Havia se passado dois dias desde que Ian deixou Emily em seu apartamento. Dois dias desde que ele sentiu os lábios dela nos seus. E ah, como ele sente falta do seu gosto. De focar sua pele, ouvir o som da sua voz, da sua risada. Mas dentro de tudo isso, Ian sente falta de provocá-la. Resumindo, Ian sente falta de Emily e ele sabe que ela também sente a dele. Afinal, ela o ama, certo?

Foi esse o motivo de se separarem. Ela o ama e ele não sente o mesmo.

Ah, essas coisas do coração... Era tudo que Ian queria evitar. Por isso escolheu Emily, pois achava que a morena era como ele. Mas ela acabou se apaixonando. E ele não pode nem tirar vantagem disso, já que de uma maneira ou de outra, a perdeu do mesmo jeito. Talvez Emily esteja tão assustada quanto ele. Não pode nem ir confortá-la, ouvi-la desabafar. Ela não quer vê-lo. Quer esquece-lo. Pelo menos é isso que Ian acha. E a cada hora que passa, isso se torna um buraco maior em seu coração.

— Já faz mais de duas horas que você não me enche o saco. — Lorenzo diz ao adentrar o escritório de Ian. — O que há de errado com você?

Ian desvia sua atenção da paisagem da cidade de Chicago e se vira para ver seu primo, que se senta a sua frente e o encara sereno.

— Não há motivos para te encher o saco hoje. — Respondeu Ian, ligando seu computador.

Lorenzo balançou a cabeça, respirando fundo.

— Já tentou ligar para ela? — Questionou ele.

— Não. – Respondeu ríspido, fazendo o primo engolir suas próximas palavras.

— Já foi ir se divertir pelo menos? – Perguntou Lorenzo depois de um tempo em silêncio.

— Não acho motivos para ir. — Respondeu ele.

Lorenzo sorriu.

— Como não? Vá encontrar pessoas novas, conversar, distrair... Deve ter outra pessoa além de Emily que você goste da companhia. — Comentou ele.

Os olhos de Ian se levantaram no instante seguinte. Ele tem alguém para conversar. E também uma ótima companhia para passar os dias. E talvez, por ela ser mulher, ela o ajude a compreender melhor essa situação.

— Você tem razão. — Exclamou Ian, voltando a desligar o computador e a juntar suas coisas. — Eu vou sair. Você comanda daqui pra frente. — Avisou.

Lorenzo se levantou e bateu continência para o primo.

— Sim, senhor! — Disse ele, esboçando um sorriso no final e arrancando outro de Ian.

— Você deve ter algum tipo de problema... Não é possível. — Murmurou Ian, seguindo para fora do escritório.

— Meu problema é você, seu maledetto. — Resmungou Lorenzo de volta.

Ian sorriu. Chamou seu motorista e pediu que o levasse de volta para a sua casa. Lá, não perdeu tempo e já pediu para que um dos seus manobristas trouxesse sua lamborghini.

Katherine adora esse carro. E Ian fez uma promessa a ela.

Quando girou a chave do carro e ouviu o ronco do motor, Ian arrancou o carro cantando pneus. Dirigiu em alta velocidade, mas por incrível que pareça não quebrou nenhuma regra de trânsito e nem ultrapassou os faróis. Mas mesmo assim, chegou na casa de Katherine em menos de quinze minutos. Ela e Joe moram em um bairro onde a classe média e a classe média baixa se misturam. A casa deles, em especial, tem um amplo gramado bem aparado, já com um dos carros de Joe estacionado na frente da garagem. A casa é pequena, porém espaçosa e aconchegante. Na última vez em que Ian esteve aqui, ele não pôde reparar muito nestes detalhes, porém agora observa cada um. Até mesmo os buracos de bala na parede das casas vizinhas.

Ian estacionou em frente a casa da loira e caminhou pelo gramado até a porta, onde bateu duas vezes. Um tempo depois e uma Katherine de cabelos desgrenhados e cara de sono apareceu. Ian sorriu ao ver o desapontamento no rosto dela ao vê-lo ali.

— O que diabos está fazendo aqui a essa hora da manhã? — Resmungou ela, coçando os olhos.

Ian ergueu as sobrancelhas.

— É uma da tarde. — Disse ele, porém a loira deu de ombros.

Como ficava até de madrugada nos rachas, Katherine muita das vezes dormia até tarde, por isso sua concepção de manhã ou tarde é diferente dos demais.

— Isso não importa. Quem é que aparece à uma da tarde na casa de alguém? — Questionou ela ainda olhando feio para Ian.

