Mirror Myself In You
37 Don't You Forget About Me
Notas iniciais
Liane Merok Pov
Suspirei tirando os óculos do rosto e apertei os dedos na divisa dos meus olhos com o nariz, soltando um suspiro cansado. Deus, Sara conseguiu esgotar minha energia enquanto eu esperava Galateia terminar sua visita com a Sam. Por um lado, entendi toda a sua preocupação e perguntas intrusas. Mesmo que não tenha sido nada oficial, a gente namorou por um tempo, mas daí fui para Itália e embora tivéssemos terminado naquele dia, foi uma coisa meio pesada. Ela não levou numa boa e eu não tinha tempo o suficiente para lhe explicar melhor o porquê da minha decisão, fora que não “poder” me convencer a ficar, a deixou mais irritada do que o resto da situação, ela sempre foi uma garota controladora. Saco, por isso não queria aparecer ainda pra ninguém além da minha irmã e Kate. Droga, imaginei que ela realmente fosse estar lá, mas por um momento, pensei que, sei lá, iria respeitar o momento, mas foi me ver que veio igual o papa-léguas pra cima de mim, mesmo que eu a tenha pedido espaço e um tempo. É óbvio que precisamos conversar, isso todo mundo sabe, do mesmo jeito que conversei com a minha irmã sobre tudo, mas agora não é o momento, não estou preparada psicologicamente. Sei que ela não vai me deixar quieta agora que sabe que estou aqui, mas pelo menos consegui um espaço para Galateia, infelizmente precisando ter de ameaçar dizendo que nunca mais olharia na cara dela, porque estava querendo ir reclamar com minha irmã por não ter lhe avisado que eu tinha voltado. Como avisaria se eu pedi para não fazer?
Eu só queria um pouco de paz antes de precisar encarar todas as merdas que essa cidade me obriga a enfrentar. Estar na Itália era meu local favorito, por mais perrengues que tenha passado, minha saúde mental se mantinha intacta. Agora já terei de lidar com a insistência da Sara para conversar sobre algo que não quero e muito menos estou disposta. Fora que tenho certeza que ela irá voltar no assunto “relacionamento”, mesmo que isso seja a última coisa que desejo! Não quero agir como se nada tivesse acontecido, como se tivesse saído pra comprar pão.
— Sara te incomodou? – Galateia perguntou entrando no meu quarto e coloquei os óculos de volta no rosto, dando passos em sua direção para pousar as costas das mãos em sua testa, repetindo o gesto em seu pescoço, checando se ainda tinha febre.
— Você ainda está um pouco quente. – Murmurei fazendo carinho em seu rosto e sorri por ser abraçada por ela, retribuindo seu abraço.
— Já estou melhor, tia Cass me deu remédio de novo. – Sussurrou e beijei sua testa.
— Entendi, mas vem, deita aqui comigo, fica quietinha. – Lhe puxei para minha cama e ela se deitou pegando um dos ursos de pelúcia, abraçando contra o peito.
— Onde foi essa manhã? Eu acordei e você não estava. – Voltou no assunto de quando cheguei em casa e suspirei. Não sei mentir pra ela, muito menos lhe ocultar as coisas. Galateia sempre foi uma pessoa muito aberta em relação a como está se sentindo, então não consigo esconder nada dela, porque ela nunca me escondeu algo.
— Você possivelmente vai brigar comigo. – Comecei e seus olhos se arregalaram.
— Liane! Você não fez. – Falou assustada e encolhi os ombros.
— Não é o que está pensando! – Me defendi e sua expressão suavizou. – Quer dizer, é e não é. – Murmurei.
— Liane! – Largou o ursinho e ri me sentando no colchão.
— Só conversamos. – Avisei antes que fosse tarde demais e ela ficasse brava.
— Lily, por quê?
— Porque ela é uma babacona e eu queria chutar a bunda dela. – Reclamei. – Mas não chutei! – Alertei rapidamente por sua expressão horrorizada.
— Isso deveria me tranquilizar?
— É sério, juro que não fiz nada errado, mesmo que por um momento minha vontade foi mesmo de bater nela, não bati. Meu mantra foi “Galateia vai me odiar”, então consegui me conter. – Contei e ela suspirou em alívio. – Sei como tá chateada com essa garota, não quer falar com ela, muito menos lhe olhar por enquanto, mas que mesmo assim se preocupa. Eu jamais faria algo de mal pra ela sabendo disso. – Tranquilizei.
