Mirrors
23 Reflection
Terminei de ler esse estranho, porém interessante diário e olhei para minha amiga que estava a minha frente me olhando com expectativa.
— Jane, tenho 3 dúvidas.
— Estou aqui para esclarecer todas suas dúvidas. – Se arrumou com dificuldade no sofá ao meu lado, como se uma de suas pernas de repente estivesse pesada de mais.
— Primeiro: Por que eu escrevi esse diário? Reconheço essa caligrafia, é a minha. Porém não me lembro de tê-lo escrito; Segundo: Por que o último capítulo está com sua caligrafia? E terceiro: Por que logo essa música triste do Pearl Jam? Eu não gosto dela, mesmo agitada é triste Jen.
— Maura. — Jane sentou mais próxima de mim e retirou o diário da minha mão o colocando sobre a mesa a nossa frente - Esse diário você o escreveu em seis meses, se chama Mirrors. – Bateu sobre a capa apontando o nome prateado — Os meses em que você passou na penitenciária de Boston, mais o tempo antes do... — a vi respirando fundo, parecia ser dolorido para ela a frase seguinte— O motivo pelo qual você não se lembra é o mesmo motivo pelo qual o último capítulo fui eu que escrevi.
Jane olhou para seus pés— Esse acidente aí descrito é mais que uma música, é real. Nós o sofremos e infelizmente ele deixou sequelas em nós duas.- Pegou minha mão que tremia um pouco, aquilo tudo era difícil demais para acreditar— Maur, qual a última coisa que você se lembra? O que fizemos ontem?
— Bom, ontem nós ficamos sabendo que iríamos para Vegas. – falei animada
— Amor, isso foi há onze anos atrás. – Jane sorriu sem graça e estranhei a forma como me chamou.
— Impossível!
— Não reparou essas mechas brancas em meu cabelo? Ou essas rugas que insistem em aparecer em volta do meu rosto? Mesmo eu usando um quilo de cicatricur por dia. Ninguém envelhece assim em um dia, certo?
— O que aconteceu então? – perguntei receosa, confiando naqueles olhos chocolates que me olhavam preocupados.
— Lembra aquele filme que você falou que era bobo e psicologicamente raro, quase improvável? Um que sempre que a Drew barrymoore dorme ela esquece das coisas?
—"Como a primeira vez". Lembro sim. Você me fez assistir 5 vezes porque adora o Andan Sandler. Ela não retém memórias recentes.
— Aconteceu conosco Maur. A vida imitou a arte. Hoje quando você dormir, você esquecerá essa nossa conversa. – Respirei fundo. De repente o ar estava pesado demais, meu coração disparado.
— Essa foi a minha sequela? Eu durmo e esqueço de tudo que vivi nas últimas 24 horas? — A dor nos olhos da minha amiga me machucou de uma forma que jamais pensei ser possível.
— Sim. No começo foi mais complicado. Você teve traumatismo craniano e ficou em coma induzido por três meses e acordou sem reconhecer ninguém. Após um tempo você lembrava de algumas coisas, mas era muito confuso e sempre que dormia esquecia todas as coisas que lembrava e essas memórias se perdiam. Tudo que você lembra agora termina na nossa ida a Vegas.
— Daqui a alguns anos não lembrarei mais nem disso não é? De nós, nem de você? – dói quando a realidade bate a nossa porta.
— É esperar pra ver, os médicos não sabem ao certo. — Percebi que eu prendia a respiração, então a soltei devagar, senti Jane afagar minhas mãos.
— Não quero me esquecer de você Jane.
— Eu não deixarei isso acontecer meu amor. - Ela beijou minha testa, me senti um pouco melhor.
— Você disse que nós duas tivemos sequelas. Qual foi a sua? – olhei para seu rosto na esperança de aquilo tudo ser apenas mais uma de suas brincadeiras.
Jane levantou a perna esquerda e puxou a calça mostrando a prótese. -Perdi quase toda minha perna no acidente, mas o mais importante é que não perdi você e continuo gata.
— Por isso essas muletas ao seu lado? — ela me deu um sorriso sem graça.
— Às vezes a prótese me incomoda e prefiro ficar pulando por aí, ou usando as muletas. Agora só posso jogar em uma posição do basebol, a de treinador, mas fora isso a minha vida é boa.
— Eu não lembro de você Jane, não do jeito que falo nesse diário. Não lembro de nós. Como isso pode ser bom? — Senti as lágrimas queimando em meus olhos.
— Por isso todos os dias eu reconquisto você. Para ser bom. — ela sorria
— Por que tanto trabalho se eu não lembro de nada depois que durmo? É inútil não acha? – Não queria ser rude, mas era difícil acreditar que aquilo tudo estava acontecendo.
— Sabe por que esse diário se chama mirror? (espelho) – apontou o diário esquecido sobre a mesa
— Não. Por que?
— Porque somos diferentes e nos completamos, assim como o reflexo do espelho. Aqui esta o reflexo desse diário. – pegou outro livro que estava em cima da mesa. — Aqui você escreve todos os dias. — me mostrou um diário prateado escrito "reflection"(reflexo) que tinha o tamanho de um álbum de fotografias.— Você decidiu escreve-lo pra não perder nenhuma memória pós acidente. Às vezes à noite quando você dorme e eu não consigo dormir eu o leio, lembro-me das nossas conquistas e reconquistas e me sinto melhor. Sinto-me viva.