Ele não resistiu e sorriu.

— Alguém que tenha uma promessa para cumprir, talvez? — Pondera, levantando a chave do carro na altura do rosto da jovem e abrindo espaço para que ela enxergasse a lamborghini estacionada em frente a sua casa. Os olhos de Katherine se arregalaram e um sorrisinho se formou em seu rosto.

— Então... — Disse Ian, chamando a atenção da loira de volta. — Será que eu sou bem-vindo agora?

Katherine abriu a porta por completo, dando passagem para o cara irritante que a acordou. Ian se aproximou da loira e deixou um beijo no topo de sua cabeça, antes de adentrar o local.

— Você devia parecer menos interesseira quando o assunto é carros. — Exclama Ian, se jogando no sofá.

Katherine revirou os olhos e caminhou até a cozinha enquanto fazia um coque no cabelo. Ian a seguiu.

— Você quase me faz lembrar o dia em que nos conhecemos. — Insistiu ele.

Katherine, que enchia uma caneca branca com café, olhou para trás confusa.

— O que quer dizer com isso? — Questionou.

Ian sorriu.

— Eu me lembro perfeitamente que, no dia que eu ganhei aquela corrida e a multidão veio me parabenizar, você caminhou até com os olhos brilhantes, cheios de desejos em direção... Ao meu carro! — Contou ele, fazendo a loira rir alto.

— Em minha defesa, seus carros são verdadeiras relíquias! Você não devia ficar os exibindo por aí. — Spontou ela.

— Você tem uma tara enorme por carros, impressionante. — Ian nota, sorrindo.

— Joe diz a mesma coisa! — Disse ela, sorrindo de si mesma.

Os dois riram mais um pouco e Katherine tomou seu café lentamente entre um bocejo e outro. Ian apenas a observa em silêncio, não se sentindo nem um pouco mal por tê-la acordado. A ideia, na verdade, parece bem mais atrativa agora e ele com certeza fará isso mais vezes.

— Mas me conta, o que veio fazer aqui? — Pergunta Katherine, deixando a caneca sobre a pia.

Ian suspirou.

— Já disse, — Comentou ele. — vim pagar minha promessa. E claro, eu não tinha nada para fazer.

Katherine o analisou de cima a baixo, certa de que havia mais coisas atrás disso.

— E a garota que te deixou impotente? — Perguntou ela, arrancando um olhar desafiador de Ian no final. — Por que não foi encher o saco dela ao invés do meu?

Ian olhou para os lados dando de ombros e Katherine rapidamente percebeu o que estava acontecendo.

— Oh, você levou um fora, é isso? — Perguntou ela, segurado o riso.

— Eu não quero falar sobre isso. — A resposta dele veio rápida e seca, fazendo Katherine parar com as risadas.

— Entendi. — Respondeu ela.

— Desculpa, não queria ter sido grosso. — Pediu ele.

Katherine deu de ombros.

— Tudo bem, eu entendo. – Disse ela. — Você quer conversar?

Ian negou.

— Não, eu quero me divertir. Vamos? — Convida ele.

Katherine observou Ian com os olhos semicerrados, desconfiada de que havia mais ali. Mas concordou em ir dar uma volta com ele, afinal, estava louca para dirigir aquela Lamborghini.

***

Ian segurava firme o cinto de segurança com uma mão e com a outra a barra de apoio. Ele não gostava de admitir quando tem medo de algo, mas aceitar dar uma volta de carro com Katherine, foi de longe uma das piores decisões que ele já tomou. A velocidade que ela atingia, as curvas perigosas que ela manobrava e o sorriso satisfatório que ela tinha nos cantos dos lábios, amedronta Ian de certa forma que ele pediu dezenas se vezes que ela parasse o carro. Pedido esse que foi em vão, pois fazia tempo que a loira não se divertia. Passaram duas horas correndo pelas extremidades de Chicago, até que Ian consegue convencer Katherine que aquilo já era o suficiente. Mesmo com ânimo para ir de Chicago a Califórnia, Katherine aceita fazer uma pausa. Ian aproveita que a loira ainda não havia comido nada, e a leva para comer.

— Eu conheço um cara que faz um ótimo x-burguer. Como lá quase todos os dias, o que acha? — Sugeriu a loira.

Ian, que agora assumia o volante, olhou de esguelha para ela, curioso.

— Todos os dias? — Indagou e ela assentiu. — E como consegue ter um corpo desses se só come porcarias? — Questionou ele, com um sorriso bobo no rosto.

Katherine fingiu rir e revirou os olhos para Ian.

