Mirror Myself In You
6 Make You Feel My Love
Notas iniciais
Academia de artes marciais — 18h:45min — Galateia POV.
Ergui meus braços me defendendo dos ataques da minha colega de treino que em alguns minutos disputaria com Liane e olhei para minha irmã, que treinava sozinha no Mudjong. Voltei a atenção para o treinamento que eu ajudava Jude a concluir, suspirando por ela mudar sua posição de ataque e por um momento minha mente foi nublada de pensamentos na Vick. O que foi aquilo hoje? Por que me chamou de patricinha e... Ela nem sequer quis falar comigo. Ela não se esqueceu! É impossível que tenha se esquecido comigo lhe falando o meu nome. Meu nome é muito incomum e qualquer pessoa se lembraria, não é possível que tenha sido esquecimento.
— Galateia? – Ouvi meu nome e sacudi a cabeça focando na minha parceira no momento, vendo que ela já havia trocado a posição de ataque outra vez e me esperava mudar a defesa.
— Desculpe. – Pedi ficando na posição certa e ela ergueu uma sobrancelha.
— Está muito distraída.
— Vou focar. – Garanti erguendo o braço direito e me defendi do ataque. Então se ela não se esqueceu de mim, me ignorar foi proposital? Ela realmente não quer falar comigo e ouvir o que eu tenho a dizer? Isso não é como a minha melhor amiga agiria, então por quê? Eu ir embora a chateou? A ponto de não querer falar comigo? Por isso não veio me visitar, por isso não me mandou nenhuma notícia mesmo eu lhe enviando uma carta? Eu tinha feito isso um ano depois de vir embora, mas como não tive resposta, imaginei que ela tivesse se mudado de casa e não havia recebido. Eu acreditei nesse fato para que não me sentisse rejeitada por ela, mas agora eu nã-.
— Meu Deus! – Jude falou no susto enquanto eu caía para trás pelo soco forte em meu nariz, o cobrindo com a mão rapidamente. – Deus, você tá muito perdida hoje, me desculpa, eu não queria. – Pediu e me levantei do chão ainda com a mão no nariz, que sangrava levemente.
— O que aconteceu? – Ouvi a voz de Liane e olhei para o lado vendo-a se aproximar. – Você bateu nela? – Perguntou correndo na minha direção e erguendo minha cabeça para que meu nariz parasse de sangrar. – Está doendo? – Perguntou preocupada e usou o tecido da manga do seu quimono para parar o sangramento em meu nariz, fazendo uma expressão dura em direção a Jude. – Eu vou matar você. – Ameaçou.
— Foi culpa minha, eu não me defendi direito, estou distraída demais. – Expliquei a situação por notar sua raiva e ela negou várias vezes com a cabeça.
— Não foi culpa sua, ela não deveria ter aplicado o golpe de verdade. Nós não atacamos de verdade no treino com pessoas. Por isso tem o Mudjong para treinar. – Olhou irritada para Jude que estava de braços cruzados.
— Se eu não aplicar o golpe de verdade, ela nunca vai aprender. – Se defendeu e Liane negou com a cabeça.
— Vai se foder. – Rosnou e abaixou minha cabeça quando o sangramento parou. – Tudo bem? Está doendo? – Perguntou e olhei para manga do seu quimono, agora manchada de sangue.
— Seu quimono. – Murmurei erguendo seu braço para ver a grande mancha vermelha ali. – Lily...
— É só um pedaço de pano. Agora me responde, está doendo? – Tornou a refazer a pergunta e suspirei abaixando a cabeça. – Sister...
— Não meu nariz, mas... Dói. – Sussurrei e ambas suas mãos pousaram em meu ombro.
— O quê? Como assim? O que está doendo? – Franziu as sobrancelhas e me aproximei mais, deitando a cabeça em seu peito. – Galateia? – Chamou preocupada e funguei me deixando chorar.
— Meu Deus, machucou tanto assim? – Ouvi a voz preocupada de Jude e o corpo de Liane se mexeu bruscamente por um momento.
— Se você encostar nela eu quebro seu nariz. – Rosnou e apertei os lados do seu quimono, fechando os olhos. – Galateia, por favor. – Pediu agora com a voz mansa e me abraçou. – Diz pra mim, o que foi? O que está acontecendo? Onde tá doendo? – Perguntou e me encolhi. Eu acreditava que ela não tinha recebido minha carta, e que por isso não tinha me respondido, mas ela não se importa comigo, assim como mais ninguém. Tudo o que eu tenho é a Liane.