— São só palavras Jane. Palavras em um papel.
— São memórias meu amor. E da vida isso é tudo que levamos. A diferença aqui é que temos registradas todas elas.
— Não entendo Jane. Não seria mais fácil ter me colocado em uma clínica para pessoas com esse mesmo problema que o meu? – disse soltando sua mão. – Assim você evitaria todo esse trabalho, poderia encontrar alguém qu...
— Maur, todos os dias eu reconquisto você. E enquanto eu tiver vida, estarei te reconquistando tantos dias mais. Não quero você longe de mim.
— Isso deve ser cansativo. – Olhei ao nosso redor, reparando as milhares de fotos espalhadas pela casa, muitos daqueles rostos eu não conhecia.
— Cansativo? Agradeço por Deus não ter levado você! Você não faz ideia o quanto sou grata! De verdade.
— Mas me deixou incompleta.
— Também não estou 100% né — Apontou a perna e rimos— Todos os dias eu tenho a dádiva de olhar nos seus olhos e ver você me olhando de volta. Todos os dias você volta pra mim, mesmo que seja só como minha amiga e implica comigo. Todos os dias eu ainda posso te abraçar e ouvir sua voz. E mesmo que você não esquecesse de tudo sempre ao dormir, todos os dias eu dormiria pensando como te reconquistaria no dia seguinte. Eu sempre vou te reconquistar Maura. Sempre.
— Aí! - gritei mais susto do que de dor realmente
— Que foi? — me perguntou preocupada, me olhando
— Senti... Senti um... chute? — coloquei a mão na minha barriga, e levantei o cobertor, ela estava enorme e eu podia sentir um movimento interior. Era um pouco doloroso, mas criava um prazer que me dava vontade de chorar.
— Ângela não para quieta né? E ainda nem nasceu. Essa menina ainda vai nos dar dor de cabeça demais. Já tô prevendo que minha hipertensão vai beijar São Jorge na lua.
— Angela? Como assim? Como eu? Eu estou grávida? – perguntei, e depois fiquei me sentindo estúpida pela pergunta. A sensação de sentir uma vida crescendo em mim era realmente maravilhosa.
— Somos mamães sabia? — A olhei confusa.
— Mesmo você dormindo e esquecendo tudo, não esquecemos que estamos vivas. Nos casamos, viajamos o mundo, você implica com a cozinheira e eu ainda assisto o Sox. A nossa vida não parou Maur, somos felizes e realizadas. Abre o Reflection, vou te mostrar.
— Olha! — Apontou uma foto do DP em que todos estavam reunidos em volta de um bolo, e eu parecia meio... gordinha?
— Aqui esta o dia em que fui promovida a tenente! — me olhou orgulhosa
— Você é tenente? – olhei a foto novamente, até Ângela estava nela abraçada um homem que não conheço. Frank estava abraçado a uma mulher de olhos azuis brilhantes, todos pareciam tão felizes.
— Não sou mais tenente. Pedi aposentadoria pra ajudar a cuidar dos nossos filhos.
— Filhos? No plural? — Deus, quanto tempo fiquei ausente?
— Você entrou pra família italiana meu amor. Tem que ser grande. Nesse dia você estava grávida. – Apontou novamente para a foto.
— Percebi que estava meio gordinha na foto.
— Nem me lembre da sua neura por causa do peso. Tive que dormir no sofá porque comentei que você estava fofinha... Nesse momento agradeci por você esquecer de tudo ao dormir, ou eu ficaria o resto do mês moendo meus ossos naquilo. Mas Amanda valeu a pena. Ela é uma menina realmente maravilhosa.
Passou as páginas, minha caligrafia se misturava a dela e havia fotos, algumas pequenas fotos nossa em viagens, pude reconhecer vários países. Mas minha mente ainda estava em dois nomes, Amanda e Angela... Nossas filhas... Nossas!
— Onde é esse lugar? – Apontei uma linda paisagem atrás de Jane e eu na foto
— Brasil. Voltamos lá, afinal na nossa lua de mel Ruby não desgrudava de você por um segundo. Ainda tenho pesadelos quando leio o que vocês aprontaram naquele lugar.
Passei mais páginas, e vi fotos nossa em outros países como Chile, México, Egito e China, e em um hospital, provavelmente o nascimento da nossa filha, nossa Amanda. Vi a felicidade no meu rosto, e essa felicidade refletia em Jane.
— Nossa filha é linda! — comentei e senti algumas lágrimas quentes em meu rosto enquanto admirava aquele bebê ruivo.— Como?
— Brincamos com biologia sabe. Ela pode ser tanto sua filha biológica quanto minha, nós duas doamos embriões, mas o pai é ruivo... Então ela nasceu ruiva, fica difícil saber qual de nós duas ela tem o DNA. Às vezes acho que nossos embriões se fundiram porque ela tem muito de nós, das duas, principalmente a implicância.
— Ela é linda! Não importa o DNA, olha esses olhos! Olha essa boca... Meu Deus como eu queria lembrar-me dela!
Jane pegou uma foto em um porta retrato ao seu lado no sofá.
— Essa aqui é ela hoje. Ela tem nove anos. — vi uma menina muito, mas muito linda sendo agarrada/esmagada por Jane. Parecia uma princesa rebelde, olhos negros, cabelos ruivos quase no meio das costas, covinhas cativantes no rosto, perfeita! Ela me abraçava por trás, enquanto eu segurava um rapazinho... Não tenho dúvida do DNA desse rapaz.