— Certo... Então o que foi fazer lá?
— Tentar entender a situação.
— Você nem gosta dela, Liane.
— Não gosto, mas você gosta! Entre a sua felicidade e meus gostos, prefiro ver a sua felicidade.
— Você diz isso, mas sinto que não da nem pra ser amiga dela, Lily! Eu não sei o que fazer, porque gosto tanto dela, mas... Estou cansada disso tudo. Você é a única pessoa que quis se aproximar de mim realmente por eu ser eu. Até mesmo na casa da tia Cass, por mais que eu ame todos eles, não teriam escolhido cuidar de mim por conta própria, minha mãe teve de pedir. Eu esperava qualquer coisa da Vick, ela tinha todos os motivos do mundo pra se aproximar de mim, podia ter sido por qualquer coisa, mas não foi!
— Sei que não devo fazer isso, porque por meu gosto ela morria e fim. Felizes para sempre. – Murmurei e suspirei pela carinha de choro dela. – Mas eu te amo mais que qualquer coisa e se puder fazer algo, o mínimo que for, que seja capaz de te fazer feliz, eu faço. Então... Conversando com ela hoje e ouvindo metade das coisas que ela disse... – Tomei ar e olhei para o chão, sabendo que isso irá desarma-la completamente. – Por favor, pense muito a fundo nisso que vou te dizer, não anule seus sentimentos por causa disso, me promete? – Perguntei e ela franziu o cenho.
— Liane...
— Só promete que vai levar seus sentimentos em conta e não irá jogá-los para escanteio por causa da informação. É importante, mas não é a única coisa que importa aqui, nem a única coisa que está em jogo. O motivo é para algo específico, mas não deve sobressair todo o resto. Ela te deve uma explicação, e você precisa que te dê uma, então, por favor. – Agarrei suas mãos e seus olhos azuis focaram nos meus em expectativa.
— Eu prometo que não irei anular meus sentimentos. – Garantiu e suspirei.
— Ainda não gosto dela, nem um pouco. Errar é humano, permanecer no erro que é inaceitável. – Resmunguei e ela deu uma risadinha.
— Apenas me diga. – Pediu carinhosa e suspirei.
— Conversando com aquela acéfala hoje, e levando em conta que ela é desmemoriada e por uma frase que ela me disse... Lembra quando mãe e eu fomos te buscar para nossa casa? – Perguntei e ela acenou positivamente. – O que você gritou pra ela antes de ir embora? – Perguntei e seus olhos se arregalaram em descrença.
— Pra ela me visitar.
— Depois disso, quando já estávamos no carro. – Ajudei e seu olhar focou no chão por alguns instantes.
— O nome da nossa mãe. – Lembrou.
— Comigo ela disse que até te ver, não fazia ideia da nossa mãe e que quando viu o nome, ficou obcecada por ela. Isso não deve anular o resto, mas... E se o motivo dela ter se aproximado de você por causa da nossa mãe, foi porque o subconsciente se lembrou do nome mesmo que de relance? – Questionei e seus olhos azuis encheram de lágrimas.
— Você acredita que possa ser? – Perguntou chorosa. – De verdade, acha que pode realmente ser por isso? Porque... Se disser que não, eu não sei o que fazer. – Sussurrou e lhe abracei, fazendo carinho em sua cabeça. Não gosto de ver ela tão tristinha assim. Galateia merecia a felicidade completa o tempo todo. – Eu não sei se devo acreditar nisso, porque por mais que possa ser, dói saber que não foi por minha causa.
– Acredito que tenha uma possibilidade, mas que você deve pensar bem antes de tomar qualquer decisão. Não vai dizer para ela que já se conheciam, né? – Continuei o carinho em sua cabeça e ela negou várias vezes.
— Não quero falar com ela. Não agora, não estou preparada emocionalmente. E não faria sentido lhe contar sobre isso, sendo que meu objetivo sempre foi não confundir sua cabeça. Ela tendo sido uma babaca ou não, não me da o direito de alterar ou prejudicar sua saúde mental. Não vou jogar as coisas na cara dela sendo que o único resultado seria magoá-la.
— Mesmo que ela tenha te magoado primeiro? – Perguntei curiosa com sua resposta.