— Por que você não cala a boca e dirige, hein? — Provocou ela.

Ian sorriu com a acidez dela. Essas reviradas de olhos dela o faziam se lembrar de Emily e o quanto ele adorava irrita-la. Emily... O que ela está fazendo a uma hora dessas? Está na faculdade? Estudando para a peça? Ou quem sabe, andando por aí, sem rumo. Assim como ele anda ultimamente.

Chega! Nada de pensar na Emily. Estou na companhia de uma garota linda e divertida. Não posso ficar com ela na cabeça. Não tenho mais esse direito.

— É aqui! — Grita Katherine, tirando Ian de seus devaneios. — Para o carro!

Ian rapidamente freiou e estacionou no estacionamento de uma lanchonete antiga, mas bem frequentada. Um trailer todo equipado com um letreiro enorme em seu teto, com o nome Mayce's Time piscando. As mesas estão esparramadas pelo estacionamento ao redor do trailer e metade delas estavam ocupadas. Assim que se aproximam, o homem que fazia os lanches rapidamente reconhece Katherine e abre um sorriso ao vê-la. Eles conversam brevemente e Ian logo nota a popularidade dela por aqui. Além do dono da lanchonete, muitos de seus clientes a cumprimentam. Depois de fazerem seus pedidos, se sentaram em uma mesa afastada dos demais, a fim de terem mais privacidade.

— O pessoal aqui te conhece bem. — Comenta Ian.

— Antes de conhecer Joe, eu fazia alguns bicos pela vizinhança. Até com o Mayce já trabalhei. — Diz ela, sorrindo serenamente.

Ian assente.

— Você e Joe se conhecem a bastante tempo?

— Há alguns anos. Nós nos conhecemos nos rachas. Eu estava em perigo e ele me ajudou. E continua sendo assim até hoje.

— Ele parece ser um cara legal. — Ian diz, baseado no que viu quando passou a noite com eles organizando os rachas. — Ele se preocupa bastante com você.

Katherine sorriu.

— É, ele se preocupa.

— Vocês nunca tiveram nada? — Ian questiona, a pegando de surpresa.

— O quê? Não! Somos só amigos. Gosto dele de uma maneira diferente, não sei se daríamos certo de outro jeito.

— Vocês mulheres são confusas. — Falou sem pensar e Katherine sorriu.

Ah, os homens...

— Ian, se você quiser falar comigo sobre algo, fique à vontade. — Comentou a loira, sentindo que Ian estava louco para desabafar, mas não o fazia.

Ele ficou surpreso, se perguntando se estava tão na cara a confusão em sua cabeça e em sua vida. Respirou fundo e pensou por onde começaria.

— Tem uma garota... — Começou ele. – E nós nos conhecemos há alguns meses e logo de cara ela já chamou a minha atenção. Ficamos amigos e logo depois essa amizade se tornou colorida.

— Amizade com benefícios. — Disse ela. — O que tem? Você se apaixonou por ela?

Ian negou.

— Foi ela quem se apaixonou por mim. — Confessou ele. — E esse é o problema.

— Mas por quê? Ela está te seguindo ou coisa assim? — Indagou Kate confusa.

— Não! Nada disso. É que, quando ela confessou que me amava, ela decidiu acabar com o que tínhamos, ela não queria sair machucada. E eu entendo isso. Totalmente. Mas é que... É que... — Gaguejou ele.

Katherine deu um sorriso tímido.

— É que você sente a falta dela. — Completou ela é Ian sentiu um peso sendo retirado do seu ombro. Ah, como ele sente a falta de Emily...

— Eu sinto falta dela. E não sei o que fazer com isso. Digo, eu não posso retribuir o amor que ela sente por mim, eu não posso prometer uma casa, um filho e um cachorro e essas coisas estúpidas de família feliz. — Katherine ri e Ian continua. — Eu só queria que as coisas continuassem como eram antes, entende? Afinal, não éramos só parceiros na cama. Eu adorava conversar com ela, ouvir os problemas dela, provoca-la. Foram 5 meses com essa garota e de repente ela simplesmente vai embora! É como se ela fosse uma droga eu me viciei. E estou sofrendo com essa maldita abstinência. E só fazem dois dias que ela se foi. Eu estou perdido, Katherine. Não sei o que fazer.

Ian passa as mãos em seu cabelo e respira fundo. Desabafar com Katherine foi como tirar uma pedra de seu sapato; encarar seus problemas de frente. E ele se sente bem por falar tão abertamente com ela. Katherine por sua vez, escutou tudo em silêncio, concordando com ele em cada palavra.

