Notas iniciais
Oi, flores do meu jardim encantado ~exagerada.com~ Então, aqui está o novo capítulo. E o trailer sai em breve. Estou tão ansiosa quanto vocês. Vamos ver trechos do casamento de Caliel e Nicolas. Além de um final inesperado. Aproveitem.

Nathaniel não era nem uma parcela do que meu imaginário inútil mentalizou. Aliel estava sentada na minha cama com as pernas cruzadas nos tornozelos e achando graça da minha expressão de surpresa. Assim que minha mãe pegou Jane – o que demorou muito mais do que ela disse antes – Aliel se mexeu até a porta, como se bloqueasse a passagem de alguém.

Lembrei-me dela dizendo que alguns Guardiões se mantinham invisíveis aos olhos humanos e que apenas anjos do mesmo escalão ou superiores conseguiam enxergá-los. Ela esticou os braços olhando desafiadoramente para frente. Se algum desavisado visse aquela cena diria que minha namorada tinha uma passagem reservada para o hospício. Mas conhecendo o mundo mais do que deveria, sabia que aquilo era quase uma rotina para ela.

“Nathaniel”, ela disse com um sussurro apressado. Seus olhos fixos em um ponto na sua frente. Estreitei os olhos, forçando minha visão ansiando ver a mesma coisa que ela. Mas tudo que estava na minha frente era o meu armário, a porta e Aliel. “Vamos, nos dê cinco minutos. Um favor á uma velha amiga.”, deu um sorriso camarada.

Ás vezes ficava impressionado com a popularidade de Aliel no céu. Ela conhecia praticamente todos os anjos, não importante que jurisdição ou que nível angelical estivessem. Ao contrário de mim, que achava que todos na escola tinham que saber o meu sobrenome minimamente. A cada minuto que eu passava ao seu lado, a realidade de sermos oposto parecia mais aparente. E eu amava cada momento.

Habilidosamente, ela usou o pé para fazer minha porta bater com um baque surdo. Levantei uma sobrancelha. Se eu estivesse em seu lugar, ou a madeira teria feito um estrondo tão alto que alertaria a vizinhança inteira, ou eu teria feito um estrondo caindo no chão. Aliel franziu os lábios, analisando o anjo que deveria estar a sua frente. Até que sorriu, vencendo a batalha silenciosa. Seus braços abaixaram-se.

Pisquei, dando um salto para trás com a aparição súbita de uma terceira pessoa no meu quarto. Aliel nunca tinha feito esse truque na minha frente – mesmo que já tivesse pedido inúmeras vezes. Satisfeita com o resultado de sua persuasão, caminhou lentamente até a cama e sentou-se, aguardando que os cinco minutos de seu pedido fossem bem utilizados.

Nathaniel se virou para mim focando os entediados – porém alertas – olhos dourados em mim. Ele era alto, talvez uns dez centímetros maior do que eu, o que me surpreendeu já que sou bastante alto. Tirando isso, era magro e o único indício de músculos era em seus bíceps. Sua pele era um ou dois tons mais escura que a de Aliel, mas tão imaculada quanto. Seus cabelos eram caramelo – talvez em uma tentativa falha de combinar com os olhos – e crespos, enrolando-se em um corte militar.

Não tinha palavras para definir sua aparência além de indescritível. Ele se aproximou de mim, me medindo exatamente como fiz. Aliel observava tudo divertindo-se. Nathaniel apertou minha mão e eu dei um sorriso receptivo. Vi seus ombros relaxando lentamente e seu olhar se voltou para minha namorada, que acenou com a cabeça para que ele prosseguisse. Esperei até que sua atenção retornasse para mim.

“Hum... Prazer. Sou irmão mais velho de Jane.”

Constrangedor.

“Eu sei.”, ele respondeu, mas vi humor em seus olhos dourados. “Jeremy Demétrius Hathaway Read. Irmão mais velho de Janette Margareth Hathaway Read. Dezoito anos. Pupilo e protegido da Guardiã Aliel Grace Sky á seis meses...”

