Mirrors
14 Vault.
O ar parecia faltar em seus pulmões e ela respirava com tanta rapidez que mais parecia um ataque de asma do que nervosismo. Seus pés se moviam de um lado para o outro, por trás das grandes cortinas vermelhas, onde vários outros estudantes estavam estudando algumas cenas de Romeu e Julieta. Todos estavam caracterizados, assim como Emily que vestia um belo vestido de época, que tinha lá seu toque de modernidade. Parou por alguns segundos, pensando no quanto parecia idiota por estar agindo daquela maneira, afinal, era a única ali com a preocupação estampada em seu rosto. Uma última arfada e seus olhos mudaram de brilho e um sorriso poderoso surgiu em seu rosto. Aquela era a Emily que todos conheciam e aquela essência não podia mudar de uma hora ou outra por uma peça. Por mais importante que fosse. Em alguns segundos, deveria trazer o melhor de si para a interpretação de Julieta, uma mulher que lutou com o que pôde para conseguir seu final feliz ao lado do amado que era da família inimiga. Que ironia!
— Emily Hamswere? – Chama um dos jurados e ela escuta ao longe, se aproximando do palco enquanto uma garota se afastava. Bryan, seu ex babaca, rapidamente a seguiu. Querendo ou não, precisava de alguém para auxiliá-la no teste e ele era o seu único e último recurso. Entretanto não foi tão difícil arrastá-lo até lá, afinal, precisava de uns pontos extras. – Comecem quando vocês quiserem.
— Posso ter a honra? Se profano for tocar este santo relicário. Espero que com meus lábios possa suavizar este rude contato com um terno beijo. — O garoto aproveita a deixa e puxa o corpo da morena para mais perto, deixando as mãos completamente firmes em suas costas.
— As santas tem mãos que são tocadas pelos peregrinos... – Sussurra Emily, já interpretando com perfeição o papel da personagem.
— Não tem lábios as santas? – Perguntou Bryan com um sorriso malicioso. Estava óbvio que não levava o papel muito a sério, mas sabia diferenciar ocasiões onde usar suas brincadeiras de mal gosto e aquele era um péssimo momento. Então deixava suas ironias apenas em seus pensamentos.
— Sim, lábios que devem usar na oração. – Diz de modo inocente.
— Então santa adorada, deixe que os lábios façam o que as mãos fazem. – Pede ele se aproximando dos lábios da jovem que rapidamente afasta o rosto com delicadeza, mesmo que desejasse acatar aquele singelo pedido.
— As santas são imóveis mesmo quando atendem as orações. – Murmura timidamente, abaixando o rosto tentando esconder as bochechas rubras.
— Então não te movas enquanto recolho o fruto de minhas preces. Assim mediante vossos lábios, fará os meus livres de pecados. – Vocifera tentando mais uma vez, alguma aproximação que é negada novamente.
— E assim passaria para os meus o que vossos lábios contraíram. – Fala Julieta mostrando indignação.
— Pecado dos meus lábios? Então devolvei-me meu pecado. – Insiste Romeu com os olhos brilhando de tamanha esperança.
— Tudo bem, já chega. Tomamos nossa decisão. – Avisa um dos conselheiros e Emily se afasta de Bryan tão rápido quanto na hora em que se aproximou e encara confusa a bancada repleta de pessoas importantes para a universidade. Observa então Dan, que sussurrava no ouvido dos colegas para, por fim, sorrir confiante para a morena que já sentia ter conseguindo o papel da principal.
— Por favor, Bryan... Chame as outras garotas para darmos o resultado final. – Pede o professor de Emily e o garoto acata ao pedido.
Aos poucos, as vinte garotas que participaram de várias cenas do romance mais famoso do mundo aparecem com uma conversa alta. Cada uma interessada em saber quem foi a melhor e principalmente, quem foi a escolhida. Emily se senta o mais afastado de todas, que tinham certeza absoluta de que quem venceria seria a morena, como fez todos os últimos anos desde que entrou para aquela Universidade. Então o principal conselheiro e também diretor da universidade, se levanta com graciosidade, dando a volta na mesa e se apoiando nela, olhando em direção a cada uma das meninas ali.