— Ian, — Confortou ela. — você disse que não a ama, e eu até acredito nisso. Mas depois do que ouvi agora, eu fico na dúvida.

— Você não entende... — Começou ele, mas a loira não o deixa terminar.

— Me escuta, tá legal? — Pede ela e ele assente. — Você é um galanteador. Já deve ter levado muitas mulheres na cama e destroçado muitos corações com esse seu sorrisinho de lado. E você gosta dessa vida, porque sabe que no final, você vai acabar encontrando uma mulher com quem irá se casar e ser feliz. — Ian rapidamente se lembra de seus pais. — Estou certa? — Ian assente. — Ótimo. Agora me responda uma coisa: quando você se vê lá na frente, apaixonado, casado e pronto para criar uma família, que mulher você imagina ao seu lado?

Ian tentou desviar. Fingir que não ouviu. E até mesmo mudar o assunto. Mas foi impossível. Na sua mente, Emily reinava. E foi mais impossível ainda não imagina-la naquela posição.

— Eu vou pensar nela porque eu não consigo tira-la da minha cabeça. — Respondeu ele, tentando se justificar e sair daquela saia justa.

Katherine riu.

— Pode até ser. E pode ser também você nem sinta falta dessa garota, só não esteja acostumado a levar foras e esteja sendo um menino mimado. Mas pode ser, Ian, que talvez, essa garota, tenha te mostrado que esse futuro não esteja tão longe assim. E sim, a um passo de você. — Katherine diz, chamando a atenção dele.

As palavras de Katherine pegaram Ian de surpresa. Ele não estava pronto para ouvir aquilo. Ou talvez, não queria encarar a verdade tão depressa assim.

Os lanches chegaram alguns minutos depois e por um tempo eles comeram em silêncio. Em parte porque Ian ficou com as palavras de Katherine na cabeça, e por outra, porque Katherine sabia que havia surtido o efeito que queria e que precisava deixá-lo pensar.

E ficaram assim por um bom tempo, aproveitando a companhia um do outro. No final do dia, ambos estavam satisfeitos. Especialmente a loira, que teve a oportunidade de dirigir a tão sonhada Lamborghini. Ian também ficou contente por ela e prometeu outra vez que a levaria para sair e que, claro, levaria seu carro junto. A loira sorriu em concordância. Mal sabia ela que ele aparecia no dia seguinte e a acordaria outra vez, apenas para passar o tempo com ela e, lógico, desabafar mais um pouco. Pois Emily ocupava sua cabeça 24 horas por dia. E ele precisava diminuir esse ritmo. Caso contrário, Katherine acabaria sendo a madrinha do casamento deles.

******

Depois de levantar e engolir com dificuldade um pedaço minúsculo de maçã, Emily sai para uma corrida matinal pela cidade. Fazia dois dias que não via mais Ian e aquilo tirava todas as suas noites de sono. Então quando o céu clareava, ela se levantava pronta para enfrentar mais um dia torturante até finalmente anoitecer e poder voltar para sua cama e esperar mais uma vez pela nova manhã. Já estava cansativo estar presa naquela rotina. Até mesmo Chloe estava estranhando essa mudança, afinal, era ela quem acordava mais cedo e ainda tinha que acordar a prima porque era um verdadeiro desafio.

Não havia mais graça em dormir... Principalmente quando ele a incomodava até mesmo em seus sonhos. Nunca pensou exatamente como era se apaixonar e sentir aquilo na pele, mesmo vivendo cercada pela família que esbanjava o sentimento que tinham um com o outro. Por que com ela era diferente? Parecia que cavaram um grande buraco em seu coração e aquilo a consumia. Corroía cada extremidade de seu corpo lhe deixando apenas com um vazio no peito. Por que com ela era uma verdadeira tortura e não a melhor sensação do mundo?

Seus pés se moviam com velocidade e não ousava parar por um segundo, nem mesmo para respirar quando o ar lhe faltava. Colocou apenas fones de ouvido e ligou a sua playlist, deixando o seu corpo comandar os próximos passos por conta própria. Parou em uma cafeteria na volta e comprou alguns pães e dois copos grandes de café. Aquilo era tudo que a movia durante esses últimos dias. Entrou no apartamento dando de cara com a prima indo em direção à cozinha.

— Trouxe algo para você comer e um café. O seu favorito. Bom dia! – Exclamou a morena deixando os pães sobre a mesa e entregando o café para a prima enquanto bebericava o seu.

— Não vai comer nada? – Perguntou Chloe se sentando e já se servindo.