“Ok.”, o interrompi levantando minhas mãos. Escutei o riso de Aliel e a vi encolhida na cama com a mão na boca. Revirei os olhos. “Não é engraçado rir dos nomes das pessoas, sabe?”, franzi o cenho, reavaliando as informações que Nathaniel tinha me passado. “Aliel Grace? Sério? Você pode escolher o nome que quiser e escolhe esse?”

Ela abaixou os olhos, envergonhada e me arrependi instantaneamente de minhas palavras. Ignorando o tempo limitado que tinha para conhecer o Guardião de minha irmã, caminhei vagarosamente até onde Aliel estava e levantei o seu rosto com a ponta dos meus dedos. Ela piscou algumas vezes e eu sorri. Ela sempre fazia isso quando estava nervosa ou preocupada. Dei um meio sorriso, sentindo-a amolecer.

“Aliel Grace é lindo.”, sussurrei. “Não poderia imaginar um nome melhor.”

Esperava um sorriso encantado, como acontecia com a maioria das garotas. Só que esquecia que Aliel não era a maioria. E esse tinha sido um dos motivos para eu estar tão apaixonado por aquela anja. Mesmo que não pudesse relevar os meus sentimentos e tivesse que obrigá-los a ficar ocultos. Se ela permanecesse ao meu lado, guardaria aquilo em segredo para sempre.

“Sabe que seus elogios baratos não funcionam, não é?”, ela disse docemente. Projetei meu lábio inferior para frente, fazendo um bico. Ela revirou os olhos escuros e acariciou o meu rosto, carinhosamente. Seus olhos não se desviaram do meu nem por um segundo. “Nathaniel foi embora.”

Surpreendido por suas palavras olhei por cima dos ombros. Estávamos sozinhos e a porta entreaberta. Mesmo com a habilidade de ficar invisível, anjos não atravessaram paredes nem se teletransportavam. Quando Aliel me contou isso, fiquei um pouco decepcionado. Mas me animei novamente quando ela disse da compulsão. Esse não era o nome apropriado, já que compulsão lembrava obrigar uma pessoa a fazer algo contra a vontade. Anjos plantavam a ideia no fundo da mente dos humanos, como um subconsciente.

“Não ligo.”, disse por fim, passando um braço ao redor dos ombros dela. Descansou sua cabeça no meu ombro e suspirou, relaxando o corpo. Estalei a língua enquanto minha mão que não estava entrelaçada na dela, acariciava seu braço. “Quase não vamos nos ver essa semana por causa do casamento.”, reclamei fazendo uma careta. “Mesmo que a ideia de te ver com o vestido de madrinha seja tentador, não compensa a ausência.”

Ela respirou fundo, se aconchegando ainda mais no meu corpo. Virei o meu rosto o suficiente para enterrar meu nariz em seu cabelo e aspirar seu cheiro leve e adocicado. Queria que minha memória cavernosa tivesse o mínimo de remorso de minha alma e memorizasse cada centímetro daquela mulher. Apenas para que a noite ficasse relembrando de seus detalhes menos detectáveis e mais marcantes.

“Jeremy.”, ela apertou os dedos contras os meus em sinal de afeto. “Vou estar perto de você, mesmo que não me veja. Não posso me permitir uma folga tão extensa. Uma hora, duas no máximo e retornarei para o seu lado.”

No entanto, algo se apertava no interior de meu corpo humano. Um mau pressentimento. Não sabia se anjos acreditavam nisso, por isso me mantive em silêncio, compartilhando do sentimento de breve reencontro que teríamos. Corri minha mão por seu braço, sentindo os pelos dali se eriçando e a abracei com força contra meu corpo. Tentei afugentar aquelas sombras que rondavam minha mente.

Por poucos segundos consegui.

