Mirrors

29 Don't Give Up On Me.


O avião havia pousado cerca de meia hora atrás. Ao receber a notícia de que seu irmão estaria chegando, Alícia contava os segundos em frente à porta de entrada esperando ansiosamente a entrada de seu irmão. Valentina está em seu quarto, terminando de se arrumar e Vitor na sala de estar, observando sua casula sentada no chão em frente à porta impaciente.

— Filha, por que você não vem aqui com o papai? Se sua mãe te pega sentada aí no chão.... — diz ele, se levantando para ir pega-la.

— Eu quero que ele chegue logo! — choramingou.

Vitor a pegou no colo sorrindo sozinho. Sua pequena era tão teimosa quanto sua esposa. E, ah! Como ele as amava.

— Ele deve estar a caminho. Daqui uns dez minutos, talvez. — disse ele. — Que tal você ir brincar lá na praia enquanto isso?

Alicia torceu o canto dos lábios, pensativa. Olhou para a porta de entrada mais uma vez e, por fim, se deu convencida que não adiantaria nada ficar parada a espera do irmão. Ela assentiu. Vitor chamou uma babá é pediu que acompanhasse Alicia até a praia. Um segurança as seguiu.

Vitor esperou que sua filha desaparecesse para então ir checar sua esposa. O quarto estava vazio e ele a encontrou no closet, em pé, parada, se encarando no espelho. Valentina usava mais um dos seus vestidos longos, mas dessa vez um branco, com flores coloridas ao final, dando um contraste. Duas alças finas deixava seus ombros e colo a vista. Vitor a encarou admirado, ele nunca se cansava de admirar. Mas a expressão de Valentina estava vazia enquanto se encarava no espelho, de nada se parece com uma mãe ansiosa pela chegada do filho. Vitor logo soube. Algo estava errado.

— Ei. — chama ele, adentrando o cômodo. Valentina se assusta com sua chegada, mas não se move. — O que ouve?

Vitor para ao lado da mulher, a olhando com cuidado, tentando adivinhar o que se passava pela cabeça dela. Essa é a única coisa que ele nunca conseguiu fazer depois de tantos anos juntos.

— Minha barriga. — disse ela, calmamente. – Ela não está crescendo.

Vitor respirou fundo e foi abraçar a esposa, a pegando por trás. Colocou as mãos sobre as delas, que acariciavam a barriga e as segurou.

— Você consegue senti-lo, não consegue? – perguntou ele, a encarando pelo espelho. – Você sente nosso filho vivo dentro de você?

Valentina respirou fundo.

— Eu sinto. – seus olhos se enchem de lágrima.

— É porque ele está! Sabíamos desde o começo que seria uma gravidez complicada, mas temos que ter calma. – confortou. Valentina assentiu e fungou o nariz, limpando as lagrimas e forçando um sorriso. — A agora anime-se, Ian está para chegar a qualquer momento e ele não quer te ver assim. E muito menos eu. – informou Vitor, a virando para si e a beijando.

— Oh sim, e ele está trazendo companhia... – comentou ela, intrigada. — Será que é uma namorada?

— Ele disse que é uma namorada? – perguntou Vitor, pegando na mão da esposa e caminhando para fora do quarto.

— Não, apenas que é alguém especial, importante... Ah! Mas eu pude sentir, Vitor, tem paixão no meio. – suspirou ela, sorrindo feito boba.

Vitor riu da mulher, e recebeu um tapa no braço em resposta.

— Ele chegou! Ele chegou! Ele chegou!

Os gritos estridentes de Alicia antecederam a entrada de Ian e Emily na casa. Ian largou a mão tremula de Emily para estender os braços a irmã, a agarrando em um braço apertado.

— Você chegou! Você chegou! – gritou ela, no colo do irmão.

Ian riu, a abraçando mais forte.

— Sim, eu cheguei. Eu cheguei e eu cheguei. – brincou ele.

Emily sorriu meio boba ao ver a relação de Ian com a irmã. Nunca o imaginou assim, tão aberto e tão carinhoso. Quase esqueceu a existência do buraco negro que habitava seu estomago. Ou as mãos tremulas. Ou o nervosismo, ou...