— Já comi antes de sair. – Um pedaço de maçã. Que não tinha nem o tamanho de um dente. Somente para dizer que comeu. A ruiva assentiu e continuou comendo. – Como foi ontem?

— O Lorenzo me buscou no museu. Tive que liderar uma excursão somente com adolescentes, acredita? Imagina a minha cara! Foi a coisa mais complicada no mundo, mas no fim das contas, consegui chamar a atenção da galera e eles até que são legais. Durante o intervalo, alguns sentaram comigo e me contaram das suas rebeldias. Se conhecessem você na adolescência... A rebeldia deles não seria nada. – Chloe riu se virando para a prima que estava observando o nada. – Eu estou grávida.

— Que ótimo! Parece legal... – Murmurou ela sem de fato prestar atenção.

— E o pai da criança é um cara que conheci na rua. Fizemos ali mesmo.

— Parabéns.

— É sério isso Emily? – A ruiva bateu palma, fazendo a prima finalmente retornar a realidade.

— Desculpe, estava pensando em outra coisa...

— Em alguém, você quer dizer. Por que não vai atrás dele? Aposto que sente sua falta também. Vocês dois estão se martirizando a toa. – Comentou ela.

— É fácil para você porque está saindo com Lorenzo. Com Ian é tudo mais complicado. Como estar em um campo minado. – Sussurra Emily fazendo desenhos imaginários em seu copo de café.

— Com Lorenzo também é assim.

— Mas ele gosta de você e demonstra isso o tempo todo.

— E você por acaso demonstrou gostar de Ian em algum momento? Ao menos tentou? – Retrucou Chloe e a prima sentiu como se tivesse levado uma bofetada na cara.

— Eu falei com todas as letras o que eu sentia. Sabe o quanto acho isso complicado...

— Certo, você disse para ele. Mas não ficou para lutar, então de que adianta? É a primeira vez que vejo Emily Hamswere Gavin desistir de uma luta. – A morena parece ponderar o assunto.

— Supondo que você esteja certa... Essa luta já estava perdida de qualquer maneira. Ian não sente absolutamente nada por mim e demonstrou isso no momento em que ficou surpreso ao descobrir o que eu sentia, mesmo quando aquilo era mais do que óbvio por mais que eu quisesse esconder. – Vociferou terminando seu café e se levantando. – Acho melhor eu ir tomar um banho e ir para a universidade.

— Tudo bem, vai lá. – Chloe diz voltando a comer enquanto Emily caminha em direção ao corredor, mas para por alguns segundos ao notar algo que a prima havia falado alguns minutos atrás.

— Você tá gravida mesmo? – Pergunta surpresa e a ruiva ri.

— Continuo tão pura quanto uma santa. Relaxa. É mais fácil você engravidar do que eu, céus! – Respondeu deixando a prima aliviada.

Emily toma um banho gelado e coloca uma roupa confortável – short jeans claro e com alguns rasgos, uma bota preta e um suéter de lã rosa, bem claro; pegou sua bolsa de couro e seu caderno de anotações antes de sair e ir até o seu carro, onde entrou e foi até a universidade. Ela estava tão absorta em seus pensamentos que só se deu conta de que a aula acabou quando os alunos foram saindo aos poucos. O professor Thomas a encara de esguelha. Até ele havia notado a morena distante, mas ousou não dizer nada, afinal, não tinha absolutamente nada a ver com a vida dela. Estava saindo da universidade quando deu de cara com Joe.

— Emily? O que está fazendo aqui? – Pergunta ele confuso.

— Acho que sou eu que deveria fazer essa pergunta já que estudo aqui, e você...

— Só estou cumprindo a parte chata das vendas... Cobrar os maus pagadores. – Resmungou. Parecia irritado enquanto caminhava pelos corredores e a morena o seguiu.

— Eu não sabia que existiam usuários aqui na universidade. Quem é o indivíduo? Posso te ajudar... – Murmurou ela, fazendo ele parar imediatamente.

— É um jogadorzinho de lacrosse... O nome dele é Bryan. Começou a comprar de mim há um mês e já me deu prejuízo na primeira semana.

Os olhos dela se arregalam no minuto em que escuta aquele nome.

— O Bryan está usando drogas?

— Você o conhece?

— Mais do que imagina. – Suspirou pesadamente. – Por que não deixa ele comigo? Me espera na entrada da universidade.

— O babaca me deve mil dólares, o que conseguir tirar a mais, é lucro. – Avisou pegando os materiais da morena e indo para fora.

