Mirrors
5 The Strange Feeling.
Ian foi embora sorrindo a todo instante. Emily é um mistério para ele e a cada momento que passa, ele descobre algo sobre ela e fica ainda mais impressionado e mais quer saber. Há algo que o cativa, que o impulsiona a querer ficar com ela. Ian não sabe dizer se é um desejo carnal, mas outra coisa não se passa pela cabeça dele a não ser Emily.
Emily. Emily. Emily.
Ah, essa garota está mexendo com ele e é preciso resolver isso logo. Talvez se levá-la para cama, essa obsessão suma. Mas Ian não acha que seja isso, porém não vale nada tentar.
Na manhã seguinte, Ian afasta Emily de seus pensamentos, focando em seu trabalho. Seu avô, Augustos, havia enviado alguns contratos de negociação de armas nucleares para ele avaliar. Antes, a Cosa Nostra não se envolvia com assuntos do governo, não gostavam e achavam melhor cada um ficar em seu canto. Mas os poderes econômicos e os sócios da Máfia foram crescendo e ficou quase impossível não se envolverem com a política. E poderosos, a Cosa Nostra consegue contrabando de armas potentes. Até mesmo nucleares, as vende no mercado negro. Eles faturam muito com essas mercadorias e por isso, quando se trata de vendê-las, Ian tem que trabalhar com cautela e ver qual é a melhor opção de venda. Quase sempre eles vendiam para quem oferece mais, mas muitas vezes nem sempre esse é o melhor negócio.
Vale resaltar que a Cosa Nostra não visa em apenas enriquecer, ela quer ter o controle geral da situação. Se certo grupo de pessoas estão de olho nas mercadorias e tem dinheiro o suficiente para pagar por ela, é difícil conseguirem fazer negócios. Principalmente se essas pessoas apresentarem ser uma ameaça para a Cosa Nostra. Entretanto, se essas pessoas apresentarem um contrato alegando lucros constantes com a guerra que irão fazer usando suas armas, é bem provável que consigam um acordo com a organização.
Por exemplo, as guerras que acontecem com frequência entre os Estados Unidos e o Iraque, enriquecem milhões e milhões a Cosa Nostra, pois ela vende armamentos para ambos os lados.
E esse é o trabalho de Ian. Em meio a jogos de trapaças, mentiras e constante perigo, ele leva adiante o negócio da família, sempre inovando e aprimorando. Ele estaria mentindo se dissesse que não gosta do mundo em que vive, porque ele gosta. Gosta dos jogos sujos que pratica. Gosta dos golpes que dá. Gosta de controlar as pessoas e de ter o gostinho de poder controlar o mundo. Se as pessoas no mundo já nascem predestinadas a ser algo, com certeza Ian foi predestinado a ser o dono deles.
— Deus, que primo mais concentrado é esse. — Ian se assusta, se desconcentrando, e observa sua prima, Julie, adentrar em seu escritório sorridente.
— Quantas vezes já pedi para que você se anuncie antes de entrar em meu escritório. Minha secretária é paga apenas para isso. – Ian diz tentando soar irritado, mas falha ao sorrir de volta para a prima mais velha.
— Então a demita. – diz ela dando de ombros e se sentando a frente de Ian.
Julie é quatro anos mais velha que ele e três anos mais velha que os primos gêmeos, Lorenzo e Geovana. Ela é filha da irmã do pai de Ian, Sarah e John, e é uma bela mulher. Os cabelos são negros e vão um pouco abaixo dos ombros, lisos com as pontas onduladas. Os olhos são azuis claros e entram em contraste com a pele branca. Seu corpo é escultural e chama bastante atenção por onde anda. Em festas mafiosas, ela e a prima, Geovana, que é ruiva igual a falecida mãe, são o foco da festa. Muitos já tentaram um relacionamento com ambas, mas Geovana é tímida e não quer saber de mafiosos, já Julie é uma mulher esperta e por enquanto, só quer saber de se divertir e brincar com os sentimentos de quem ousar cruzar seu caminho.
— Como vai prima? – Ian pergunta sorrindo da falta de interesse dela na vida das pessoas ao seu redor, já estava acostumado com seu jeito.