— Quem é essa? – o tom de Alicia muda drasticamente quando ela nota a presença de Emily logo atrás do irmão. Sua expressão também muda, analisando a morena de cima a baixo.

— Essa é minha... – Ian coçou a garganta. – amiga, Emily.

Emily chegou a se assustar com o olhar da pequena. Semicerrados e desconfiados.

— Oi Alicia. – cumprimento Emily.

A pequena por sua vez não disse nada, nem mesmo um sorriso lhe lançou. Emily fica sem graça e se sente a pior pessoa do mundo. Ótimo, nem mesmo a irmã conseguiu agradar, imagina os pais! – pensou consigo mesma.

— Olha os modos, minha filha. – a voz de Valentina ecoou na sala, chamando a atenção de todos.

Aos pés da escada, ela e Vitor se encontram abraçados, encarando a menina com ternura. O pior foi quando seus olhares caíram sobre Emily e ela logo teve a certeza de quem Alicia havia puxado.

Emily ficou sem ar por um minuto, deslumbrada, assustada e confusa. Ian havia falado sobre seus pais quando entraram no avião, mas não havia falado como eles eram... Ela não conseguia nem descrever! Ao vê-los parados ali em cima, a morena tinha a sensação de estar olhando um quadro precioso e muito, muito caro. A áurea poderosa rondava, pelo o que parece, toda a família de Ian, e com seus pais não haviam de ser diferente.

— Ela está fazendo aquela cara. – sussurrou Valentina, baixinho em italiano.

— Que cara? – perguntou Vitor, começando a descer a escada.

— De deslumbrada. Eu adoro quando fazem essa cara! – disse ela, sorrindo.

Eles se aproximaram e Emily precisou de um puxão de Ian para acordar do transe que estava. Se reuniram todos na sala e Ian colocou Alicia no chão, que correu para perto dos pais, como se Emily fosse alguma espécie de perigo.

— Mãe, pai, essa aqui é Emily. Emily, eles são seus pais. – apresentou Ian.

Valentina deu um sorriso aberto para a morena, que a fez se sentir acolhida e segura desde o primeiro minuto que pisou naquela casa. Estava tão nervosa...

— Muito prazer, Emily. Me chamo Valentina. Esse é meu marido Vitor.

Emily se agraciou com o sotaque britânico da mulher. A suavidade encaixava perfeitamente com a imagem forte que trazia consigo.

— É um prazer conhecê-la, Emily.

A voz de Vitor já era mais forte, óbvio, mas nada que a assustasse. O sotaque mais americano a fez se sentir confortável, mais em casa. Os olhos dele foi o que mais a prendeu. Negros como a noite e cativantes, fácil, fácil de se perder neles...

— Emily?

Ian precisou chamar a atenção da morena, que encarava seus pais, boquiaberta, os admirando.

— Oi? Quero dizer... Perdão. – sussurrou, envergonhada. O quão boba ela pareceu agora? Argh. Não era nada disso que ela tinha planejado ao encontrar os pais do homem que ama. Mas também, porque Ian não lhe avisou que seus pais eram tão... Eram tão... Veem? Nem ela conseguia explicar. – O prazer é todo meu!

Valentina sorriu. Vitor esboçou um meio sorriso e Alicia, escondida atrás do vestido da mãe – que Emily por um momento confundiu com vestes de algum anjo caído do céu. – apenas a encarava, desconfiada e intrigada.

— O almoço está quase pronto. Vocês têm alguns minutos antes dele ser servido. Se quiserem ir se trocar, descansar... – sugeriu Valentina, amigavelmente.

— Eu adoraria tomar um banho. – manifestou Emily.

— Claro, fique a vontade. Ian, você faz as honras da casa? – indagou Valentina, com um sorriso travesso no rosto.

— Faço mais do que isso. – Respondeu, fazendo ela sorrir sem graça e virar um pimentão.

Ian pega as malas de Emily, mesmo sabendo que havia funcionários ali que pudessem fazer isso, e segura as mãos trêmulas dela com a outra mão vaga. Os olhos dela finalmente focam nos seus, se tornando impossível não sorrir agradecida pelo que ele estava fazendo. Por mais nervosa que estivesse, entendeu perfeitamente o recado dele. Entendeu perfeitamente tudo aquilo que ele não conseguiu colocar em palavras. E aquilo era o suficiente para ela.

