia mais. A inquietação presente no seu peito o lembrava constantemente do quanto havia mudado.
— Claro. — se escutou concordar, mesmo que sentisse que aquilo era uma má ideia.
Yerim sorriu mais brilhante, encostou o queixo no seu ombro e o fitou daquele jeito que fazia Kris saber que ela queria um beijo. Contudo, quando ele se aproximou para dá-lo, sentiu um repuxar na boca do estômago. O cheiro que vinha dela o deixou enjoado tão rápido, que deve ter ficado estampado no seu rosto pois Yerim franzio o cenho e se afastou, confusa.
— Tudo bem? — a sua voz estava escorregadia em preocupação.
O garoto balançou a cabeça em afirmação, não queria preocupa-la e consequentemente, preocupar qualquer na mesa em que estavam. Ele ergueu o rosto e fitou seus colegas de classe — todos mais amigos de Yerim do que dele — e sorriu. A mesa pareceu voltar ao normal, quando todos voltaram a conversar. Kris queria continuasse assim. Aquelas coisas que sentia não devia ser nada, devia ser só o efeito colateral dos remédios que tomava.
O sinal do fim do intervalo tocou, Yerim se despediu de si e Kris voltou para a sala de aula com algumas das pessoas que estavam na mesa consigo. O professor não demorou a aparecer na sala de aula, Kris tentou prestar atenção no que o homem falava, mas tudo o que havia na sua mente era a lembrança do cheiro de Yerim. Ele conseguiu sentir o cheiro do seu shampoo, do creme de pele e do perfume, tudo isso formava uma mistura indigesta, avisava algo dentro de si de que aquilo não estava certo. Não sabia de onde vinha a certeza, mas alguma coisa... alguma coisa rugia no seu interior.
Não achava que era sua consciência, era algo diferente. Kris conhecia seus pensamentos, conhecia sua consciência, mas não conhecia aquele rugido, aquilo que se espalhava no seu interior um pouco mais a cada dia desde que se recuperou da sua doença. O que havia no seu interior era mais primitivo, era pesado e bravo. Era o pedaço seu que havia tomado a dianteira no dia que encontrou o garoto no beco. Isso o assustava.
Balançou a cabeça, estava decidido a afastar aqueles pensamentos. Quanto mais tempo perdesse dando importância aquilo, mais aquela força misteriosa poderia ganhar espaço dentro de si. O melhor a se fazer era reprimir, reprimir as lembranças e ignorar toda a estranheza dos fatos que agora o acompanhavam. Se empenhou em prestar atenção somente nas aulas naquele dia e quando Yerim apareceu na porta da sua sala e se convidou para ir para a sua casa, Kris não resistiu. Ele podia ignorar o cheiro azedo da sua pele e sua aversão patética.
Ela falou durante o caminho inteiro, nunca havia sido tão tagarela mas Kris não achava ruim. Ao menos daquela forma, ele podia fingir que estava tudo bem. Yerim segurou sua mão também, dedos delicados e pequenos enlaçados nos seus. Ela tinha a palma macia com unhas bem pintadas de preto e azul. Não gostava de usar uma cor só, tinha mania de misturar cores nas unhas. Combinava com a sua personalidade tão imprevisível. Kris gostava. Na verdade, ele gostava dela como um todo. Yerim era única. A única que amava e desejava, mas por que se sentia tão errado tendo esses sentimentos? O que estava acontecendo consigo?
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Dois anos depois
A mão parou sobre seus cabelos e afagou-lhe o topo da cabeça, espalhando os fios escuros para os lados. Henry fechou os olhos por um segundo enquanto deixava um sorriso brotar nos seus lábios, as mãos relaxaram no aperto que mantia nas facas. Uma em cada mão. A mão que o afagava se afastou e parou no ombro do seu companheiro, um carinho sutil foi deixado ali. Henry sorriu para o ômega ao seu lado, satisfeito com seu desempenho e o desempenho do amigo, Minseok sorriu de volta.
A instrutora terminou a sua sessão de afagos nos alunos que tinham se saído bem no exercício e se prostrou na frente da fila horizontal. Todos os alunos ômegas endireitaram a postura, aqueles que não receberam nenhum afago fizeram o seu melhor para esconder a expressão triste. Minseok, ao seu lado, enfiou as facas que segurava no suporte que existia na sua calça, preso na coxa. Henry pensou em fazer o mesmo, mas gostava da sensação de segurar alguma coisa, então decidiu manter as facas onde estavam, limitou-se a colocar as mãos para trás do mesmo jeito que todos os ômegas fizeram. Peito e queixo para frente.
