Mirror, O Reflexo da Verdade
3 Capítulo 3
Notas iniciais
“Hum, prazer.”, murmurei apertando sua mão.
Aquele sentimento era muito errado. Tirei minha mão da dela, como se estivesse pegando fogo e ela fechou os olhos com força, mantendo-os abaixo depois que os abriu. Mordendo a ponta do lábio inferior, parecia pronta para dizer alguma coisa quando fomos interrompidos por Mellany e Harper.
“Hey, Mary. Tire o olho de Read.”, Brown disse trombando meu ombro no dela. O rosto de Mary ficou totalmente vermelho. “Se ele não foi meu, não será de nenhuma amiga minha.”, piscou um de seus olhos azuis para mim, sorrindo. Então acenou sua cabeça para uma direção. “Sua namorada está te esperando, Jeremy. Não a deixe parada, nem sozinha com aquele vestido.”
Recuperando minha postura, pus as mãos no bolso e dei um sorriso malicioso para as mulheres. Harper ignorou. Mellany revirou os olhos. Mary respirou fundo e se afastou com passos apressados em direção ao banheiro. Dei de ombros, como se não soubesse o que tinha acontecido e arrastei meus pés até onde Aliel estava.
Mesmo quando meus braços tomaram posse de seu corpo e puxou-o contra o meu, sua expressão não deixou de ser sombria. Piscou com força, desviando os olhos do lugar onde eu estava anteriormente e sorriu para mim. A conhecia o suficiente para saber que era forçado. Seguindo o conselho de Mellany, puxei-a até o canto do salão, visando não ter mais nenhum acidente.
Aos poucos Aliel foi se acalmando e encostou a cabeça em meu ombro – já que ela tinha altura o suficiente para isso – e suas mãos acompanharam pousando-se no mesmo lugar. Minhas mãos fecharam entorno de sua cintura e seu corpo se pressionou contra o meu. Sorri sentido meu coração dando o número incorreto de batidas e achando aquele misto de sensações divertido.
Começamos a nos balançar ao som de Like a Star. Precipitadamente planejado, umedeci meus lábios, sentindo meu piercing roçando em meus dentes, e pus minha boca em seu ouvido cantando trecho da música para ela. Ela se sobressaltou e vi que todos os seus pelos estavam arrepiados.
Queria que ela sentisse pelo menos parcela do misto de emoções que experimentava quando a tinha tão perto. Aliel suspirou e seus lábios se pressionaram na pele sensível de meu pescoço. Mordi o lábio, impedindo-me de gemer. Minhas veias queimaram com o pensamento da intensidade de sensações que ela me proporcionava com pequenos toques. Apertei sua cintura com força, fazendo erguer o rosto.
Perdi o ritmo cardíaco e a localização exata de onde deveriam estar meus pulmões. Seus lábios rubros estavam a centímetros perigosos de minha boca. Seus olhos quase imploravam para que eu selasse o nosso pecado. Poderia ser tão fácil. Meu corpo vibrava suplicante por aquele singelo e decisivo toque. Movi meus dedos por seu rosto, trançando cada ponto e curva daquela amostra de perfeição parada a minha frente. E indo contra todos os meus instintos, me afastei suspirando.
“Anjo, eu prometi que não te deixaria cair.”, sussurrei segurando o impulso de puxar os meus cabelos. Balancei a cabeça, sorrindo com a ironia daquela cena. “Você não está fazendo isso ser muito fácil.”, a observei de cima a baixo, pesaroso. “Não deveria ser tão linda.”
Sem jeito, ela passou a mão pela roupa e fixou os olhos na mancha de minha camisa. Seu corpo todo se tencionou novamente e seu olhar ficou frio. Sua boca se pressionou em uma linha reta e me arrependi por ter dado atenção exagerada á Mary. Ou por nunca ter te dado à devida atenção. Engoli a seco com esse pensamento e dei um passo na direção de minha namorada, estendendo a mão.
“Não fique assim.”, sussurrei acariciando seu rosto. O segurei por entre minhas mãos. “Ela era uma garota bonita tentando se desculpar. Nada demais. Se for para me apaixonar por alguém...”, pausei e ela sorriu, sabendo como aquela frase terminaria.