Valentina os observava com olhos de águia, soltando um sorriso de lado, exatamente igual ao de seu filho, se virando para Vitor apenas para ter certeza de que ele havia comprovado o que ela já tinha certeza absoluta: havia paixão ali. Os dois caminham em direção à escada e sobem vagarosamente. Até mesmo o corredor conseguia ser belo como o andar de baixo.

Uma funcionária sai do quarto de hóspedes, informando que já estava pronto para a morena. Ian avisa imediatamente que ela ficará com ele, fazendo questão de encarar Emily ao dizer isso. Seu quarto parecia ser do tamanho do andar do prédio em que morava em Chicago. As paredes tinham um tom pastel e o teto de madeira pura era na cor preta. Logo na entrada, um grande escritório – também de madeira, em uma tonalidade escura do marrom, com algumas fotos da família na escrivaninha e atrás um grande painel, que servia de cabeceira para a cama do outro lado, bem em frente a uma vista maravilhosa para o mar siciliano. Um cômodo aberto ao lado do quarto, mostrou-se ser o closet, que tinha uma porta onde levava ao banheiro. A morena estava sem palavras com a beleza da Itália. Caminhou alguns passos até as duas grandes sacadas, que cobriam quase toda a parede, abrindo as cortinas de seda branca e deixando o lugar ventilar.

— Espero que minha família não tenha te assustado... – Sussurrou ele quebrando o grande silêncio que reinava entre os dois desde que praticamente brigaram no camarim da morena, antes da apresentação de Romeu e Julieta. Ela se vira para ele com um sorriso de orelha a orelha.

— Eles não me assustaram. Muito pelo contrário... Eles são... – Parou por alguns segundos procurando pela palavra perfeita. – Encantadores.

— Sei que isso ainda não é o suficiente para mostrar o que eu tento dizer a você, mas...

— É perfeito, Ian. Obrigada. – Emily responde de maneira fria, apesar de não ser a sua intenção. Só estava com medo ainda, e tudo parecia tão lindo... Que passou a esperar pelo grande balde de água fria que a puxaria para a realidade. Precisavam ir com calma dessa vez. Ian parecer perceber aquilo, e assentiu comprimindo os lábios em uma fina linha reta.

— O banheiro é logo naquela porta.

— Certo.

Antes que tudo ficasse ainda mais constrangedor, ela caminhou em direção ao banheiro, levando sua mala junta para não ter que dar de cara com Ian quando saísse para colocar alguma roupa. Abriu a porta, e acabou a deixando entreaberta, sabendo que ele a encarava ao se olhar no espelho. Não se importou em retirar sua blusa sob seu olhar. Aquele simples gesto já a fazia se sentir viva. Deus! Como sentiu falta dele. E daquele olhar sob seu corpo, o desejando mais perto. Respirou fundo, indo em direção ao chuveiro depois de fechar a porta e retirar o restante de sua roupa. A água estava quente, e levou todo o seu cansaço para o ralo.

Colocou um vestido vinho bem justo e de alcinhas, que ia até a metade de suas cochas, complementando com um vestido mais solto de crochê com mangas longas por cima do justo de mesma cor e tamanho. Nos pés, uma Anabela fechada na frente de cor preta. Secou os cabelos e fez uma tiara de tranças com os próprios fios. A família toda andava como se estivesse em um desfile de moda, então percebeu que não poderia sair andando de pijamas ali. Provavelmente até o pijamas deles era lindo o suficiente para dar um passeio pela cidade. Ninguém nem mesmo notaria! Ao sair do banheiro, Ian não estava ali. Mas a roupa que usara estava sob o puff de grandes dimensões quadrado que havia no closet.

***

A mesa havia sido posta na área externa da casa. Estava um dia claro e agradável. Valentina não perdeu chances em tornar o almoço daquela tarde mais mágico, fazendo questão de deixar tudo absolutamente perfeito antes que Emily aparecesse. Seu filho, Ian, conversava com o pai enquanto caminhavam pelo píer da praia e a sensação de ter os dois ali, próximo dela, era confortante. Se pudesse, os prenderia em uma grande bolha somente para mantê-los em segurança. Lia e Muriel aparecem sem bater na porta ou avisar que estão chegando, já eram praticamente de casa. A pequena Bella também os acompanhava, mas mal cumprimentou a tia e já correu até Alicia para brincarem na areia.