— Estão dispensados. — ela disse e todos relaxaram a postura.
Henry viu a ponta da fila do lado esquerdo começar a se dispersar, Minseok bateu no seu ombro com a ponta dos dedos. Os óculos dele estavam embaçados e as bochechas se destacavam no sorriso que ele lhe oferecia, Henry sorriu de volta enquanto se inclinava para guardar as facas no suporte das suas calças. A instrutora seguiu até sua mesa e começou a arrumar a mochila, Henry sabia que ela seria a última a sair da sala. Minseok enlaçou o braço no seu e o puxou em direção a saída.
Eles tinham uma hora antes do treinamento da noite, o último do dia e então, seriam dispensados para fazer as lições escolares e mais tarde, seriam liberados para ir ao dormitório, onde dormiriam até as 5h quando a primeira aula do dia seguinte começaria. Henry, particularmente, preferia as quintas, onde a última aula do dia era economia doméstica e eles precisavam apenas se preocupar em não furar o dedo com a agulha ou não colocar sal demais na comida.
— Preciso comer alguma coisa antes da última aula. — Henry disse e seguiu direto para o refeitório, Minseok disse que iria direto para o dormitório apanhar os livros para devolve-los a biblioteca antes que perdesse o prazo e levasse outra advertência.
Henry assentiu. Eles combinaram de se encontrar no vestiário quando estivessem trocando de roupa para a última aula. Ele passou pela entrada do refeitório e viu algumas mesas cheias, levantou o braço e conferiu o horário no relógio. Coincidentemente, estava no horário da janta das turmas dos veteranos. Não era uma surpresa, afinal, sabia que os veteranos costumavam ter menos aulas. Depois que completavam dois anos ali, era comum que eles recebessem permissão para escolher a aulas extras que queriam frequentar quando as aulas escolares eram as únicas obrigatórias. Coisa que Henry achava um porre, afinal teria que aguentar geografia pelo resto dos seus ali.
Seguiu direto para a fila e se serviu de uma porção de kimchi e sopa de cogumelos. Andou silenciosamente até uma mesa vazia, ao longe, fingiu não notar o irmão Lu Han em uma mesa cheia com seus companheiros veteranos. Lu Han também não olhou na sua direção, ele nunca olhava e Henry não culpava-o, pois sabia bem que como novato naquela academia tinha que trilhar seu próprio caminho e não podia fazer isso se estivesse na sombra do irmão.
O ômega comeu sozinho e quando levantou-se para ir embora, notou que a mesa do irmão estava vazia. Suspirou. Apesar de tudo, ele sentia falta de Lu Han, o tratamento frio que reservavam um ao outro quando estavam no território da Academia era totalmente esquecido quando iam para casa nas férias. Eles nunca falavam sobre o que acontecia ali, fingiam que não se ignoravam durante o resto do ano e formavam a dupla de irmãos que todos conheciam na aldeia Lu. Seu pai ficava orgulhoso dos dois e no fim da noite, era sempre isso que importava.
O vestiário estava parcialmente cheio quando entrou. Minseok já estava ali, sem camisa em frente ao seu armário e desafivelando o cinto com o coldre da cintura. Henry juntou-se a ele, mas tirou primeiro as botas.
— Como estava a comida? — Minseok perguntou.
— Sem sal. — Henry balançou a cabeça como quem não se importa e o Kim ajeitou os óculos no rosto.
Eles não tomariam banho ainda, pois a última aula exigia esforço físico. E não fazia sentido ficar limpo apenas para se sujar novamente. Henry tirou a calça e a camisa depois de tirar o coldre. Ele colocou o coldre com as facas dentro do armário de metal e apanhou as roupas separadas para a aula. Era um macacão justo com mangas e calça curta, precisou de Minseok para fechar o zíper nas costas. E quando o Kim estava sentado terminando de calçar os tênis, a porta do vestiário se abriu e mais um grupo de ômegas entrou. Era Junghwa e seu grupo.