— Se ela magoou ou não, não pareceu ser a intenção. Se eu fizer isso, estarei fazendo de propósito, com o único objetivo de ser maldosa. Não vou tirar a faca de mim e enfiar nela. E também... Gosto dela, não quero vê-la sofrendo, por mais que eu esteja magoada por sua causa. – Limpou uma lágrima com as costas das mãos e inspirei profundamente tentando manter a calma por lhe ver chorar outra vez. Não posso matar aquela garota se ela ousar me desobedecer, porque Galateia jamais me perdoaria. Por mais que agora eu saiba que ela está em negação por estar magoada, e que não vai se focar direito nessa informação que lhe dei, se ela de alguma forma for válida também. As chances daquela idiota ter feito por isso, deve ser de 50%. E mesmo se realmente for, ainda assim quero matar ela.
Victória Pov
Estalei os dedos das mãos um pouco ansiosa e Jhu me olhou de canto de olho, revirando os olhos e voltando a lamber seu sorvete de casquinha. O fato é que, encontrar minha mãe vai me fazer levar bronca, por mais que ela seja um amor comigo, vai brigar e depois me mimar. Não gosto de receber bronca dela, porque 99% do tempo que está comigo, ela está sendo extremamente grudenta. Lhe ver brava acaba me afetando bastante, porque vejo isso como ter lhe decepcionado. Embora ela não espere que supre qualquer expectativa dela, ter a sensação de lhe deixar zangada contribui pro meu estado atual fique pior que antes. Já decepcionei a Galateia, não quero fazer a mesma coisa com a minha mãe.
— É difícil te ver inquieta assim. – Vane comentou se sentando no banco ao meu lado e me estendendo um dos dois sorvetes de casquinha que havia trago.
— Mãe está decepcionada comigo. A Galateia tá decepcionada comigo, Sam, Vicent também, e o que seria minha futura cunhada, me odeia. – Murmurei provando do sorvete de morango. – Estou me sentindo um saco de estrume, porque minha mãe estava ocupada e mesmo assim está vindo me ver, porque fiz merda.
— Bom, as coisas já foram feitas, você tem que pensar agora em como resolver.
— Não sei se consigo resolver. – Sussurrei. O que posso dizer pra Galateia que pode reverter essa situação? Porra, ela não vai confiar em mim! Como se começa um relacionamento se o principal requisito já foi quebrado?
— Olha, quer um conselho sério? – Perguntou e lhe olhei brevemente para saber se ela estava mesmo falando sério. Vanessa tem a mesma vibe da minha mãe, tudo nela tem um tom de humor, então nunca se sabe quando está realmente falando sério ou brincando.
— Se for sério mesmo, quero.
— Eu fiquei sem falar com minha família por oito anos. – Começou e arregalei os olhos em susto. – E por mais que agora, às vezes, fale com minha mãe, a situação continua quase igual era antes de não nos falarmos, porque eu não sabia se podia resolver as coisas. E agora não as resolvo porque não sei se meu pai está disposto a mudar. – Explicou e fiquei lhe observando atentamente. – Não cometa esse erro, Vick! Se as coisas não estão bem, concerte, conversa, explique. Não deixa no silêncio, porque no final, vai se afundar tanto, que mesmo que queira de volta, não irá conseguir. A Galateia é uma boa menina, extremamente doce e compreensiva, mas você precisa dar motivos a ela! Se deixar palavras mal explicadas e uma situação mal interpretada, não tem como esperar que ela te perdoe.
— Pai te contou? – Perguntei me sentindo ainda pior. Agora Vanessa também vai ficar decepcionada comigo.
— Eu perguntei a ele, não o julgue, estava preocupada.
— Com o quê?
— Como assim “com o quê “? Com você! Até ontem eu não sabia que você podia chorar. – Brincou e lhe empurrei de leve pelos ombros.
— Eu fui uma tremenda de uma babaca, mas... Realmente gosto dela, Vane! Não quero deixá-la triste. Eu ia contar, juro que ia, mas ela descobriu primeiro e isso acabou com qualquer argumento que eu poderia ter.
— Que gosta dela é óbvio. Todo mundo percebe isso só de olhar pra sua cara quando está pertinho dela e da pra ver que ela também gosta de você. Só tem que explicar as coisas. Sua desvantagem é que você é horrível em explicar até como se deve beber um copo de água. – Negou com a cabeça e suspirei voltando a tomar sorvete. Se eu tivesse explicado direito, não estaria sofrendo agora e não teria magoado ela.