“Estou ficando paranoica.”, ela caçoou de si mesma, relaxando. “Obviamente você vai ser atraído por muitas mulheres. Não tenho que me preocupar.”
Meu sorriso se ampliou com a dúvida oculta em sua voz calorosa.
“Já disse que sou seu, Anjo.”, disse beijando seu testa. Ela fechou os olhos e aproveitei a oportunidade para abraçá-la novamente. Minhas mãos acariciaram suas costas e tive que controlar com as suas mãos imitando meus movimentos. “Temos limitações, mas sei a quem meu coração pertence.”, dei um leve riso, fazendo seu corpo tremer contra o meu. “Sentimentos implícitos, Anjo, mas bastante óbvios.”
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Mesmo que estivesse acostumada a voar de um lado para o outro com o seu belo par de asas, Aliel parecia nervosa no avião. Seus olhos observavam cada centímetro que nos rondavam com apreensão e suas mãos remexia-se em seu colo quase que entrando em sincronia da batida de seus pés. Achando tudo engraçado, pus minha mão em sua coxa, atraindo sua atenção.
“Relaxe, Anjo.”, murmurei. Todo o avião estava dormindo, me obrigando a falar baixo. Ela assentiu, mas o modo como piscou com rapidez me deu a certeza de que ela não seguiria meu conselho. Deitei-me de lado e indiquei para meu peito. “Deite aqui. Sei que não dorme, mas quero que escute a batida de meu coração e quero que tenha a mesma certeza que eu: Ao seu lado tudo dará certo.”
Seus olhos brilharam e ela suspirou, pousando o rosto em meu peito. Seu ouvido estava exatamente onde meu coração teimoso e impertinente batia por ela. Acariciei suas costas com a ponta dos dedos suavemente, lembrando-me do jeito que Caliel e Nicolas se olharam no casamento. Depois de quase quatrocentos e cinquenta anos, finalmente tiveram a chance de ficar juntos. Queria poder ter uma chance essa com Aliel, mas sabia que o nosso relacionamento era como uma corda bamba. E qualquer vento forte que não pudéssemos evitar, nos derrubaria.
Apertei-a contra mim, temendo que o medo me tomasse completamente. O céu era louco se achava que poderia encontrar alguém melhor para mim do que aquela mulher que estava deitava em meus braços. Éramos os opostos mais semelhantes que poderia existir. E ninguém iria me obrigar a desistir dela.
“Está pensando em quê?”, ela sussurrou passando os dedos por meu peito. Antes que pudesse dizer, ela me interrompeu. “Se for no casamento, esqueça. Fui precipitada. Os céus me avisariam se decidissem qualquer coisa sobre você. Até mesmo sobre isso.”
“Já disse para você não se preocupar, não é, Anjo?”, toquei seus cabelos macios, pegando um dos cachos por entre os dedos e evitando que embolassem. Os cachos entraram em meus dedos, fazendo-me sorrir. “Vamos nos desligar disso daqui a pouco. Vamos para a cidade dos anjos.”, fechei os olhos, relaxando com sua respiração graciosa contra meu corpo. “Lost in the city of angels. Down in the comfort of strangers”, murmurei contra o seu ouvido sentindo ficar totalmente tranquila.
“Durma, Jeremy.”, ela sussurrou sem pausar sua carícia. “Prometo que estarei aqui quando acordar.”
Bocejei, sentindo meus olhos pesando.
“Só vou cochilar por cinco minutos, Anjo.”, murmurei sonolento. Sabia que ela estava rindo. Eu sempre dizia isso antes de cair em um sono profundo. “Ou talvez mais.”
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Quando Aliel arriscou o número de anjos por pessoa em Los Angeles, pensei que estivesse exagerando. Mas, cinco minutos depois de descer do avião, percebi discretos e breves cumprimentos entre a Guardiã e uma quantidade considerável de pessoas. Fiquei deslumbrado por como Aliel conseguia ser naturalmente encantadora e popular. E como aquilo era uma via dupla. Assim como todos sabiam quem era ela, ela poderia dizer o nome de cada um que passou por nós e possuíam asas.