Choi Junghwa era uma ômega especialmente difícil de se lidar e tão bem nascida quanto qualquer outro ali, mas por conta do trabalho do seu clã, ela ainda se achava melhor que todos os outros. Henry a achava particularmente irritante, mas não negava que tinha talento e que com bastante trabalho duro, podia vir a se tornar uma ômega de elite — ômega negro. Por enquanto, no entanto, ele se contentava em evitar sua presença e revirar os olhos para cada coisa que escutava da sua boca.
A garota estava rindo acompanhada de mais dois ômegas. Um garoto de cabelo vermelho que Henry conhecia como Choi Jungkil — gêmeo de Junghwa — e o garoto esquelético sem berço chamado Oh Chaerik. Os três não ofereciam realmente uma ameaça aos outros alunos, eles eram apenas irritantes e irritação não matava ninguém, pelo menos Henry achava que não. O Lu sentiu o ombro esquerdo latejar e ergueu a mão em direção ao local, as pontas dos dedos encontraram a cicatriz desbotada na pele. Ele ficou de pé e foi até seu armário, apanhou um frasquinho dentre suas roupas e engoliu um comprimido branco. Um supressor.
Desde que havia sido marcado a força aos 14 anos de idade, Henry havia sido obrigado a tomar supressores para diminuir o efeito da marca e deixar seu lobo quieto. Não era realmente eficaz, mas era tudo o que tinha, por enquanto. Alguns dias atrás havia recebido a noticia de um novo supressor, uma dose feita especialmente para o seu caso. Henry não gostava de pensar em si mesmo como um ratinho de laboratório, mas sabia que era exatamente isso. O que o consolava era saber que os estudos que faziam em si poderiam servir para salvar outro pobre ômega na sua situação, afinal aquele tipo de violência era mais comum do que parecia.
— O que vocês acham que a professora Bae vai aprontar hoje? — Junghwa aproximou-se e sentou-se entre Henry e Minseok.
O ômega Kim arrumou a armação no rosto depois que terminou de colocar os tênis e encarou a garota. Ela usava uma aliança no dedo anelar da mão direita, aquilo não estava ali antes — Minseok pensou e franzio o cenho. A garota notou para onde ele estava olhando e lançou um sorriso conspiratório para o outro antes de erguer a mão para frente, admirando o anel. Henry deu uma leve espiada no anel e revirou os olhos, da porta, Jungkil fez o mesmo, aparentemente nem ele era imune a chatice da irmã gêmea. Apenas Chaerik parecia maravilhado.
— Você gosta? — Junghwa perguntou, a voz suave em superioridade. — Chegou hoje. Ao que parece meu pai já decidiu quem é meu pretendente e como vou ser classificada como ômega vermelha, o conselho da Organização não viu razão para barrar a decisão da minha família.
— Mentira. — Henry se meteu. — A Organização não pode revelar seu cargo até o dia da formatura, é contra as regras.
— Eu sou um caso especial, minha alcateia é uma importante contribuinte para os negócios da Organização.
— Pff. — desdenhou mais um pouco. — Isso menos explica como você foi aceita aqui.
Minseok sufocou uma risadinha, mas Junghwa notou mesmo assim. O rosto dela estava tão vermelho que o ômega achou que ela fosse explodir.
— Está dizendo isso por inveja, afinal eu ainda posso ter um casamento, diferente de você. — ela devolveu e Henry engoliu em seco, a marca desbotada no ombro latejou como que para provar sua posição de ponto fraco.
Lu Henry não precisava que dissessem a si o quanto era defeituoso, o quanto estava perdendo seu tempo treinando dia após dia naquela academia quando nunca ia chegar no nível de nenhum deles, mas Henry tinha decidido seguir em frente apesar da marca. Ele era um Lu e um lobo Lu não se deixava abater por qualquer coisa, além do mais Han estava cada vez mais perto de se tornar líder do clã então precisaria de ajuda, de alguém de confiança por perto. Era por ele que Henry ainda estava ali, era para sua família que tinha que se provar e não para Junghwa e seu ridículo noivado.
— Ômegas negros não casam. — surpreendentemente foi Minseok quem falou.
Todos olharam na direção do seu amigo e Henry lançou um pequeno sorrisinho em agradecimento na sua direção. Minseok era seu único amigo naquela academia, ambos vieram de lugares e vidas diferentes, mas acabaram percebendo que tinham bastante coisa em comum, uma delas era o dever de precisar se provar. Até onde sabia o Kim era o segundo na linha de sucessão da sua alcateia, mas por ser ômega, era óbvio, que seu pai o casaria com qualquer outra pessoa afinal o irmão mais velho de Minseok era a pessoa perfeita para o cargo, ou seja, um alfa. Mas se algo acontecesse com o irmão, Minseok precisava estar pronto.