— Bem, na medida do possível. Geovana embarcou hoje para a Alemanha e resolvi vir fazer uma visita a você. – diz ela dando um sorriso cínico.
— Oh, então sou sua segunda opção? – Dramatiza Ian.
— Na verdade, a terceira. A segunda foi Lorenzo, mas ele está de ressaca no escritório dele. – diz com naturalidade.
No instante seguinte, Lorenzo entra desanimado e quase desmaiando de tanto sono.
— Você é péssima para guardar segredos. – diz se referindo à prima.
Ian observa o primo se arrastar por seu escritório e se jogar em um sofá que há no canto do cômodo irritado. Lorenzo está abusando das suas noitadas e isso está atrapalhando em seu trabalho. Ian gosta que todos os seus funcionários estejam trabalhando com eficiência em seus deveres e mesmo que Lorenzo seja de sua família, ele não tolera deslizes.
— Não acredito que você tenha saído e enchido a cara outra vez, depois de ter te deixado em casa. Já é a quarta vez que fica de ressaca essa semana. – Ian repreende o primo.
Lorenzo apenas revira os olhos e tenta se manter acordado.
— Se liga Ian, ontem não foi uma comemoração comum, foi à festa de despedida de minha irmã. Aquela que você não compareceu, mesmo depois de ter lembrado você. – Dispara criticando o primo.
Geovana, irmã gêmea de Lorenzo, iria fazer um tour pelo mundo durante um ano. Esse era o sonho da mãe deles, que morreu muito antes de visitar mais de três países. Ela, que recebeu de presente de dezesseis anos o antigo diário da mãe, fez do sonho dela o seu. E hoje, partiria para Alemanha.
Ian suspira chateado, já que havia se esquecido completamente.
—Droga, foi mal. – Lamenta. Ele adora a prima, queria ter ido prestigiá-la em sua última noite na cidade, mas claro, ele estava com Emily grudado em seus pensamentos.
—É, tudo bem, Geovana pode superar isso, com certeza. – Julie diz com ironia e o primo a olha feio. – Relaxa Ian, apenas ligue para ela em outra ocasião.
Ele anota isso mentalmente para não se esquecer e Lorenzo resmunga do sofá cansado. Ian revira os olhos para o primo, não aguentando mais vê-lo naquele estado.
—Por Deus, Lorenzo, vá para a casa e descanse. Dá próxima vez que vier trabalhar assim, irei levar você para o ringue. – Diz se referindo a academia que havia no subsolo do prédio onde eles geralmente praticavam.
Lorenzo dá uma risada fraca e tenta se levantar, mas volta a cair sentado no sofá totalmente desorientado, fazendo com que os primos rissem dele.
—Deixa que eu levo ele para casa. – Julie diz se levantando e o ajudando a se levantar. – Aliás, Ian, falei com sua mãe hoje cedo, ela está esperando sua ligação. – Avisa.
Ian assentiu e seus primos saíram de sua sala. Ele joga a caneta que está em suas mãos sobre a mesa, cansado, e respira fundo. Valentina, sua mãe, sempre foi muito amorosa com o filho, sempre fez de tudo para que ele tivesse o melhor das coisas. Talvez a autoestima exagerada dele tenha sido fruto dos carinhos excessivos da mãe. Mesmo tratando o filho como um bebê a maior parte do tempo, Valentina nunca se esqueceu de tratá-lo também como um homem, pois ela sempre soube que ele iria, de fato, se tornar um mafioso.
Ian pega seu celular e disca o número da mãe. Depois de se afastarem da presidência da Cosa Nostra, Valentina e Vitor foram morar em Pallermo, Itália, com sua irmã mais nova Alicia, de cinco anos. Ele os visita com frequência, é difícil passar mais de trinta dias sem ver a família.
— Como vai o filho mais lindo desse mundo? – Valentina brinca ao atender o telefone.
A essa idade, Ian odeia quando sua mãe o chama assim, mesmo ele achando que seja a mais pura verdade.
— Quantas vezes eu te pedi para que parasse de me chamar assim? – Pergunta bufando.
