Mirror Myself In You

14 Singing in the rain.


Notas iniciais
Oi oi e oi! Alguém perdido no tempo da história? Espero que não. Então miga, cheguei cedo, não é mesmo? É porque tenho uma informação importante pra falar. Lembra que eu disse que depois que os Pov's do passado da Galateia acabasse, você ia ganhar uma semana inteira de capítulos? Pois é... Bem-vinda a semana boiolinha. Ela começa hoje nessa segunda, e só acaba na sexta-feira. "Mas Lady! Como funciona a semana boiolinha?" Eu te explico! Se liga aqui. Semanas boiolinhas funcionam da seguinte maneira. Terá um capítulo para cada dia da semana e diferente da minha programação normal, eles não tem hora para aparecerem, simplesmente serão jogados aqui. Digamos que é ração premium e eu irei te alimentar porque tá na época de colher a lã, entendeu? Além de que, na semana boiolinha, está proibido a postagem de capítulos com conteúdo bad. Pronta para dar risadas? Depois que a semana boiolinha acabar, a programação volta ao normal, sendo toda segunda e quinta, no horário marcado. O mal das semanas boiolinhas? eu não terei tempo de responder nenhum comentário, mas assim que ela tiver fim, eu posso fazer isso. Então pega pipoca, suquinho ou refri e senta que terá uma sessão gostosinha de capítulos. Me diga o que achou da semana que inventei. Dito isso... Você ouvem as músicas para os capítulos? Alex, meu amorzinho que escolhe cada uma, está com curiosidade sobre isso. Música para o capítulo: Frank Sinatra - Singing in the rain ~Boa leitura.

Victória Pov.

Cheguei frente à biblioteca e olhei para os lados, suspirando cansada por não ter quase ninguém na rua. Eu estou muito adiantada, deveria chegar aqui depois deles, não antes. O que eu faço agora até dar a hora? Sem dizer que estou louca para poder ver Galateia em suas roupas normais, quero tanto poder descobrir seu senso de moda. Meu estilo é basicamente o de uma garota tomboy, o que acaba sendo meio contraditório, porque minha mãe é dona de uma grife onde o principal público são mulheres de classe média alta, que eu carinhosamente chamo de borboletas. A Galateia por exemplo, tenho certeza que ela é uma borboleta, porque algo me diz que se veste feito uma princesa, já que seu sobrenome secreto é Maiden, que quer dizer donzela. Ela deve ser uma princesinha.

— Vamos Vick, caga ou sai da moita. – Murmurei olhando meu reflexo na vidraça da biblioteca. Calça jeans rasgada praticamente na perna toda, all-star branco, camiseta preta com algumas listras brancas por toda a extremidade. Se mamãe me visse agora com certeza iria dizer "Poxa Vick, nem uma saia?" é bem o que ela falaria, mesmo eu sempre deixando claro que odiava quando ela vinha querer me vestir feito uma bonequinha. Com o tempo ela largou mão de mim, mas ainda assim implicaria.

Soltei outro suspiro arrumando minha camiseta e o sino da porta soou assim que passei por ela. Assenti para bibliotecária que já deve ter enjoado de ver minha cara e ouvir minhas perguntas, indo direto para o local de leitura. Quando fui me sentar em uma das mesas, arregalei os olhos por ver Galateia sentada perto da janela. Ela estava na última mesa, perto do vaso do coqueiro, lendo um livro tão concentrada que por um momento apenas fiquei lhe olhando. O que ela já faz aqui? Quer dizer, eu achei que havia chegado cedo, mas ela já estar aqui... Isso é muita sorte.

Sorri grande e apoiei os cotovelos na mesa, deitando o rosto sobre minhas mãos para analisar cada centímetro dela. Como ela pode ser tão linda? Até o jeito que ela respira é fofo, mas quando está lendo é mil vezes mais bonita. Ela moveu a perna direita a cruzando sobre a esquerda e analisei o vestido cor pérola, detalhado com alguns galhinhos de flores pingados aqui e ali, alças finas no ombro e uma de babado que caía em seus braços. Meu Deus? Sua pele parece mil vezes mais branca, e o seu cabelo jogado todo para o lado direito do seu ombro a deixa tão... Sensual? É, ela está extremamente sensual. Eu sabia que ela se vestia como uma princesa quando não usava o uniforme da escola, só precisava de provas. Uma princesa encantadora e uma borboletinha linda. Sorri toda boba e peguei meu celular no bolso, enquadrando-a perfeitamente no ângulo antes de bater a foto discretamente. Senhor! Ainda bem que eu vim mais cedo. Obrigado Deus, por ter posto a mão na minha cabeça e tocado meu coração para sair de casa antes da hora! Graças a isso agora tenho uma foto linda dela.

Admirei a foto por alguns minutos e bloqueei o celular para voltar a olhar pra ela. O bom de hoje é que se eu quiser me levantar e ir sentar do lado dela para iniciar qualquer assunto, não vai parecer estranho, porque somos do mesmo grupo. Eu tenho carta branca para chegar perto dela e usar nosso grupo como desculpa pra ficar, o que é uma das coisas mais gostosas desse mundo, porque Galateia é extremamente cheirosa. Eu nunca tinha parado para pensar antes quão bom é poder respirar, mas quando estou do lado dela, agradeço a todo instante por ter olfato. Sorri por ela passar uma página do livro sem muito interesse e finalmente me levantei, indo calmamente em sua direção.