Ela sai da universidade e atravessa o longo campus em direção a quadra aberta, onde os garotos treinavam diariamente. Aquilo era o que mantinha a bolsa de estudos deles, e era o que amavam fazer, então não lhes era um custo. A cada um mês passavam por um teste toxicológico e aquele que tiver uma porcentagem elevada é desclassificado do time, o que significa que Bryan só pode estar maluco e afim de perder todo o prestígio que demorou um ano para conquistar. Ele treinava com seu melhor amigo quando percebe a presença dela, que já apareceu puxando ele para o lugar mais afastado dali.

— Vai com calma, gata. Se quiser relembrar os velhos tempos, será um grande prazer, apesar de você ter sido muito babaca comigo...

— Cala a droga dessa boca. – Emily o interrompeu, fazendo ele se calar imediatamente, indignado. – Desde quando está usando drogas?

— Ficou maluca garota? Quem te contou uma mentira dessas? E mesmo que eu usasse isso, não é da sua conta...

— Pode tentar me enganar, mas a não ser que conheça alguém dentro da enfermagem da universidade, não vai conseguir enganar o exame toxicológico. E muito menos o traficante que está na entrada esperando seu pagamento... – A cara dele se fecha imediatamente.

— Como eu disse, isso não é da sua conta... E se tentar me dedurar...

— Vai querer dar um de idiota e tentar me bater de novo? Ou quem sabe transar comigo... Já que não conseguiu nem com um mês de namoro. Porque você não é tão burro de tentar algo assim...

— Seu amiguinho não está aqui... – Sussurrou ele com um sorriso no rosto e ela segura o pulso dele com facilidade, a apertando com força e fazendo ele ficar sério.

— Eu não preciso de homem nenhum para me proteger. – Falou ainda segurando o pulso dele com força. Bryan sentia seus ossos estralarem.

— Me solta garota...

— Por quê? Você vai gritar? Alguém machista como você se sentiria humilhado em dizer que está sentindo dorzinha com um simples apertar de mão de uma mulher...

— O que você quer?

— Cinco mil dólares na mão do traficante daqui a dez minutos. Estarei esperando na entrada.

— É namoradinha do traficante agora? – Perguntou quando ela finalmente o soltou.

— Isso não é do seu interesse... Quem está com a corda no pescoço aqui é você.

Tem cinco minutos agora.

Emily se virou voltando para a entrada da universidade, onde Joe esperava em frente ao carro da morena. Ela se sentou no capô de seu automóvel em silêncio, deixando um grande ponto de interrogação da cabeça do amigo, que decidiu não contestar, ficando ali também observando a entrada do local. Não demorou três minutos e Bryan surgiu atravessando o pátio e deixando um envelope com cinco mil dólares na mão dele. Encarou ela por alguns segundos sério, mas rapidamente desviou o olhar voltando para os amigos, para continuar treinando como se nada estivesse acontecendo.

— Emily Hamswere... Aceita se casar comigo? – Pediu Joe com um sorriso aberto no rosto.

— Ah! Isso já está resolvido. Não sabia? Estamos casados desde que cheguei aqui... – Ela riu.

— E não tivemos uma lua de mel? Estou magoado... – Comentou fazendo muxoxo antes de abrir o envelope e contar as notas ali mesmo, no meio da rua. – Disse que pegaria as coisas que esqueceu na academia e não voltou mais aos rachas... O que houve?

“Estava se aproximando de alguns carros quando vê Katherine. E quem ela menos esperava... Ian. Paralisou imediatamente ao ver ele ali, beijando ela.”

— Acabei voltando para casa, só isso. Desculpe estar tão distante... Mas prometo compensar.

— Tudo bem. Sei que posso contar com você sempre. – Sussurrou lhe dando um cutucão fraco e lhe arrancando um sorriso.

— O que acha de te compensar hoje?

— Do que está falando?

— Quero fugir um pouco da rotina. Vamos sair. – Murmura Emily descendo do capô e abrindo a porta do carro.

— Eu adoraria, mas tenho alguns devedores para cobrar.

— Então vamos juntos. – Finaliza já entrando no automóvel e Joe dá de ombros entrando ali também.

— Será como nos velhos tempos? – Ele brincou.

— Com certeza. – Falou rindo e pisando fundo no acelerador, antes que ele pudesse colocar os cintos de segurança.