— Esse menino lindo de olhos verdes aqui nem precisa dizer de quem é filho né Maur? — Jane disse em tom divertido
— Nosso, ele é nosso. E com ele brincamos com a clonagem né — ambas gargalhamos.
— Quase isso. Usamos só o seu embrião. Esse é Arthur Paddy. Tem sete anos , é o nosso do meio e é um nerd igual a você.
— Eu dei o nome dos meus dois pais. — Afirmei imaginando o que me levou a esse ato tão lindo e cheio de amor.
— Eu fiz algo igual, ou melhor, faremos. A nossa caçulinha que conhecerei daqui 2 meses, a rapa do tacho, se chamará Ângela. Em homenagem a minha mãe, que Deus a tenha em um bom lugar.
Pensei em perguntar como ocorreu referente à morte de Ângela, mas Jane já havia passado de página no Reflection e agora admirávamos o que parecia ser um aniversário infantil. Eu estava vestida de princesa amazona e lutava com espadas contra... Espera, conheço essa louca vestida de chapeuzinho vermelho.
— É a Ruby?
— Você se lembrou? — Jane me olhava assustada, havia esperança em seu olhar também.
— Não sei como, mas sei que é a Ruby. O que aconteceu com ela?
— Daqui a pouco ela chega. Essa não desgruda daqui. – Apontou outra mulher na foto, ela estava vestida de policial— Essa é Ursa. E não, não é uma fantasia, ela estava em horário de trabalho, foi a nossa festa levar um presente para Amanda. E sim, ela se tornou uma policial depois que casou com Marlon. Um casal muito esquisito que está junto até hoje. – Fez uma careta que me fez rir
Continuou passando mais fotos, em todas Ruby estava conosco, em viagens, aniversários, churrascos e restaurantes. Frank e Tommy também estavam em algumas.— Ruby agora é uma escritora famosa. Assim que saiu da penitenciária escreveu um livro chamado "Rizzles- só quem sente o frio de uma cela da valor ao calor da liberdade"
— Por que tenho a impressão que é sobre nós? – sorri para meus olhos castanhos, o brilho neles me trazia um sentimento tão bom.
— O Rizzles denunciou né? Sim. Sobre como nos conhecemos, nossas aventuras e sobre como nos apaixonamos mesmo com grades nos separando. E tem muita aventura e porradaria!
— E fez sucesso? — passei mais algumas páginas, admirando cada lembrança viva ali.
— Demais! Virou até filme! Ultrapassou qualquer expectativa! O filme vendeu mais que os livros. Sucesso de bilheteria!
— Nossa! – a olhei assustada
— Se quiser podemos assistir daqui a pouco. Ruby queria muito nos agradar e só liberou os direitos autorais para o filme se nós pudéssemos escolher as atrizes que fariam nosso papel.
— Quem eu escolhi para me representar? – perguntei mega curiosa
— Scarlett Johansson. – Fui humilde ne? - Até eu queria contracenar com ela viu. Estava muito gata como presa e como médica. E você sabia lutar muito bem no filme viu. Ela deu umas porradas em umas meninas na cadeia que ó. Scarlett arrasou.
— E quem fez você? — Jane sorriu maliciosa e disse com orgulho
— Megan Fox.
— Entendi porque o filme fez sucesso.
— O que deu de caminhoneira na fila do cinema... Teve até engarrafamento de caminhões. - Gargalhou
— Olha o preconceito Jane! – bati em seu ombro
— Tô brincando, aconteceu isso não. O sucesso sim é verdade, mas isso porque você não sabe quem fez o guarda mal humor e o Korsak. Nossa! As velhas e as novinhas se atracavam na fila pra ver quem entrava primeiro.
— Estou assustada!
— Eles tiravam a blusa várias vezes, até hoje não entendi porque. Ah! E não parou por aí. teve o Rizzles dois — o predador mora ao lado. Rizzles 3- de volta as origens. Rizzles confronto final parte um e dois.
— Estou chocada com a capacidade de imaginação de Ruby.
— E eu chocada em como Megan Fox fica sexy armada e com cara de mal. Mas na verdade foram só as nossas histórias que você contou a ela na prisão. Ela só colocou um macacão da hora, armas mais potentes, caras gostosos, mais explosões, mais bunda e peito e mais charme em nós. O que em minha opinião não precisava já que sou muito charmosa.
— Ruby é o máximo.
— E ainda é sua melhor amiga. Às vezes pego algumas conversas entre vocês duas que me deixa de cabelo em pé.
— Estou um pouco cansada. — deitei minha cabeça em seu ombro e ela acariciou meu rosto. Que gostoso isso.
— Quer deitar na rede?
— E se eu dormir? – Falei entre um bocejo
— Não deixarei. Relaxa que tenho anos de prática em te manter acordada.
— Imagino.
Levantei igual uma tartaruga idosa com reumatismo, entendendo muito bem a reclamação das gestantes. Vi Jane levantar um pouquinho só mais rápido, a sua sequela também parecia incomodar, porém ela estava radiante demais para se incomodar com a dor.
Deitamos na rede, e ela se inclinou e me beijou, sem mais delongas, fiquei surpresa afinal era nosso primeiro beijo, nosso primeiro beijo de verdade, ao menos para mim. E não foi nem um pouco difícil me entregar, era como se as mãos de Jane em meu corpo, tivessem feito essa viagem milhões de vezes. Como se eu tivesse me entregado milhões de vezes.