Meu peito se encheu de orgulho pela humildade com que ela tratava todos. Era de igualdade, como se todos estivessem no mesmo nível que ela. Uma hora ou outra, ela indicava alguns anjos que eram da mesma jurisdição que ela. E enquanto observava a sua empolgação ao reencontrar os colegas, me sentia cada vez mais egoísta por estar afastando-a dessa vida.
Parecendo ler meus pensamentos, seus olhos parcialmente iluminados pelo sol que ousava em se pôr me encaravam estreitos. Cocei o nariz, incomodado com sua avaliação e quis que o caminho até o hotel fosse mais curto. Assim que entramos no táxi, ela reassumiu o controle e deu as coordenadas de onde ficaríamos. Então se recostou no banco e seus lábios cheios torceram-se em um sorriso convencido.
“Está me surpreendendo, Anjo.”, admiti.
Ela se virou para mim e sua cabeça pendeu levemente para o lado. Sua respiração curta e regular enquanto me monitorava, suspeitando de algo. Odiava o quanto ela me conhecia tão bem. Esfreguei as mãos e cocei minha cabeça, lhe dando língua. Seu rosto continuou neutro, procurando por sinais do meu desconforto. Por fim, vendo que estava em uma rua sem saída, joguei as mãos para o ar e me dei por vencido. Ela cruzou os braços, paciente.
“Não gostei do jeito que aquele cara estava te olhando no casamento.”, revelei.
Franziu o cenho, não entendendo onde meu desabafo iria chegar. Sinceramente, nem eu sabia. Revirei os olhos e me forcei a parecer apático. Virei meu corpo para frente – numa tentativa fútil de sair de seu radar angelical – pondo uma mão atrás da cabeça e mexendo a outra de um lado para o outro na frente do meu rosto, como se aquilo não importasse.
“Sei que vocês não têm nenhum tipo de maldade, mas não gostei.”, dei de ombros. Estava sendo cuidadoso para não soltar nenhuma dica que remetesse á verdadeira identidade de Aliel. “Ciúmes idiotas, eu sei. Crucifique-me. Oh, não. Não faça isso.”, cocei o queixo, pensativo. “Como Judas morreu?”
“Enforcado.”, respondeu com rapidez.
“Isso.”, assenti comigo mesmo. “Enforque-me.”, abri os braços com cautela para não acertá-la. Pelo silêncio gritante ao meu lado, tive a noção de que ela não estava achando a mínima graça de minhas brincadeiras. “O ponto é: sei que não deveria desconfiar da conduta de seu amigo de Deus, mas meus instintos me deram o batsinal e... Realmente temos que falar disso?”
Por algum motivo, eu queria que o casamento se tornasse uma memória longuíqua. Estava bloqueando a lembrança daqueles olhos verdes e o arrepio que o acompanhava. Inconsciente de meus movimentos, minha mão entrou a pele quente de Aliel e tudo dentro de mim se esquentou. Dei um leve aperto em sua coxa por cima da calça jeans, e vi seu corpo ainda tenso. Estalei a língua, pondo um braço por cima dos olhos.
Realmente não tinha como escapar do assunto.
“Lael só estava chateado por não ter conseguido ser promovido.”, ela se justificou. Atraído por seu tom de voz sussurrante, a encarei. Os olhos estavam baixos, concentrados no local onde eu tinha pousado minha mão. “Estava tentando me convencer a falar com Rafael, já que somos da mesma jurisdição.”, ela balançou a cabeça lentamente e suspirou triste. “Você sabe que não posso falar sobre isso, Jeremy.”
Meu peito se apertou, espremendo meu coração com sua voz resguardada. Pelo canto do olho, tive a percepção de ver o motorista do táxi balançando a cabeça com pesar e me olhando como se fosse um monstro. Ótimo, agora me sentia horrível. Antes que pudesse me desculpar com ela, Aliel forçou um sorriso e tocou meu rosto.