— No meu coração. Tá doendo muito. – Sussurrei e seus braços me apertaram mais forte.
— Sister... Não chora assim, olha... Vem cá, vamos no vestiário e você me conta o que está acontecendo, tudo bem? – Perguntou e assenti sem tirar a cabeça do seu peito e como resultado seus braços ficaram mais firmes ao redor do meu corpo, o que me levou a dar passos para trás quando ela deu os seus para frente. – Agora pode me dizer. – Falou parando de andar e ergui a cabeça lhe vendo fechar a porta do vestiário. – O que aconteceu? Por que estava distraída?
— Por causa da Vick. – Contei limpando uma lágrima e ela franziu o cenho.
— Sua amiga? Como assim?
— Ela não é minha amiga. – Murmurei indo me sentar em um dos bancos e ela fez o mesmo, me olhando atentamente. – Ela se transferiu para minha escola, pra minha sala, mas não quis falar comigo, agiu como se não me conhecesse. – Contei começando a chorar mais. – Em três anos eu mudei de todas as formas que mãe quis, tanto que as vezes nem me reconheço mais, mas a Vick era o meu ponto de encontro comigo mesma, porque por três anos eu a esperei fazer contato comigo e isso não me deixava esquecer todas as coisas maravilhosas da minha vida, era algo que eu nunca ia perder, porque eu tinha a esperança de que ela um dia traria tudo de volta.
— Galateia...
— Eu sei! É bobo. Não deveria usar uma pessoa para isso e nem estar me sentindo tão... Tão...Triste. – Falei limpando as lágrimas e olhando para o chão.
— Não, não é bobo. – Falou rápido e saiu do banco para se abaixar a minha frente, deixando os joelhos apoiados no chão. – Música é o meu ponto de encontro comigo mesma, então não tem nada de bobo em você ver sua amiga dessa forma. Algumas pessoas se focam em cantar, desenhar, dançar, mas tem as que se focam em uma amizade, um relacionamento ou até mesmo um determinado sentimento. Não é bobo querer manter sua sanidade mental. – Falou carinhosa e senti uma lágrima descer por minha bochecha, o que tornou sua expressão ainda mais preocupada.
— Mas ela não se importa comigo! Então do que vale todo meu esforço quando a única coisa que me ligava as minhas lembranças não está mais ligada a mim? – Perguntei e sua boca se entreabriu para me responder, sendo interrompida pela porta que se abriu.
— Liane, seu teste, dois minutos. – O treinador avisou saindo e ela se ergueu indo até o seu armário e depois em direção a pia, voltando com uma toalha molhada.
— Coloca isso no seu nariz. – Pediu já colocando o tecido em meu nariz e ergui a mão o segurando ali. – Eu juro por tudo de mais sagrado. Eu farei o meu teste e a primeira coisa que irei fazer depois disso é vir aqui falar com você.
— Eu não vou perder o seu teste. – Falei me levantando e usando a toalha para limpar minhas lágrimas, sendo rápida em começar a tirar o meu quimono. – Vamos trocar, o seu está sujo de sangue e eu não quero que entre no tatame assim.
— Não precisa trocar, eu não ligo do meu estar sujo.
— Mas eu sim, por favor. – Pedi e ela negou com a cabeça desfazendo a faixa preta em sua cintura.
— O que eu não faço por você? – Perguntou me estendendo seu quimono e lhe dei o meu. — Se me pedir para entrar lá dançando a dança da galinha, eu faço. – Vestiu o tecido e amarrou a faixa de novo.
— Hum, tem certeza? A dança da galinha é meio feia. – Falei sorrindo levemente por notar sua tentativa de me fazer rir.
— Se eu dançar, fica linda. Olha só pra mim, uma deusa. – Se gabou e sorri me aproximando para lhe dar um beijo no rosto.
— Tudo bem, ser divino. Ganhe. – Pedi.
— Sério? Ganhar da menina que acertou o nariz da minha irmãzinha? Com todo prazer. O feitiço vai virar contra a feiticeira. – Arrumou o tecido nos ombros e lhe olhei confusa.
— O que vai fazer? A culpa não foi dela.