Eu estava com medo, logo eu iria acordar e esquecer cada detalhe, então precisava absorver cada momento, mantê-lo para sempre, porque era tudo o que restava.
Meu corpo parecia conhecer tão bem o dela. Reagia a cada toque, e eu sabia exatamente o que fazer, como fazer, como tocar, mesmo sendo a minha primeira vez com ela.
Jane me tratava com uma gentileza incrível, ela descia a boca por meu corpo, já ansioso por sentir pela primeira vez aquela sensação.
Tudo era a primeira vez... Sempre seria a primeira vez conosco, e isso machucava um pouco por saber que não teríamos uma rotina.
— Fazemos isso todo dia? — lutava com meus olhos que não queriam ficar abertos enquanto me alinhava ao corpo de Jane sentindo seu nariz brincar com minha orelha. Eu não podia dormir, não podia deixar aquele sonho real acabar. Não quero esquecer.
— Quem dera. Você é muito difícil. Tenho que suar demais pra conseguir até um beijinho na bochecha de boa noite. – sorriu enquanto me alinhava melhor em seu corpo
— Então como você faz quando não quero ler o mirrors? — minha voz já saia mais lenta.
— Passo o dia sendo sua amiga e pra mim está ótimo. Estou com você, Estou feliz.
— Deveria ter te agarrado antes de irmos a Vegas. Assim seria mais fácil você me reconquistar. — meus olhos estavam tão pesados enquanto ela acariciava meus cabelos.
— Tudo ao seu tempo amor. A vida me ensinou que tudo tem um significado e cada coisa tem seu tempo certo de acontecer, e é sempre quando estamos preparados ou precisamos nos prepar... Maura?
— Maura? — Senti um toque em meus ombros.
— Oi? — respondi sem abrir os olhos.
— Olha pra mim. — abri os olhos devagar. Jane me olhava preocupada.
— Por que você não pinta o cabelo? — me ajeitei na rede— Achei que você não iria gostar das mechas brancas — ouvi Jane soltar o ar aliviada e voltar a recostar na rede
— Você não deixa pintar.
— Entendo porque não deixo. Você ao natural é muito mais linda.
— Até com pés de galinha? – disse apontando as marcas em seu rosto
—Sim. — gargalhava— Até com eles.
— Então você admite que sou uma velhinha gostosa? – Me provocou
— Sim velhinha gostosa, mas que é SÓ MINHA.
— Tenho amor a vida. Meus 51 anos me ensinaram a temer a morte e ser só sua.
— Sou tão brava assim?
— O olho roxo da bêbada que tentou me agarrar na nossa lua de mel insinuam que sim.
— Aposto que foi ela quem procurou.
— Ela me agarrou e você apareceu na hora. Vi a luz e a trombetas dos anjos me chamando e quase atendi ao chamado.
— Você é uma palhaça.
— Uma palhaça que te ama. – Me beijou
— Jane, como meus pais reagiram a nós.
— Sua mãe ficou praticamente dois dias silenciosa, mas depois veio até nossa casa nos dizer que entendia e que estava feliz porque nós estávamos feliz. Hope não ficou nem um pouco surpresa. – Sorriu enquanto me abraçava mais forte.
— E meu pai?
— Se serve de consolo, Paddy aceitou com mais facilidade do que Arthur. Na verdade Arthur veio me perguntar se eu havia te enfeitiçado ou se você estava tomando algum remédio estranho.
Jane ria em minha orelha, e lamentei não poder ouvir esse som sempre.
— Toda vez que ele olha pra mim, me olha como se eu tivesse roubado a inocência da filha dele. – sorriu mais um pouco. Jane dizia e mordiscava a ponta da minha orelha, afirmando a “inocência”que havia me roubado.
— E Dean também foi ao nosso casamento, na verdade ele queria entrar com uma das noivas. – Jane riu quando me virei com extrema velocidade a olhando assustada, em pânico que ele poderia ter me levado ao altar.
— Não precisa fazer essa cara. Foi seu pai Arthur que te levou ao altar, e foi na praia, foi lindo. Quer ver o DVD do casamento?— Ela me perguntou, subindo ligeiramente o corpo, me olhando melhor.
— Não, irá levar muito tempo.
Jane se levantou da rede após colocar uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha e beijar meu ombro. E correu, na medida do possível, para fora da varanda completamente nua. Ri sozinha ao contemplar o espetáculo, Jane era incorrigível. E voltou carregando um grande álbum de fotografias.
— Mas as fotos você precisa ver.
Jane disse com um sorriso que era impossível de resistir. Embora eu não quisesse ver aquelas fotos, seria como esfregar sal na ferida, já que tudo isso iria desaparecer quando eu dormisse. Mas lá estávamos nós, ambas de branco em um lindo pôr do sol. Todos estavam lá, e aparentemente Frank tinha sido incapaz de segurar as lágrimas no casamento da irmã.
— Olha, esses são nossos votos. — Apontou para dois guardanapos colados em uma folha, um com a caligrafia dela e outro com a minha. – Esse é o seu.
“Jane, você me conhece melhor do que ninguém e ainda assim consegue me amar e não fugir. Você é minha melhor amiga e meu único e verdadeiro amor. É aquela que me apoia e sempre tem uma palavra certa nos momentos difíceis. Acho que ainda tem uma parte de mim que não acredita no quanto sou sortuda por ter você ao meu lado. Em poder olhar nos seus olhos e dizer o quanto eu te amo e preciso de você. Por favor, nunca desista de mim.”
