Mirror of the soul
3 3. Inusitada viajante
Notas iniciais
Era o primeiro final de semana marcando os sete dias passados em Hogwarts desde o início das aulas.
Meredith estaria animada se não tivesse coisas maiores para se preocupar, coisas essas que tiraram o sono da menina.
Todas as noites que passara no castelo eram perturbadas pelos pesadelos que desde sempre obtivera. Neles, a voz de uma mulher a chamava enquanto a menina andava por um corredor escuro.
Naquela noite não fora diferente.
A escuridão tomava conta do local onde se encontrara, mas por algum motivo a jovem continuava seguindo em frente.
Meredith. Meredith. Meredith.
A voz começava sua cantoria novamente fazendo a menina se arrepiar. Sentiu seu coração acelerar e então se viu correndo entre a escuridão. Por mais que estivesse correndo a toda velocidade e seus pulmões suplicassem por ar, tudo parecia passar em câmara lenta.
Enfim seus pés pararam e a garota notou que todo o cenário mudara. A escuridão se dissipara abrindo espaço para a luz solar entrar pelas grandes janelas. Percebeu então que se encontrava em uma das salas secretas de Hogwarts, onde um grande espelho permanecia no centro.
Algo a atraiu até lá,- talvez fosse a voz que gritava em seus ouvidos, embaralhando sua mente— a fazendo tropeçar no longo vestido preto que usava.
De repente se sentiu estranha. Não se sentia ela mesma, algo em seu peito parecia prestes a explodir e sua garganta queimava em um pedido para soltar uma louca gargalhada.
Meredith não entendia o que estava acontecendo, mas o que viu a perturbou mais.
A jovem se olhou no espelho e com choque não se reconheceu ali. Seu cabelo estava mais escuro, seus olhos pareciam conter um brilho malvado misturado com uma cor dourada e seus lábios se moviam em um sorriso sinistro.
Meredith soube no exato momento que aquela não era ela, nunca seria. Mas sabia a quem pertencia aquela maldade natural, e foi com dor que finalmente concluiu que seu maior demônio interior havia se libertado. A maldição fora cumprida e sua alma subjugada para dentro do próprio corpo.
Morgana Le Fay havia retornado.
Com um salto ela acordou. Seu cabelo grudava nas têmporas e suor escorria por seu rosto. Olhou em volta do quarto e recebendo a escuridão em troca, ela se contorceu.
Meredith puxou as cortinas azuis envolta da cama e silenciosamente pegou a varinha sussurrando lumos. A quantidade de luz foi bem vinda, amenizando o pânico dentro de si.
Fora apenas mais um sonho de vários que já tivera, e mais uma vez seu maior medo se mostrou.
Ela sabia que precisava pensar em uma maneira de acabar com aquele medo e inconscientemente a solução de Dumbledore lhe veio a mente.
Uma semana havia passado e não conseguira nenhuma outra maneira de mudar seu destino e mesmo que lhe fizesse ficar amedrontada por não saber o que iria acontecer, Meredith admitiu que aquela era a única forma que tinha ao alcance naquele momento.
Movendo a varinha para debaixo da cama, retirou a pequena bolsa com o feitiço Indetectável de Extensão. Lá o vira tempo se encontrava junto com o caderno de couro. Se lembrava exatamente do que havia feito no dia que os encontrara, e das sensações que sentira. Choque, medo, alívio, êxtase.
A menina estudara o caderno nos dias seguintes, exasperada por descobrir que o dono tinha sido Dumbledore. Talvez fosse um plano do bruxo? Mas como?
Apenas sabia que lá havia instruções para a realização de uma viagem no tempo. Incluído também quantas voltas deveria dar no vira tempo, e algumas poções que a ajudariam combater por algum tempo sua doença.
Devolvendo tudo ao seu devido lugar e colocando um feitiço protetor na bolsa, voltou para a cama com a cabeça pesando de tanto pensar.
A última coisa que observou foi a luz vinda da varinha e desejou poder iluminar suas idéias com apenas um feitiço.
•••
A aula de poções — sua segunda matéria preferida — havia acabado depois de risadas e fiascos com caldeirões.
Meredith desejava sua cama para uma soneca devido as noites em claro, já que andava trocando o dia pela noite.
Lúcia rumava ao seu lado concentrada em limpar o rosto dos vestígios da poção arruinada que havia realizado. A amiga não se dava bem quando se tratava em trabalhos manuais, por isso Meredith precisava sempre lhe lembrar de acrescentar ou retirar ingredientes em toda aula.
— Você sabe Lucy — bocejou esfregando os olhos — Estou preocupada com meus pais. — mentiu a encarando.
Meredith odiava admitir mas era uma ótima mentirosa. Poderia encarar o homem mais honesto e ainda sim seria fácil inventar uma boa mentira. Odiava isso em si, e muitas vezes se perguntara se seria essa característica uma parte venenosa de Morgana agindo em si.
Se bem que isso já me ajudou muito...
— Talvez não seja nada alarmante. Já conversou com Minerva?