— Eu pensei que tinha chegado cedo demais. – Falei ao me aproximar dela e ela ergueu a cabeça tirando a atenção do livro para me olhar.

— Na verdade, chegou. Eu estou aqui porque venho pra cá toda quinta. – Não acredito! Não acredito que eu venho nessa merda toda terça e Galateia toda quinta. EU NÃO POSSO TER FEITO ISSO A MINHA VIDA TODA. Como o meu azar chega nesse extremo? Todas as vezes que vim aqui, sendo que eu podia vir no mesmo dia que ela! ISSO NÃO É JUSTO.

— Acho que faz o seu tipo, sei lá! Ficar na biblioteca lendo livros. Eu venho aqui toda terça. – Falei calmamente e ela assentiu voltando a atenção para o livro que eu não conseguia ver qual era, já que estava com a mão sobre o nome.

— Acho que já leu esse. – Falou baixo e virou para mim a lista que tinha guardada na capa do livro, onde continha o nome de quem já o havia lido e curiosamente meu nome estava escrito ali.

— Nossa! Eu escrevo meu nome nisso, mas nunca leio os dos outros. – Falei pegando o papel de sua mão e vendo meu nome em vermelho e a data em que peguei o livro para ler, que foi mês passado. Logo do lado do meu estava o nome dela de caneta roxa. Acho que nossos nomes ficam lindos assim, um perto do outro.

— Você lê um livro bem rápido. – Comentou virando a página, o que me permitiu ver o título por sua mão sair da frente.

— Bom! Acontece que eu não terminei de ler esse, o achei muito chato depois da página 50. – Confessei e ela fechou o livro o colocando sobre a mesa.

— Por quê?

— Hã... Acontecem coisas que eu não gostei.

— Tipo o quê? – Perguntou curiosa e ergui uma sobrancelha.

— Você gosta de spoiler, Galateia?

— Talvez. Por que não terminou de ler? – Ergueu uma sobrancelha de volta com uma expressão divertida e ri. É fofa demais, pelo amor de Deus.

— Ele se torna muito infantil. Fala sério, passa a narrar à vida do filho do protagonista, que como viu, tem 4 anos. – Alertei resmungando, logo em seguida a vendo fazer uma careta desgostosa.

— Obrigada, assim eu evito ler.

— Você gosta de livro de sobrenatural? – Perguntei me sentando ao seu lado no processo. Esse livro era um sobrenatural escroto que eu desejo me esquecer de que cheguei a ler metade.

— Na verdade não. Gosto mais de drama. — Abri a boca em um perfeito "O". Isso é totalmente novidade, porque tipo, Scarlet escreve sobre sobrenatural e escreve muito bem. Pensei que Galateia gostaria do mesmo gênero, sendo que Scarlet possui apenas um livro de drama que é realmente dramático. Eu gostei dele, sem dúvida está entre os meus dois favoritos só que, ela não escreveu mais nenhum com somente esse gênero, sei lá! A escrita dela estava diferente nesse, como se de alguma forma estivesse conectada em cada letra, eu adorei o livro, de fato. Deve ser por isso que Galateia gosta mais de drama, porque aquele livro é de fato incrível.

— Eu li um chamado Mergulhando na areia movediça dos pensamentos, é de drama! Acho que você gostaria. – Avisei! Lógico que ela já leu, sua tonta. É o livro da mãe dela.

— Ah... – Ficou em silêncio um tempo e sorriu logo em seguida. — Vou ver se leio! Obrigada pela dica. – Falou e sorri de volta. Eu sei que ela só está sendo gentil, na verdade ela está sendo bem gentil comigo, não que eu esteja reclamando.

— Bom... Já que estamos aqui, vamos pegar os livros da pesquisa? – Propus e ela assentiu concordando comigo.

— Eu vou pedir a ajuda da bibliotecária, um segundo. – Falou e se levantou arrumando o vestido, andando calmamente até o balcão para chamar a senhora que tomava conta pela parte da manhã. Observei ela gesticulando de longe e suspirei me levantando também e me escorando numa estante. Ela é linda, se não dizer perfeita.

— Línguas oficiais, né? – A mulher perguntou curiosa ao se aproximar com ela e olhei para ambas, ficando ao lado de Galateia quando ela passou por nós e se abaixou, ficando algum tempo procurando ali, até tirar um livro e se virar para procurar mais nas outras estantes, quando finalmente encontrou o que queríamos se virou para nós com um sorriso gentil. – Eles são totalmente delicados, por favor, tenham cuidado. – Falou estendendo um dos livros e fui para pegá-lo, mas no mesmo instante Galateia decidiu que queria fazer o mesmo, o que fez nossas mãos se encostarem, corei sentindo um choque correr por todo o meu corpo. Ela por outro lado não deve nem ter sentido o toque, porque me entregou o livro estendendo a mão para pegar o outro. EU QUERO SEGURAR A MÃO DELA.

— Não se preocupe, nós seremos cuidadosas. – Garantiu e fomos em direção ao local que ela estava sentada antes. Nos sentamos a mesa uma de frente para outra e Galateia abriu o livro dela curiosa, analisando o sumário para o abrir na página certa logo em seguida. – Hã... Posso ver o seu livro? – Pediu quando ia abrir o meu e lhe olhei confusa.

— Pode, claro. – O virei para ela na mesa e ela leu o sumário antes de passar as páginas. – Algum problema? – Perguntei curiosa e ela assentiu.

— Veja você mesma. – Virou a página para mim e vi os países principais e sua língua nativa logo à frente em uma lista.