— Isso é o que ela diz e no que você acredita. Pra mim ela é culpada. – Murmurou e pousou a mão direita em minha bochecha. – Nós vamos conversar sobre o seu dia na escola hoje. – Garantiu e sorri carinhosa.
— Tudo bem. Agora vai logo que você tem que vencer. – Lhe empurrei pelos ombros em direção a porta e ela riu a abrindo para sairmos. – Eu vou sentar lá na arquibancada, do seu lado do tatame. – Alertei dando tapinhas em suas costas e ela sorriu assentindo antes de ir em direção ao lugar que lutaria. Suspirei fechando os olhos brevemente e fui me sentar junto com os outros alunos e pais, que também assistiriam as lutas hoje, me surpreendendo por ver minha mãe sentada entre eles enquanto digitava algo em seu celular. Neguei com a cabeça e me encaixei no espaço livre no banco, olhando para o tatame quando ouvi a voz do professor. Jude dava leves pulinhos se aquecendo e Liane se mantinha imóvel, a olhando como se a qualquer momento fosse pular no pescoço dela. O professor fez o sinal de inicio e Lily se afastou com maestria do golpe que sua adversária tentou aplicar, repetindo vários desvios pelas próximas cinco vezes seguidas.
— Jude não vai dar espaço para ela atacar. – A menina ao meu lado comentou com sua colega e coloquei ambas as mãos ao lado da boca.
— Vai lá Liane! – Incentivei e ela me olhou rapidamente ao se desviar de outro ataque, voltando a atenção na sua luta. Lily é muito melhor que eu no karatê quando o assunto é o ataque! Ela está no meu nível de defesa, mas sua resposta aos ataques é muito mais rápida e eficiente.
— Jude vai derrubar ela. – A mesma menina tornou a falar e foquei minha atenção na minha irmã, que girou para as costas da menina quando ela a tentou acertar um chute, sendo rápida em guiar o punho direito para acerta-la na parte superior das costas. Jude jogou seu braço esquerdo para trás na tentativa de afasta-la, mas quando ao invés de fazer o esperado Liane o agarrou, meus olhos se arregalaram em total pânico. Lily ergueu a perna esquerda lhe acertando um chute na costela, mas não soltou seu braço no processo, o que levou o corpo de Jude ir para o lado direito e seu braço esquerdo se manter preso pelas mãos de Liane. Cobri a boca com ambas as mãos e Jude soltou um grito de dor quando Lily soltou o seu braço e caiu de joelho no chão.
— Se eu não aplicar o golpe de verdade, você nunca vai aprender. – Liane falou séria e se afastou um pouco pelo professor se aproximar. – Se machucar minha irmã de novo, eu quebro uma das suas pernas. – Bradou e o professor lhe olhou em decepção.
— Está desclassificada. – Alertou e ela deu de ombros vindo em minha direção, arrumando a manga do meu quimono, que ficava um pouco menor nela.
— Liane... O que você fez? – Perguntei assustada com a situação, já que a menina agora era atendida pelo professor e ainda parecia sentir dor.
— O justo. Desloquei o braço dela.
— A culpa não foi dela. – Falei e ela negou com a cabeça.
— Se alguém machuca você, eu te protejo para que não façam de novo. – Falou olhando para a menina. – É só colocar no lugar que vai ficar novo em folha de novo, ela que tá de drama. – Debochou e tocou meu nariz de leve. – Eu devia ter quebrado o nariz dela?
— Não! Lily, a culpa não foi dela. Eu não estava focada! Eu não me defendi e ela me acertou por acidente, a culpa é minha. – Falei em ver a menina se levantar com uma careta e engoli em seco por sentir a presença notável de nossa mãe atrás de mim.
— Você quebrou o braço daquela menina? – A voz soou grave e Liane olhou para trás de mim. – Desde quando você é tão violenta? – Continuou e me encolhi.
— Desde que ela acertou o nariz da minha irmã. O emocional dela talvez eu nunca consiga defender, mas o físico sim. Jude nunca mais vai encostar um único dedo nela. – Garantiu e olhei para o professor que se aproximava de nós. – E eu não quebrei o braço dela, que radical, só desloquei, fácil de resolver. – Murmurou e lhe olhei em descrença.
— Liane, senhorita Scarlet... Preciso falar com vocês na minha sala. – Chamou e desviei a atenção para o chão quando minha mãe passou por mim me olhando de canto de olho.