“Não se preocupe.”, murmurou mal movendo os lábios. “Vamos esquecer isso, ok?”
Abracei-a.
“Adoro o jeito como você lê os meus pensamentos.”, beijei o topo de sua cabeça. “Mas não posso me esquecer de você pegando aquele buquê. E nem que não respondeu ao meu pedido. Apenas te deixarei em paz por esses dias.”
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Depois de quase vinte minutos naquele táxi – onde o motorista não parava de me olhar como se eu fosse um idiota – finalmente no hotel. Ele ficava em uma posição estratégica para pessoas discretas e reservadas. Como anjos, por exemplo. Vi o corpo de Aliel se erguendo de dentro do táxi com empolgação. Quase enxergava suas células vibrando de excitação.
Paguei o taxista e peguei nossas malas, seguindo minha namorada. Detive-me por um segundo, cedendo à beleza da cidade. Não acreditava que estava na ensolarada Califórnia com a mulher que mexia com todo meu interior. Podíamos – e íamos – visitar a grande fachada de Hollywood. Talvez – com um pouco de persuasão – ela me levasse para cima de alguma letra. Antes que a polícia nos visse.
Algumas pessoas passavam de bicicleta, óculos escuros e bonés com a esperança de se aliviar do calor. Sabia que era questão de tempo para o clima mudar e estarmos cercados pela neve. Estava ansioso por esses dias. Jason e eu sempre íamos jogar hóquei com seu pai, e esse ano não seria diferente. Tirando o fato de que nossas namoradas estariam torcendo por nós.
“É lindo, não é?”, Aliel disse acenando para a fachada do hotel.
Assenti e examinei o prédio, pondo um braço na frente de meu rosto para que a luz refletida pelas janelas de vidro não incomodassem meus olhos. Todo o redor do prédio era feito com vidro fumê, dando um efeito de espelho. Era pequeno, apenas cinco andares, mas quando comecei a realmente prestar atenção, vi que havia uma saída para o terraço.
O movimento era concentrado e constante entrando e saindo. Alguns ocupados, falando ao telefone, outros carregando suas bicicletas e suspirando com um grande sorriso para o dia perfeito. Aliel deu um passo em falso para frente, fazendo com que a rodinha de sua mala ficasse presa na calçada. Rapidamente segurei seu antibraço evitando o embaraçoso encontro de seu rosto com o chão.
Aliel pôs a mão no peito com os olhos arregalados. Reprimi o sorriso. Era quase igual ao primeiro encontro em que tivemos. Incrível que um anjo tão vivido com ela, não consegue controlar o movimento de seus pés. Puxei-a delicadamente e só soltei seu antebraço quando tive certeza que suas pernas estavam firmes. Passado o susto, ela olhou para mim com um sorriso presunçoso.
“Parece um dejá vu.”, disse tirando a roda da sua mala de onde tinha ficado presa. Pausou por um segundo, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha. “Ainda bem que você nunca me deixou cair. Literalmente e figuradamente.”
Ajeitei minha pesada bolsa nos ombros para poder por a mão no bolso.
“Não quebro minha promessas, Anjo.”, acenei na direção do hotel. “Agora vamos entrar. Aqui fora está muito calor. E diferente de algumas pessoas que não tem metabolismo, eu suo.”
Não encontrando uma resposta para minha acusação falsa, ela apenas revirou os olhos e empurrou a porta giratória, sumindo segundos depois. Segui-a, agradecendo o fluxo de ar gelado que me tocou assim que entramos. Minha nuca estava molhada de suou, fazendo me ter um momentâneo calafrio. Aliel entrelaçou nossos de dos e me guiou até o balcão.
Atrás dele estava um cara com menos de vinte e cinco anos, concentrado em por as fichas ordenadas em pilhas. Mas assim que ergueu os olhos âmbar – e que eles focaram em minha Guardiã – seu rosto se iluminou em reconhecimento. Quase bufei. Um anjo que trabalhava como recepcionista era uma novidade.
“Aliel”, ele cumprimentou-a com um aceno de cabeça e esticou a mão. Sorrindo, minha namorada largou a mala e deu um breve aperto em sua mão. “Quanto tempo não nos vemos...”, me lançou um olhar significativo.