Negou com a cabeça enquanto ambas continuavam andando. Tinham um tempo livre e a morena queria aproveita-lo para organizar seu plano.
Acabou que a noite havia lhe servido pata formular um plano que decidiu ser bom. Não sabia o que encontraria, mas que precisava encontrar o Dumbledore do passado e seu total conhecimento.
— Ainda não. — declarou suspirando — Mas irei procura-la mais tarde.
Lúcia sorriu e Meredith se sentiu culpada pela mentira. A amiga não merecia, é claro. Mas o momento necessitava daquilo, senão como explicaria sua ausência? E seus pais, teria que pedir a McGonagall para bolar algo.
As duas continuaram comentando sobre a aula de poções quando dois meninos corriam até elas.
— Meredith Helinor? — o loiro perguntou ofegante.
A mesma abaixou a cabeça para que pudesse os encarar. O que havia falado era loiro e tinha os olhos claros. O outro era um pouco mais baixo, e moreno.
Algo em sua mente pareceu acender e ela jurou já ter visto aqueles rostos.
— Eu mesma. Quem são vocês?
O moreno sorriu tímido enquanto estendia um pergaminho para ela.
Meredith o recebeu dando um sorriso em troca, observando aquelas criança.
— Alvo Severo Potter e Scorpions Malfoy.
Os olhos de Lúcia brilharam e Meredith sorriu lembrando do que pensara quando havia descoberto que os dois começariam a estudar em Hogwarts.
— É um prazer. — murmurou ansiosa para abrir o pergaminho, e assim fazendo.
Senhorita Helinor venha até minha sala assim que receber este recado.
Minerva McGonagall
Respirou fundo tentando assimilar que a hora seria agora. Parte do plano já estava formado, agora era o momento de concluí-lo.
Voltando sua atenção para a conversa que se estendia ali, sorriu observando o Potter e o Malfoy. Lúcia parecia completamente admirada com as presenças mais novas, até porque um dos sonserinos era filho de um dos bruxos que ela mais admirava.
— Preciso ir Lucy, coisas importantes — apontando para o pergaminho, lançou um olhar para os meninos no qual ela entendeu — Deixo vocês na companhia da minha amiga. Obrigada pelo recado.
Meredith não esperou por resposta e já caminhava apressadamente pelos corredores. Fez todo o caminho já conhecido até estar de fato no escritório da McGonagall.
E lá estava ela, batendo a ponta de sua varinha contra a mesa. Assim que notou a presença da mais nova parou imediatamente o ato, assumindo uma expressão séria.
— Que bom que chegou Meredith, tenho algumas observações para fazer.
Erguendo a sobrancelha, se colocou no assento que sempre tomava. Seus olhos a analisaram atentamente, mas pararam quando ela percebeu que a menina não quebraria o contato visual. Outra característica impertinente da jovem.
— Preciso dizer que pensei muito no que Dumbledore...
— Professor Dumbledore.
— ... Me disse — continuou fazendo uma careta pela interrupção — Assim como em um plano.
Minerva suspirou cruzando as mãos sobre a mesa. Sua expressão sempre se dividia em cansaço ou seriedade quando o assunto era a jovem, mas no fundo ela tinha certeza que havia um pouco de preocupação.
— Como eu lhe disse antes, farei algumas observações. Uma delas é que não saberei nada sobre seu plano ou qualquer envolvimento na conversa que a senhorita teve com Dumbledore. — arregalou os olhos se sentindo desacreditada — A partir de agora acho que terá que assumir os riscos sozinha. — a professora esperou alguns segundos para a menina de recuperar do choque que fora a informação. Foi então que Meredith assentiu para que ela continuasse, tentando manter a calma. — Mas lhe digo uma coisa, seja o mais cuidadosa possível com tudo o que fará. Lembre-se que eu não sei para onde a senhorita vai mas peço para que não cause confusão. Dumbledore me pediu para lhe avisar algo.
Meredith rapidamente lançou um olhar para o quadro no qual o velho bruxo dormia profundamente. Em seu peito ela sentiu uma queimação, mas tentou não ficar irritada com o antigo professor.
— E o que seria? — observou Minerva retirar um pequeno lembrol das vestes.
— Isso aqui é mais importante do que parece. Quando você se sentir perdida em sua jornada basta olhar para este lembrol e ele lhe ajudará a encontrar seu caminho.
Estendeu o objeto redondo e confusa o pegou. O lembrol parecia normal, como qualquer outro. Tinha a aparência, a forma e o peso de um normal mas Meredith podia sentir a magia envolta do objeto.
— Quando eu poderei ir?
— Agora mesmo.
Em um balançar de varinha — da parte de McGonagall, claro — sua bolsa com o feitiço indetectável de expansão estava sobre a mesa.
Meredith piscou sentindo o coração afundar. Tudo estava acontecendo tão rápido que parecia ser irreal.
— Não acho que eu tenha lhe dito claramente minha resposta diretora — observou o assentir de cabeça da própria — Então como sabia?