“ Maura, nunca fui boa em palavras, você melhor que ninguém sabe que sempre fui de ação. E então você entrou na minha vida, as vezes me deixando sem palavras, e as vezes sendo minhas palavras. Me fez questionar coisas, mudou minha realidade e fez uma separação entre o que fui e o que sou, sou uma pessoa bem melhor hoje. Mesmo você amando todas as meus“eu” eu quero sempre poder melhorar por você. Você alterou meu mundo, destruiu tudo que eu tinha construído e me trouxe à luz, você quebrou minha meus medos, sempre esteve lá por mim e você me salvou. Nunca vou desistir de você meu amor, minha vida”
— E esse é o meu. – disse ao alisar meu braço. Minha boca ainda estava aberta, meus olhos eram como cachoeiras, a dor presente e forte em meu peito, como a falta de rotina pode doer tanto? Ser tão lancinante e insulfrar tanto o porvir que nunca poderá existir? Esperança dói.
Me virei e a abracei, a beijei aprofundando nosso beijo como se não houvesse amanhã, porque sei que não teria. Ao menos um que eu lembrasse.
— Jane. Estou muito cansada. — Ela me abraçou forte, como se impedindo que eu fugisse.
— Não dorme ainda amor. Ruby vem aqui hoje junto com Frank, Tommy e TJ. Daqui a pouco nossos filhos chegam da escola. E hoje... Hoje é meu aniversário.
— Eu não queria ter que dormir. Só não consigo manter meus olhos abertos por muito tempo. — beijei sua mão— queria muito ter lembrando que hoje é um dia especial e ter te comprado um presente.
— Maur, faz semanas que não consigo te trazer de volta a esse nós e quando consigo tenho apenas minutos de você. Ter você aqui em meus braços é meu melhor presente.
— Por que é tão difícil?
— Vamos dizer que você não é muito fã de diários e às vezes mesmo lendo tudo e vendo as fotos do Reflection você não acredita em mim.
— Me perdoa meu amor. - a beijei — Feliz aniversário Jane, minha doce Jane. – Nos abraçamos mais um tempo e ela sussurrou no meu ouvido
— Vamos andar na praia?
— Praia? — perguntei confusa, quantas surpresas mais teria naquele dia?
— Nossa casa é beira mar amor. Você queria isso. Acredite ou não eu aceitei. Se você for à outra varanda verá o mar.
— Bem que eu estava sentindo o cheiro de peixe e maresia. Não moramos em Boston?
— Não. Seu tratamento não tem em Boston. E você achou melhor essa casa na praia para eu me exercitar mais. Moramos na Califórnia agora, mas precisamente em Santa Monica.
— Você não gosta de praia. Como te convenci?
— Me mostrou o pôr do sol e me deu um barco de 8 pés de presente de casamento. Todos os dias vou lá ver o sol se pondo a beira mar.
— E eu vou com você?
— Às vezes. E agora a Ângela junia te cansa muito. – alisou minha barriga carinhosamente.
— Não vou ha sete meses com você assistir ao por do sol então? – Me senti triste por perder o pôr-do- sol com ela.
— Tudo bem meu amor. Não se preocupe com isso. – beijou minha testa
— Quero todos os pôr do sois com você Jane.
Meus pés se arrastavam pela areia, Jane estava ao meu lado e íamos em direção a duas espreguiçadeiras colocadas estrategicamente para um lindo por do sol.
— Posso sentar no chão ao invés das cadeiras amor? – Era um pouco estranho usar aquela palavra ao me referir a ela, mas realmente gostei do som e queria me colar a Jane novamente.
Assisti-a colocando um lençol no chão e ajustando as sombrinhas de sol na melhor posição e então sentou me chamando com palmadinhas no lençol.
— É tão lindo! — Vi o sol indo embora ao lado da pessoa que eu amava, mas eu não queria ir junto com ele, o sono novamente me roubava - Me promete me trazer aqui todas as tardes Jane?
— Prometo. Mesmo que eu venha em cadeira de rodas. – Seus olhos estavam marejados enquanto ela olhava o horizonte
— Pelo jeito que minhas costas estão doendo, acho que serei eu na cadeira sendo empurrada por você pulando atrás de mim. — sorri ao imaginar a cena e encostei minha cabeça em seu ombro, meu corpo cedendo ao peso do sono.
— Eu te amo Maura. — Jane se virou e me beijou— Às vezes acho que mais que a mim mesma.
— Jane. Eu sempre te amei. Desde o primeiro instante. Esse amor só foi se modificando com o tempo, evoluindo e se tornando essa espiral de emoções que é hoje e nunca vai acabar. Promete jamais desistir de mim? — selei nossos lábios
— Já te prometi isso no dia em que juramos compartilhar tudo que somos. E nunca, nem sequer um segundo me passou pela cabeça desistir. Nunca irei desistir de você.
— Me sinto feliz aqui... Meu amor — Meus olhos já se fechavam
— Também. — Senti Jane enxugar uma lágrima que caia do rosto dela. E então abri os olhos e a admirei.
— Maur, obrigada por dividir esse pôr do sol comigo, prometo estar com você de alguma forma durante todos os pôr de sois da sua vida. Nunca vou deixar você. – Segurou em minha mão e entrelaçou nossos dedos.