— Só pode estar de brincadeira se acha que esse Lu vai se tornar um ômega negro. — as narinas dela abriram e fecharam em irritação.
Minseok deu de ombros.
— Ele esta entre os melhores da nossa turma, os instrutores estão sempre de olho nele, por que ele não se tornaria um ômega negro?
Jungkil trocou o peso de um pé sobre o outro, de repente, ele parecia envergonhado pela irmã. Minseok não tinha nada contra ele, em parte porque Jungkil não costumava se meter com ninguém. Era um ômega bem reservado e que andava demais com as pessoas erradas.
Acabou sendo a risada de Byun Jiwoo que impediu que Junghwa gastasse seus neurônios pensando em uma resposta. Todos encararam o ômega que terminava de se vestir em frente ao seu armário aberto. Ao seu lado, Oh Chaerik o fitou completamente descrente, como se Jiwoo tivesse enlouquecido.
— Vocês são idiotas por se preocuparem com classificações tão cedo. — ele disse, finalmente e todos pareceram se encolher diante do seu olhar acusatório. — E além do mais, vocês, filhinhos de papai, — encarou Minseok, Junghwa e Jungkil. — deveriam se preocupar em sair daqui vivos, afinal nem todo o dinheiro do mundo vai servir para fazê-los passar na prova final se não forem realmente bons.
Ele fechou o armário e caminhou em direção a saída, tão calmo como sempre era. Henry o observou ir e soltou o ar que segurava quando o teve fora do vestiário. Jiwoo não era o tipo de ômega que alguém gostaria de mexer, ao contrário da maioria que tinha um porte padrão para os moldes da terceira classe, Jiwoo era alto e musculoso como um alfa. Se não fosse pelo cheiro doce que exalava, Henry bem poderia confundi-lo com tal.
— A prova final não pode ser tudo isso. — Junghwa disse, mas mesmo ela parecia incerta. — Eles não podem nos machucar de verdade, não é?
Minseok encarou suas mãos e suspirou, ficou de pé. Estava ali a pouco tempo, mas já havia entendido que a Organização não escolhia qualquer ômega para fazer parte do seu círculo, escolhiam os mais fortes, os mais espertos, os mais aptos para todos os tipos de missões. Era por isso que eles eram classificados em três cores: preto, vermelho e verde. Eles eram classificados de acordo com as atividades que mais se destacavam e no silêncio da noite, Minseok se perguntava se seria tão ruim assim ser um ômega negro, pois mesmo que os conselheiros não falassem abertamente sobre isso, era óbvio que alguns alunos já estavam sendo cogitados para alguma classe especifica.
Ele via como era olhado e empurrado em direção a certas atividades, Henry o acompanhava e por isso, Minseok acreditou que ambos estavam no mesmo barco. Era altamente provável que ambos se tornassem ômegas de elite, mas ainda havia um longo caminho para percorrer até lá. O Kim lançou um olhar para Henry enquanto seguia até a saída do vestiário, estava na hora da aula.
O Lu o seguiu, deixando para trás Junghwa e sua turma pensativos.
***
O sol deu lugar a lua, em pé no seu posto, Henry mantia a postura. Naquela semana, ele havia sido um dos classificados para patrulhar o perímetro de um acampamento ômega em missão. Ele não fazia parte da missão, suas ordens eram apenas as de servir como suporte. Jungkil também estava ali, mas seu posto não era na vigília, o Choi serviria como apoio tecnológico, o que ao ver de Henry, parecia ser a coisa certa para o gêmeo de Junghwa. Combinava com sua personalidade mais contida.
Jiwoo e Minseok pareciam ser a dupla da turma que tinha tirado a sorte grande. Ambos haviam sido designados para o combate. Eles acompanhariam os ômegas seniores na captura de lobos rebeldes, não participariam diretamente, pois assim como Henry, Jiwoo e Minseok eram apenas para suporte e Henry duvidava que ômegas formados precisassem de suporte naquela captura. Mas ainda assim o Kim e o Byun eram sortudos, afinal poderiam acompanhar tudo de perto.