Valentina ri do outro lado da linha e Ian consegue ouvir também sua irmã gritando ao fundo e o som das ondas do mar. Devem estar na praia, deduz.
— Milhões e milhões de vezes, mas nunca perde a graça. – Responde ela e depois, grita alegremente. – Sua irmã e eu estamos brincando de pega-pega e Dios, como ela não cansa nunca!
Ian esboça um sorriso ao ouvir as duas mulheres mais importantes da sua vida se divertindo na praia. Ri também em solidariedade para com sua mãe, pois ele sabe o quanto Alicia pode esgotar as energias de alguém em uma única hora do dia.
— Mande um beijo para ela. – Ian pede.
— Pode deixar.
— Julie me disse que a senhora estava esperando por minha ligação, aconteceu algo?
Valentina suspira irritada.
— Se você me chamar de senhora mais uma vez, vou arrancar todos os seus dentes! – Vocifera visivelmente irritada. Ian ri, se desculpando. – Mas, sim, eu queria conversar com você. Seu avô anda estressado demais ultimamente, então se ele te pedir alguns serviços que sejam diferentes do que ele geralmente pede, quero que me avise. E se você ficar sabendo de qualquer coisa que suspeite, também irei querer saber. – diz ela em um tom mais preocupado, séria.
— Por que tudo isso? – Ian questiona intrigado.
— Apenas faça o que eu peço tudo bem? – pede ela, já o tranquilizando. – Qualquer coisa de diferente dentro da Cosa Nostra, me avise imediatamente. Também mando nessa bagaça.
Ian sorri espontaneamente ao ouvir as últimas palavras da mãe. Valentina aderiu um vocabulário um tanto que exótico ao longo dos anos, e foi adicionando novas formas de se expressar na adolescência do filho, que em sua fase rebelde, também ousou com a forma de linguagem. Mas diferente dele, sua mãe não conseguiu deixar o vocabulário exótico de lado.
— Pode deixar mãe, se algo fora do comum acontecer eu lhe aviso. – Confirma.
— Ótimo. Agora deixa eu dar atenção para sua irmã porque desde que ficou sabendo que terá mais um irmão, ela anda necessitada de atenção! – Valentina explica sorrindo.
Ela está grávida pela terceira vez de oito semanas e essa notícia atiçou a todos, claro. Mais um herdeiro da Máfia está a caminho e as famílias Baldocchi e Chiacchio não podiam estar mais felizes. Apenas Alicia, a caçula da família, não gostou muito da ideia de ter mais um para ocupar a atenção dos pais. Isso logo passaria, pois ela sempre será a princesa da casa.
— Ok mãe. Nos falamos depois então.
Eles se despedem e Valentina volta a dar atenção apropriada para a filha enquanto Ian volta a revisar os contratos que o avô havia mandado para ele. E foi assim até anoitecer, quando finalmente terminou de avaliar as propostas de compra de uma certa organização mafiosa e decidir que aquela é a melhor para lucrar dinheiro. Depois de mandar tudo para o avô nos mínimos detalhes, Ian entrou em seu carro e pediu para que seu motorista o levasse para casa. Durante o trajeto, ele acha um cartão com um número de telefone rabiscado nele de caneta vermelha e abaixo o nome Katherine acompanhado de um coração bem feito. Ian se esforça para se lembrar do rosto da jovem e o mais importante, se ele já havia saído com ela, pois repetir garotas não é muito a praia dele.
Ao lembrar da jovem que lhe deu o cartão — foi uma das diversas mulheres que o parabenizou depois de ter ganhado a corrida que participou no dia anterior com Emily, ele disca o número da moça sem pensar duas vezes, e espera pacientemente ela atender. Já no quarto toque, a mesma atende. Com seu charme indestrutível, Ian consegue facilmente combinar um encontro com a jovem no The Club, onde passa o resto da noite acompanhado. Se ele não conseguia tirar Emily da cabeça, teria que ocupá-la com algo. E não há nada melhor do que fazer isso com as próprias mulheres.