— Isso não vai prestar. Não tem nenhuma explicação. Se explicarmos isso na sala de aula o professor vai olhar pra gente com cara de cu. – Falei vendo que aquilo não daria nem cinco minutos de apresentação e Galateia assentiu. – Eu vou lá falar com ela, espera aqui. – Pedi me levantando e ela assentiu voltando a atenção para o livro.

Fui até a senhora que estava na recepção e expliquei que precisaríamos de toda uma história por trás das línguas, e ela me olhar com cara de pena me fez franzir o cenho em confusão, isso até lhe seguir pelas sessões e precisar dar três viagens até a mesa em que deixei Galateia esperando, já que deu o total de quinze livros com mais de 200 páginas cada. Quando dei a primeira viagem Galateia me olhou surpresa, mas quando precisei voltar a sua expressão passou de surpresa para horrorizada e na terceira eu tive de sussurrar “desculpa” antes de ir buscar mais.

— Me diz que acabou. – Pediu quando voltei e me joguei sobre a cadeira fingindo me abanar.

— Graças a Deus.

— Isso aqui é desumano. – Falou apontando para os livros e assenti olhando para as pilhas de livros.

— O professor deve odiar um de nós, não é possível. – Falei choramingando e ela pegou um dos livros.

— Certamente é o Vicent. – Resmungou.

— Será?

— Ano passado ele tirou dois pontos na matéria dele. – Contou e arregalei os olhos.

— Meu Deus? Por que ele não tentou melhorar? – Perguntei perplexa. — Quem tira dois em uma prova de história? – Perguntei chocada e ela negou com a cabeça.

— Na prova não, no ano todo. – Contou e arregalei os olhos. O QUÊ?

— Isso não é possível! Dois pontos o ano todo? Nem eu que não sei nada de física tiro essa nota no ano e é de física que estamos falando. Primeiro que Vanessa comeria o meu cu, depois que minha mãe também. Caralho! Como que ele passou de ano? – Perguntei abismada. Eu não acredito que peguei esse trabalho de cão por causa do Vicent.

— Ele não passou? – Falou divertida e lhe olhei de boca aberta.

— O VICENT É UM REPROVADO? – Gritei e logo em seguida cobri a boca em um tapa por lembrar que estava na biblioteca. – Eu vou fazer esse trabalho desgraçado por causa dele? – Perguntei irritada em um quase sussurro, mas toda minha raiva evaporou no momento que ela colocou a mão na frente da boca e fechou os olhos, deixando sua risada baixa preencher o ambiente.

— Pela sua reação agora, parece até que ele matou uma pessoa. – Falou entre seu riso e sorri vendo como ela fica linda rindo.

— Ele matou foi minha vontade de viver com esse trabalho aqui. – Resmunguei, agora feliz por ter feito ela rir com meu surto. — Só de birra ele vai ficar com a maior parte. – Reclamei puxando um livro e ela parou de rir voltando a olhar o seu.

— Apoio a sua decisão. – Comentou e sorri me concentrando no livro. Graças ao Vicent eu vou precisar fazer um trabalho escroto que não tem relevância alguma.

XxX

Bufei terminando de anotar as informações que havia conseguido e fechei o livro deitando a cabeça para trás na cadeira. Olhando para o teto de gesso meus pensamentos foram longe e por um momento me lembrei do que Galateia disse ontem na papelaria, sobre já gostar de alguém. Eu devo perguntar a ela sobre isso? Quer dizer, será que ela está disposta a falar sobre isso comigo?

— Hã... – Comecei me sentando direito e ela me olhou curiosa. O que eu tenho a perder? — Sobre ontem na papelaria... – Continuei e ela sorriu.

— Sara sempre faz coisas do tipo, se é o que vai perguntar. – Sorri de canto e neguei levemente com a cabeça.

— É sobre o que você disse. – Falei e ela ergueu ambas as sobrancelhas.

— O que eu disse? – Perguntou como se tentasse se lembrar e me encolhi.

— É... Sei que não somos próximas nem nada e que isso não é da minha conta também, mas... Por que disse que seu amor não se lembra de quem você é? – Perguntei e ela pareceu levar um susto com minha pergunta. Ótimo, Vick! Assusta a menina. Burra.

— Porque não se lembra, simples assim. – Falou em um tom calmo, voltando sua atenção para o livro e foquei minha atenção na mesa. Isso não está nem um pouco claro, na verdade só me deixou mais confusa.

— Mas... Ele sofre de amnésia ou algo do tipo? – Perguntei curiosa e ela parou de ler por um segundo, como se estivesse pensando seriamente no que eu disse.

— Eu sinceramente não sei! Acho que sim. A gente não se fala muito, então eu ainda não entendo o que se passa na sua cabeça. – Falou me olhando e mordi o interior do meu lábio ao focar nos olhos claros. Isso só pode ser um engano.

— Como alguém pode esquecer você? – Perguntei mais pra mim do que pra ela e a ouvi suspirar.

— Isso faz parte da vida, Victória. – Falou com pesar. — As coisas que quer que aconteça não acontecem, e as que não quer que aconteça, bom... Acontecem, como a pessoa que eu gosto não fazer ideia de quem eu sou, mesmo eu estando na frente dela. – Deu de ombros e se encolheu. – Eu já me conformei em aceitar o que a vida me dá e sempre me acostumo com o que recebo. – Falou tristemente e ver sua expressão partiu meu coração. Isso não é justo! Deve ser horrível ter memórias com alguém que não faz ideia de quem você é. Isso é cruel.