— Eu não quero fechar os olhos. – disse enquanto nossos narizes brincavam um com o outro, sua mão acariciando minha cintura.
— Mais cedo ou mais tarde você terá que fazer isso – Jane murmurou com um sorriso triste.
— Não acredito que irei esquecer disso tudo. – Senti um nó em minha garganta, Jane acariciou meu queixo com um dedo.
— Não importa o que irá acontecer quando você acordar, não importa que a nossa vida nunca tenha uma rotina. Me ouça, não importa, eu te amo.
Jane disse com a voz embargada, sorriu com tristeza e beijou minha testa com carinho, descendo aos meus lábios.
— E agora descanse. Quando você acordar eu ainda estarei te amando, e isso ninguém nem nada pode mudar. Lembre-se, aonde quer que eu vá, ainda te amarei.
Um último beijo foi dado, possuía um gosto de final, de despedida, e Jane me abraçou antes de eu fechar os olhos.
Agora era eu quem chorava. — Feliz aniversário meu amor. — Abri meus olhos e vi que ela ainda chorava e aquilo me causava uma dor emocional tão intensa. Novamente Ângela chutou e senti um pouco de esperança.
Então fechei meus olhos para absorver melhor aquele calor que aquele resquício de sol emanava e senti o sono começar a me roubar.
Ouvi um sussurro distante "descanse amor, amanhã te reconquistarei de novo.”
— Conheço essa música aí. É a Last Kiss do Pearl Jam. E essa letra aí é da Jane, cadê ela pra eu perguntar por que ela escreveu essa letra deprimente?
Uma moça de aparentemente 25 anos me olhava com expectativa e tristeza nos olhos. E aqueles olhos... Eram iguais os de Jane.
— Mãe. — mãe? Ela me chamou de mãe?— Posso ler outro diário para a senhora? Ele se chama Reflection.
E a morena a minha frente leu todas aquelas páginas que eu notei ter minha letra e a da Jane. Me mostrou todas as fotos e eu chorei.
— Isso é tão difícil acreditar. — ela me entregou um lenço e sentou ao meu lado no sofá.
— Mãe, sou Ângela. Sua filha caçula. Você sempre me chama de...
— Costelinha
— Você se lembra? — aqueles olhos de esperança de Jane, ela com certeza é nossa filha. Seus cachos negros caiam em seu ombro enquanto ela sorria tão esperançosa.
— Não. Mas quando Jane estava grávida do Casey, eu imaginei que seria uma menina e prometi chamar ela de costelinha... Se fosse parecida com Jane.
— Bom. Mamãe não me fez, se clonou né. – Rimos juntas e olhei em volta, só havia nós duas naquela sala tão bonita, elegante e repleta de fotos. Tantos rostos desconhecidos sorriam para mim.
— Vejo que você herdou o humor dela. – Voltei a atenção a morena ao meu lado
— E a rabugice também. Arthur sempre fala isso. — disse com desdém
— Arthur também é meu filho? Não é? Vi você falando dele nesse álbum aí.
— Sim. O melhor neurologista da Califórnia. Já a Amanda seguiu o seu caminho.
— Legista?
— Yeap. — fez uma careta. — Mas ela da só aula, põe a mão na massa não. Quer dizer, na carne congelada — outra careta.
— E você? – Impossível não gostar daquela menina tão linda, simpática e gentil
— Mês que vem serei promovida a sargento – Disse com orgulho, o mesmo orgulho que Jane tem ao falar sobre seu trabalho.
— Como Jane. Você seguiu os passos dela? – perguntei olhando ao redor de novo. E acho que ela percebeu meu devaneio.
— Sim. Eu e quase todos os seus netos.
— Tenho netos? – Voltei minha cabeça em sua direção tão rápido que senti uma fisgada em meu pescoço.
— Onze. Mamãe sempre falava que médico e policial tinham que ter tempo pra ser divertir e bem... Meus irmãos se divertirão demais. E eu não fiquei atrás. Tenho só um menino e ele quer ser bombeiro quando crescer. - Ela me mostrou a foto no porta retrato em que eu segurava um rapazinho meio asiático ao lado dela.
— Esse homem barbudo é seu marido? - apontei para o homem ao lado de Jane naquela mesma foto.
— Sim. Arrasei né mãe? Japinha gatão né? Bombeiro daqui. Ele entra em prédios pegando fogo, mas tremia as pernas e quase borrava as calças perto da mamãe. Ele já tá louco querendo te dar mais netos.
— Eu sempre quis a casa cheia. Desde que conheci os Rizzoli queria formar uma família grande.
Meus olhos buscavam por Jane. Meus ouvidos tentavam escutar aquela voz rouca novamente, mas eu não encontrava e tinha medo de perguntar onde ela poderia estar.
Ouvi passos e um bater como uma bengala ou algo assim, como se alguém estivesse brincando com ela. Virei-me rápido sentindo outra fisgada no pescoço.
Uma mulher de aparentemente 50 anos entrou na sala. Aqueles olhos azuis brilhantes... Só poderia ser uma pessoa.
— Ruby!
— A própria! Já é a quarta vez que venho aqui nas últimas seis horas... Finalmente me reconheceu heim Doc. Eu já estava começando a ficar depressiva.
— Como assim? — perguntei sentindo um leve aperto em meu peito e uma dor latejante em meu dente.