Depois de passar a tarde toda ajudando Joe a cobrar aqueles que lhe deviam, os dois passaram em uma conveniência e enquanto a morena passava pelos corredores, ele pegou uma garrafa de vodka e escondeu na jaqueta de couro, e ela pegou um pequeno pacote de M&M’s, indo até o caixa e deixando apenas o dinheiro do chocolate. Joe passou pelo funcionário com a garrafa quase a mostra, mas o garoto, que não parecia ter mais de dezesseis anos, nem havia notado.

Emily vai até o carro e seu amigo já comemorava o pequeno furto, abrindo a garrafa e compartilhando os goles com ela. Partiram para o penhasco que havia no fim de Chicago e proporcionava uma vista maravilhosa da cidade. Nem se deram conta do tempo até que a bebida acabasse por completo e não sobrasse nem mesmo uma gota. A noite já havia caído, mas continuaram ali jogando conversa fora. Ela sentiu falta daquilo... Fazia dois dias que não conseguia dar um sorriso decente ou sentir aquelas risadas que faziam a barriga doer. Odeia drama mais do que qualquer um, e lá estava ela se sentindo toda mal por causa de um cara.

— E agora eu controlo grande parte do tráfico da cidade... – Finalizou Joe que faz questão de detalhar toda a história.

— Agora Katherine cuida dos rachas sozinha? – Pergunta Emily mexendo em suas botas.

— E ela tem mandado bem... Sempre foi apaixonada por carros e não é tão difícil controlar aquilo... A não ser quando tem brigas. – Sussurrou sorrindo. – Mas e você? Não disse nada sobre sua vida.

— Ah! Ela anda na mesma... – A morena riu fraco. – Consegui um papel importantíssimo para a peça da universidade, e farei ela antes de trancar a faculdade e ir embora. É o famoso Romeu e Julieta, aposto que...

— Espera aí! Vai embora assim que a peça terminar? Por que não me contou isso antes? – Perguntou Joe irritado.

— Sabe que odeio despedidas... Além do mais, você pode me visitar quando quiser. Vai se apaixonar pelas brasileiras... – Ela o olhou de esguelha, arrancando uma risada de seus lábios, mesmo estando chateado por não saber disso antes.

— E acha que vou deixar de manter contato? Você é minha melhor amiga e meu círculo de amizade já é pequeno demais para eu deixar uma ir embora assim tão fácil. Além do mais, já ouvi muitos elogios sobre as praias. – Joe a olhou arqueando as sobrancelhas.

— Um dia lá e você fica mais vermelho que um pimentão. – Emily riu e ele deu de ombros. Sentia sua cabeça girar em função do álcool, mas gostava da sensação. – O que acha de irmos ao The Club? Preciso de mais dessa garrafa...

— Não acha que já exagerou? – Joe a encara preocupado e ela revira os olhos.

— Acho que está pensando demais... E isso é a última coisa que eu quero agora.

Principalmente porque seus únicos pensamentos a levam diretamente para um homem fodidamente lindo de olhos azuis e dentes brancos, pensou consigo. Ela se levantou e Joe a seguiu, entrando no carro e quase passando mal com a alta velocidade enquanto rezava para não morrer naquele dia porque ainda tinha muito que viver. A morena já estava chapada e se recusava a deixa-lo dirigir. Não demorou muito para chegarem a boate que já estava lotada. Katherine deixou duas ligações, provavelmente para avisar que os rachas já haviam acabado, mas ele apenas deixou uma mensagem avisando com quem estava. Decidiu aproveitar que estava lá e ficou com algumas garotas e curtiu o momento. Fazia um bom tempo que não tirava um tempinho de folga.

Emily, no entanto, foi em direção ao banheiro, deu uma arrumada no cabelo e passou um batom vermelho, dando uma última checada em si antes de voltar e ir direto para o bar. Não tem a mínima ideia de quanto bebeu, mas já nem se importava com isso mais. Seu corpo parecia flutuar pela pista de dança, sentindo pela primeira vez o momento e esquecendo tudo aquilo que mais lhe afetava. Ria sem nenhum motivo enquanto pulava e dançava sem se importar com as pessoas que paravam para observá-la. Alguns ousavam se aproximar para dançar com a morena, que acabava cedendo, afinal, era somente isso e nada mais. Os mais ousados, levavam um belo não e nem eram loucos de continuar insistindo. Ela já estava farta de caras assim. Joe não deixava de ficar de olho nela vez ou outra enquanto beijava uma loira que conheceu em menos de cinco minutos.