— Todas as apresentações foram maravilhosas, com o belo toque de dramatização e romantismo que a peça transmite. Não poderia esperar menos, afinal, nossa universidade é a única que oferece uma entrevista longa e difícil para alcançar o sucesso de hoje e todos que estão aqui já devem agradecer por serem tão capacitados para estarem aqui. Entretanto, há uma que se destacou entre todas as outras, o que me deixa impressionado porque eu não esperava isso dela e me desculpe a sinceridade. – Ele dá uma risada rouca, pigarreando e voltando a seriedade de antes. – Odete Sinclaire, o papel de Julieta é seu. Romeu será interpretado pelo novo professor, Daniel, que se ofereceu para isso. Os restantes dos papéis estarão impressos no mural da universidade. Isso é tudo.
Odete, que lixava as unhas despreocupada com a votação, deixou a lixa cair no chão e encarou os jurados sem acreditar no que acabava de acontecer enquanto várias pessoas se aproximavam para parabenizá-la. Suzan, uma das amigas da garota, faz questão de se aproximar de Emily que estava sem reação diante daquela situação.
— Parece que seu reinado acabou... – Provocou, fazendo questão de esbarrar nela e saindo dali com um sorriso maldoso brincando em seus lábios.
A morena se levanta sem deixar de encarar a garota caminhando para longe até desaparecer de sua vista. As mãos fechadas em punho desejando torturá-la até a morte só por se achar no direito de falar com ela daquela maneira. Sentiu como se um grande peso caísse sobre suas costas e um nó formasse em sua garganta. Uma pequena vontade de chorar a atingiu, mas engoliu o choro com uma impressionante rapidez. Afinal, havia muitos outros papéis e ela poderia pegar algum interessante que a destacasse tanto quanto se destacaria sendo Julieta. Encarou Dan que sorriu de lado, pedindo desculpas silenciosamente e ela devolveu o sorriso tristemente, virando os calcanhares, pegando a bolsa e indo em direção ao camarim onde se trocaria e iria embora para casa. O cômodo era bem afastado do auditório e assim que abre a porta sente mãos fortes puxando sua cintura e a prensando na parede, enquanto fecha a porta com apenas um leve chute. Já ia esmurrar quem quer que fosse quando identifica o rosto de Ian que sorria maliciosamente.
— Pensei que iriamos nos ver mais tarde... – Sussurrou enquanto ele a virava de costas e desamarrava seu vestido com cuidado, deixando seus ombros expostos e demarcando seu território com beijos cálidos.
— Por que não nos vermos agora? E mais tarde, e amanhã cedo... – Um sorriso escapa do rosto dela que se vira, puxando o rosto dele para um beijo selvagem, enquanto suas mãos já trabalhavam em tirar seu terno e desabotoar a camiseta que ele usava.
— Alguém pode nos pegar. – Avisa no intervalo entre um beijo e outro.
— Sempre gostei do perigo. – Murmurou a pegando no colo e indo até o sofá mais próximo, se sentando com ela sobre si, o beijando sem pudor. Um arrepio percorre todo seu corpo e ele sente uma vontade imensa de transar com a mesma ali. Não se importava em matar qualquer um que os incomodasse, mas sempre tinha que se lembrar que Emily não sabia sobre sua máfia e esse lado assassino que tem nas veias. Fora que isso a prejudicaria e isso era o que menos queria. Continuou a beijando enquanto retirava o vestido de seu corpo a deixando somente de lingerie.
— Vamos mesmo fazer isso aqui? – Sussurrou enquanto ele deixava um rastro de fogo em seu colo, dando uma leve mordida no bico de seu seio ainda por cima do sutiã.
— Está fazendo perguntas demais... – Diz terminando de tirar a camiseta de seu próprio corpo, a jogando em um canto qualquer do quarto.
— Então mantenha minha boca ocupada. – Vocifera e é a vez dele sorrir.
— Com todo prazer. – Afirma dando ênfase no prazer que queria proporcionar a morena, a puxando para mais um beijo, já explorando aquela boca pela milésima vez. Jamais iria se cansar daqueles lábios.
Suas mãos então vão até os seios da morena, que suspira, ainda com a boca dele colada na sua como dois imãs. Seu celular toca, mas ela ignora, o colocando deitado no sofá, retirando o cinto de Ian e jogando longe, já desabotoando a calça e descendo o zíper. Seu membro já latejava desejando se afundar naquele corpo mais uma vez. Ela então abaixa a cueca boxer que ele usava, dando uma atenção em seu peitoral trilhando um caminho de beijos e mordidas, até chegar em seu membro. Suas mãos então o seguram, massageando com calma observando todas as reações dele, que fechou os olhos gemendo baixinho. A morena não parava de surpreendê-lo. O celular dela toca mais uma vez e Ian a encara descrente.