— Mãe, a senhora tem muitas dificuldades de ler agora, e nem sempre está disposta a nos ouvir ler o diário. Por isso eu insisto e o leio, sou a única que a senhora deixa ler. O trauma aos poucos te deixa assim, com mais dificuldades de fazer algumas coisas, ou aceitar outras coisas.
— Aqui esta sua bengala mocinha Doc — Ruby me entregou a bengala branca talhada a mão, pude reparar a letra de Jane talhada nela— Vamos assistir um por do sol?
Levantei-me com muita dificuldade sentindo aquele aperto novamente em meu peito, dessa vez um pouquinho mais intenso. Logo um homem de cabelos castanhos claro ondulado, alto e muito, muito bonito, com olhos verdes brilhantes veio ao meu encontro, estendendo o braço para que eu me apoiasse.
— Vamos mãe. - notei a voz um pouco rouca, grave, mas tão terna.
— Você é o Arthur? – Seu sorriso se ampliou e vi um pouco de tristeza em seus olhos, a tristeza lutando pelo lugar junto à alegria.
— Sim. Jamais perderia um por do sol com a senhora. — lágrimas vieram aos meus olhos ao ver a admiração naqueles olhos jade — Amanda está nos esperando lá fora.
— Todos os meus filhos são tão lindos! – Disse emocionada
— Isso porque você não viu seus netos — Ruby interveio— Ah se eu não fosse tão madura viu.
— Pode tirar os olhos de cima deles heim. Onde eles estão? — Perguntei a Ângela que andava ao meu lado. Nunca ficando longe, nunca perdendo o contato dos seus olhos com os meus. Ela me admirava.
— Estão no Rizzoli & Isles.
— Onde? – Perguntei confusa, meus olhos ainda buscando por Jane
— Orfanato. — Arthur me respondeu com um sorriso orgulhoso e satisfeito. — Mamãe e a senhora fundaram um. A senhora não faz ideia de quantas crianças são ajudadas por ano.
— A ala para recém nascidos é minha — disse Ruby orgulhosa— E tem meu nome. Ruby Lucca bem grandão lá. Queria colocar em neon, mas Jane não deixou. – todos riram
Passamos pela varanda e chegamos a uma parte que parecia uma casa havaiana. Era grande e espaçosa, terminando na areia. Uma foto de família enorme estava no meio dela, próxima a uma urna dourada.
Vi uma ruiva sentada em um sofá redondo, bebendo chá, ela olhava a urna. Ao me ver, colocou a xícara sobre a pequena mesa de madeira rústica e abriu os braços e um sorriso vindo ao meu encontro.
— Mãe! Sempre aguardo ansiosa pelo por do sol com a senhora. — seus olhos brilhavam.
— Amanda? — a ruiva cresceu os olhos negros.
— Hoje a senhora se lembra de mim? — Me abraçou com tanta ternura que novamente senti vontade de chorar. — Tantos dias que não conseguimos, e logo hoje conseguimos! — Me abraçou mais forte— Estou tão feliz!
Me soltou preocupada por estar me apertando demais e ficou olhando em meus olhos enquanto Arthur me ajudava a sentar. Fiquei entre Arthur e Ângela. Amanda e Ruby sentaram a minha frente sobre a mesinha e Amanda respirou fundo antes de falar.
— Hoje seria o aniversário da mamãe. Sei o quanto ela estaria feliz por te ver aqui conosco e...
— Estaria? — a voz não queria sair direito da minha garganta.
— Sim mãe. — me disse com ternura, segurando minhas mãos. — Daqui a 3 meses fará um ano que ela nos deixou, mas mantivemos a promessa de sempre te acompanhar em todos os por do sois.
— Mãe — Arthur me olhava carinhosamente - Desde o dia que você fez a mamãe prometer que te traria aqui em todos os pôr do sol, ela nos fez prometer o mesmo. E a Ruby também prometeu de intrometida. – sorri — todas as tardes, faça chuva ou sol estamos aqui. Antes éramos seis. Agora somos apenas cinco, mas ainda estamos aqui. Mesmo em meio às provas da faculdade, residência, bandidos que não sabem se comportar... Toda vez que o sol se põe estamos aqui. E essa é nossa maior honra e alegria mãe. Estamos com a senhora, e é isso que importa.
— Essa parte da praia aqui é nossa viu. — Ruby riu e me entregou dois papéis, mesmo sem conseguir enxergar direito reconheci de imediato a letra de Jane. — Qual de nós quatro você escolherá pra ler dessa vez?
— Pode ser a Ângela? — perguntei receosa
— Sempre a escolhe. — Amanda resmungou.
— Desculpa ai se sou o clone da minha mãe... Até na voz. Sou maravilhosa, eu sei.
— Você se acha demais não? — Arthur provocou— E Desculpa se eu sou o clone masculino da minha mãe sendo pela 3 vez o médico mais cobiçado do estado. Foi mal aí heim.
— Amém meu Deus por ter me feito ruiva e sido feita com metade das duas pra não ficar idiota igual esses dois aí.
Gargalhei da Amanda e senti uma dor totalmente desconfortável no meu dente. Passei a língua e percebi que usava prótese dentária. Não havia mais dente ali, mas mesmo assim eu sentia a dor, isso só podia ter um significado, porém eu não poderia contar aos meus filhos agora, não podia dizer a eles que meu coração estava dando claros sinais de cansaço e pedia uma pequena soneca...