— Onde está a garota especial? – Pergunta Lia após cumprimentar a amiga e Muriel se senta a mesa em silencio, também curioso sobre a garota.

— Ela estava cansada da viagem então decidiu tomar um banho. – Murmurou Valentina em resposta. – Poderia ir até a cozinha checar se o almoço está quase pronto? A garota já deve estar descendo...

— Claro! Mas você precisa se acalmar... – Cantarolou a amiga. Nunca havia visto Valentina nervosa com um simples almoço em família. Era a primeira vez que o filho havia trazido alguém para que ela pudesse conhecer, então queria deixar a garota o mais confortável possível.

— Então... O que achou dela? – Perguntou Muriel depois que a esposa desapareceu entre os cômodos da casa.

— Eles estavam exaustos e parece haver algo ali, então não tive a oportunidade de sondar ela... Mas, parece ser gentil.

— Pode ser só mais uma.

— Ian jamais traria “só mais uma” para conhecermos.

— Valentina tem razão. – Lia retorna já atenta a conversa dos dois.

— Talvez ele tenha feito isso apenas para deixar a garota encantada. – Muriel continuava a supor que Emily não passava de uma simples garota com quem o sobrinho postiço tinha um caso. Ele sempre foi assim, não mudaria do nada. A pessoa tinha que ser especial demais para muda-lo de forma tão repentina. Como Lia foi para ele. Um sorriso de lado surge em seu rosto ao se lembrar da maneira como conheceu sua amada.

— Talvez ele tenha feito isso apenas para provar a ela o que sente. Ian é exatamente como Vitor quando o assunto é expressar o que sente em palavras... – Valentina diz após soltar um longo suspiro só de relembrar a dificuldade que foi o inicio de seu relacionamento. Eram tantos talvez, mas de uma coisa ela teve certeza absoluta ao observar o filho ao longe, conversando com o pai: Emily e ela tinham mais em comum do que imaginava.

A morena desce as escadas tentando não fazer barulho, tão nervosa que ainda ponderava voltar para o quarto e ficar ali para sempre, evitando toda a família. Entretanto, eles estão tornando tudo tão confortável que se sentiu mal só de ter isso passando pela sua cabeça. Todos parecem tão legais, então por que estava com tanto... Medo? Essa era uma palavra muito forte, mas considerando o perigo que passava a cada segundo ali mesmo sem ter a menor ideia disso, ela era perfeita. Estava tão absorta em seus pensamentos, que só notou duas adoráveis companhias quando Alicia puxou a barra de seu vestido, chamando a atenção para ela e sua melhor amiga Bella.

— Olá. – Cumprimentou Emily sorrindo abobalhadamente

— Meu nome é Bella. Você é a namorada do tio Ian? Como minha mamãe e meu papai? – Perguntou a pequena fazendo as bochechas dela se esquentarem. Alicia, ao contrário da outra, estava séria esperando pela resposta de maneira impaciente.

— Somos somente amigos querida. É um prazer conhecer você. Me chamo Emily. – A morena estendeu sua mão, alcançando os de Bella com facilidade. Ela sorria alegre, ao contrario da irmã de Ian, que parecia não ser nem um pouco fácil ser conquistada.

— Eu não acredito em você. – Ela disse de maneira áspera. – Quer roubar meu irmão de mim.

— Não seja boba, Alicia. – Bella a repreende, mas a pequena parece não se intimidar pela pequena amiga.

— Mas é verdade. Meu irmão ainda nem brincou comigo desde que ela chegou. Por acaso ele brincou com você? – Perguntou ela cruzando os bracinhos e fazendo questão de empinar o nariz. Aquilo fez Emily sentir vontade de rir, mas segurou a vontade para que ela não a odiasse ainda mais.

— Isso é porque ele esta ocupado, conversando com seu pai. Se ela estivesse roubando ele, por que viriam aqui?