— Acho melhor atender essa ligação, parece importante. – Diz ele, a fazendo levantar do sofá e caminhar até sua bolsa que estava em um canto qualquer do chão.
— Joe? O que você quer? – Pergunta ao atender o telefonema.
— Você está bem? Eu estou ótimo também... Quer dizer, mais ou menos.— Murmurou, deixando Emily preocupada imediatamente.
— O que aconteceu? – Ian se levanta do sofá já vestindo sua roupa, sem deixar de observar os movimentos da morena.
— Digamos que eu precise que você faça um favor para mim. Pode vir aqui? — Pergunta ele e ela morde o lábio inferior sem tem ideia do que fazer. Joe era um amigo e se ele precisava de ajuda, Emily precisava ajudar. Mesmo que estivesse meio ocupada ali.
— Claro. Me dê dez minutos. – Pede já desligando a ligação. – Preciso ir. Um amigo meu está com problemas.
— Joe, certo? Ele é o cara que promove os rachas?
— É... Não deve ser nada demais. Ele geralmente é bem dramático, mas é meu amigo.
— Tudo bem, tenho algumas coisas para resolver na empresa também. – Diz Ian dando um nó perfeito em sua gravata, voltando a encarar o corpo da morena que ainda usava a lingerie. – Terminamos mais tarde.
— Até mais tarde então. – Sussurrou ela maliciosamente lhe dando um selinho. Ian desaparece do cômodo tão rápido quanto apareceu e dá de cara com Dan no corredor.
— Desculpe, mas você é estuda aqui por acaso? – Perguntou abordando o mafioso que se vira, o encarando.
— Não, na verdade vim visitar uma garota.
— Emily. Vi você saindo do camarim dela. É algum namorado? – Questiona e Ian cerra os olhos.
— A pergunta seria por que está tão interessado. – Murmura e Dan levanta as mãos na defensiva.
— Curiosidade é o mal do ser humano... Sabe como é... – Respondeu e Ian fingiu rir, ficando sério logo em seguida. Dan então volta a andar até o camarim de Emily quando o homem ao seu lado o impede com apenas uma mão.
— Ela não pode te receber agora. Está trocando de roupa. Seria gentil da sua parte se esperasse ela do lado de fora. – Sussurrou no ouvido do professor, dando tapinhas fortes nas costas dele antes de sair dali. E enquanto ia até seu carro se perguntou porque teve aquela reação no mínimo idiota e infantil.
Dan espera Ian desaparecer de sua vista antes de continuar caminhando até o cômodo onde Emily estava. Bateu na porta fracamente somente para dizer que o fez depois e então abriu a porta, não a encontrando em lugar nenhum quando escuta o barulho do chuveiro. Sorriu enquanto seguia o barulho dando de cara com a morena tomando um banho. A água estava tão quente que o vapor deixava o box embaçado impedindo que o professor visse alguma coisa.
— Quem está aí? – Perguntou desligando o chuveiro e pegando uma toalha de seda branca que estava pendurada no box, se enrolando antes de sair dali dando de cara com o professor.
— Me desculpe eu não sabia que estava tomando um banho. Só queria dizer que foi maravilhosa hoje. Não entendo porque o conselho preferiu Odete. – Murmurou ele observando as pernas torneadas da morena que parecia não se importar com a presença dele ali.
— Não se preocupe. Me senti mal no começo, mas não é como se Julieta fosse a única personagem da peça. – Diz ela simplesmente se vestindo por trás de uma divisória amadeirada.
— Claro, você está certa. Mas ainda estou perplexo com a decisão deles. – Diz dando de ombros.
— Eu já disse para não se preocupar. Vai ver eles se cansaram do tradicional. – Murmurou saindo de trás da divisória e pegando sua bolsa. – Olha, eu tenho que ir embora agora, mas a gente conversa amanhã, tudo bem?
— Tudo bem. Até amanhã. – Sussurrou ele e Emily sorri antes de sair dali.
Em questão de minutos, estava em seu carro, o famoso Zenvo ST1 preto, dirigindo com velocidade pelas ruas de Chicago e chegando em segundos no apartamento de Joe. Ela bate na porta apenas uma vez, sendo rapidamente atendida por Katherine.