— Irei tentar.
— Melhor que nada. Olha, o uber da sua mãe está chegando. – Mostrou a tela do celular e me levantei entregando meu sorvete pra ela para ir na beira da calçada, avistando de longe o carro do aplicativo. Passei as mãos nervosamente no short que usava e o carro parou na minha frente. Mordi o lábio inferior ansiosa e mãe abriu a porta saindo do mesmo.
— Mãe! – Falei alto e pulei em seu pescoço a abraçando apertado, sorrindo por ela se curvar para cima e me erguer levemente do chão. – Estava com saudade, muita saudade. – Murmurei sem lhe soltar e ouvi sua risada.
— Uhum, tanta que não foi me visitar ainda, tô sabendo. – Implicou me soltando e me virei para Vane, que se mantinha em pé como se esperasse apresentações.
— Mãe, essa é a Vanessa, mas pode chamar ela de Vane. Vane, essa é minha mãe, Valquíria, mas pode chamar ela de Val. – Apresentei e ambas sorriram. Vane estendeu a mão para cumprimentar, mas mãe a surpreendeu em lhe dar um abraço apertado.
— Muito obrigada por cuidar da minha menina. – Falou sorridente e Vane retribuiu o sorriso.
— Nada, ela é um amor, não da trabalho algum.
— E eu? – Jhu reclamou do chão e lhe ergui no colo beijando seu rosto, fazendo uma leve careta por seu peso. Como Galateia colocou essa menina no pescoço?
— Mãe, essa é a Jhu, minha irmãzinha que eu tanto amo. – Voltei a beijar seu rosto e mãe a olhou como se eu segurasse um diamante.
— Meu Deus, que coisinha mais linda! O cabelo bonito do asno do seu pai e os olhos azuis da mãe linda dela. – Falou encantada e neguei com a cabeça por ela não perder a oportunidade de xingar meu pai. – Seu pai felizmente tem bom gosto, olha o espetáculo. – Apontou pra Vanessa.
— Mãe! Para com isso, parece que está flertando com ela. – Alertei e ela cobriu a boca com a mão direita, me olhando em choque.
— Você jura?
— Claro! Chamou de linda e agora tá falando que é um espetáculo, Vane vai pensar que você é lésbica. – Impliquei e ela riu divertida.
— Para. Eu não sou lésbica, mas também não me incomodo de experimentar coisas novas. – Piscou pra Vane e coloquei Jhu no chão.
— Parou! Vane, ela está brincando, não leva o que diz como verdade. De dez coisas que sai da boca dela, nove são brincadeira.
— Que isso, não me incomodaria de levar a sério também. Concordo com ela, James tem bom gosto. – Entrou na brincadeira e mãe corou, cruzando os braços para focar a atenção em mim. O que deu nessas duas mulheres?
— Estão tomando sorvete? Também quero. – Reclamou e peguei de volta o que tinha entregado pra Vane, lhe estendendo com um sorriso. – Não quero essa coisa babada que você lambeu, Vick. Quero um sorvete novo. – Fez bico.
— Eu sou sua filha! E não tá babado.
— Não interessa, quero um novo. Onde compraram? Não quero seus germes. – Perguntou e revirei os olhos lhes seguindo para dentro da sorveteria por Vane mostrar o caminho. Parece que minha conversa com ela será deixada para mais tarde, o que não é de fato ruim. Quanto menos focar nisso por enquanto, melhor saberei lidar depois.
XxX
Sequei o cabelo saindo do banheiro enquanto esfregava a toalha na cabeça e mãe me olhou sentada da cama onde estava com o notebook, cruzando os braços e levando a mão direita ao queixo para continuar me olhando minuciosamente. Franzi o cenho em sua direção e desci os olhos para minhas roupas, confirmando que usava pijama, então não faz sentido ela me encarar dessa forma.
— Que foi?
— Nada, você cresceu bastante. Está muito linda. – Sorriu e corei olhando pro outro lado. – Tá fortinha também, curioso.
— Curioso nada! Eu faço natação, mãe.
— Eu sei! Mas mesmo assim, seus braços nunca ficaram assim. – Especulou e me encolhi ficando vermelha.