— Desistir assim não é justo. – Falei e ela me olhou. — Eu nunca me conformo com as coisas ruins que recebo da vida. — Continuei e ela me olhou curiosa. – Você também não deveria! Isso é o quê? A pessoa que você gosta não se lembra de você, e aí? Vai deixar por isso mesmo? – Perguntei e ela arregalou os olhos surpresa. – Isso é algo que você pode mudar, e não aceitar como se todas as esperanças estivessem perdidas. Elas estarão quando essa pessoa se apaixonar por outra, mas até lá e ainda sim, você pode fazer alguma coisa a respeito. – Falei tudo de uma vez, parando para respirar logo em seguida.

— Temos pensamentos diferentes. Eu não tenho interesse em tentar me aproximar de uma pessoa que não se importa comigo. – Falou calmamente, voltando a atenção para o livro e neguei com a cabeça várias vezes.

— Não me diga que você desistiu da pessoa que você ama por que ela se esqueceu de você. – Falei e ela me encarou em silêncio, o olhar tão sério que fechei a boca, só então notando o que eu havia dito para ela. Fechei os olhos lentamente e esperei ela me xingar, já que estou falando como se fossemos amigas há anos e tivéssemos uma intimidade que não temos.

— Eu não desisti como está pensando. Só não quero me machucar mais. Eu já tive o suficiente pra uma vida toda. — Abri os olhos e vi que ela olhava para mesa em silêncio. Por um lado, eu deveria estar feliz com isso. Se ela não quer tentar, significa que eu posso ter alguma mínima chance que seja.

— Você deveria tentar. – Falei sentindo meu coração se apertar logo em seguida.

— O quê? – Perguntou me olhando e sacudi a cabeça tentando afastar minha tristeza.

— Galateia, olha pra você! Você está com medo. – Falei e ela ergueu ambas as sobrancelhas em surpresa. – Você parece um personagem de livro. Por favor, que você seja que nem o leão covarde do mágico de OZ. – Incentivei e ela ergueu uma sobrancelha. Certo, talvez eu tenha dado uma comparação estranha.

— A verdadeira coragem não é não ter medo de nada, mas em enfrentar o perigo mesmo com medo. – Recitou e abri um enorme sorriso por ela entender o que eu quis dizer. – Era meu livro favorito quando criança. – Revelou e sorri. – E se eu me machucar?

— Não será melhor do que não fazer nada? Olha pra mim. Se tem uma mínima chance de alguém que eu gosto, gostar de mim... Você acha que eu vou me sentar de pernas cruzadas e esperar para ver o que vai acontecer? – Perguntei e ela me analisou com os olhos estreitos, como se pensasse na resposta.

— Eu não tenho certeza...

— Qual é! A resposta é não. Se eu tenho coragem de te chamar de covarde estando no mesmo grupo que o seu há três dias, você também tem que ser corajosa o suficiente para levantar a bunda dessa cadeira e tentar alguma coisa. – Falei autoritária apontando o dedo para ela e seus olhos se arregalaram no susto.

— Tentar o quê? – Dei um sobressalto com o susto quando a voz de Vicent soou atrás de mim.

— Vai assustar sua mãe, porra. – Resmunguei tentando acalmar as batidas do meu coração.

— Nossa, você parecia nervosa e eu não queria te assustar. – Riu sentando do meu lado e Galateia chamou minha atenção quando deu uma risada nasal. Porra, eu não terminei de falar com ela. E se ela ficou brava comigo?

— Com uma cara tão feia igual a sua, até eu me assustei agora. – Falou e sorri de canto. Ela fez uma piadinha, isso significa que não está com raiva, certo?

— Vocês já começaram a pesquisa? – Vicent perguntou ignorando o comentário da prima e assenti olhando para meu livro de novo. — Então vamos resolver isso logo para eu poder ir ao meu encontro. – Puxou um dos livros na mesa e revirei os olhos. Era só o que me faltava.

— Não faltamos aula para fazer o trabalho com correria pra você sair, Vicent. – Galateia falou de forma calma com a cabeça apoiada em sua mão enquanto lia um dos livros. Meu Deus. Ela é perfeita! Quero uma foto, mas é arriscado, estou muito perto.

— Fala sério, ninfa! O amor é importante. Não acha Vick? – Perguntou para mim e revirei os olhos.

— O amor é sim importante, mas nossa atividade também. Deixe o seu amor para o fim de semana. — Olhei para Galateia ao ouvir suas palavras e percebi que ela falava tais coisas ainda concentrada no livro. Não é possível que ela seja tão perfeita assim para mim, eu iria falar a mesma coisa.

— Aff! Isso não é justo. Vick discorda, né? Somos dois contra um, assim seremos liberados mais cedo. – Brincou e neguei com a cabeça. Eu não vou nem me exaltar com ele, quero manter a paz.

— O trabalho é mais importante no momento, Vicent. – Murmurei empurrando um livro em sua direção. – Cala a boca e estuda.

— Não! O amor move montanhas e se eu fi-.

— Se você falar a palavra amor mais uma vez eu vou te fazer engolir esse livro e falar todas as línguas oficiais. – Prendi o riso com o que Galateia disse meio sem paciência e Vicent a olhou emburrado. – Seu reprovado. Esse trabalho é culpa sua. Esses livros são culpa sua. – Reclamou e Vicent arregalou os olhos, olhando em volta.

