Mirror of the soul
7 7. A escolha da seleção
Notas iniciais
As carruagens já estavam preparadas quando Meredith aparatou com Aberforth ao seu lado naquela região de Hogsmeade. Aquele era o dia em que ingressaria em Hogwarts de 1943 e estava tão ansiosa que a todo instante precisava lembrar a si mesma de ficar calma e respirar. Para ser sincera consigo mesma, a jovem não havia conseguido dormir muito bem na noite anterior. Muitos pensamentos povoavam sua mente, dentre eles alguns se sobreassaiam. Como por exemplo, a expectativa de Batilda Bagshot responder sua carta — mesmo Aberforth ainda não ter enviado a mesma — ou então a ansiedade de voltar a pisar na escola tão amada. Também havia a questão de ver Dumbledore novamente, dessa vez o bruxo seria seu professor de transfiguração, além da oportunidade de poder exigir informações mais vezes. Tudo não passava de expectativa, ela sabia.
Mas olhando para o bruxo ao seu lado, sentiu uma pontada de nervosismo. Não como se sentia nas vezes que algo ruim acontecia ou estava prestes a acontecer. Mas da forma como se a ideia de deixar o lugar em que ficara nos últimos dias fosse permanente. Havia se acostumado com a casa, até mesmo gostava de tomar o café da manhã no bar para observar os clientes bêbados e suas trapalhadas. Gostava também de olhar Aberforth limpar a cada minuto o balcão, o que ela achava ser uma característica bem estranha dele. E que Merlin a salvasse, pois ser acordada toda manhã pelo bode batendo com os cascos em sua porta era tão normal quanto tomar banho todo dia para ela. Onde havia exatamente se metido?
— Você quer ficar encarando as carruagens ou vai entrar? — escutou Aberforth ao seu lado — Se eu fosse você pegaria os melhores lugares, daqui a pouco o trem chega e sabe-se lá que tipo de gente ele trará. Adolescentes barulhentos, há!
Meredith sorriu para o velho e confirmou o que sabia. Havia se apegado ao jeito rabugento do mais velho, mesmo ele disparando algumas piadas com humor negro. Aberforth era como um tio para ela, que naquele tempo perdida entre 1943 e 2017, ocupava o posto de um pai. Era tão bom não estar sozinha.
— Obrigada Aberforth.
O velho hesitou um instante antes de acenar com a cabeça e mover uma das mãos até o ombro da garota. A mesma sentiu o peso da mão e sorriu, sabendo que a afeição era recíproca.
Engolindo a nostalgia que a havia inundado, Meredith deu dois tapinhas na mão em seu ombro e logo depois se afastou, pronta para embarcar na carruagem.
— Não se meta em confusão! Não quero passar a imagem de irresponsável ao educar uma garota encrenqueira. — o aviso de Aberforth a fez sorrir enquanto seus pés a levavam para longe.
Um segundo mais tarde a porta da carruagem se abriu e ao longe o som do trem chegando na estação soou aos seus ouvidos.
Meredith retrocedeu dois passos e virando-se para o velho bruxo, disse:
— Não se preocupe, vou me focar nos meus assuntos pessoais. Volto no Natal, mas até lá espero que aguente a saudade, tio Aberforth.
A expressão do Dumbledore mais novo fez uma risada alta sair da jovem. Era estranho a face do homem não estar franzida de raiva, muito pelo contrário. Sua expressão era de descrença misturada com algo mais agradável. Meredith teria perguntado qual era o problema, mas a gritaria dos estudantes recém- chegados já podia ser ouvida.
Aberforth pareceu despertar do estado desconcertante e logo a habitual expressão irritada tomou conta de sua face.
— Adolescentes, seres metidos! — resmungou enquanto via sua hóspede subir na carruagem.
A bruxa se acomodou, sentindo o peito apertar só de imaginar que aquela poderia ser a última vez que o veria. Não sabia o que encontria em Hogwarts, mas algo a alertava que não seria só coisas boas.
Lançando um olhar para fora da carruagem, viu Aberforth um segundo antes do mesmo aparatar. É claro,— debatia internamente enquanto se remexia até ficar confortável — ele não gostava de despedidas. Bem, nem eu.
Como o velho bruxo avisara, logo o som de conversas e risadas chegaram até a bruxa. Meredith começou a contar mentalmente, e quando chegou ao número 65, duas vozes foram se aproximando.