— A Galateia acha bonito. – Sussurrei. Eu realmente tenho me focado nisso depois que ela disse na biblioteca que achava bonito.
— Oh... A Téia. – Sorriu e lhe olhei com o cenho franzido.
— Eu te contei o apelido que dei pra ela?
— Contou. – Falou e olhei pro chão confusa. Quando disse isso? Dei esse apelido pra ela fim de semana agora e não cheguei a falar com minha mãe até ontem.
— Estou ficando esquecida? – Perguntei realmente tentando lembrar de quando lhe contei.
— Se está ficando, não sei, mas você é, de muitas coisas. – Comentou e voltei a lhe olhar.
— Como assim? – Perguntei confusa lhe vendo suspirar.
— Olha, é uma longa história. Senta aqui com a mamãe. – Chamou batendo na cama e fui, mesmo receosa, parando em pé do lado da cama. O que ela quis dizer com longa? Tem alguma coisa que não sei? – Preciso te contar muita coisa que não “podia” contar antes, na verdade foi um conselho do seu médico, então não tinha muito o que fazer a respeito, mas devido as circunstâncias, não vejo porque não.
— Médico? Que médico? – Perguntei assustada. Eu tenho um médico? Quando, onde?
— Você não gosta de hospitais, lembra? – Perguntou e assenti várias vezes.
— Onde quer chegar com isso? O que tem a ver eu não gostar de hospitais?
— Se você ouvir, vou te explicar. – Começou e apertei as sobrancelhas totalmente confusa. – Lembra quando tinha sete anos e a vaca do sítio correu atrás de você porque implicou com o bezerro dela? – Perguntou e olhei para cima tentando lembrar do ocorrido.
— Não? Que diabo de pergunta é essa?
— Lembra quando tinha sete anos e meio? Perdeu uma competição de natação pra sua melhor amiga e chorou um dia inteiro? – Quê?
— Eu nunca perdi uma competição antes! – Falei orgulhosa. – E nunca tive uma melhor amiga. Nem amigos eu tinha.
— Lembra de qualquer coisa da sua infância? Antes dos nove anos? – Continuou perguntando e pisquei algumas vezes tentando me lembrar de algo.
— Não, mas isso é normal! A maioria das pessoas não se lembram disso depois de adultas.
— Você tem 17 anos, Vick. 8 anos pra se lembrar, não é difícil. – Alertou e lhe olhei sem entender.
— Tá, mas eu não lembro, o que isso importa? Na verdade, por que dessas perguntas?
— Porque você me fez uma e eu vou responder ela, mas antes tem que responder as minhas. – Vem sentar aqui. – Chamou com um sorriso.
— Não precisa.
— Agora. – Mandou ficando com cara feia e revirei os olhos me sentando ao seu lado no colchão. – Muito bem. Lembra que ia muito no hospital quando criança? – Perguntou e arregalei os olhos.
— Sim! Por quê? Era duas vezes por mês. E colocavam aquela coisa estranha na minha cabeça e eu tinha que entrar naquela máquina feia. – Reclamei me lembrando das várias idas ao médico. – E ainda me furavam pra nada! Eu só tinha um machucado idiota na cabeça. – Continuei, ficando irritada só de lembrar.
— Vick, você tem amnésia retrógrada. – Falou calmamente e assenti em compreensão, arregalando os olhos ao entender sua frase.
— Como assim amnésia? Eu não tenho memória? Que memória? Da minha infância? – Perguntei curiosa.
— Exatamente. Você desenvolveu amnésia retrógrada na sua infância porque sofreu um acidente na piscina e bateu a cabeça. – Contou e pisquei várias vezes em surpresa. Levando a mão na cicatriz no meu couro cabeludo. Quê? – Você não se lembrava de mim, do seu pai, muito menos do seu nome, por isso as várias idas ao hospital. – Continuou falando e ergui a mão pedindo silêncio para tentar ligar todas as informações. Eu sabia que tinha sofrido um acidente, só não sabia que ele tinha esse grau de seriedade.
— Que coisa bizarra. Eu não lembro de não lembrar. – Murmurei tentando pensar em algo antes das idas ao hospital e nada vinha. – Mas também, antes dos meus nove anos, o que eu posso ter perdido de importante? – Perguntei divertida e ela me olhou em silêncio.