— O quê? Todos eles? – Perguntou chocado e empurrei mais o livro em sua direção.

— Todos eles. Agora estuda. – Mandei e ele se calou abrindo o livro.

XxX

— Malawi é oficial? – Vicent perguntou depois de um tempo que estávamos lendo e ergui a cabeça já não aguentando mais tanta pesquisa, já que não trouxe meus óculos e agora minha cabeça está começando a doer.

— Espera. – Pedi e me levantei largando meu livro para trás, indo checar outro perto de Galateia, que parece não ter ouvido a pergunta do primo. — Aqui não tem! – Avisei depois de ler as páginas e Galateia estendeu o dela para mim, mostrando-me o nome com o indicador. Abri um delicado sorriso em perceber que mesmo concentrada na leitura ela fica ligada na vida alheia à sua volta. Agradeci e estendi o livro para Vicent, sorrateiramente puxando a cadeira ao lado de Galateia e me acomodando ali por sentir saudades de ficar ao seu lado e sentir seu perfume. Droga! Só faz três dias, mas já fiquei mal acostumada. O perfume da Galateia tem um cheiro adocicado de cereja que me faz ter a sensação de estar flutuando quando o inspiro.

— Algum problema? – Perguntou curiosa ao me ver lendo o livro de perto e antes que eu pudesse responder ela se inclinou perto de mim, virando um pouco a cabeça para analisar o que eu lia com um pouco de dificuldade. — Você tem problemas de vista, Victória? – Perguntou perto do meu rosto e neguei com a cabeça um pouco desnorteada por ter tanto de sua atenção.

— É só que... Bom... Tenho! Preciso de óculos para ler, se forço muito tempo acabo não vendo quase nada. – Confessei meu segredo e quis me inclinar para mais perto dela quando a mesma ergueu uma sobrancelha, desviando o olhar do livro para o meu rosto.

— E onde eles estão? – Perguntou com o início de um sorriso e pisquei totalmente perdida.

— Não trouxe.

— Por quê? – Vicent se meteu e bufei por Galateia se afastar ao ouvir a voz irritante dele.

— Porque eu não gosto. – Respondi tentando não soar rude, mas meu tom saiu tão carinhoso feito um coice de mula. Porra, ela estava pertinho de mim.

— Fala sério! Óculos é maneiro. – Falou sorridente, o que me fez ficar ainda mais irritada. Eu estava falando com a Galateia, seu intrometido. Por sua culpa ela se afastou.

— Não acredite nele! Vicent usa lente de contato. – Sua voz doce se fez presente e virei a cabeça em sua direção, decepcionando-me por ela não estar me olhando dessa vez e sim concentrada no livro.

— Oh! Sério? – Perguntei curiosa e ouvi Vicent bufar.

— Tá jogando todos os meus podres na mesa? – Perguntou com um sorriso e Galateia deu de ombros, sem tirar a atenção do seu livro. — Nunca que eu usarei óculos.

— Mas acabou de dizer que é maneiro. – Acusei voltando a olhar para ele.

— O que não significa que vou usá-lo. – Comecei a rir junto dele e em seguida ficamos em silêncio por Galateia passar a página de seu livro como se estivesse incomodada com nosso barulho.

— A ninfa também usa lente. – Vicent falou com um sorriso discreto e Galateia rapidamente tirou a atenção do livro.

— Seu ânus! – Falou irritada e Vicent voltou a rir, dessa vez um pouco mais alto.

— Meu ânus, meu Deus hahahahaha. Calma! Não precisa ficar irritada porque falei que seus olhos azuis são falsos. Vick sabe disso, né Vick? – Perguntou e Galateia ficou vermelha de raiva. Aproveitei o momento oportuno para olhar dentro dos olhos azuis dela, de uma forma que me fez chegar perto de seu rosto. Ela abriu os olhos um pouco mais por alguns segundos ao perceber minha intenção e assim pude ver meu reflexo no lindo azul. Nunca me senti tão bem observando meu próprio reflexo assim. Virei à cabeça um pouco para o lado e logo me afastei.

— Não! Não é lente de contato. – Falei rindo para tentar evitar meu rosto ficar vermelho, porque em mais uns segundos eu iria tentar beija-la simplesmente por não conseguir me controlar.

— Você consegue descobrir se alguém usa lente só fazendo contato visual? – Vicent perguntou e assenti. — Então faz comigo também. – Quase subiu sobre a mesa e aproximou seu rosto do meu, mas me afastei rapidamente com as mãos em frente ao meu corpo como um escudo.

— Não quero me aproximar mais de você, Vicent! Sem me aproximar você já é cheio das liberdades. Deus me livre te deixar ter mais. – Reclamei e Galateia abafou uma risada. Meu Deus! Ela me acha engraçada quando eu surto?

— Aiai! Com medo de se apaixonar, eu te entendo. – Falou convencido e olhei para Galateia de forma séria, querendo rir por ela fazer o mesmo comigo. Sabe quando você tem um amigo e só precisam se olhar para saber o que o outro está pensando? Então, acabou de rolar isso conosco.

— É como eu disse, Victória. Vicent tem problemas mentais. – Sorri de canto e Vicent resmungou uns xingamentos voltando a ler. Neguei com a cabeça e fui pegar outro livro, mas Galateia teve a mágica ideia de ir pegar o mesmo que eu, como resultado um choque correu por todo meu corpo quando sua mão pousou sobre a minha, um choque que fez meu coração disparar e um arrepio subir por minha espinha. Isso é cruel, será que vai acontecer sempre que ela tocar minha mão acidentalmente? Essa tremedeira por dentro, essa vontade imensa de agarrá-la. — Pode ficar com esse. – Sorriu gentil, me entregando o livro e esticando o braço para pegar outro a sua frente.