— Eu disse que iria falar com a Galateia depois do treino. – Lily falou e neguei com as mãos várias vezes quando minha mãe parou de caminhar sem se virar para nós
— Ela está brincando, já está indo. – Alertei empurrando Liane pelos ombros, que me olhou em confusão enquanto eu fazia isso. – Vai logo, por favor. – Pedi e ela suspirou derrotada, seguindo nossa mãe até a sala do treinador.
XxX
Olhei ao redor do salão que no momento estava vazio e desviei meus olhos para o relógio no alto da parede, vendo que já daria dez horas da noite e elas ainda se mantinham na sala do treinador. Mexi em meus dedos em ansiedade e me levantei do banco em um salto quando a porta da sala se abriu e Liane saiu dela de cabeça baixa, acompanhada de nossa mãe, que não tinha uma expressão muito boa. O que é uma novidade, já que ela sempre consegue manter uma expressão neutra e suave, independente do que aconteça ao seu redor.
— O que aconteceu? – Perguntei me aproximando receosa e passei os braços pelas costas de Lily quando ela me abraçou sem aviso, escondendo a cabeça em meu pescoço.
— Aconteceu que Liane agora está proibida de fazer aulas de karatê. – Mãe alertou e olhei para sala do treinador em descrença.
— Eu sinto muito, Liane. Não achei que o professor fosse fazer isso. – Lamentei por nossa mãe sair na frente e Lily negou várias vezes com a cabeça.
— Não foi o professor, mãe me proibiu. O professor disse que eu podia, mas ela... Eu odeio isso. – Falou chorosa e acariciei suas costas com carinho. – Eu também não posso mais tocar. – Lamentou e arregalei os olhos. – Ela vai se livrar do meu baixo. – Contou e engoli em seco. Isso é tudo culpa minha, não estaria acontecendo com ela se eu não estivesse aqui.
— O que vocês estão esperando aí? Vão logo para o carro. – Mãe bradou da entrada da academia e me encolhi pegando a mão de Lily para leva-la comigo.
— Tudo vai ficar bem. – Sussurrei lhe guiando para fora e abrindo a porta do carro por mãe já estar no banco do motorista e com ele ligado. Sentei no meu lugar fechando a porta e acolhi o corpo de Lily por ela vir em minha direção, praticamente se deitando sobre mim. Comecei um carinho em seu cabelo e olhei para frente, desviando rapidamente o olhar para baixo ao fazer contato com os olhos de minha mãe pelo espelho retrovisor.
— Quando chegarmos, teremos uma conversa séria depois que vocês tomarem banho. – Alertou e engoli em seco me focando em fazer carinho em Lily.
— Desde quando você conversa? – Liane provocou me abraçando mais forte e vi as mãos de minha mãe apertarem o volante. Pelo amor de Deus. – Tudo o que faz é ditar regras e exigir um respeito que infelizmente eu não tenho. – Continuou e apertei sua cabeça contra meu peito para que calasse a boca. Eu não acredito que isso está acontecendo. – Ai... – choramingou me olhando chorosa e lhe abracei com carinho.
— Só fica calada, por favor. Não é um bom momento para se impor. — Sussurrei e ela suspirou assentindo antes de ficar quieta o resto do caminho. Assim que chegamos e mãe estacionou o carro, Liane foi a primeira a sair correndo para dentro de casa. Neguei com a cabeça e subi as escadas lentamente. Eu não acredito que mãe a proibiu de continuar as aulas e vai tirar o seu contrabaixo! Isso não é justo, não depois dela ter me revelado hoje que música é o seu encontro com si mesma. Do que adianta ela me proteger se isso sempre lhe deixa em maus lençóis?
— O que é isso no seu braço? – Mãe perguntou e parei de subir a escada para olhar meu braço, vendo que por estar preocupada com o que estava acontecendo eu nem sequer troquei de roupa e ainda usava o quimono que troquei com Liane.
— Sangue... – Sussurrei tentando esconder o braço. – Eu levei um golpe no nariz. – Contei e ela olhou para o topo da escada em silêncio.
— Então foi por isso que ela ficou tão brava. – Comentou para si mesma e apertei a faixa preta em minhas mãos esperando para ver se ela falaria mais alguma coisa ou eu poderia ir. – Vá tomar o seu banho e depois tente convencer a sua irmã a não trancar a porta do quarto dela, ou as consequências serão piores. – Pediu subindo a escada na minha frente e engoli em seco voltando a dar passos de novo. E tem mais consequências?