— Mais um ano e aquele idiota do Malfoy continua aqui. Decepcionante.
Duas figuras masculinas entraram na carruagem, se jogando nos assentos da frente.
Meredith esperou que ambos reconhecessem sua presença, e quando assim aconteceu ela achou hilário. O garoto que tinha cabelos negros rebeldes fora o primeiro a ve-la. Seus olhos se arregalaram enquanto o mesmo cutucava o outro, este ruivo.
— Olá, garotos. — a bruxa sorriu tentando não gargalhar do rosto corado do ruivo.
Por um momento ela sentiu uma certa familiaridade com ambos, como se já tivesse os visto...
— Olá, querida. — o primeiro a reconhece — lá sorriu educado, se ajeitando no assento — Quem é você?
Meredith sorriu ainda mais, percebendo que dali em diante teria que responder muito aquela pergunta. Ainda mantendo a fachada educada, ela levantou a mão em cumprimento enquanto dizia:
— Meredith Helinor. Sou a nova aluna de Hogwarts, sexto ano.
O ruivo piscou enquanto observava o amigo balançar a mão dela, plantando um beijo em seguida. Meredith ergueu uma sobrancelha ao ver o gesto cavalheirisco, se lembrando que estava nos anos quarenta.
Sua atenção se desviou para o outro garoto, este a observava com atenção. Ela sorriu mais calorosamente, estendendo a mão novamente.
— Isso não é muito comum. — o dono da cabeleria vermelha disparou, repetindo a ação do moreno.
A bruxa suspirou mantendo a calma. Tinha uma porção de coisas para pensar, e com certeza como responder perguntas não era uma delas.
— Bem, agora é.
Os dois garotos piscaram parecendo incrédulos com sua resposta e antes que Meredith abrisse a boca para se desculpar, foi interrompida.
— Direta, sim? Isso também não é muito comum. — o moreno apoiou o braço no assento e sorriu — Mas com certeza é algo bom. Bem vinda à Hogwarts, senhorita Helinor.
Ela sorriu agradecida se lembrando de um detalhe em especial.
— Vocês sabem o meu nome mas eu não sei o de vocês.
Ambos riram, enquanto o ruivo gesticualva entre si e o amigo, falando:
— Eu sou Septimus Weasley e ele é Charlus Potter.
Meredith sentiu o sorriso vacilar enquanto berrava por dentro. Observando ambos notou a semelhança com a linhagem futura.
— É um prazer conhecê -los.
Definitivamente — pensou se recompondo — não pode piorar.
☆
A bruxa percebeu que tudo poderia piorar sim, quando chegou ao Castelo.
Fora um percurso considerado interessante na opinião dela, já que Potter e o Weasley não calavam a boca um minuto. Claro, nem sempre a conversa incluía ela, mas não era tão entediante assim ouvir.
O assunto principal era quabridol, seguido pelas aulas difíceis que teriam esse ano, progredindo para a rivalidade contra os bruxos sonserinos e por fim, as garotas. Pessoalmente, Meredith parou de escutar quando a conversa chegou nesse tópico, se perdendo em pensamentos para orquestrar o que faria a seguir. As possibilidades eram inúmeras com Dumbledore ali a ajudando e vigiando ao mesmo tempo. Ela deveria observar o bruxo e só então avaliar se valeria a pena confiar no mesmo. Havia a questão do tempo que passava cada vez mais rápido, as poções essências que o velho bruxo do futuro havia a instruído sempre beber, além do fato de sempre se lembrar de nunca se desgrudar do vira-tempo e ao mesmo tempo esconde-lo dos olhos curiosos.
Definitivamente, nada para se preocupar.
Ela se forçou a permanecer calma quando se despediu de Potter e Weasley, o primeiro lhe dizendo que mais tarde se encontrariam por aí. O ruivo apenas sorriu, dando um último aceno quando o trio se separou. Com bastante esforço, se esforçou a entrar na multidão de alunos falantes, onde a maioria ziguezaveava em altas conversas com amigos. Todos, ela percebeu lutando contra a vontade de recuar para a carruagem e voltar ao Cabeça de Javali, se conheciam. De alguma forma eles estavam conectados... Todos, exceto ela.