— O Joe está aí? – Perguntou colocando as mãos no bolso da jaqueta de couro.
— Sim e está quase arrancando os cabelos. – Diz revirando os olhos. – Entra.
— O que está acontecendo afinal? – A morena questiona confusa.
— Estou há duas horas tentando entender, acredite.
— Emily? – Joe desce as escadas do apartamento indo até ela, a recebendo com um abraço.
— Está tudo bem?
— Um filho da puta que me devia cem mil dólares me enganou, entregando dinheiro falso no prazo da entrega. – Gritou se afastando dela. Katherine e Emily se olham cruzando os braços ao mesmo tempo.
— Está falando sério? – Diz a loira indo até ele e Joe joga um saco preto em sua direção. O mesmo estava recheado de dinheiro falso, sem absolutamente nenhum valor.
— Esse idiota está achando que pode me enganar, mas não sabe com quem está lidando. Ele comprou de mim êxtase o suficiente para deixar uma cidade inteira doidona. – Berrou colocando as mãos no cabelo.
— Certo. O que quer que eu faça? – Pergunta Emily se mostrando tão irritada quanto ele.
— Ele mora no prédio mais luxuoso de Chicago, na cobertura. No centro da sala de estar existe um cofre que contém seis diamantes que valem muito mais do que apenas cem mil dólares. Eu os quero. – Murmura Joe.
— Como pode saber desses diamantes Joe? Isso é um tiro no escuro! – Exclama Katherine.
— Não custa nada tentar. – Diz a morena.
— Emily, você enlouqueceu? Ao menos sabe se defender? Só porque é boa sobre quatro rodas não quer dizer que consegue enfrentar alguém como esse cara. Joe é maluco em pedir ajuda para você. Precisamos de gente que pode fazer isso. Alguém que pode se infiltrar bem e principalmente, que saiba arrombar um cofre! – Completa ela e Joe encara a morena com um sorriso no rosto. Ele é o único que sabe sobre os segredos da garota, que pensa em algo rápido como resposta.
— Você não tem ideia do que eu sou capaz. – Sussurrou para Katherine. – Voltarei até a meia noite. E trarei comigo os diamantes.
— Essa é a minha garota. – Diz Joe animado.
Depois de horas após a conversa com o amigo, a noite já havia caído e a lua estava cheia enquanto as ruas estavam lotadas. Emily, que havia chamado Chloe para ajudá-la, estava no carro observando de tocaia o movimento de Santiago, homem que havia enganado Joe. Definitivamente sentiu falta da adrenalina correndo em suas veias e mal podia esperar para colocar as mãos naqueles diamantes. A prima estava do lado de fora, descendo de seu carro, um porsche vermelho, e caminhando até o luxuoso prédio. Usava um casaco bege, bem amarrado deixando apenas suas belas pernas torneadas do lado de fora. Emily nota a deixa e desce do carro.
— Senhorita, não pode subir sem que seja anunciada. – Murmurou o porteiro, parando Chloe que acobertava a morena.
— Oh! Me desculpe, mas fui contratada pelo amigo do senhor Santiago. E, você entende não é... gostaria de fazer uma surpresinha para ele. – Diz ela se aproximando do homem que engole em seco.
— Entendo minha senhora, mas você realmente precisa ser anunciada e ele não está. Saiu há dez minutos.
— O amigo dele me informou isso. Ele quer que eu faça uma surpresa, como eu disse. – Chloe senta sobre o balcão, puxando o porteiro pela gravata e sussurrando em seu ouvido. – Me ordenaram a ficar completamente nua, esperando ele na cama.
— E-e-eu entendo m-m-minha senho-o-ora. – Gaguejou ele.
— Não vai estragar a minha surpresa não é, senhor... Williams? – Pergunta ela fazendo muxoxo após observar o nome do homem no crachá.
— Acho que não terá problema se entrar. – Diz ele com um sorriso no rosto, suando frio. Chloe então pisca para ele sorrindo maliciosamente.
— Então acho melhor eu subir. Antes que ele chegue, não é? – Ele continuou sorrindo nervoso até ela entrar no elevador e desaparecer dali. Enquanto isso, Emily havia entrado por uma porta que dava na sala de segurança, desativando todas as câmeras e apagando os últimos minutos, quando entraram. Usou luvas para que suas digitais não ficassem ali e então saiu indo até as escadarias enquanto a prima ainda cantava o porteiro.