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Aliel não blefou quando estipulou o tempo que ficaríamos distante um do outro. Ela saía antes que eu acordasse e voltava antes que pudesse realmente notar sua ausência e sentir falta. Antes que questionasse qualquer querendo uma notícia sobre ela, a campainha tocava e seu sorriso iluminava meu dia recém iniciado.

Apenas no sábado que foi diferente. Acordei mais cedo do que o habitual, incomodado com a luz matutina que entrava por minhas janelas e teimava em esquentar minha pele sonolenta. Esfreguei o rosto e reprimi um xingamento. Virei-me, pondo um braço por cima dos meus olhos. Não adiantou. Suspirando pesaroso, abri um olho e refiz meus passos da última noite, resmungando ao perceber que tinha me esquecido de fechar as cortinas.

Contrariado, levantei-me e fui fazer minha higiene pessoal. Ainda sonolento, passei as mãos por meu rosto lentamente e encarei o meu reflexo. Aliel sempre elogiava meus olhos. Dizia que quando me conheceu facilmente me confundiu com – ironicamente – um anjo. Pisquei os olhos cor de safira, percebendo as leves olheiras que se destacavam em minha pele pálida.

Meus cabelos negros estavam despenteados e a preguiça me impediu de fazer algo mais eficiente que mover os dedos por entre as mechas recentemente aparadas. Virei o rosto de um lado para o outro, tocando meu rosto e analisando a barba por fazer. Estava rala, charmosa. Meus lábios se torceram em um meio sorriso. Iria ficar irresistível daqui a algumas horas.

Desci as escadas ainda vestindo a calça de moletom cinza e a camisa branca. Estava descalço. Não parei de coçar os olhos, consciente de que isso não faria meu sono diminuir. Antes de virar para a cozinha, vi um vislumbre de minha mãe sentada no sofá com Jane em seu colo. Ela estava sorrindo e falando palavras baixinhas com minha irmã. Quase que contra vontade, fui arrastado para lá.

“Boa dia.”, murmurei com a voz rouca e dei um beijo na bochecha de Janine, recebendo um olhar curioso e especulativo. Ignorei-o, focando em minha irmã. “Hey, anã. Como você consegue acordar com esse bom humor?”, fiz carinho em sua bochecha e a vi abrindo um sorriso. “É incrível o que minha beleza causa.”

Minha mãe revirou os olhos tão azuis quanto os meus.

“Tenho certeza que herdou esse ego enorme de seu pai.”, reclamou, franzindo os lábios. Vi uma leve ruga entre suas sobrancelhas. Seus olhos queimavam de curiosidade. “O que está fazendo acordado essa hora? Hoje é sábado e Aliel ainda não chegou.”

Ela ajeitou Jane em seus braços e – sem nenhuma vergonha – pôs o seio para fora. Os olhos multicoloridos de minha irmã se arregalaram e sua boca se abriu. Enquanto ela se fartava em leite, eu tentava não vomitar no tapete novo. Desviei o olhar para o rosto de minha mãe, inseguro quanto ao meu estômago.

“Hoje é o casamento de Caliel e deixei a cortina aberta.”, respondi encolhendo os ombros. Ela levantou uma sobrancelha. Resolvi desviar o assunto. Odiava ser o foco da atenção de meus pais. “Meu pai ainda está no plantão ou já está em casa?”

Antes que minha mãe tivesse a chance de responder a pergunta, escutamos passos apressados soando na escada. Virei-me vendo meu pai mais bem disposto do que qualquer médico que havia acabado de sair de um plantão.

Seus cabelos tão escuros quanto os meus também estavam aparados, só que em um corte militar. Rapidamente me lembrei de Nathaniel. Reprimi o sorriso ao saber que ele estava ali. Os olhos dourados de meu pai se focaram em nós e ele se apressou em nos alcançar. Passou um braço ao redor de meus ombros, apertando-me contra o seu corpo envelhecido e um pouco flácido. Dei um sorriso ao ver jovialidade dele.