**
Emily fica alguns minutos na pista de corrida observando o carro de Ian desaparecer aos poucos no horizonte. Estava irritada, muito irritada. Ninguém havia ganhado dela antes e ela sempre detestou o ditado de que para tudo tinha uma primeira vez. Respirou fundo, tentando ignorar o ocorrido essa noite e colocar um fim naquilo para sempre, focando na pergunta principal que formava em sua cabeça: Como ele soube das corridas? Desde quando empresários se interessavam por rachas? Definitivamente era esquisito ver aquilo e só agora ela pensou sobre o assunto.
Espantou de imediato a ideia de que ele a estivesse seguindo ou coisa relacionada. Se viram no The Club e não trocaram telefone ou endereço... Era claro que tudo não passou de uma mera coincidência. Seus pais sempre ensinaram que Emily deveria aprender a desconfiar das pessoas, o que tornou ainda mais difícil esquecer a ideia de que ele deu um jeito de descobrir o que ela fazia nas noites de sábado. Joe, o homem que gerenciava os rachas, se aproxima dela com um sorriso sacana.
— Iria vencer, não é? – Debocha ele arrancando um olhar semicerrado dela.
— Por que não vai ficar com suas garotas? – Retruca cruzando os braços, e Katherine, uma das garotas que mencionou, se aproxima de Joe agarrando seu pescoço de maneira possessiva.
— Zoar você é bem mais interessante agora. – Ele murmura arrancando uma risada desnecessária da garota ao seu lado. Seus cabelos eram negros e os olhos tinham um tom castanho. A pele era completamente branca, sem nenhum bronzeado, além do corpo esbelto, resultado de academia pesada.
— Abra a boca mais uma vez, e faço você engolir seus músculos. – Ameaça Emily arrancando uma risada do homem que nunca levava aquilo a sério. Mal sabia ele que, ela definitivamente conseguiria com facilidade tornar aquela simples ameaça em realidade.
— Não vai ficar para a festa, Emy? – Pergunta Katherine a encarando de cima a baixo, fazendo uma crítica silenciosa.
— Primeiro, não te dei intimidade nenhuma para me chamar de Emy. Segundo, o que faço ou deixo de fazer não é da sua conta e terceiro, mas não menos importante... Não. Não irei ficar para a festa, pode se divertir a vontade. – Responde secamente.
Em um movimento rápido, ela entra em seu carro com a intenção de sair dali logo. Nem se dá ao trabalho de colocar cinto de segurança, pisando fundo no acelerador e dirigindo pelas ruas de Chicago chegando rapidamente na casa da fraternidade. Entra devagar temendo acordar todas ali e sobe os vários lances de escada até o último andar, correndo em direção ao seu quarto e trancando a porta. Toma um banho demorado e bem gelado, em uma tentativa falha de desestressar. Sai do banheiro depois de horas, penteia os cabelos e os prende em um coque mal feito, colocando um pijama simples e confortável enquanto se deitava na cama pegando o celular e checando ligações até notar que sua mãe, Sophie, ligara algumas horas mais cedo. Se tinha uma coisa que Emily adorava, era conversar com ela, mesmo que por poucos minutos. Não demora muito para estar discando seu número e levando o celular ao ouvido.
— Por que não atendeu antes? – Sua mãe já atende em um tom preocupado, o que faz a filha sorrir.
— Olá para você também. Não se preocupe, estou bem. Não atendi porque estava no racha, competindo. – Murmura ela e Sophie suspira aliviada. Sempre que a garota não atendia o telefonema, seu coração se apertava temendo o pior, mesmo sabendo que ela conseguia cuidar do próprio nariz.
— Notou alguma movimentação estranha ultimamente?
— Não, mãe. Relaxa. – Emily tenta confortá-la e consegue com sucesso. – Minha ficha está modificada, a Cosa Nostra não descobriria nada nem mesmo se tentasse.
A organização criminosa havia condenado sua família e em especial, seu avô, por uma traição cometida há muitos anos. Vir para Chicago só se tornou preocupante por esse fato, mas seus pais trabalharam para que ela e Chloe pudessem morar na cidade sem problema.
— Certo, certo... E como foi o racha? Ganhou? – Sophie muda de assunto, mas falha ao pensar que tiraria um sorriso orgulhoso da filha.