Entrou no elevador ao chegar no segundo andar e chegou segundos depois de Chloe, que também usava luvas para não deixar impressões digitais em nenhum lugar. O apartamento de fato era enorme, bastante iluminado por luzes artificiais e algumas em neon. O piso era totalmente coberto por um carpete negro e várias colunas sustentavam o teto. Uma enorme televisão ficava ao lado dos elevadores, e logo em frente, um sofá de couro na cor bege. Também havia um minibar no lado oposto do apartamento, repleto de bebidas atrai a atenção das garotas.
— Acho que Santiago não irá se importar se pegarmos uma garrafa de vodca. – Gritou a ruiva com um sorriso brincalhão no rosto. Emily então nota o grande cofre no centro do apartamento e vai em direção a ele, se agachando e o observando com cuidado. A senha do cofre era digital, repleto de tecnologia pesada.
— Chloe, vê se consegue encontrar alguma chave de fenda no apartamento. – Diz Emily e a ruiva larga a garrafa que segurava, entrando pelos corredores em busca do que era necessário para a prima, voltando com um pé de cabra.
— Foi tudo que consegui encontrar. – Avisa entregando para a morena.
— Serve. – Sussurrou usando o objeto para abrir a caixa que gerenciava a abertura do cofre. Mexeu em alguns fios e na fita amarelada que ficava no fundo do equipamento. Nela estava escrito a senha, que provavelmente foi colocada ali para o caso do proprietário se esquecer. Encaixou as peças mais uma vez e então digitou o código, abrindo o grande cofre. Chloe corre até a prima observando aqueles diamantes com os olhos brilhando.
— Isso é o que chamo de vingança. – Murmura e Emily assentiu mecanicamente.
Em questão de segundos, as duas já haviam pegado os diamantes e colocado tudo em seu devido lugar. A morena fez questão de deixar uma pequena mensagem para o homem nunca mais enganar alguém, e deixou algumas pistas que não levariam a lugar nenhum. Saiu do apartamento pelas escadarias e aproveitou que o porteiro cochilava e entrou na sala de segurança, ativando ela para daqui a trinta segundos, dando tempo suficiente para que as duas saíssem sem serem vistas. Voltaram para o apartamento após deixar os diamantes com Joe que ficou animado, rindo alto enquanto Katherine se perguntava como Emily conseguiu esse feitio. Chloe avisa que Lorenzo irá ver um filme com ela no apartamento e a morena promete não incomodar, indo para o quarto e tomando um banho demorado, deixando as roupas jogadas no chão, ao lado da cama. Ao sair do banheiro dá de cara com Ian, que pelo visto, tem sido bom quando o assunto é aparecer do nada e ela sorri nervosa ao ver as roupas dela ali. Estavam bastante sujas para alguém que só dirige carros e vai para a universidade estudar.
— O que faz aqui? – Perguntou ela e ele se aproximou, os olhos escuros de tamanho desejo. – Pensei que nos encontraríamos em algum hotel.
— Lorenzo comentou sobre o filme com sua prima e pensei em acompanhar ele. – Sussurrou. – Para, você sabe... Voltar aonde paramos.
— Ian, eles estão aqui. – Emily o repreende quando ele retira sua toalha com um simples movimento.
— Então espero que o filme esteja bem alto se não quiserem ouvir nós dois nos divertindo aqui. – Diz ele simplesmente a puxando para ele.
E os dois de fato terminam o que haviam começado no camarim de Emily. Ian dormia sereno, completamente nu entre os lençóis e ela então joga suas roupas debaixo da cama torcendo para que ele as não tenha notado. E de fato não notou. Se deita observando o teto e deixa uma lágrima escapar em seu rosto. Por um segundo, parou para pensar em como seria quando as aulas acabassem, afinal, esse é seu último ano e depois teria que voltar ao Brasil e assumir a sua máfia como prometeu a família. Ian só seria uma pequena página em sua vida que deveria ser apagada em breve e tudo que precisava era não se apegar. Mas talvez, só talvez... Seja tarde demais.
**
Ian acorda bem cedo, colocando sua roupa e indo para casa tomar um banho antes de voltar para a empresa. Lá, ele e Lorenzo conversam em um clima descontraído no escritório da empresa sobre algum tema banal quando uma das diversas secretárias adentra na sala pedindo licença.
— Um dos seus clientes está aqui para ver o senhor. – Anuncia a Ian, que franze o cenho.