XxX

— Finalmente podemos ter paz. – Falei empurrando o livro para trás por já ter dado quatro e meia e isso significar o fim dos estudos. – Agora eu vou poder ir pra casa e dormir até amanhã. – Me espreguicei e Vicent imitou meu gesto, colocando as mãos nas costas no processo.

— Eu estou todo dolorido, pelo amor. – Reclamou.

— Estava curvado até agora, consequências. – Galateia comentou e lhe olhei divertida. Ela passou o tempo todo sentada em uma postura impecável, não me admira não estar com nenhuma dor.

— Você foi criada como uma princesa e tem costumes estranhos, não vale. – Vicent resmungou e Galateia revirou os olhos fechando o livro a sua frente, o colocando na pilha junto com os outros.

— Amanhã eu vou passar isso aqui a limpo antes de vir para escola e te envio, Vicent. – Chamei sua atenção mostrando nossa folha de rascunho e ele a pegou da minha mão, estendendo para Galateia.

— Deixa que a Ninfa faz isso. Ela adora usar a máquina de escrever e nunca faz nada durante a noite. – Alertou e Galateia assentiu guardando a folha.

— Realmente, posso fazer isso e separar a parte de cada um. – Sorriu e assenti. É um anjo.

— Olha... Está começando a chover. – Vicent comentou olhando para fora e desviei a atenção de Galateia para fazer o mesmo, vendo que realmente chovia. Prendi minha respiração quando Galateia se inclinou um pouco sobre meu ombro para conseguir olhar para janela, porque eu tampava sua visão e corei violentamente ao ouvir um "tsc" dela perto de meu ouvido.

— Chovendo? Tá caindo é um diluvio. – Comentei tentando trazer de volta a cor natural do meu rosto, mas a tarefa se tornou complicada pela fragrância de seu perfume adentrar minhas narinas sem pedir permissão.

— Eu não trouxe guarda-chuva. E minha mãe ainda me avisou. – Vicent comentou também e olhamos para Galateia, que suspirou olhando para um canto da biblioteca depois de voltar a sua posição anterior. Seguimos seu olhar para o canto qual tinha uma bolsa encostada em uma das mesas e um guarda-chuva aparecendo. — Ó! A ninfa pressente a chuva? – Vicent perguntou gargalhando e cruzei os braços revirando os olhos. Não teve graça.

— Não Vicent! Eu não pressinto a chuva, simplesmente olhei a previsão do tempo antes de sair de casa. Sabia que ela aparece aqui no bloqueio de tela? – Perguntou mostrando o celular e se levantou guardando suas coisas. — E sua mãe me avisou para trazer um guarda-chuva também. – Resmungou.

— Você não vai chamar seu motorista? – Vicent perguntou e observei a conversa dos dois enquanto guardava minhas coisas também.

— Não? Nossa casa é em duas quadras. Não vou chamar o motorista pra isso. – Falou fechando sua bolsa e sorri. Então ela tem um motorista a disposição?

— É, mas tá chovendo. – Reclamou.

— E daí? Eu tenho um guarda-chuva.

— Mas eu não. – Fez bico.

— E o que isso tem a ver comigo? – Perguntou erguendo uma sobrancelha e foi em direção ao banheiro.

— Ela é melhor que isso. – Vicent comentou quando ela sumiu das nossas vistas e sorri.

— Aposto que sim.

— Daqui a pouco ela volta e me oferece carona no guarda-chuva dela. – Cruzou os braços e voltei a sorrir. Então ela é tsundere? – Você tem uma irmãzinha, né? – Perguntou e franzi o cenho.

— Hã?

— A Galateia falou algo sobre isso. – Alertou e ergui uma sobrancelha. Ela estava falando de mim para o Vicent?

— Tenho sim. Ela tem dez anos.

— É bonitinha? – Perguntou e peguei meu celular para achar uma foto dela e mostrar, mas arregalei os olhos ao ver as horas.

— PORRA! – Gritei pegando minhas coisas e me levantando. – Eu vou perder o metrô, mas que caralho. – Falei e vi Galateia voltando do banheiro. – Tchau gente, até amanhã. – Acenei correndo para fora. Eu queria me despedir direito dela, mas se eu perder o metrô vou ter de ficar plantada na estação até chegar o próximo. Saí para calçada e brequei no meio do caminho, olhando para chuva que caía forte. – Inferno. – Sussurrei e dei um passo adentrando as várias gotas. Assim que voltei a andar ouvi a voz de Vicent me chamando. Olhei para trás achando ter esquecido algo e ele vinha correndo junto com a Galateia, embaixo do guarda-chuva dela, que era vermelho e daqueles grandões.

— Como você entra em uma chuva assim? – Perguntou se aproximando junto de Galateia, que ao chegar à minha frente tirou o guarda-chuva dele e o colocou sobre mim. — HEY! – Gritou se agarrando ao braço dela e se espremendo com a gente. Certo! O guarda-chuva é grande, mas três pessoas já é demais. — Caramba! Eu não quero me molhar. – Reclamou me empurrando sem delicadeza para mais perto da Galateia antes de pegar o guarda-chuva das mãos dela. Acho que não posso reclamar de seu ato, levando em conta que estou colada na minha perdição. — Assim fica ótimo! – Falou passando o braço por meu pescoço e me entregando o guarda-chuva logo depois, já que eu estava no meio.