Os olhos de Aliel tremularam, talvez evitando o impulso de revirá-los. O sorriso em meus lábios surgiu de um jeito involuntário. Ela conseguia ser tão humana sem se esforçar. O anjo esperou com expectativa que minha Guardiã desse uma justificativa para nossa estadia na Califórnia. E acredito que Passar um tempo com meu namorado humano e protegido não fosse uma resposta muito aceitável.
“Ele sabe de tudo, Emanuel.”, ela disse com um suspiro. Pegou sua carteira e tirou sua identidade – falsa – pousando-a no balcão. Fiz o mesmo. “Nova Jersey está uma loucura. Tive que dar um tempo de lá. E como não posso abandonar meu Protegido...”, deu de ombros, como se uma coisa levasse a outra.
Emanuel estava tão concentrado em fazer o nosso check-in que não viu Aliel fechando os olhos com força, reprimindo a dor da mentira. Apertei seus dedos contra os meus e ela respirou devagar, controlando a punição. Os lábios comprimidos se entreabriram e ela soltou o ar, aliviada. Assenti, dando apoio inutilmente.
Uma vez, ela me contou exatamente qual era a sensação. Como se o cérebro dela tivesse sendo arranhada e todos os seus músculos tinham o reflexo de encolher. Assim como os seus ombros estavam naquele momento. Segurei o impulso de passar meu braço ao redor dela e forcei um sorriso, me inclinando na direção de Emanuel.
“Pode nos dar o quarto no último andar?”, perguntei. Seus olhos astutos se focaram em mim pela primeira vez, como apenas tivesse me notado naquele segundo. Segurei um rosnado. Empurrei meu cartão de crédito pelo balcão. “Não me importo com quanto custa. Quero que Aliel fique perto do céu.”
Ele me encarou por um momento, talvez vendo minha aura – Aliel tinha me contato sobre isso também – então assentiu e se concentrou no computador. Isso deu tempo o suficiente para minha Guardiã voltar ao normal. Lancei um olhar compreensivo, fazendo um suspiro aliviado em retorno. Passei o polegar por seu anular vendo a abaixar os olhos, envergonhada.
“Seu quarto é o quinhentos e dois.”, Emanuel entregou uma chave para cada um. “Camas separadas, certo?”
“Claro.”, Aliel disse e engoliu a seco. A negação estava na ponta da minha língua e evitei demonstrar minha exasperação. Ela soltou um riso nervoso, mexendo no cabelo. “Na verdade, eu nem deveria ter uma cama.”
“Oh, é verdade.”, Emanuel coçou a nuca e corou. “Quer que eu refaça? Talvez uma cama de casal, ao invés de duas. Será rápido e...”
“Não.”, interrompi-o quando estava pronto para centrar sua atenção naquele computador. Forçado, tentou ser eficiente e simpático comigo. Continuei sério, não compartilhando da mesma educação. “Aliel merece sua privacidade. Se ela quiser deitar por conta dos sapatos ou qualquer coisa desse tipo, não quero se sinta-se pressionada a deitar comigo. Não quando isso visivelmente contraria seus pensamentos. E o do pessoal lá de cima.”, apontei para o telhado.
Emanuel me estudou novamente, como se tivesse deixado alguma coisa passar. Era óbvio que sua estada na terra tinha durado mais tempo do que ele desejava o que tinha impossibilitado que recebesse notícias superiores. Como o julgamento de Aliel por minha causa, por exemplo. Por fim ele assentiu e nos deu as boas vindas, chamando alguém para levar nossas malas.
“Acabei de perceber uma coisa.”, deixei escapar quando entramos no elevador, sozinhos e as portas se fecharam. Era um alívio estar sem aquela bolsa pesada. E sem a possibilidade de Aliel cair. Minha Guardiã me encarou com curiosidade. Passei um braço ao redor de seus ombros, descontraído e sorri. “Anjos são bastante desconfiados.”
Ela riu, mas em nenhum momento me contrariou.
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