— Não, um babaca me fez frear antes da hora e acabou chegando primeiro que eu. Sabe o quanto eu odeio perder... – Sussurra se segurando para não gritar.
— Querida, você tem que aprender a...
— Sem chance. – Emily a corta arrancando uma risada da mãe.
— É, você é minha filha mesmo. E Bryan, está bem?
— Não sei. Terminamos. – A garota é direta esperando uma reação espantosa de Sophie.
— Que ótimo... Esse garoto não combinava com você.
— Não era o que você dizia...
— Queria sua felicidade! Se estivesse namorando um velho, diria que eram feitos um para o outro. O seu pai que faz o papel de chato. – Diz Sophie arrancando uma risada demorada de sua filha. Aquilo definitivamente não tinha preço.
— E como estão todos? Sinto tanta falta de vocês, de falar português, do Brasil... – Emily balbucia segurando as lágrimas de saudade.
— Todos sentem sua falta também. Você e Chloe eram a alegria da casa. Esse país não é o mesmo sem nossas garotas, suas bagunças rotineiras... As férias de vocês parece que demora séculos. – Fala sua mãe e ela então escuta a voz de seu pai chamando a mulher para ir dormir.
— Diz para meu pai que eu mandei um oi. Não quero incomodar você, vá dormir.
— Filha, estou te achando meio caída, está tudo bem?
— Está tudo ótimo... Antes que desligue, quero pedir que envie um dinheiro para minha conta. Preciso de um apartamento novo já que em breve serei banida da fraternidade quando descobrirem meu término com Bryan. – Vocifera e a mãe assentiu mesmo sabendo que ela não podia vê-la.
— Claro. Amanhã mesmo irei providenciar isso. – Sussurra. – Boa noite, filha.
— Boa noite, mãe.
Emily desliga o celular e como ainda não estava com um pingo de sono, decide organizar suas coisas para sair da fraternidade bem cedo. Definitivamente, aquela seria a melhor coisa do mundo que faria depois do término Bryan. Ela não tinha tantos objetos ali, muito menos roupas. Achou mais propício deixar tudo no Brasil. Seu quarto lá era enorme e sua tia, Hannah, fez questão de decorar tudo, com direito a pintura nas paredes e quadros fofos perto da cama.
Chloe com certeza puxou a mãe nesse quesito e seu maior sonho era ter um apartamento no centro de Chicago. Quando ela finalmente termina de guardar suas coisas, se joga na cama vencida pelo cansaço e dorme profundamente perdendo a hora e acordando tarde. Emily se levanta colocando a roupa que havia separado e deixado fora na mala para vestir e guarda atrapalhadamente pijama que havia usado.
Avisa sua prima por mensagem que irá passar um tempo com ela sem se importar em pedir permissão. Esse tipo de coisa não era comum entre as duas, e aquilo, para elas, não era invasão de espaço. De modo algum. Sempre dividiram o mesmo então era desnecessário pedir quando a mesma sabia que a prima aceitaria de bom grado. Principalmente quando aquela estadia reaproximasse as duas que sempre foram tão grudadas. Emily queria morar com ela, mas seu apartamento era longe demais da universidade. O que dificultava as coisas.
— Emily? – Ouve batidas na porta e logo em seguida, ela é aberta dando a visão de Margot, fundadora da universidade. Seu rosto era fino, e sempre foi muito magra. Os olhos negros e profundos, a boca carnuda e os cabelos castanhos. O sorriso falso era a prova que precisava para saber que a fofoca de que terminou com Bryan, chegara aos seus ouvidos.
— Não se incomode em me expulsar, já estou de saída. – Ela é direta, o que não deixa Margot surpresa. A morena sempre foi assim.
— Foi um prazer ter você em nossa fraternidade, mas para continuar sendo uma de nós, precisa obter algum talento. – Sussurra a mulher tentando escolher as palavras. E quando ela diz talento, se refere a líder de torcida, namorada de jogadores, dançarina experiente e acima de tudo... Popularidade.
— Claro, eu entendo perfeitamente. – Diz Emily sorrindo cinicamente. – Agora que Bryan está disponível para sua filha, receio que queira saber sobre a agressividade dele em relação a opiniões fortes então sugiro que ela mantenha a boca fechada.