— Está do lado dela?

— Eu?

— Sim, você.

— Meninas, vão acabar espantando a garota. – Uma mulher tão elegante quanto Valentina aparece para literalmente salvar a Emily de uma pequena guerra civil que estava prestes a acontecer ali.

Se já não estava quase se borrando de tanto medo, agora estava ainda pior. Como conseguir impressionar a todos? Se sentia uma mortal em meio a deuses gregos. O que torna tudo completamente impossível. Então decidiu optar pela maneira mais fácil: Ser ela mesma. Tudo bem que talvez aquilo não fosse deixa-los impressionados, mas pelo menos não fingiria ser alguém que não era.

— De fato, eu já estava pensando em sair correndo. Mas também sou como Alicia. E minha prima, Chloe, de fato pode ser comparada a adorável Bella... Então não é nada que não esteja acostumada... – Brincou Emily arrancando risadas da moça.

— Me chamo Lia. Sou amiga da família. Vejo que já conheceu minha filha... Bella, Alicia, por que não vão brincar mais um pouco na praia? O almoço já está quase servido. – As meninas não perdem tempo ao ouvir a sugestão dela, correndo desesperadas e alegres para fora da casa. A briga que estavam prestes a ter? Nem mesmo se lembravam mais. – Espero que se acostume. O dia está só começando.

— Oh! Me chamo Emily, a propósito. É um prazer imenso conhecer a senhorita. – Se apresentou a morena enquanto era guiada para o quintal da mansão.

— Estavam todos malucos para conhecer você. Ian é sempre tão misterioso então não detalhou muito sobre a tal garota especial dele... – Sussurrou já do lado de fora da casa. Valentina sorri ao ver as duas ali. Muriel se vira imediatamente em direção a voz desconhecida. Ele a analisa de cima a baixo e aquilo a deixa completamente temerosa por alguns segundos, mas não deixa isso transparecer, fazendo questão de estufar o peito e manter a pose. – Esse é meu marido, Muriel...

— É um prazer conhece-la...

— Emily.

— Emily. – Ele completa, apenas para experimentar o som de seu nome na boca.

— Sente-se querida, o almoço já será servido. – Valentina se apressa em dizer quando a garota pousa os olhos nela. Era incrível a beleza que ela possuía. Seu filho definitivamente tinha bom gosto. Só esperava que fosse tão bela por dentro como era por fora.

— Obrigada, na verdade, eu acho que preciso falar com Ian por um instante. Sabem onde ele está? – Perguntou a morena, escolhendo as palavras com cuidado.

— No píer. E concordo com você... Precisam conversar. – Ela diz ao se lembrar da maneira como o filho saiu do quarto. Parecia chateado com algo. Mas não queria se intrometer, nem deveria. Eles realmente pareciam meio tensos desde que chegaram.

Emily se vira depois de pedir licença, caminhando entre a areia da praia, sentindo o cheiro salino do mar que tanto reconhecia e a lembrava de casa. Seus olhos continuavam vidrados em Ian e no quanto ele parecia ainda mais lindo sobre a luz intensa do Sol escaldante da Sicília. Vitor era tão semelhante ao filho que já estava completamente apaixonada por ele sem nem ao menos conhecê-lo. Eles parecem notar a presença dela, e seu pai se afasta sorrindo para a morena antes de voltar para casa, onde Valentina já estava sentada observando o casal ao longe. Sempre se sentiu tão confortável perto de Ian, mas agora era diferente. Ele parecia chateado. Talvez esperasse que tudo estivesse bem com o gesto encantador que fez ao trazê-la para conhecer toda a família.

— Hei... – Ela começou, sorrindo nervosamente e o acompanhando na caminhada enquanto o vento batia em seu cabelo, dando um movimento estonteante a ele. Ian, no entanto, nada disse. – Olha, eu sei que as coisas estão meio estranhas entre nós dois.

— Jura que você reparou? – Ele ironizou, rindo forçadamente.

— Pode, por favor, não agir de maneira irônica agora? Quero que se abra comigo... – Sussurrou Emily fazendo ele parar imediatamente se virando para ela.

— Você não vê morena? Eu estou completamente aberto a você. – As palavras dele trazem um arrepio na espinha.