Terminei de arrumar meu travesseiro no lugar depois de ter tomado meu banho e olhei para Liane, que se mantinha deitada na cama enquanto segurava seu contrabaixo como se perder ele fosse a pior coisa da sua vida.
— Lily, não fica assim não.
— Foi seu pai que me deu. – Lembrou se abraçando a ele e suspirei me sentando ao seu lado.
— Papai te deu ele como incentivo a música, mas não estava nas melhores condições. Ele só queria que você aprendesse e veja só, além de aprender, me ensinou a tocar e já compôs três músicas. Você fez mais com esse baixo do que ele poderia suportar e isso certamente deixa meu pai orgulhoso. – Alertei e ela acariciou a madeira do objeto.
— Mas eu o amo, ainda tem muito tempo pela frente e eu jamais iria me livrar dele, nunca.
— As vezes, por mais que queira manter algo com você, não deve. Quanto mais você puxar, mais o elástico vai se esticar e no final o que já era pra ter ido vai soltar e, você quem vai sentir a dor. – Falei tentando pegar o objeto de sua mão, o levando até o canto da parede.
— Onde aprendeu isso? – Perguntou curiosa e lhe olhei com pesar.
— Papai me disse quando meu cachorro ficou doente e eu não queria que ele o colocasse para dormir. – Contei e ela suspirou. – Mãe virá aqui, tente não dizer nada. Eu não quero que te castiguem mais. – Pedi fazendo carinho em sua cabeça e ela assentiu, guiando a atenção para porta quando ouvimos duas batidas nela.
— Tá aberto. – Falou com desgosto e seu pai entrou no quarto com minha mãe logo atrás.
— Você quebrou o braço de uma garota? – Foi a primeira coisa que disse ao ficar a nossa frente e Liane revirou os olhos.
— Eu não quebrei o braço dela, desloquei. – Reclamou e peguei sua mão que estava ao meu lado.
— Grande diferença! – Alterou a voz e Lily suspirou.
— Uma fratura leva de 26 dia a seis meses para se recuperar, já um deslocamento pode ser resolvido no máximo em uma semana. – Explicou e me encolhi no lugar. Deus, ela é muito audaciosa.
— Graças a isso você está proibida de participar de qualquer aula de karatê de novo. – Usou seu tom arrogante e Liane negou com a cabeça.
— Ela acertou o nariz da Galateia. Você queria que eu fizesse o quê? Cruzasse os braços? – Perguntou irritada e ele negou com a cabeça.
— Isso não tem justificativa.
— Foda-se. Quem disse que eu me importo? – Rebateu no mesmo tom que ele e mãe foi até o contrabaixo dela o pegando.
— Sem música. – Alertou calmamente e apertei a mão de Liane mais forte por seus dedos tremerem.
— Eu também não me importo. – Falou confiante e me abraçou de lado.
— Galateia é uma má influência para você. – David falou e arregalei os olhos no mesmo instante. Eu sou o quê? – Por isso a partir de amanhã ela vai ficar com a sua tia e você vai ficar aqui. – Avisou e olhei para Liane no susto. O quê?
— O quê? Isso não é justo. Ela é minha irmã! Você não pode tirar ela de mim. – Lily bradou irritada.
— Ela é sua meio irmã, Liane, meio. – Falou no mesmo tom que ela e lhe olhei em silêncio. – E você não tem lugar de fala aqui. É a minha decisão! Esse amor todo que sente por essa menina não é normal, por isso ela não vai mais ficar aqui. – Disse sério e Liane segurou minha mão a apertando.
— Vai mandá-la embora? Se fizer isso eu também vou. Não tem nada de meio! É minha irmã, ponto. Se você não gosta dela, não tente impor o seu sentimento pra cima de mim, porque eu a amo e meu sentimento não é estranho. Vocês não podem me tirar ela.
— Quem te disse que não? Podemos fazer o que quisermos, porque somos os seus pais. Essa menina vai embora. – David apontou o dedo em minha direção e olhei para o chão.
— O NOME DELA É GALATEIA. PARA DE CHAMAR ELA ASSIM. – Gritou e se levantou. – Não é possível que a senhora esteja concordando com isso, mãe. – Continuou alterada e mordi o lábio inferior. – Ela é sua filha, porra! É SUA FILHA. – Gritou e segurei a barra de sua blusa de leve, lhe puxando suavemente para trás.