Contudo, Henry tentava se consolar com a ideia de que ainda poderia escoltar os prisioneiros para o avião que os levaria de volta para a França. Seriam 8h de viagem de volta, quase o mesmo tempo que demoraram para chegar ali, em Chicago. Henry teria 8h para olhar na cara de todos aqueles prisioneiros e se sentir um pouquinho superior. Ele não costumava ser esse tipo de pessoa, mas de vez em quando não conseguia evitar massagear seu ego.
— Esse posto te faz tão feliz assim? — Jungkil o tirou dos pensamentos.
Henry o fitou, confuso e surpreso pela intrusão repentina. O outro ômega encostou-se na parede de tijolos ao seu lado, um cigarro aceso na mão, pronto para encontrar a boca.
— O que?
— Você estava sorrindo. — apontou com o queixo para o seu rosto como se o sorriso ainda estivesse na face do Lu, mas não estava.
Henry piscou os olhos.
— Eu só estava tendo alguns pensamentos. — disse, por fim.
— A cerca da missão? — Jungkil deu um trago no cigarro e ofereceu a Henry, mas ele negou.
— Bem, sim. É legal estar aqui, de qualquer forma. — confessou, mas Jungkil sabia ler melhor as entrelinhas.
— Você queria estar no combate. — não era uma pergunta, mas mesmo assim o ômega deixou os ombros baixarem como se tivesse sido pego em flagrante. — Se te consola, eu o teria escalado para o combate também.
Henry o fitou, olhos castanhos brilhando em uma diversão estranha. As pessoas na academia não costumavam leva-lo à sério, era por isso que Henry precisava se esforçar o dobro em cada prova, em cada atividade, em qualquer coisa. Ele queria ser visto como uma opção. Estar ali era bom, era a recompensa para o esforço, mas ainda não o satisfazia. Precisava se esforçar mais para fazer parte da equipe de combate, só assim estaria satisfeito consigo mesmo e deixaria seu pai satisfeito.
— Você é o melhor da turma junto com Minseok. — a fumaça saiu por entre seus lábios pálidos, naquela meia luz da rua, Jungkil parecia com frio. — Teria sido a escolha certa manter vocês como uma dupla para essa missão. Impressionaria alguns seniores.
— Mas alguém ainda pode se impressionar com ele. — Henry pontuou, não havia nenhuma mágoa ou inveja na sua voz apesar da forma que Jungkil o fitou.
O Choi tragou mais do cigarro, soprou a fumaça para longe e chutou uma pedrinha para longe com a ponta do tênis. Henry o observou pensar em silêncio, ficou curioso mas não perguntou nada. Algumas coisas não precisavam ser ditas, no fim das contas.
— E como está o trabalho lá dentro? — decidiu mudar de assunto.
— Bom. Fácil. — tragou uma última vez o cigarro e o jogou no chão, pisou sobre ele para apaga-lo. — Eles chamam isso aqui de a Caça e chamam a si mesmo de Caçadores. — Jungkil riu e Henry acompanhou. — Você acha que chegaremos nisso algum dia?
O Lu suspirou, enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e encarou o movimento na rua. Chicago era mais agitada do que Lyon, mais iluminada também. Fazia-o lembrar da China, do centro das grandes metrópoles. Por um segundo, ele sentiu falta de Jongin e do pai e de Han.
— Estamos estudando pra isso, não é? — ele tornou a fitar o rosto do companheiro de classe e Jungkil balançou a cabeça, como se não tivesse certeza disso. — Escuta, — Henry molhou os lábios, de repente nervoso para falar. — não é ruim do jeito que parece. Todos nós fomos escolhidos por um motivo, sabe. Ser escolhido pela Organização é um privilegio, você devia se sentir grato por não ser um ômega comum, afinal, estamos contribuindo para um mundo melhor.
Jungkil endureceu o queixo e olhou para frente, na escuridão da noite, os olhos dele pareciam mais escuros e terrivelmente tristes. Henry não entendia porque o outro hesitava, porque alguns da sua turma ainda pareciam tão perdidos. Eles estavam perto de completar um ano ali, um ano inteiro treinando, absorvendo conhecimento, se tornando mais fortes do que qualquer alfa. No mundo real, ninguém iria mais subjuga-los, ninguém poderia intimida-los. A Organização os preparava para o mundo, para ser tão fortes quanto qualquer pessoa, seja ela lobo ou não. Então, por que hesitar? Por que ficar desconfiado com todo o potencial que estava sendo destravado?