Respirando fundo, Meredith procurou os primeiros anos e assim que os encontrou, — sendo escoltados para a grande escadaria que anos atrás também subiu pela primeira vez. — decidiu que segui-los poderia não ser uma má opção. E estava prestes a fazer isso quando um bruxo familiar apareceu em seu campo de visão.
— Meredith! — Dumbledore, o outro, sorriu assim que a viu, caminhando em sua direção. — Sinto muito pelo atraso, perdi um pouco a noção do tempo.
A garota conseguiu sorrir, tentando baixar a guarda pelo menos daquela vez. Poderia parecer meio idiota, mas a bruxa não tinha certeza de que poderia confiar ainda no homem. Não depois da forma como Aberforth o tratava.
— Não há nenhum problema, senhor. Eu poderia achar o caminho.
Dumbledore riu, a encarando com um olhar por trás dos óculos meia lua. Algo como divertimento estava estampado ali.
— Certamente minha querida. — ele ofereceu seu braço para ela em um gesto de gentileza. — Mas agora venha, você precisa passar por sua seleção.
Meredith entrelaçou ambos os braços sem hesitar muito. Se queria as respostas, precisava oferecer sua confiança. Mas antes, precisava encontrar um meio para cria-la.
— Então não irei participar dela junto com os outros?
— Creio que seria um pouco desconfortável para você. Além disso, minha querida, um bom mistério é desvendado aos poucos. O que acha de dar aos estudantes um pouco disso?
Ela sorriu, achando a ideia divertida. Em quanto tempo toda Hogwarts não entraria em um mar de especulações sobre ela? A bruxa chutou que não demoraria muito.
Ambos seguiram na direção que ela conhecia tão bem, direção essa que fora o último lugar que esteve em seu tempo. Olhando para as paredes do castelo daquela época, Meredith percebeu que não era tão diferente do seu catselo em 2017. O que era um alívio. Já as pessoas...
— Quando o senhor vai começar a me ajudar?
Dumbledore a encarou pensativo, com os olhos distantes.
— Já estou providenciando isso. Tudo ao seu tempo.
A bruxa segurou a vontade de revirar os olhos. Tudo ao seu tempo. E eu aqui, a dona da pressa em pessoa tentando salvar minha vida. Quão boba eu sou!
— Agradeço pelo esforço, mas não acho que tenho todo esse tempo.
Ele assentiu, mas permaneceu calado enquanto não chegavam à gárgula. Quando isso aconteceu, Dumbledore disse a senha, algo sem graça, e a escadaria para o escritório do diretor Dippet apareceu.
— Acredito que já saiba o que fazer.
— Eu sei, titio.
Ambos sorriram quando o mais velho abriu a porta, revelando um escritório muito diferente do que ela estava acostumada. Primeiro, não era Minerva McGonagall sentada na cadeira atrás da mesa, e sim um homem. Este era meio careca, mas ainda era perceptível os fios grisalhos. Ele também era franzino, com olhos expressivos, mas distraídos. Armando Dippet, Meredith se lembrou de ler no caderno que agora era seu guia para aquela época.
— Armando, esta mocinha aqui é Meredith Helinor. A filha de grandes amigos, como lhe contei.
Sorrindo, a bruxa se lembrou da história que eles planejaram. Ela agora era uma garota órfã, cujos pais foram mortos. A mãe — que era nascida trouxa. — foi morta em um ataque aéreo, quando ela e sua família moravam em Londres. Depois disso, a garota e seu pai se mudaram para o vilarejo de Godric's Hollow, onde velhos amigos do seu pai moravam. Esses amigos eram a família Dumbledore. Seu pai morreu em uma das viagens que ele fazia, procurando um bom emprego, em um ataque de Grindelwald. Depois, ela passou a ser criada por Aberforth Dumbledore e ser ensinada em casa.
Claro que não era a melhor história, mas ela percebeu que dava para engolir. Principalmente se Dumbledore confirmasse.
— Claro, claro. Um prazer conhecer a menina dos Dumbledore. — o diretor sorriu, tomando a mão dela e a apertando agitadamente. — Alvo me disse muito sobre você. Criada por Aberforth hein? Fico feliz que agora esteja aqui.
Meredith olhou rapidamente para Dumbledore e o encontrou suspirando. Então se lembrou de Aberforth e sentiu que aqueles três bruxos tinham uma história e tanto. Será que Aberforth tem fama de louco? Ele fala com o bode. Eu não duvidaria nada, se bem que as vezes eu também falo.