— Sei que esperava um comportamento diferente da minha parte. Aposto que achou que já chegaríamos aqui estreando a sua cama, mas...

— Que droga, Emily! Ainda não entendeu que eu não quero só sexo com você? Estou me esforçando para que isso dê certo, poderia tentar também.

— Está dizendo que não esperava que já estivéssemos transando por aí depois que chegamos?

— Estou dizendo que estou tentando não estragar tudo como fizemos da última vez... Você deixou bem claro que colocou sentimento demais nisso tudo, e estou me esforçando para chegar à altura, mas quero que não desista de mim. E não tenha medo de fazer nada que queira. Não se crucifique ou se repreenda pelo que sente... Apenas aja, está bem? – Murmurou ele segurando o rosto dela entre as mãos.

— Se ajudar, também estou tentando não estragar nada, mas confesso que Alicia não vai me ajudar muito... Ela me detesta. Eu sinto muito por isso. – Sussurra ela ao finalmente fazer o que tanto queria: abraçá-lo. Sentir seu corpo colado ao dela mais uma vez. Continuaram assim, como se estivessem acabando com toda a abstinência que sentiram ao ficarem longe um do outro.

— Ela é assim de inicio com todo mundo. Tenha paciência... Alicia não é um bicho de sete cabeças, eu te prometo.

— Disse que eu quero roubá-lo dela.

— Adoraria ser roubado por você. – Brincou beijando o pescoço da morena de maneira demorada e arrancando uma longa risada dela. Como sentia falta daquilo.

— Ei, pombinhos! Tia Valentina mandou avisar que o almoço está na mesa. – Cantarolou Bella ao conseguir alcançar os dois depois de muito correr com Alicia, que ao contrário da melhor amiga, analisou os dois com ar de deboche, lançando um olhar matador ao Ian logo em seguida, somente para deixar claro que havia detestado Emily com todas as suas forças. Ele, ao contrário, soltou uma gargalhada alta, correndo até a irmã e a balançando em seu colo enquanto lhe fazia cosquinhas até que a pequena desse uma risada. A morena apenas os acompanhou em silencio junto da pequena Bella até o quintal da família, onde Valentina, Vitor, Lia e Muriel os esperavam. O almoço, ao contrário do que ela imaginava, foi confortável. Havia muita fartura na mesa. Comida para um verdadeiro batalhão. A mãe de Ian parecia não medir esforços para deixar tudo absolutamente incrível. Logo as mulheres engataram uma conversa animada sobre os garotos.

— Espero que já tenha se acostumado com a frieza de Ian. Acredite, eles logo se amolecem. Basta ter calma... – Diz Lia arrancando uma risada de sua amiga. Muriel apenas revira os olhos, de braços cruzados.

— Estou esperando uma defesa da sua parte, Emily. – Ian entra na brincadeira enquanto bebia um pouco do vinho que estava posto sobre a mesa.

— Ian é um ótimo amigo, na verdade. – Ela diz, usando as palavras que ele usara mais cedo, lhe lançando um olhar doce.

— Ah! Querida... Todos já entendemos que há mais do que somente amizade aí... – Valentina sussurra piscando e deixando a morena um verdadeiro pimentão. Esperava que o filho dela contestasse, ou dissesse algo que provasse o contrário para ela, mas ele apenas sorriu, passando os braços pelo pescoço de Emily e a puxando para mais perto.

— Eu vou vomitar. – Alicia diz baixinho, na esperança de que ninguém ouvisse. Mas aquilo só arrancara risada de todos, exceto Emily que ficava cada vez mais nervosa diante do ódio da pequena. Como mudar a situação? Precisava pensar em algo... Qualquer coisa.

— Eu também amo você, irmãzinha. – Ian contesta acariciando as bochechas da pequena ao esticar os braços.

— E eu? – Bella quebra o grande gelo que estava se formando naquela mesa, arrancando mais e mais risadas.

— E quem poderia odiar a bela Bella? – Perguntou ele fazendo ela sorrir abertamente.

— Você rimou meu nome como tio Lorenzo fez aquela vez! – Exclamou encantada. – Por que ele não veio?