— Está tudo bem. – Sussurrei tentando lhe acalmar.
— O quê? – Perguntou me olhando rapidamente antes de voltar a olhar para os pais. — NÃO! NÃO TÁ TUDO BEM. – Gritou.
— Lily. – Puxei sua blusa com mais força para trás e seu corpo se virou em minha direção. – Tá tudo bem, por favor. – Tentei para que ela parasse de se exaltar e evitar que recebesse mais um castigo. – Vai ficar tudo bem. – Garanti e desviei a atenção de seu rosto quando seus olhos se encheram de lágrimas.
— Não... Não é justo. – Sussurrou se abaixando a minha frente. – Você não devia ter de ir.
— Não seja dramática. Ela poderá vir aqui todo fim de semana, só não morará mais aqui. – Mãe explicou e olhei para o chão em silêncio. Eu vou ter que morar com pessoas desconhecidas?
— Então você está concordando com isso? — Perguntou perplexa e me encolhi. Minha mãe também quer que eu vá embora. — Vocês são horríveis. – Sussurrou e apertou minhas mãos mais forte. – Pais horríveis e seres humanos podres. Ela só tem a mim e está dizendo para eu não ser dramática? Vocês por algum acaso sabem o que estão fazendo com a cabeça dela?
— Você quer aumentar o seu castigo? – David perguntou irritado e ela riu alto, o que me fez focar nas lágrimas em suas que caíam sobre minha mão.
— O que mais você vai tirar de mim? Meu celular? Nada do que você me deu tem algum significado para mim, nada. – Rosnou e voltou a pegar minhas mãos, deitando a testa sobre elas. – Meu contrabaixo e a Galateia, é só o que importa, mas mesmo assim, nenhum deles veio de você. – Bradou e mãe olhou para o instrumento em sua mão, observando curiosa. – É engraçado que as melhores coisas da minha vida vieram do homem com o qual minha mãe se envolveu quando você estava no quinto dos infernos. – Continuou e vi quando minha mãe segurou o braço de David por ele ameaçar vir na direção de Lily.
— Ela só está chateada com tudo. Dê um tempo. – Pediu e ele puxou o braço saindo do quarto e batendo a porta no processo. Fechei os olhos pelo barulho e mãe fez o mesmo, olhando diretamente para mim depois, mantendo sua expressão neutra. – Você ficará na casa da Cassandra, ela é minha irmã mais velha. – Alertou e abaixei a cabeça, guiando minhas mãos ao cabelo de Liane e iniciando um carinho. – Eu sinto muito por tudo isso, mas você ficará melhor longe daqui e estou me referindo ao David.
— Qualquer um fica melhor longe dele. – Liane murmurou e mãe suspirou.
— Amanhã você leva sua irmã na casa da sua tia. Eu vou deixar um motorista com ela para poder ir pra escola e onde quiser. Também irei fazer uma conta bancária em seu nome. – Explicou pegando o celular e focando a tenção nele. – Os finais de semana você deve vir para cá. – Falou e assenti. Eu não quero ter de morar com pessoas que não conheço.
XxX
O carro parou frente a casa e olhei para Liane que estava ao meu lado, encolhida na mesma posição de quando entrou para vir comigo. O fato é que acho que ela está mais aborrecida que eu pelo que está acontecendo. Eu só fiquei na casa dela por três anos, ela mora lá desde que nasceu.
— Hey, está tudo bem. – Garanti, pegando sua mão com carinho. – Não vai ser tão ruim como parece.
— É... Você vai ficar livre do meu pai. – Falou e me olhou com um sorriso fraco. – Nossa tia é maravilhosa. – Alertou e sorri, desfazendo o sorriso por ela começar a chorar.
— Liane...
— Eu vou sentir a sua falta. – Murmurou fungando e me inclinei lhe abraçando com carinho. – Não é justo nos separar agora, não quando você está tão triste. – Reclamou e fechei os olhos por sentir todo o carinho dela por mim. – Com tudo que aconteceu a gente nem conversou sobre o seu dia na escola.
— Eu vou ficar bem, Lily. Não precisa conversar sobre isso comigo agora e eu também nem pensei a respeito disso ontem e para ser sincera, acho que não importa. É tudo sobre a minha infância e ela não existe mais, então acho que ficar pensando sobre, só vai me fazer mal.