— É só... — a língua passou por cima dos lábios rachados de frio, o gosto da menta do cigarro ainda estava na boca, tornando-se amarga a cada segundo. — você não sente como se estivesse perdendo uma parte sua? Para cada coisa que se recebe da Organização, é preciso dar algo em troca. — Jungkil não o fitou, manteve os olhos nos carros que cruzavam a rua.
Henry encarou seu perfil, o peito subiu e desceu e a respiração se condensou na sua frente. Eles estavam no meio do inverno em Chicago, no meio de uma noite de inverno caçando lobos desgarrados — aqueles que não tinham um clã, os que feriam humanos, os descontrolados. Um lobo desgarrado era perigoso por vários motivos, o principal deles era o descontrole, principalmente depois da Grande Guerra quando alguns filhotes foram perdidos entre crianças humanas. Um lobo que crescia entre humanos sem saber sua verdadeira natureza, podia se tornar uma fera sanguinária. Era por isso que aquela missão era necessária. Eles precisavam capturar e sacrificar os maus, para limpar a linhagem dos lobos, afinal nada de bom poderia vir de uma cria dessas feras.
De alguma forma, Henry acabou pensando nisso enquanto olhava para Jungkil. Ele se parecia com a irmã gêmea e também deveria se parecer com sua outra irmã, Junghye; a terceira gêmea e alfa do clã Choi. Ambos eram da mesma linhagem, mas os três pareciam estar tomando caminhos diferentes e ao contrário do que havia pensado no começo, não achava mais que Jungkil servia para aquele trabalho. A calma silenciosa com que se movia exalava insegurança e não poder, exalava medo. Jungkil estava com medo da Organização, do que podia se tornar se ficasse mais tempo ali sorvendo aquele ambiente. Tão diferente de Junghwa que parecia disposta a entregar tudo em prol da sua ganância em ser a melhor.
— Eu sinto como se estivesse fazendo a coisa certa. — falou, por fim e o Jungkil, finalmente, o fitou. — A Organização salvou meu clã, nos manteve vivos e escondidos enquanto as outras alcateias só pensavam na melhor maneira de nos usar. — o colega encolheu-se, sentindo-se culpado por ser um Choi. — Se eles quiserem uma parte minha, eu daria de bom grado e você deveria fazer o mesmo, se não quiser terminar sendo subjugado por qualquer alfa idiota. — praticamente cuspiu as palavras e Jungkil encolheu-se mais um pouco, o gosto de cigarro tinha desaparecido da boca e deixado para trás apenas o gosto de saliva.
— Choi! — uma voz feminina cortou o momento e Jungkil virou o rosto em direção a voz.
Da porta da van estacionada a alguns passos dos dois, uma mulher de cabelo vermelho se inclinava, os olhos sérios. Jungkil lançou um último olhar para Henry e se afastou para dentro da van, de volta ao seu trabalho. O Lu relaxou os ombros e suspirou, baixinho. O tremelique na boca do estômago estava o deixando impaciente, mas não queria focar nisso. Ele apanhou o frasco de compridos do bolso interno da jaqueta e engoliu uma pílula, era o suficiente para mante-lo estável durante a missão além de esconder seu cheiro. Esse era o lado bom de tomar supressores, eles escondiam os feromônios dos ômegas, deixava-os passar despercebidos entre humanos.
Encarou mais um pouco a rua movimentada e mordeu o lábio. As palavras de Jungkil ainda estavam no seu pensamento, rodando e rodando, fazendo espirais de tal forma que quase o deixaram com dor de cabeça. Ele nunca havia parado para pensar sobre aquilo, sobre o que dava para a Organização. Henry só estava pensando em se provar até ali, em ser a melhor opção de todas, mas agora começava a perceber que não era assim que funcionava. O que ele tinha a oferecer? O que o tornaria um Caçador?
Balançou a cabeça, afastou os pensamentos. Precisava se concentrar, não podia ficar distraído justo naquele momento. Respirou fundo e prometeu a si mesmo: seria um Caçador, não importava o que a Organização decidisse. Não deixaria ninguém subjuga-lo e como se discordasse, a marca no ombro latejou, mas Henry fingiu não sentir.
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