Aquilo fez Margot travar o maxilar e segurar a compostura. Sua filha, também conhecida como Margareth, era uma das garotas mais repugnantes da face da Terra e era a miniatura da mãe. Emily sempre notou as investidas que ela dava em seu ex-namorado, e a garota não se importava nem um pouco com o fato dele estar com alguém ou não. Entretanto, ela tinha o defeito de falar até demais e isso parece perder pontos com o capitão do time de lacrosse. A morena faz questão de dar as costas à mulher, pegando sua única mala e saindo dali sem olhar para trás. Todas as garotas a encaravam e ela não se importava com aquilo, pelo contrário... Não poderia estar mais feliz. Em questão de segundos, sua mala estava no carro e ela dirigia até o apartamento da sua prima que ficava do outro lado do bairro.
O apartamento era alegre, cheio de cores por todos os lados. Chloe decidiu morar sozinha, pois sempre foi muito organizada e a ideia de ter alguém bagunceiro morando com ela a repugnava. Sua mania de limpeza às vezes irritava, mas Emily não era muito diferente. Já estava quase anoitecendo e as duas conversavam animadamente sobre coisas aleatórias. Haviam acabado de organizar as coisas da nova moradora do apartamento, abrindo espaço no guarda-roupa e colocando lençóis na cama que possuía no quarto de hóspedes.
— Você não me parece bem... É por causa de ter sido expulsa da fraternidade? – Pergunta Chloe preocupada. Se havia alguém nesse mundo que entendia a morena melhor do que ninguém era sua prima. E Sophie, sua mãe. Só uma conversa de poucos minutos ao telefone, já fez ela saber que tinha algo errado.
— Conheci um cara no The Club. – Admite. – Tinha potencial para um ficante, no mínimo. Não era de se jogar de fora.
— Nome, endereço, trabalho, gostos, defeitos... Ah! Algum parente? – Chloe pula para a sua cama onde a prima estava deitada encarando o teto de gesso.
— Seu nome é Ian e eu não tenho ideia de mais nada. Mas ele tem um defeito...
— Emily Gavin Hamswere sempre tem que achar um defeito em homem. – Reclama a garota arrancando risadas da prima.
— O cara é convencido e se acha o último homem bonito da face da Terra.
— O pior tipo de homem.
— Com certeza. Além de ter me vencido no racha noite passada.
— Ah! Agora entendi sua raiva. Sabe, Emy, você precisa...
— Não ouse dizer que preciso aprender a perder! – Emily faz uma cara de brava, mas acaba rindo ao ver a prima fazendo careta. – Preciso sair. O que acha de irmos ao The club?
— Emi...
— Nem comece. Sei que hoje é domingo, mas não precisamos demorar! – Diz ela fazendo biquinho.
— Quem resiste a uma prima como você? – A pergunta, ou melhor, a resposta de Chloe, fez Emily sorrir animadamente.
Rapidamente, as duas já estavam prontas, com roupas de festa e maquiagem no rosto. Saíram do apartamento conversando sobre a boate mais frequentada de Chicado. Emily usava um cropped dourado com detalhes em branco e uma saia rodada branca. O velho coque enfeitava seu cabelo e saltos pretos destacavam seus pés. Chloe usava um vestido de renda curto e azul escuro. Ela sempre foi modesta quando o assunto era roupas e gostava de algo mais delicado. Ambas vão no carro de Emily e as duas entram no The Club animadas por estarem saindo novamente.
Então ela o vê.
Ian estava no andar de cima da boate, mais conhecida como a ala VIP. Ele estava agarrado a Katherine, a garota que vivia nos rachas procurando gente nova. Os dois se beijavam e Chloe nota de relance a prima estática no meio da festa.
— Está tudo bem? – Questiona ao se aproximar.
— Perdi a vontade de sair. – Sussurra engolindo em seco, virando os calcanhares e saindo dali, sendo seguida pela prima que pergunta o que diabos havia acontecido. Ela não respondia.
O que havia acontecido? Nem mesmo Emily sabia.
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