“Bom dia, minha querida família.”, ele disse com alegria. Olhou para mim. “Ótimo corte de cabelo, Jerry.”

Evitei fazer careta com o apelido que meu pai havia dado e movi meus dedos por entre meus cabelos semelhantes aos seus. Soltando-me, Dylan Read se ajoelhou em frente a mulher e deu um beijo no topo da cabeça de minha irmã – que ainda se alimentava furiosamente. Seus olhos brilharam ao registrar a voracidade com que Jane bebia o leite materno. Entrelaçou os dedos com os de minha mãe.

“A cada dia que passa você está mais bonita, Janine.”, ele sussurrou beijando o dorso da mão de minha mãe.

Ela corou, puxando-a e deu um leve tapa no ombro de meu pai.

“Não diga besteiras na frente das crianças, Dylan.”

Ele sorriu.

“Estou apenas dizendo a verdade, meu amor.”

Querendo dar privacidade ao casal – e não garantindo a estabilidade de meu estômago por muito tempo – fui para a cozinha, querendo tomar café. Dara, a cozinheira, estava ali lavando louça. Dei um sorriso e ela me estendeu uma vasilha apontando para o armário onde deveria estar o cereal. Dara tinha descendência mexicana e mal falava a nossa língua. Aliel e minha mãe eram as únicas que conseguiam se comunicar de verdade com ela.

Ás vezes ter uma namorada com quase quatrocentos anos de idade e que tinha viajado pelo mundo inteiro, tinha as suas vantagens. Sentei-me deixando minha mente se distrair enquanto me servia de cereal e leite. Comecei a comer lentamente, sabendo que daqui a poucas horas eu e Aliel estaríamos longe dali. Foi uma batalha excruciante convencer meus pais, mas nada que um pouco de persuasão não funcionasse.

Além disso, eles tinham a ruivinha anã para distraí-los. Dei um sorriso com meus pensamentos e dei um salto quando escutei a campainha tocando. Encarei minhas roupas com os olhos arregalados e Dara rapidamente se prontificou a abrir a porta. Não tive nem um segundo de vantagem até escutar a voz doce de Aliel atravessando o corredor e seus passos decididos vindo em minha direção.

Tenso, forcei-me a voltar a comer fingindo estar indiferente à minha aparência. Engoli o cereal sentindo minha garganta mais seca do que o habitual e pisquei um olho na sua direção. Ela sorriu, caminhando lentamente até mim e puxou uma cadeira à minha frente. Pousou os cotovelos na mesa, me observando e esperando que todo o conteúdo em minha boca descesse para meu estômago.

“Oi, Anjo.”, sussurrei pegando sua mão.

Sua pele estava quente e macia. Prontifiquei-me a entrelaçar os nossos dedos e vi seu sorriso se ampliando com aquela visão. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo, deixando seu rosto exposto. Era impossível não reparar em seus longos cílios que fazia sombras em suas maçãs do rosto acentuadas. Ou em seu nariz com a ponta arredondada e os lábios cheios e que me levavam ao limite do pecado.

“Cortou o cabelo.”, ela ressaltou e se esticou com cuidado para tocá-lo. Satisfação preencheu seu rosto. “Ficou bonito. Não que você já não seja bonito. Mas devo admitir que estou ansiosa para vê-lo totalmente arrumado. Será a tentação de metade da festa.”

Passei o polegar no dorso de sua mão, carinhosamente.

“Só quero te fazer se orgulhar por estar ao meu lado.”

Ela sorriu e balançou a cabeça.

“Eu sempre me orgulho, Jeremy.”, abaixou seus olhos e sua voz se tornou um sussurro quase imperceptível. “Sempre, meu amor.”

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A igreja estava cheia. Lírios decoravam os bancos desde os encostos até o teto. Sorri ao imaginar Aliel voando por ali para colocar tudo em seu devido lugar. Algumas coisas haviam sido substituídas para dar um ar mais harmonioso com as flores. O tapete por onde Caliel havia entrado era branco e se alongava até a escada na entrada da igreja.