A morena foi ao banheiro algumas vezes para colocar para fora tudo o que havia ingerido, enxaguava a boca e voltava para o bar somente para pegar um copo cheio e partir mais uma vez para a pista de dança. Beijou alguns caras, mas se afastava assim que se dava conta de que não era ele. Só então se deu conta que precisava estar muito chapada para poder esquecê-lo nem que seja por alguns minutos. Aquilo já lhe bastava. Arranjou algumas amigas que apenas seguiam seu ritmo e davam gargalhadas com qualquer besteira que saia da boca da morena. Já estava quase amanhecendo quando Joe a arrastou para fora do The Club, colocando ela no carro e dirigindo para a casa da morena.

— Não, não, não, não... Joe! Eu não quero ir pra casa. – Resmungou baixinho entre risadas. – Me leva para a sua.

— Você não está parando em pé... Nunca bebeu tanto igual hoje! – Exclamou ele. – Sua prima deve estar preocupada.

— Ela está com Lorenzo, nem deve estar se lembrando de mim. – A morena contestou. – Por favor.

— Tudo bem... Mas só se prometer se comportar.

— Serei um anjo... Prometo. – Sussurrou ela rindo. – Eu estou completamente lúcida, relaxa.

— Estou vendo a sua lucidez... – Ironizou tentando se concentrar no trânsito, já que ela bagunçava seus fios castanhos.

Demorou um bom tempo até chegarem a sua casa, e Emily havia apagado durante o trajeto, acordando com todas as energias renovadas assim que estacionaram. Seu sono estava leve. Ele desce do carro e ela o acompanha. Katherine provavelmente já dormia então pediu que a morena não fizesse barulho, mas sempre batia em algum móvel até chegar ao seu quarto.

— Eu desisto de você hoje garota. – Murmurou rindo enquanto ela se jogava em sua cama. – Vou arrumar o sofá para mim... Tente não quebrar nada nesse quarto, por favor.

— Joe, Joe... – Falou baixinho se levantando e indo até ele, que já estava quase saindo. – Você é um ótimo amigo, sabia?

— Com certeza... Qualquer outro já teria deixado você no meio da estrada. – Comentou fazendo ela dar risadas mais uma vez.

— Obrigada por me deixar passar a noite aqui. – Diz se apoiando na mesinha que havia ao lado da porta e acabou tropeçando com os próprios pés, sendo segurada por ele.

Lá estava ela achando graça mais uma vez, ficando séria imediatamente ao ver a seriedade nos olhos dele. Joe não estava nervoso, pelo contrário, apenas observava o sorriso da morena. As mãos dele seguravam seu rosto como se ele pudesse cair. Por um impulso que desconhecia, ela ousou se aproximar e capturou os lábios dele com facilidade. Quando se deu conta de que Emily estava o beijando, fechou a porta atrás de si e aprofundou o beijo, sentindo suas línguas se tocarem e lhe trazer um súbito arrepio. Ela agarra seu pescoço em busca de mais contato e a passos lentos, sem se afastarem, caem na cama sem deixar de lado o que estavam fazendo. O quarto estava iluminado apenas com um abajur e ele não se intimidou aos toques maliciosos dela, mas se afastou ao ouvir seu consciente crucifica-lo.

— Eu não posso fazer isso, somos amigos e você está bêbada... – Sussurrou ele.

— Já disse que eu sei o que estou fazendo. – Foi a vez dela de sussurrar. – Além do mais... Isso não vai mudar nada. É só sexo. É sempre só sexo.

Joe ficou confuso com a afirmação dela, mas apenas se afastou.

— Amanhã a gente conversa, tá bem? – Disse dando um beijo no topo de sua cabeça e saindo de cima dela, pegando sua camiseta que nem lembrava de como saiu de seu corpo.

— Não, não... Joe...

— Se eu continuar o que começamos, acordo morto amanhã porque você irá se arrepender disso...

— Só não quero acordar sozinha de manhã... – Admitiu vergonhosamente.

Talvez a bebida tenha a deixado solta o suficiente para abaixar a guarda. Mas era verdade. Já estava cansada de acordar sem alguém do lado, porque havia se acostumado com a presença de alguém. Com a presença dele.

— Ei... – Ele se aproximou dela mais uma vez com um sorriso presunçoso no rosto. – Não vai estar sozinha.

— Obrigada.

Joe traz um colchão que havia na despensa de sua casa e dorme no chão, mas somente depois de ter certeza de que Emily havia dormido. E bastou a morena fechar os olhos, que se arrependeu amargamente mais uma vez. Ela podia estar chapada e ter esquecido de Ian enquanto estava acordada, mas ele aparecia em seus sonhos...

Somente para lembrar a ela o que sentia em relação a ele.

Ela o amava.

E não havia nada que pudesse fazer para mudar isso.