— Lorenzo precisou ficar para resolver um problema pessoal. – Explica Ian sem entrar em detalhes. Emily rapidamente capta o que estava havendo.

— Esse problema tem cabelos ruivos, eu suponho. – Sussurrou ela no ouvido dele após todos voltarem a conversar animadamente sem coloca-los no centro das atenções.

— Absolutamente. — Ele piscou fazendo a morena se acalmar.

***

— E então? — Chloe pergunta pela milésima vez desde que entregou as malas de Emily para Ian. Precisava saber se os dois chegaram bem na Itália. Principalmente porque aquela era a região onde a Cosa Nostra mais atuava. O que tornava absolutamente tudo preocupante. E se eles abordassem os dois no aeroporto? E se algo terrível acontecesse? Lorenzo estava completamente diferente da ruiva, sentado no sofá do apartamento das meninas enquanto procurava alguma coisa legal na televisão através do controle, mas nada chamava sua atenção.

— Está tudo bem. Eles já devem ter chegado há duas horas...

— Tem certeza absoluta disso? – Questionou quase arrancando os cabelos e formando um buraco em seu apartamento, de tanto andar de um lado para o outro.

— Relaxe... Eles estão bem. Notícia ruim chega rápido. – Sua última frase o fez receber um bofetada com o travesseiro pesado de Chloe. Ele resmunga, soltando o controle e se aproximando dela. – Eu estava brincando.

— Não tem graça!

— Eles. Estão. Bem. Pode confiar em mim?

— Talvez. – Lorenzo ri, beijando seus lábios ao ver o biquinho que se formava em sua boca sempre que ficava brava. Adorava vê-la irritada.

— Bom, já que Emily e Ian estão na Itália, significa que a sua ida ao Brasil será adiada, certo?

— Aquela maluca fez eu trancar minha faculdade, e eu podia ter ficado mais um pouco. – Foi a vez dela de resmungar.

— Deveria agradecê-la! Se estivesse na faculdade ainda, não poderia levar você para um lugar. – Disse despertando a curiosidade na ruiva. – Arrume suas malas.

— Para onde vai me levar?

— Quero que conheça alguém especial.

***

Ian havia saído com seu pai e Muriel para resolverem algo relacionado a empresa. Emily não curtiu muito a ideia, claro, porque assim ela teria que ficar sozinha, já que acompanhá-lo estava fora de cogitação. Sendo assim, ela aproveitou para ir até o quarto e arrumar sua mala. Tomou a liberdade e preencheu uma parte do closet de Ian com suas roupas, uma parte da bancada do banheiro com seus cremes e, ao contrário do que imagina-barra-esperava, arrumar suas coisas não levou o dia inteiro. Na verdade, não ficou mais do que uma hora organizando suas coisas. Ela suspirou.

Ela não queria ficar no quarto o dia inteiro assistindo TV ou dormindo, queria aproveitar Sicília. Ou conhecer mais a casa dos pais de Ian que, de tão grande, linda e acolhedora, a lembrava de sua casa no Brasil. Mas sem Ian aqui, ao seu lado, ela se sente uma intrusa. Claro que Valentina a fez se sentir em casa, mesmo com aquele olhar desafiador apontado para ela o tempo todo, ela gostou da mãe de Ian e tem certeza que Valentina também. Mas mesmo assim, sair desse quarto e se aventurar por aí sozinha... Argh! Desde quando ela se tornou tão medrosa?

Tomada por este pensamento, Emily tomou coragem e caminhou até a porta do quarto, colocou a mão sobre a maçaneta, respirou fundo e a abriu.

O corredor estava vazio a não ser por ela ali. Fechou a porta do quarto e começou a caminhar a passos curtos pelo longo corredor, como se estivesse atrás de algum criminoso ou coisa do tipo, mas na verdade só estava nervosa demais para se sentir relaxada. Ao se aproximar por uma porta semiaberta, Emily não resistiu a curiosidade de espiar o que havia lá dentro. E logo constatou que aquele era o quarto da pequena Alicia, ou como Vitor carinhosamente a chamou hoje mais cedo de “Il mio angelo”, que significa “meu anjo” em italiano.