— Sabe... Só acho que moro no lado contrário que vocês e ainda estou atrasada. – Alertei e ele sorriu.

— A gente sabe.

— É! Vamos te levar até a estação. – Galateia completou e senti meu rosto ficar vermelho, ela vai pro metrô toda sexta e sabe que é longe daqui.

— É muito longe gente. Eu posso ir sozinha.

— Somos um grupo. – Vicent murmurou. — Você é a menina mais divertida que eu já tive o prazer de fazer grupo e minha prima nem se fala. É ótimo ser do grupo de vocês duas porque sinto que esse ano vou me focar nos estudos. – Olhei para ele não acreditando no que ouvia, e senti meu coração disparar quando Galateia chegou mais perto de mim, passando o braço por meu ombro quando uma gota de chuva caiu em seu ombro. Essas malditas borboletas no estomago… — Vocês deviam fica-. – Vicent se calou subitamente e todos nós demos um pulo quando um carro passou por nós em alta velocidade, jogando uma onda de água em cima da gente, já que andávamos ao lado da rua. A água só pegou minhas pernas, mas Galateia…

— FILHO DA PUTA! ARROMBADO DO CARALHO! – Vicent gritou enquanto Galateia mantinha os olhos fechados. A água escorria por seu rosto e o lado esquerdo do vestido estava colado ao corpo por ela ter recebido praticamente todo o impacto da água.

— Puta que o pariu. Eu tenho uma toalhinha. – Falei rapidamente, entregando o guarda-chuva pro Vicent e virando minha bolsa para frente, a revirando com correria para achar a bendita toalha enquanto Vicent ainda xingava o motorista. – Aqui. – Ergui a mão secando seu rosto com cuidado, segurando seu queixo para secar sobre as têmporas.

— Você anotou a placa Vick? Vou matar esse cara. – Vicent resmungou voltando a amaldiçoar o motorista, mas não ouvi nada do que ele dizia, porque tudo o que conseguia prestar atenção era em secar o rosto de Galateia, que mantinha os olhos fechados.

— Por isso que eu não saio de casa. – Falou em um tom brincalhão quando terminei de secar seu rosto, o que fez Vicent a olhar surpreso.

— Você não está irritada? – Perguntou e ela suspirou.

— Estou! Quero matar aquele motorista de todas as formas possíveis e colocar sua cabeça de enfeite na minha cabeceira. – Comecei a rir e ela me devolveu a toalha com um sorriso de canto por eu estar achando graça do que disse, mas parei de rir quando ela olhou para meu ombro e saiu debaixo do guarda-chuva, entrando embaixo da chuva.

— Você vai se resfriar! – Vicent alertou e meus olhos ficaram fixos na garota a minha frente, que olhava para cima de olhos fechados com um sorriso no rosto. Na garota que parecia brilhar de tão linda.

— Se eu for ficar resfriada já ficarei com a água que foi jogada em mim. – Respondeu e meus olhos brilharam por ela olhar para mim e sorrir antes de começar a caminhar na nossa frente.

— Mas... Isso é arriscado. – Comentei e Vicent suspirou. Eu só quero que ela volte para o meu lado e encoste-se em mim como antes. Estava tão bom sentir seu corpo no meu.

— Ela tem aquafobia. – Vicent comentou em meu ouvido e olhei para Galateia que caminhava olhando em direção ao céu. O quê? Espera! Isso significa que eu não posso ensinar natação pra ela. Débora, sua desgraçada mentirosa. — E estranhamente ama a chuva. – Sussurrou e analisei a linda garota a minha frente, a qual estava completamente encharcada. Galateia é a garota mais linda que eu já vi. – Aposto que está arrependida que não chamou o motorista. – Falou provocante para ela ouvir e neguei com a cabeça. Meu Deus, Vicent não dá um minuto de paz.

— Não estou arrependida de nada. Vamos logo ou a Victória vai perder o comboio dela. – Chamou e arregalei os olhos me lembrando que eu estava atrasada.

— Claro, a gente vai sem se molhar, se você não se importa. – Alfinetou e neguei com a cabeça seguindo no ritmo deles. Quer saber, eu não me importo de ter de esperar mais para ir pra casa.

Andamos normalmente até a estação e eu passei quase o tempo todo olhando para Galateia, que não tinha como ficar mais molhada do que estava. Pelo amor de Deus, ela vai acabar ficando doente.

— Olha, eu realmente ficaria feliz se você saísse dessa chuva. – Falei e ela sorriu apontando para frente, mostrando a estação logo do outro lado da rua, o que só então me fez perceber o quanto já havíamos andado. Sorri agradecida ao ver o local e aprecei o passo para chegar logo, pra tirar Galateia da chuva. Assim que entramos no recinto eu olhei em volta, vendo que não tinha ninguém esperando o metrô que eu ia pegar, o que só significava uma coisa. – Já passou. – Murmurei e Galateia foi até o quadro de horários, conferindo as informações.

— Realmente, o próximo é daqui uma hora e meia. – Avisou torcendo o próprio vestido que pingava, de tão molhada que ficou ao andar na chuva.

— Você se molhou em vão. Vai pra casa tomar um banho. – Pedi e ela sorriu negando com a cabeça.

— Estou bem, a gente pode esperar com você, não é? – Olhou para o primo que assentiu se sentando em um dos bancos.

— Claro, vou até tirar um cochilo.