“Eu, Nicolas Brown, prometo amá-la e respeitá-la, Caliel”, o noivo disse pegando na mão de sua futura esposa e dando um sorriso carinhoso. Vi algumas lágrimas deslizando do rosto de porcelana e beleza impecável da ex-Anjo. “Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que amor nos separe. Ou mais além.”, ele piscou.

Tive o privilégio de sentar na frente, por ser namorado de uma das madrinhas, por isso pude analisar tudo com atenção. O vestido de Caliel era cor de marfim – para combinar com suas antigas asas, Aliel me disse – e se moldava perfeitamente ao seu corpo pequeno e magro, com uma calda que se arrastava ao seu lado. Acima de seu colo, o tecido se tornava transparente e tinha um pequeno botão nas costas.

Seu cabelo estava preso em um coque cuidadosamente moldado para destacar seu rosto meticulosamente maquiado. Os olhos azuis não se desviavam de seu noivo por nenhum segundo, mesmo que estivesse tomado pelas lágrimas. Seus lábios foram pintados de rosa, a única cor que se destacava em seu rosto.

“Eu, Caliel Crista, prometo amá-lo e respeitá-lo, Nicolas.”, ela gaguejou, segurando-se para não soluçar. Pausou e respirou fundo, fazendo a igreja dar alguns risos. Nicolas deu um leve aperto em sua mão trêmula e ela sorriu, assentindo. “Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Na riqueza e na pobreza, até que a morte nos separe. E muito mais além.”

O Padre Joseph, que era amigo dos anjos finalizou a cerimônia, permitindo que Nicolas beijasse sua noiva até que ela perdesse o fôlego. Aproveitei o momento das palmas para procurar o motivo para meu coração se acelerar. Passei os olhos rapidamente por Mellany Brown que estava de mãos dadas com Adriel Crista e estava pronta para chorar.

O restante da família de Nicolas também estava ali. Seu irmão mais velho, Gerard, ao lado da esposa, Anne, assistiam tudo com orgulho e alegria. A mãe de Nicolas, Vanessa, tinha um lenço em suas mãos e secava os olhos sem parar.

Não vi nenhum sinal do pai de Nicolas e achei aquilo melhor. A família já tinha problemas demais. Assim, como tinham outros parentes do Brown, havia um número alarmante de anjos. Naquele exato momento, suspeitava estar sentado do lado de um que tinha passado a ocasião inteira rezando. Obriguei-me a não encará-lo e continuei buscando por minha Guardiã.

Meu sorriso se ampliou assim que meus olhos me deram o prazer de encontrá-la. Aliel estava linda em um vestido verde esmeralda drapeado na frente, mas sem nenhum decote ousado que revelasse seu colo. Não poderia dizer a mesma coisa de suas costas quase nuas e suas pernas torneadas expostas. Além de estar bem acinturado. Ela segurava uma pequena bolsa carteira com força contra as coxas, como se quisesse escondê-las.

Não pude impedir meu coração de se acelerar com aquela visão tão perfeita. Seus cabelos cacheados estavam parcialmente presos e seus lábios brilhavam com um batom rubro. Os pés inquietos revezavam em seu peso, com os scarpin preto. Nunca me arrependeria de ter comprado aquela roupa para ela. O que me deixou ainda mais feliz foi ver o brilho do cordão, que havia a dado há mais de cinco meses, em seu pescoço.

Assim que as palmas se cessaram, os noivos correram até a saída recebendo arroz por cima de sua cabeça. Tentei manter minha cabeça na ocasião, naquele momento. Mas minhas mãos se contorciam desassossegadas. Todas as madrinhas seguiram atrás de Caliel, que pausou ameaçando jogar o buquê. Foi uma confusão de progesterona. Uma empurrando a outra apenas para uma pequena oportunidade de ser a próxima naquele altar.