— O prazer é meu, senhor.
Mas não era. Não quando o homem a olhava como se ela fosse uma selvagem. Talvez ele não gostasse tanto de Aberforth e por isso os estivesse comparando. Algo lá no fundo a incomodou. Quem ele era para julgar o outro Dumbledore? Pelo menos ele tem cabelo.
— Bem, chega de distrações! Vamos à sua seleção.
Minutos depois Meredith pecebeu que era oficial, tudo poderia piorar. Muito mais do que ela esperava. A realização só a alcançou quando se encontrou em pé no meio do escritório, com o Chapéu Seletor em sua cabeça, resmungando:
— Ora,ora. O que temos aqui... não uma desse tempo.
Ela inalou profundamente, ignorando os olhares ansiosos dos dois homens à sua volta.
Por favor, não diga nada disso!
— Dizer? Por que eu faria isso? Apenas digo a verdade que as vezes nunca querem ouvir. Mas vejamos onde a colocarei. Hum... — o Chapéu continuou resmungando alto em sua mente enquanto ela apertava os braços cruzados sobre o peito. — Tem escuridão, há se tem! Mas também vejo esperança e como vejo. Difícil.
Pertenço à Corvinal. Me coloque lá!
— Você pertencia a Cornival em seu tempo. Aqui existe outro caminho em seu destino. Sonserina, por que não?
Não quero ir para a sonserina! Essa parte pertence a ela!
O Chapéu ficou em silêncio e Meredith pensou que tivesse o irritado. Pelas expressões preocupadas dos outros, percebeu que aquilo deveria estar demorando mais do que o normal.
Quando estava prestes a tirar o Chapéu e gritar que seria Corvinal, a voz em sua mente ecoou:
— Não importa o destino que seja, eu vejo. Suas escolhas a levarão para o melhor deles, desde que você possa encontrar sua alma. Você terá trabalho pela frente Meredith. — o Chapéu fez uma pausa. — CORVINAL!
Ela sentiu o Chapéu ser retirado de sua cabeça, mas ignorou isso. Assim como ignorou os sorrisos dos bruxos. A garota só conseguia sentir o coração acelerado, as mãos suando e uma sensação de pânico a invadindo.
Destino. Escolhas. Alma. Sonserina.
— Você está bem, querida?
Ela pulou quando Dumbledore tocou seu ombro, voltando a realidade. Dippet a encarava como se fosse louca, talvez lembrando de Aberforth.
Meredith sorriu, assentindo com a cabeça.
— Estou ótima. Corvinal, hã? Nada mau. — sorriu com mais vontade, tentando dissipar o terror. — O que faço agora?
— Você precisa ir para o Salão Principal. Todos os alunos já devem estar lá. — Dippet indicou a porta, com um sorriso tão forçado quanto o dela. — Alvo a acompanhará.
Ela se despediu do diretor, levando mais uma olhada como se fosse louca, e saiu da sala o mais composta que pôde. Seus passos ecoaram nas escadas, sendo seguida pelo bruxo mais velho.
Quando ambos chegaram na gárgula, teve que perguntar:
— Existe a possibilidade de pertencer a duas casas diferentes?
Dumbledore a encarou com o mesmo olhar pensativo, mas com um pouco de intensidade.
— Talvez. Existe algo que queira me contar?
A bruxa pensou por um instante enquanto seguiam pelo corredor. Naquele momento pensou nas palavras do Chapéu Seletor e estremeceu. Por que pensar em ir para a Sonserina a amedrontava tanto assim? Saber que pertencia a casa das cobras?
— Não, senhor. Apenas estou curiosa.
Nenhum dos dois falou mais nada. Meredith não o encarou por todo o percurso, mas sentia o olhar questionador de Dumbledore dirigido a ela.
Antes das grandes portas do salão principal se abrirem, ela já sabia a resposta. E não a agradava nada.
Meredith se aterrorizava com a ideia de pertencer a Sonserina porque sabia que era lá que Morgana pertencia. E saber e existir a possibilidade de não lutar contra aquilo a assustava ainda mais. Porque a fazia como ela, a fazia sentir como Morgana. E aquilo não era nada bom, principalmente com a maldição.
Então percebeu que não estava ali para lutar apenas pelo controle. Estava ali para lutar por sua alma.
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