— Um dia descobrirá que quando se conhece alguém não é preciso palavras para entender significado algum. E acho eu, com meus anos de experiência, que posso lhe dizer que a conheço perfeitamente bem. E também por não lhe restar muito tempo, acredito que seja sua última tentativa.
A menina sorriu verdadeiramente diante daquelas palavras. Um sentimento cresceu dentro de seu peito no mesmo momento em que lágrimas surgiram em seus olhos. Queria chorar, mas precisava ser prática diante daquela situação.
— Preciso confessar que estava a procurando para lhe perguntar algo — respirou fundo tentando reprimir o choro — sobre meus pais. Há tantas dúvidas, tantas perguntas professora.
Minerva suspirou analisando a menina em sua frente. Desde que a conhecera sabia que Meredith Helinor carregava um grande fardo. Depois de conhece-la melhor teve a certeza que a mesma tratava uma briga interna maior que poderia imaginar. E por isso lá no fundo doía lhe ver em tal situação.
— Seus pais ficarão bem. — garantiu seriamente — Mas a alerto que após a sua partida terei que forjar algumas cartas em seu nome para ambos. Aos alunos, o boato que circulará é que você precisou cuidar dos pais doentes. Ao ministério o mesmo, se alguém de lá descobrir sobre você... Creio que estaremos em encrenca.
E naquele momentos Meredith pensou em Hermione Granger. Talvez ela não pensasse o mesmo, mas precisava lembrar que nem todos que trabalhavam lá pensavam como Granger.
Com um assentir de cabeça ela pegou a bolsa já procurando a corrente dourada.
Pensou em seus pais, em Lucy, em Hogwarts daquele tempo e na saudade que sentiria.
O último pensamento foi que a morte poderia recair sobre ela, mas isso não a assustou. Para a jovem, a morte seria uma dádiva se seu destino se cumprisse. Destino este que ainda era confuso para si.
Sua mão alcançou o objeto e ela o retirou. Tratou logo de o colocar sobre o pescoço e depois foi checar seus pertences.
O livro pertencente a Dumbledore estava ali, junto com algumas mudas de roupas, — compostas por saias longas e tudo mais que cobrisse a maioria de sua pele. Não fazia ideia da moda que residia na época em que iria, por isso tentou chegar o mais perto possível — o livro que achara na biblioteca da escola e algumas poções.
— Não esqueça de tomar as poções em intervalos de três dias, creio que a senhorita saiba sobre a possível doença adquirida aos viajantes do tempo. Lendas, é claro — Minerva torceu os lábios em desgosto — Mas vamos prevenir.
Ela assentiu colocando a bolsa no ombro. Lera rapidamente sobre isso no livro do velho bruxo.
Suas mãos suavam, a ansiedade a dominava. Não fazia ideia para onde iria e o que encontraria, mas torcia para dar certo.
— Obrigada diretora. Não sei como agradece-la por tudo o que tem feito.
Minerva sorriu e Meredith soube que esperava encontrar novamente aquela mulher, de preferência quando tudo se resolvesse. Sua mente a levou direto para sua mãe adotiva mas logo tratou de esquecer. Eles ficariam bem sem ela.
— Pode começar se livrando da maldição. — a bruxa sorriu — Quero que seja feliz Meredith, verdadeiramente feliz.
Um impulso e ela estava abraçando a professora. Amba ficara surpresa, mas desajeitadamente devolveu o abraço.
Quando se separaram, Meredith percebeu que era hora de ir.
Uma última olhada para o quadro de Dumbledore a fez ter certeza que o professor ainda dormia.
— Espero lhe ver novamente. — declarou baixinho.
Minerva assentiu e a menina se preparou para o que viria a seguir. O lembrol já fora colocado dentro da bolsa, assim como tudo que precisaria.
— Basta girar uma vez, está encantado para leva-la à data exata. — comandou apontando para o quadro de Dumbledore. Ela entendera. — E Meredith? Não há tempo.
Meri queria perguntar a razão daquelas palavras serem proferidas naquele momento. Mas já era tarde, seu dedo tocara na ampulheta e logo, a última imagens que vira com perfeição, fora o sorriso triste de McGonagall.
Depois um borrão de imagens apareceram em sua visão, a deixando desnorteada por um momento, o que pareceu horas.
O mundo era formas indistintas e uma confusão de cores. Abruptamente tudo parou, e de repente seus pés se chocaram com algo sólido. O chão. Pensou agradecida ao sentir o solo frio colidir com sua face.
A próxima coisa que sentiu foi dor pela queda, seguida de tontura. Com certeza aquilo não estava escrito no livro de Dumbledore.
Ainda jogada no chão, Meredith ouviu um som como uma espécie de tosse. Seus olhos dispararam em alerta assim que conseguiu levantar a cabeça, e o que viu a chocou.
Sabia que o homem em sua frente não era fruto de sua imaginação, muito menos da queda e menos ainda da tontura que sentia. Ele era tão real quanto a expressão de surpresa misturada com raiva que carregava.
Em sua frente estava Abeforth Dumbledore em uma versão mais nova, e este não parecia nada contente com a chegada da inusitada viajante.
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