Tive que controlar o impulso de subir no banco para poder enxergar Aliel. Mellany conseguiu se afastar do pandemônio e começou a cochichar com Harper e uma garota loira. Não me contento por muito tempo, queria que Caliel fizesse logo aquela parte do ritual casamenteiro. Ela ameaçou algumas vezes, até que soltou o buquê de costas, virando-se em seguida para ver quem havia pegado.

Gargalhei ao mesmo tempo em que a noiva arfou. Caliel ergueu os olhos até onde eu estava e balançou a cabeça bem humorada. Aliel caminhou com a cabeça baixa e envergonhada até onde estava. E com o buquê de lírios na mão. Realizando meu desejo momentâneo, envolvi-a em um abraço e beijei o topo de sua cabeça. Ela levantou os olhos lentamente para mim, constrangida.

“Sabe o que isso significa, não é?”

Ela franziu o cenho e meneou a cabeça.

“Nem comece.”, olhou para o buque em sua mão e estalou a língua, como se estivesse preocupada. “Isso não deveria ter parado em minhas mãos. A maioria daquelas mulheres está louca para ficar com as flores.”, vi uma ideia se instalando em sua mente. “Talvez eu devesse...”

Quando vi a intenção de suas palavras, puxei-a de volta para o meu corpo. Iria impedi-la de fazer alguma coisa que se arrependesse. Aliel ficou de costas para mim, encostando-se em meu peito e suspirando de olhos fechados. A igreja estava quase vazia. Todos estavam indo para a festa no salão á algumas quadras dali.

“Não seja boba.”, murmurei contra o seu ouvido, abraçando-a pela cintura. “Já disse o quanto está linda? Não me senti digno de estar respirando o meu ar que você.”

Ela soltou um riso amargo ainda sem abrir os olhos.

“Agora quem está sendo bobo?”, perguntou retoricamente. Dei um meio sorriso, ajeitando o piercing em minha boca. “Temos que ir, mas me sinto tão bem aqui.”, seu corpo relaxou e ela deu um pequeno sorriso.

“Não sabia que tinha tanta saudade do contato com a igreja.”

Isso a fez abrir os olhos. Ela se virou, pondo uma das mãos em meu peito. Temi que sentisse a força que meu coração batia descompassado com sua presença. Seus orbes me encaravam com intensidade e o rosto estava tomado por uma emoção de adoração e carinho tão arrebatadora que tive que pressionar os lábios juntos para não declamar meus sentimentos por ela.

“Sinto-me bem em qualquer lugar em que você estiver, Jeremy.”, deslizou a mão por meu peito até entrelaçar os nossos dedos. “Quero que se lembre disso sempre.”

Aquele mau pressentimento me calou, possibilitando-me apenas assentir.

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“Duas cocas.”, pedi ao barman.

Ele assentiu indo buscar. Por um segundo, assistir o novo casal dançando juntos no centro do salão enquanto tocava I’ll Stand By You. Nicolas tirou seu queixo do topo da cabeça de Caliel e tocou seu queixo com a ponta dos dedos, murmurando trechos da música. Vi lágrimas descendo pelo rosto de Caliel novamente e o abraçou, como se tivesse medo que ele fosse embora. Nicolas continuou cantando a música para a esposa e se balançando lentamente.

Assim que o barman me deu as bebidas, meus olhos buscaram por Aliel. Encontrei-a conversando com o cara que estava sentado ao meu lado na igreja. Eles pareciam animados e que se conheciam a mais tempo do que um humano poderia respirar. Levantei uma sobrancelha. Então estava certo sobre a presença de seres angélicos na igreja.

O anjo que conversava com minha namorada parecia ter a nossa idade. Possuía os cabelos escuros e que tocavam os ombros com leveza, que acompanhavam olhos astutos e perceptíveis a qualquer aproximação suspeita e uma pele dourada que vestia perfeitamente sua camisa e paletó. Pôs as mãos nos bolso, se inclinando da direção de Aliel e sussurrou algo no ouvido dela. Ela riu nervosa, mexendo suas mãos e apontou para mim.