— Mas nem me matando. – Falei séria e Galateia me olhou com o cenho franzido. – Vai pra casa tomar um banho quente e se aquecer, ou amanhã vai estar doente. – Mandei e ela cruzou os braços como se me desafiasse, logo se encolhendo pelo vento gelado que passou pela gente. – Olha só pra isso. Vicent! Leva ela pra casa. – Mandei e o rapaz se ergueu em um salto.

— Sim senhora, capitã. – Bateu continência vindo na direção de Galateia, recuando por ela o olhar feio. – O inimigo sabe das minhas intenções, não será possível. – Falou como se usasse um rádio e neguei com a cabeça.

— Meu Deus, vão embora daqui! Eu espero sozinha. – Mandei e Galateia foi até a própria bolsa que estava com Vicent, tirando seu celular de lá.

— Tudo bem, a gente vai, mas vou pedir o motorista pra te levar em casa. – Alertou levando o celular ao ouvido e arregalei os olhos.

— O quê? Não precisa disso. Eu vou esperar o metrô. – Alertei. Eu não acredito que ela tá ligando pro motorista dela me levar pra casa.

— É a condição. – Me olhou desafiadora e neguei com a cabeça suspirando. O que deu nela de repente?

— É isso ou a gente vai ficar aqui. Eu até coloco uma barraca. – Vicent falou apoiando e massageei as têmporas. Nem em meus sonhos eu ia imaginar isso acontecendo comigo.

— Se o motorista vir você vai pra casa tomar um banho quente? – Perguntei olhando diretamente para Galateia, que encerrou a ligação com um sorriso.

— Sim senhora.

— Tudo bem. Toma, seca seu cabelo pelo menos. – Lhe entreguei minha toalhinha de volta e ela aceitou. Pelo amor de Deus, ela está toda molhada, tá frio e chovendo. As possibilidades de ela ficar doente são de 90%.

— Depois veste isso aqui. – Vicent estendeu sua jaqueta de frio pra ela, a qual ela vestiu de bom grado. Fiquei de pé ao seu lado assim como Vicent, que chutou algo imaginário no chão e me olhou logo depois. – E sua irmã? – Perguntou e lhe olhei de cenho franzido, só então me lembrando que ia lhe mostrar uma foto da Jhu.

— Ah sim, aqui. – Peguei o celular de novo, abrindo minha galeria e virando a tela para eles, onde Jhu estava deitada no sofá com um gorro de papai Noel na cabeça e comendo pipoca.

— Own, ela é muito linda. – Falou com os olhos brilhando e ergui uma sobrancelha. A primeira coisa que todo mundo faz quando mostro uma foto da Jhu é me olhar de cenho franzido em busca de alguma semelhança.

— Igualzinha a irmã, não é mesmo? – Perguntei e Galateia analisou a foto minunciosamente.

— O nariz é igualzinho. – Falou e levei a mão ao meu nariz, olhando para foto logo em seguida.

— Sério? – Perguntei animada com a ideia. Jhu tem um certo ressentimento por não ser parecida comigo.

— Agora que ela falou... Realmente. – Vicent confirmou e sorri. Meu Deus, Jhu vai adorar saber disso. – É sua meio irmã, né? – Perguntou com um sorriso e assenti.

— Sim, e ela é uma graça, mais inteligente que eu as vezes. – Elogiei e Galateia olhou para seu celular quando ele vibrou na mão.

— O motorista chegou. – Avisou e arregalei os olhos surpresa.

— Já?

— Ele estava tomando café aqui perto. Vamos lá? – Chamou para irmos até o carro e lhe segui, vendo o mesmo carro que a leva para a escola todos os dias parado ao lado da calçada, onde um senhor de idade estava em pé do lado de fora, segurando um guarda-chuva.

— Senhorita Galateia. – Falou vindo em nossa direção e Galateia negou com a cabeça apontando pra mim.

— Preciso que leve a Victória pra casa dela, eu vou com o Vicent. – Alertou e sorri para o senhor, estendendo a mão para o Vicent.

— Obrigada por ficarem aqui comigo e por me trazerem. – Agradeci e ele sorriu. – Você é um cara legal, Vicent. – Falei e seu sorriso cresceu.

— Você que é muito legal, Vick. – Soltou minha mão e Galateia colocou o guarda-chuva dela sobre minha cabeça, mostrando que me levaria até a porta do carro.

— Você não precisa se molhar, Robert. Eu a levo até o carro, pode ir pro volante. – Alertou e o senhor fez um aceno de cabeça indo na frente.

— Obrigada! – Falei de forma baixa quando chegamos frente a porta do carro e em cinco segundos de coragem me virei em sua direção, inclinando meu corpo para frente e a abraçando sem aviso prévio. Foi um abraço leve, rápido e apressado, apenas o suficiente para meus braços circularem suas costas. Sorri carinhosa para sua expressão surpresa quando me afastei e abri a porta do carro. – Leão covarde, ok? – Falei me sentando e ela negou com a cabeça fechando a porta do carro. Sorri de canto quando o carro deu partida e olhei para minha roupa com leves manchas molhadas. Deus, eu a abracei, de verdade. Durante muito tempo, a abraçar estava tão longe da minha realidade, que agora que fiz isso, creio que foi a primeira e última vez que faço. Hoje a incentivei tanto a não desistir da pessoa que ela ama, que tentar me aproximar com interesse amoroso seria a coisa mais retardada que eu poderia fazer.

Notas finais
Gostasse?