— Mesmo que ache isso, você pode falar comigo sobre qualquer coisa. – Garantiu e sorri.
— Tudo bem, Lily. Você é a melhor irmã que eu poderia querer.
— Você também é a melhor irmã que eu poderia querer. Amo você, muito e muito. – Beijou minha testa com carinho e olhou para janela, se afastando de mim um pouco receosa. – Tia mora perto da sua escola e em três quadras, acho que tem uma biblioteca. Você gosta dessas coisas de ficar lendo e tal. Em cinco quadras, tem um teatro. Eu sei que você ama teatro desde a primeira vez que mamãe levou a gente. – Falou divertida e sorri ficando feliz com a informação. Eu pelo menos poderei sair para biblioteca e para assistir ao teatro.
— Parece ótimo para mim.
— Certo, então vamos descer. – Alertou se esticando para abrir a porta e desci na frente, vendo que uma mulher ruiva como minha mãe nos esperava frente ao portão.
— Vocês chegaram! Galateia, não é? – Veio em nossa direção quase saltitando e Lily a abraçou com carinho. — Eu sou a Cassandra. Aquele ali é o seu tio, Jason e esse é seu primo, Vicent. – Apresentou apontando para o homem e o rapaz que surgiu no portão e sorri carinhosa por toda a animação dela. – Eu nem mexi no seu quarto nem nada, está completamente vazio porque eu quero ir as compras e deixar você escolher tudo, o que acha? – Perguntou animada e Lily riu baixinho.
— Parece maravilhoso. – Concordei e ela bateu palmas em animação, sorrindo grande.
— Eu nem acreditei quando Scarlet me ligou. Vai ser muito divertido ter você aqui. O quarto está branco e sem vida alguma. Nós podemos comprar tinta e eu te ajudo a pintar junto do Jason, não é mesmo querido? – Se virou para o marido que se aproximou com um sorriso.
— Claro, Cassandra é uma ótima pintora. – Falou animado e olhei em direção ao menino que mantinha sua atenção no videogame portátil em sua mão.
— Então está decidido! Vamos sair para as compras. Voltou a bater palminhas e olhou para Liane com um sorriso. – Você vem com a gente? – Chamou e ela negou com a cabeça se encolhendo.
— Eu estou de castigo tia, Cas. — Contou e suspirou logo em seguida. – Meu pai vai me deixar sem sair de casa por um mês. Eu só vim porque mamãe me mandou trazer a Galateia, mas eu não posso ficar. Tenho ordem de restrição com ela até o final de semana. – Reclamou e a mulher fez uma careta em desgosto.
— Scarlet e seu dedo podre pra homens. – Negou com a cabeça e voltou a sorrir em minha direção. – Então seremos só nós. Eu vou te levar em um lugar maravilhoso para comprar as coisas pro seu quarto. Se Liane pudesse ir seria ainda mais legal, mas como não vai rolar, só nós duas vamos nos divertir. – Continuou a falar e olhei para Lily um pouco confusa com toda a animação dela, rindo baixinho por ela girar o dedo indicador ao lado da cabeça e colocar a língua para fora girando os olhos. Acho que não vai ser tão ruim assim ficar aqui, ela pelo menos é comunicativa.
XxX
Me sentei no sofá da sala depois que Liane foi embora e tia Cas disse que iria tomar um banho para que saíssemos para as compras. Olhei ao redor da casa que pelo menos não era tão estravagante quanto a da minha mãe e olhei para meu celular quando o mesmo alertou uma mensagem de Liane.
Quando eu chegar em casa pai vai tirar meu celular, então vou dizer isso agora até que seja final de semana. EU AMO VOCÊ DE TODO O MEU CORAÇÃO.
Fechei os olhos sorrindo e comecei a digitar sua resposta, rindo baixinho por antes de terminar de escrever ela me mandar vários corações e começar a digitar de novo. Eu não sou muito boa em digitar em celulares, porque até semana passada eu não tinha um por não sentir necessidade. Acho que decidir comprar um foi uma boa escolha, sendo que agora não moro mais com a Liane.
Tia Cas é muito energética e vibe positiva. Eu acho que você vai se dar muito bem com ela, já o Vicent, não dê muito papo pra ele não que ele é insuportável de irritante.
Enviou de novo e apaguei o que estava digitando antes para mudar minha resposta, apagando outra vez por ela voltar a digitar.