Era incrível que ela tivesse noção de onde eu estivesse mesmo sem me olhar. Assim que o anjo seguiu a indicação de Aliel, ergui uma das cocas e acenei. Ele acenou de volta, a contragosto e se manteve um pouco mais afastado que antes da Guardiã. Sujeito inteligente. Esperei que os olhos escuros de minha namorada se voltassem para mim, para que eu fizesse um sinal discreto para o buquê.

Ignorando o acompanhante, ela apontou para a mesa atrás de si e ergueu as mãos e os ombros simultaneamente, como se perguntasse o motivo. Coloquei as bebidas de volta no bar e sorri. O anjo, vendo que havia perdido totalmente a atenção, bufou se afastando. Aliel nem pareceu reparar, esperando minha resposta.

Travesso, apontei para o meu dedo anular esquerda. Ela abriu a boca e estreitou os olhos, como se estivesse sendo insultada. Assenti lentamente, me deliciando com sua expressão. Passando a língua pelos lábios, Aliel balançou a cabeça. Assenti novamente, apontando para o meu peito, para ela e para meu anular. Ela riu, enrolando uma mecha de cabelo por entre os dedos. Quando levantou os olhos para mim novamente, estava com um sorriso tão pecaminoso que fez todos os meus pelos se arrepiarem.

“Vou te pegar.”, disse apenas movendo os lábios.

Envolvida em meu jogo, esticou o indicador na minha direção e o dobrou duas vezes, como se me chamasse. Engoli a seco, ignorando as cocas e indo na sua direção. Percebi que ela estava fazendo o mesmo, costurando por entre as pessoas apenas para me alcançar. Minha atenção era apenas dela e sempre que trombava em alguém, dava desculpas aleatórias, sem olhá-los realmente.

Até que derramaram bebida em mim.

“Puta que pariu.”, xinguei sem conseguir me conter vendo a minha blusa branca encharcada de coca cola. Respirei fundo, não querendo iniciar uma confusão no casamento de Caliel. “Desculpe-me. A culpa é toda minha.”

Quase perdi o fôlego ao encarar minha “atacante”. Seus olhos verdes estavam fixos onde a mancha estava começando a se formar, ao mesmo tempo em que sua boca pintada de rosa violeta se abria em uma expressão aterrorizada. Os cabelos loiros ondulados soltos pareciam tão dourados quanto ouro deveria ser. Ela era tão baixinha que seu rosto quase não alcançava meu peito.

Ela me encarou com o rosto corado, apertando as laterais do vestido vermelho e batendo os saltos rosa. Por um segundo, sua beleza me deixou desnorteado e perdido. Então, o senso de conhecê-la de algum lugar me tomou. A presença de Aliel me atingiu em seguida, fazendo meus olhos se fixarem no ponto exato em que ela estava estática encarando a cena com a expressão sombria.

“Quem tem que se desculpar sou eu.”, a garota disse passando a mão por meu abdômen com um guardanapo, numa tentativa falha de limpar. “Eu sou uma burra. Não deu tempo de desviar, Jeremy.”

O som de meu nome saindo de seus lábios me fez voltar a encará-la. Segurei seus pulsos, ignorando o quanto meus dedos formigaram com aquele simples toque, e lancei um dos meus sorrisos tranquilos. Vi sua respiração ficando arfante e a soltei. Ela engoliu a seco, pondo seu copo na mesa. Estreitei os olhos.

“De onde eu te conheço?”

Constrangida, ela coçou o cabelo.

“Eu fazia educação física com você.”, respirou fundo, estufando o peito em sinal de determinação e me estendeu a mão. “Mary Bogossian.”

Notas finais
What? Ham? O que aconteceu, produção? Alguém explica? Comentem, flores.