— Qual é o assunto?
— Ele disse que é um assunto pendente. – Responde a moça educadamente.
Ian olha para Lorenzo já intrigado. O termo “assunto pendente” é usado na empresa de Ian para se referir a assuntos mafiosos. Ou seja, a pessoa que veio o ver é relacionada à Máfia.
— O mande para a sala de reuniões. Já estarei indo. — A moça assente e sai.
— Quem será? – indaga Lorenzo, curioso. Ian dá de ombros.
— Não faço ideia.
Os dois se levantam e caminham tranquilamente até o elevador, indo para o andar de baixo, onde fica a sala de reuniões. Por conta das paredes de vidro, Ian logo avista Santiago, um traficante de drogas, sentado apreensivo. Ele olha desconfiado para Lorenzo, que também reconhece o homem, e os dois se perguntam o porquê da presença do homem ali. Coisa boa é que não deve ser. Ian entra na sala e Santiago se levanta ao ver o atual chefe da Cosa Nostra.
— Santiago! A que devo a honra? – Pergunta Ian educado, estendendo a mão ao homem.
— Eu fui roubado e quero que descubram quem foi o desgraçado que ousou fazer isso. – Vociferou.
Lorenzo e Ian se entreolharam.
— Deve haver algum engano. Você tem certeza disso? – Lorenzo comentou com calma.
— Acha que isso foi um engano? – Gritou jogando uma foto para ele, que a segura observando o que continha na mesma. A imagem mostrava a parede do quarto do homem totalmente pichada, com uma frase em letras gritantes: Isso foi pelos cem mil dólares.
— Por acaso devia a alguém? – Perguntou Lorenzo desconfiado.
— Claro que não! – Mentiu na cara dura. Santiago sabe que a Cosa Nostra não lida com casos tão inúteis como o dele. Sabia que se Ian soubesse que ele devia a alguém, nunca o ajudaria. Afinal, ele recebeu o que merecia.
— Parece que você subestimou alguém... – Sussurrou Ian impressionado.
— E eu quero essa pessoa morta.
— O que eles roubaram exatamente? – Questiona Lorenzo.
— Seis diamantes da família que são passados de geração em geração há séculos. – Diz ele. – Mas seja lá quem foi o idiota, vai pagar com vida. Eu apenas peço que ache a pessoa, do resto cuido eu. Como pagamento do antigo favor que seu avô me deve, Ian.
Ele olhou para Santiago com os olhos semicerrados.
— Seja lá quem for, iremos atrás. Pode ficar despreocupado. – Respondeu olhando o homem de cima a baixo, demonstrando seu total desprezo. Mas como era um favor que seu avô devia, ele tinha que cumprir.
Santiago sorriu agradecido e foi embora, fazendo preces para que eles achem o maldito que o roubou antes que descubram que o trapaceiro de fato é ele. Ian e Lorenzo continuaram na sala observando as fotos da cena do roubo, procurando por pistas que o levassem até o ladrão.
— Depois de tanto tempo achei que soubesse identificar um mentiroso, Ian. – Muriel zombou adentrando na sala, pegando os dois de surpresa.
— Tio? O que faz aqui? – Ian indagou surpreso com a presença repentina do melhor amigo da mãe ali.
— Preciso de motivos para visitar o meu antigo Quartel? – contestou sorrindo de lado.
Lorenzo sorriu de lado e foi cumprimentá-lo. Muriel, depois que se juntou com Marcelina, se tornou membro da família de Vitor e Valentina, e por conta da amizade que ele continha com os mesmos, acabou se tornando um tio para os dois. E o mesmo os amou como se fosse.
— É muito bom revê-lo, tio. – Lorenzo confessou, o abraçando.
Logo depois veio Ian, fazendo o mesmo. Muriel sentou-se à mesa e aproveitou para pegar as fotos que Santiago havia trazido da possível cena do crime, as observando com cautela.
Por fim, sorriu com ironia.
— Como eu disse, achei que vocês soubessem identificar um mentiroso. – Revelou jogando as fotos de volta a mesa.
— Por que diz isso? – Perguntou Lorenzo, se sentando ao lado do tio e analisando as fotos mais uma vez.
— Porque aquele homem mentiu para vocês. – Anunciou. – Primeiro que ele forjou algumas pistas, viram como essas fotos focam em objetos específicos? Ele quer que vocês percebam esses objetos e tirem as conclusões que ele mesmo forjou.