O quarto era tão belo que Emily não resistiu em adentrar para apreciar mais os detalhes. Não havia muito rosa, nem muitos brinquedos espalhados, mas remetia ao um quarto de criança. Um de princesa, para ser mais claro. As paredes tem um tom rosa pastel e entra em contraste com as figuras de pássaros pintados em azuis. No teto, como em qualquer outro quarto de criança, estrelas cadentes penduradas com o dever de brilharem no escuro. Lógico que estas estrelas cadentes são bem mais caras do que os se veem por aí.

No meio do quarto uma cama grande e alta chama a atenção. Deve caber umas três Alicias deitadas ali, pensou Emily ao se aproximar. O jogo de cama é sofisticado e delicado. Um edredom em tom de verde claro brinca com os inúmeros travesseiros revestidos com estampas florais, dando um charme a mais no quarto. Nos cantos, estão brinquedos de Alicia, a maioria bonecas, estão devidamente ajeitados sobre prateleiras brancas, pufes coloridos e cadeiras de balanço que devem ter sido compradas de algum castelo pertencente a monarquia, de tão lindo que era. Emily ficou bons minutos apreciando cada detalhe do quarto.

— Exagerado, eu sei.

Emily deu um salto ao ouvir a voz de Valentina a pegando no flagra. Parada ao pé da porta, Valentina sorria amigavelmente, apreciando junto com Emily, o quarto da filha.

— Eu achei lindo. – disse a morena, recuando alguns passos. – É muito lindo. E parece ter sido muito...

— Caro? – ponderou Valentina, fazendo Emily rir sem graça. – E foi. Alguma dessas bonecas valem mais do que as joias da coroa inglesa e, para ser sincera, não sei como Alicia pode achar elas bonitas. Mas espere só para ver o quarto de Bella...

Emily ficou meio desnorteada com a revelação. E ela achando que sua família gastava demais com ela...

— Não gosta de bonecas? – perguntou Emily, puxando assunto.

Valentina adentrou mais no quarto e caminhou até a cadeira de balanço, pegando uma das bonecas dali.

— Adorava quando criança. Alguma dessas são minhas, na verdade. Mas preferia bichinhos de pelúcia. – revelou, colocando a boneca de volta ao lugar. – Prefiro até hoje. O mais engraçado é que, quando soube que estava grávida de uma menina, jurei a mim mesma que não a mimaria como meus pais fizeram comigo. Porque de algum modo eu sei como é difícil lidar como uma pessoa que está acostumada a ter tudo o que quer. Vitor está aí para não me desmentir. – Valentina disse, fazendo Emily rir. – Mas quando eu vi o rostinho de Alicia pela primeira vez, Emily... – os olhos de Valentina brilharam como se recordasse a cena. – Fiquei apaixonada. Eu jurei que daria tudo o que ela me pedisse, até mesmo o mundo se ela quisesse. Com Vitor e o resto da família não foi diferente. Minha sorte é que Alicia é uma criança especial. Astuta e inteligente. Ela pode parecer ser difícil a primeira vista, mas aos poucos ela vai se abrindo.

— Ela não parece ter gostado muito da minha presença aqui. – comentou Emily.

Valentina sorriu, se aproximando de Emily.

— Alicia é ciumenta. Muito ciumenta. Tem ciúmes principalmente do irmão. E você aparecer aqui, acompanhada dele...

Emily assentiu. Não precisava ser nenhum gênio para perceber aquela situação. Não é que a pequena não tenha gostado dela, ela só não gostou dela estar com Ian. Se ela conseguir se aproximar – de alguma maneira de Alicia. – talvez tenha alguma chance conquistá-la

— Alicia parece ser uma grande fã de bonecas... – comentou Emily, tentando escapar do sorriso curiosa de Valentina sobre a relação dela com seu filho.

Valentina riu.

— É o amor dela. Mas acho que isso vai passar em algum momento. Quero ver quando ela chegar à fase da adolescência.

— Ela não me parece ser do tipo que vai ser fissurada em esmaltes ou revistas adolescentes. – disse Emily.

Valentina assentiu.

— É tem razão. – e por um breve momento ficaram em silêncios, até Valentina voltar a sorrir, chamando a atenção da morena. – Quer ir tomar sorvete?