A soneca que me levaria a Jane.
Ângela começou a ler a carta.
“Amor, minha vida. Se você está lendo essa carta, é porque não estou com você. Não fisicamente, mas saiba que estarei para sempre ao seu lado, porque eu te amo. E eu acho que li uma vez que uma alma gêmea não é alguém que entra em sua vida em paz. É quem vem e faz você questionar, brigar, que muda sua realidade e abre seus olhos. Não é o ser humano que você tinha idealizado desde criança, mas sim uma pessoa comum que consegue revolucionar sua vida a cada segundo.
Com você aprendi que alma gêmea não é quem encaixa perfeitamente, mas sim quem é como um espelho. Que te traz tudo que estava reprimido dentro de você para fora e te faz olhar o mundo de modo que você possa mudar sua vida. E provavelmente é a pessoa mais importante que você já conheceu, alguém que destrói todas as suas paredes e te faz acordar em um baque.
Quando nos encontramos, literalmente você me deixou louca. Eu não sabia o quão cansada eu estava de fugir, de correr. Não sabia o quanto eu queria pertencer a algum lugar, até o dia que eu pertenci. Quando me entreguei a minha alma gêmea.
Você me ensinou que amor não foge, ele fica e luta. Nunca desisti de lutar por você. De admirar seu sorriso e dormir tendo você como ultimo pensamento e o primeiro desejo ao acordar.
Não importa a onde eu esteja, sempre vou voltar para você, sempre vou pertencer a você. Porque você é minha vida, e será até meu ultimo suspiro.
“Eu não posso deixar de reparar, você reflete em meu coração. Se você algum dia se sentir sozinha e a luz intensa tornar difícil me encontrar. Saiba apenas que eu estou sempre paralelamente do outro lado.
Porque com a sua mão na minha mão e um bolso cheio de alma, posso dizer que não há lugar aonde não podemos ir. Apenas ponha sua mão no vidro, estarei aqui tentando puxar você. Você só tem que ser forte.
Entenda que é fácil voltar para você uma vez que entendi que você estava aqui o tempo todo. É como se você fosse o meu espelho. Meu espelho olhando de volta para mim.”
Essa é a nossa promessa, dois reflexos em um.
Com todo amor de uma vida... Jane Rizzoli”
— Como eu reajo a isso tudo normalmente?
— Ah mãe, de várias formas. Mas sempre quando a senhora não encontra a Jane, ou quando falamos de sua partida, a senhora chora, chora muito.
— Hoje não vou chorar. Na minha mente agora está passando como um filme os aniversários que passei com Jane, foram seis maravilhosos aniversários. Fico extremamente triste por não me lembrar dos outros 38 que sei que também foram maravilhosos. Cumprimos nossas promessas de viagens?
— Vem Doc, vamos dar uma olhada no reflexo (Reflexion)
— Eu sei que tô velha e acabada Ruby, não precisa esfregar isso na minha cara.
— Cala boca e vamos olhar nosso álbum de fotografias.
— Vocês sempre deixam essa louca falar comigo assim? – perguntei olhando para meus filhos que sorriam
— Mãe, Ruby foi sempre nossa tia louca, já acostumamos com tudo. Quero muito te mostrar o vídeo do que a tia Ruby aprontou na sua Bodas de prata. – Angela falou sorridente
— Crianças, faz a Doc brigar comigo pela quinquagésimo vez não.
— Já briguei muito? – perguntei sentindo meu peito se apertar
— Toda vez que te mostramos o vídeo.
— E toda vez Frank quase tinha um enfarte – Ruby resmungou
— Frank? Por que? – Perguntei confusa enquanto tentava disfarçar a dor que crescia dentro de mim.
— Meio que somos co-cunhadas Doc.
— Somos todos uma família então. – Minha voz quase não saiu. Coloquei minha mão no peito e respirei com dificuldade. Em milésimos de segundos meus filhos estavam em cima de mim, me olhavam preocupados. Vi Ruby sair correndo e voltando com um estetoscópio.
Me deitaram no sofá e Amanda me auscultou, a dor não diminuía, mas uma alegria tomava conta de mim.
— Tudo bem, estou bem. – disse olhando tantos rostos preocupados
— Mãe, vamos te levar para o hospital. – Arthur disse, sua feição preocupado enquanto represava algumas lágrimas.
— Está tudo bem. Eu estou feliz – acariciei seu rosto— Posso não me lembrar de todos os detalhes da vida de vocês, mas saibam que eu amo cada um de vocês de uma forma impossível de descrever em palavras.
— Não mãe. Fica quietinha. Vamos te levar para o hospital. – Angela tremia e segurava minha mão enquanto chorava.
— Está tudo bem meus amores. – Sorri, minha visão estava turva, eu estava indo ao encontro de Jane, do meu amor.
— Doc não, pelo amor de Deus doc. Não – Ruby chorava agarrada as minhas pernas.
— Eu estou muito orgulhosa de vocês, de todos vocês. Vocês são mais que eu poderia sonhar. – respirei fundo, senti meu corpo relaxar, não registrava a dor mais, na minha mente apenas estava um sorriso, um olhar, uma voz... E uma música retornou a minha mente “It´s like you’re my mirror. My mirror staring back at me...”
— Mãe, mãe. Mãe por favor abre os olhos.
Os sons ficaram distantes e a dor já não existia mais.

Fale com o autor