Final de semana se você não vier me ver eu vou aí. E eu prometo que não estou mentindo sobre isso.
Mandou e suspirei por outra vez aparecer “digitando” no topo da conversa.
Não consigo acompanhar você.
Respondi tentando não focar na outra mensagem que ela enviou e franzi o cenho por uma mensagem com um microfone surgir abaixo da minha.
Aperta o play nisso aí e quando quiser me mandar mensagem e eu estiver digitando muito rápido, me envia um áudio.
Pediu e apertei no play em curiosidade, ouvindo sua risada ecoar pela sala em alto e bom som, chamando a atenção de Vicent, que estava no outro sofá jogando videogame. Sorri por poder ouvir sua risada e outra mensagem de voz chegou.
Acabei de chegar no inferno! Não precisa me responder essas mensagens, faça isso quando se acostumar com o celular. Eu amo você, tá bom? Quando tiver meu celular de volta eu te mando mais mensagens e fim de semana te ensino a mexer no seu. Beijos.
Sorri pela mensagem e me encolhi logo depois por saber que até o fim de semana eu não poderei falar com ela.
— Não se preocupe, minha mãe e meu pai vão amar você. – Vicent falou do outro sofá e lhe olhei confusa. – Eles tinham a minha irmã mais velha, que adoravam, mas ela foi embora e se casou com alguém que meus pais não aprovavam, um dono de academia. – Contou e franzi as sobrancelhas. – Meu pai a tinha mandado escolher, ele ou nossa família. Acho que quando ela fez as malas e foi embora, isso partiu o coração dele. Por isso eu sei que você será muito bem amada por eles. – Contou e olhei para o chão em silêncio. Por que eu devo ser amada por outras pessoas? – Porque você obviamente é uma garota e minha mãe é obcecada com coisas de mulheres. Será a nova filhinha dela. – Falou divertido e trinquei os dentes por sua escolha de palavras. Eu não quero ser a filha de ninguém.
— Eu não quero que seus pais me amem. – Falei irritada pela raiva que me consumiu. – Eu tinha um pai que me amava, mas ele morreu. – Bradei e ele arregalou os olhos coçando a nunca sem jeito. — Eu tenho uma mãe, mas ela não gosta de mim! Não quero que outras pessoas façam o trabalho de gostar de mim por ela. Eu não preciso que gostem de mim. – Eu não preciso disso, não vai fazer diferença alguma. Eu já tenho a Liane e ela é o suficiente.
—Tudo bem, mas eu já gostei de você. – Falou divertido e lhe olhei confusa. – E eu quero jogar videogame. Se quiser, posso te ensinar. Eu tenho esse jogo aqui que você precisa fazer manobras radicais de moto e seu objetivo é quebrar o máximo de ossos possível. – Contou pegando o controle e tirando da pausa. – Eu sei que morar com a Scarlet deve ser um saco, olha só pra Liane, ela nem pode jogar videogame porque tem que se comportar como uma princesa. – Falou começando a jogar e foquei minha atenção na tela da televisão, vendo a moto do seu jogador fazer vários giros no alto e ele cair dela, indo com tudo para o meio do chão. – E o jeito que você está sentada prova que também tinha que ser assim, mas veja só que legal. – Apontou para televisão e olhei a queda do homem se repetir em câmera lenta em uma visão de raio X, onde mostrou seus ossos se quebrando em uma contagem. – Quer tentar? – Perguntou divertido e olhei para o controle. – Você corre com esse botão aqui, muda a direção com esse e faz manobras apertando todo o resto. – Mostrou cada botão e peguei o controle em curiosidade. – Minha mãe vai demorar um pouco para ficar “perfeita”. – Fez aspas com os dedos e sorriu. – E eu não disse aquilo por mal, desculpa se te chateou. É que minha mãe realmente ama meninas, acho que é porque pode fazer as coisas que ela gosta, falar e compras. – Contou divertido e apertei os botões do controle vendo a moto do homem começar a andar pelo mapa, arregalando os olhos pelo controle vibrar na minha mão quando sem querer o fiz cair da moto.
— Isso vibra. – Alertei e ele riu alto.
— Sim! É pra dar mais emoção. Quer tentar de novo? — Perguntou e assenti. Isso parece ser algo divertido. Acho que posso focar em aprender, assim ocupo meu tempo com alguma coisa fora as aulas de karatê, já que pelo visto eu posso continuar frequentando, Liane que não.
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