— Está dizendo que ele não foi roubado? – Interrompeu Ian.
— Oh, não, ele foi roubado, sim. Mas ele mereceu. Santiago deve até mesmo ao diabo. Ele engana a todos com notas e promessas falsas. Ele apenas queria que vocês matassem um dos seus credores para que os outros se sentissem ameaçados e deixassem de lado a dívida que ele tem com eles. – Explicou Muriel com calma, como se fosse ele quem havia elaborado o plano. – Esperto, porém nem tanto. Vocês deviam ter notado isso logo de cara. – Terminou os advertindo.
Lorenzo suspirou admirado com a conclusão do tio, mas Ian se sentiu incapaz. Odeia quando isso acontece. Odeia deixar as pistas passarem por ele abatidas. E odeia principalmente que outra pessoa chegue a ela antes dele. Ele já é experiente, devia ter seu instinto mafioso afiado. Quer ser como o tio e identificar mentirosos logo de cara. Ser também como a mãe e intimidar só por sua presença. Como o pai e o avô, sendo temido só por mencionarem seu nome. Ian já conquistou o seu império e é quase certo que ele é admirado por muitos que o conhecem. Mas é por conta desses pequenos detalhes que o faz se passar por inexperiente. Por um simples novato.
E logo Ian já se enche de ódio por Santiago. O traficante o queria fazer de idiota e ele irá pagar caro por isso.
— Vamos prestar mais atenção na próxima vez, tio. Pode ter certeza. – Ian disse com calma, mas sem deixar transparecer sua decepção consigo mesmo.
Muriel notou que havia, de algum modo, machucado o sobrinho e continuou.
— Olha, eu sei que tem havido muita gente questionando o potencial de vocês aqui dentro. Dois jovens assumindo postos tão altos dentro da maior organização mafiosa do mundo requer muita responsabilidade. Mas não esqueçam, vocês foram treinados pelos melhores. – Reconfortou ele.
— E outra, eu fui o maior trapaceiro que esse mundo já viu. Reconheço essa laia de longe. Com o tempo, vocês também aprendem. – Lembrou. Lorenzo e Ian assentiram, ambos confiantes de que aquela seria a última vez que aquilo acontecia.
— Bom, agora que a bronca já foi dada, o que devemos a honra da sua visita? – Perguntou Lorenzo alegremente, provocando a curiosidade de Ian.
— Bella e Alicia terão uma festinha à fantasia na escola, e por serem filhas das duas mulheres mais exigentes que eu já conheci em toda a minha vida, elas escolheram fantasias que só se encontram aqui. E por Marcelina ter sempre um bom argumento, eu me ofereci para vir buscar as tais fantasias. – Explicou. Bella é filha de cinco anos de Muriel e Marcelina. A pequena nasceu na mesma época que Alicia e, como as mães, são melhores amigas e fazem tudo juntas.
— E qual seria esse argumento? – Perguntou Lorenzo divertido com a situação.
— O sexo, é claro. – Respondeu, dando de ombros.
Ian caiu na gargalhada com o tio enquanto Lorenzo ruboriza segurando o riso.
— Você não precisava ter respondido. – Disse Lorenzo envergonhado.
— Então dá próxima vez não pergunte. – Respondeu Muriel.
Os três riram e passaram um tempo conversando sobre assuntos aleatórios. Muriel informou aos dois como as pequenas, Bella e Alicia, estão cada vez mais graciosas e parecidas com seus respectivos pais. Conversaram também sobre negócios e afins. Por fim, Muriel acabou partindo para ir comprar os vestidos da filha e da afilhada.
— O nosso tio continua o mesmo. – Comentou Lorenzo se referindo a Muriel. Porém Ian não lhe dá atenção, parece estar preso em um tipo de transe, observando a paisagem do centro de Chicago com uma afeição séria.
— Ian? – Chamou Lorenzo.
— Sim?
— Tudo bem com você? Parece pensativo.
— Não, está tudo certo. Estava apenas pensando na melhor maneira de acabar com Santiago. Alguma sugestão?
Lorenzo ficou sério. Ele conhece o primo melhor do que ninguém e o fato dele ter quase sido enganado pelo traficante deixou ele possesso de raiva. Ian dá duro na Máfia e até mesmo os pequenos vacilos significam algo grande para ele.
Mas afinal... Qual seria o castigo para quem dorme com a filha do inimigo?
Fale com o autor