— A Galateia, Vick. Você perdeu a Galateia. – Falou e ergui ambas as sobrancelhas.
— Não perdi! Ainda, eu acho. Ia te perguntar o que fazer sobre isso. – Murmurei aborrecida por me lembrar do motivo dela estar aqui. – Eu nem sei o que falar com ela. Estava pensando sobre, mas você começou com esse assunto de memória.
— Vou esperar um pouco pra você raciocinar. Sei que não é culpa sua ser lerda assim. – Cruzou as pernas e lhe olhei em silêncio por alguns instantes.
— Como assim?
— Filha, qual foi a pergunta que se fez antes de falar da Galateia?
— O que eu posso ter perdido de importante? – Questionei confusa e ela assentiu algumas vezes.
— E isso estava referido em que tempo? Presente ou no passado?
— No passado.
— E qual foi a minha resposta? – Perguntou e pisquei confusa.
— Galateia... – Sussurrei tentando entender a situação, arregalando os olhos logo em seguida. – EU CONHECIA A GALATEIA? – Gritei incrédula, me erguendo da cama em um salto por ela assentir algumas vezes. – Não zoa com a minha cara! Isso não é possível. A Galateia não... – Me calei ao me lembrar dela contando algumas vezes que antes morava com o pai dela em uma fazenda. – Ela não... – Arregalei os olhos em lembrar que por várias vezes, conversávamos como se já fossemos amigas e que foi extremamente facílimo me aproximar dela, a garota que teoricamente não falava com ninguém.
— Meu anjo, Galateia era sua melhor amiga. – Contou e dei um sobressalto no lugar. O que...
— Não, não pode ser. Não faz sentido! Eu não... Eu não me esqueceria dela assim.
— Você esqueceu seu nome, meu anjo. Esquecer dela fazia parte. – Tranquilizou.
— Não! Mãe, isso é ridículo! Se eu me esqueci dela... Isso significa... Significa que. – “Eu sinceramente não sei! Acho que sim. A gente não se fala muito, então eu ainda não entendo o que se passa na sua cabeça”. A frase que ela me disse quando lhe perguntei se a pessoa que ela gostava tinha amnésia surgiu na minha cabeça. – Porra! Porque não me contou isso antes? Eu te liguei e disse que estava gostando dela, da Galateia. Por que não me disse? – Perguntei chocada. A forma como ela se referiu a pessoa que não tinha lembranças dela foi tão direta que vendo agora, FICA OBVIO QUE ELA ESTAVA FALANDO DIRETAMENTE PRA MIM.
— Como eu te contaria isso pelo telefone, Victória? Pra ela tudo bem, ela não tinha perdido a memória, mas pra você nã-.
— VOCÊ CONTOU PRA ELA? ELA SABE QUE EU NÃO LEMBRO DELA? – Gritei lhe cortando. – Desde quando ela sabe disso?
— Creio que me ligou uns dias depois que você entrou no grupo dela, disse que você não estava fazendo sentido. – Contou e levei as mãos a cabeça em pânico. Caralho! Foi justamente depois dessa frase dela, porra! Tenho certeza.
— Ela sabia o tempo todo e ainda assim ficou me esperando? Mãe! Ela deve estar me odiando agora! Todo esse tempo me esperando e eu digo que foi por causa da mãe dela. Deus! Ela me odeia, não tem outra. Porra, eu a conhecia, a gente era amiga e... EU ESQUECI! E ainda disse pra ela “como alguém pode esquecer você?” caralho! Ela deve ter me achado uma grande de uma retardada o tempo todo. – Andei de um lado para o outro sem saber como reagir. – Eu fui uma burra, todo esse tempo. ELA ME CONHECE! Por isso foi simples ser amiga dela, por isso sempre recebi mais carinho dela do que qualquer outra pessoa. Ela fala comigo sobre coisas pessoais dela, e quando a chamei de Téia... – Sussurrei começando a chorar. Ela esperou muito tempo para ficar perto de mim de novo e eu jogo a minha desculpa no seu colo. Porra, eu a magoei mais do que achei que tinha feito.
— Você precisa se acalmar e pensar direito sobre as coisas.
— Mãe! Pensar direito? Nem sei se ela vai querer olhar na minha cara outra vez. Antes já estava achando que não, mas depois de agora? Que chances eu tenho? Galateia é uma pessoa incrível e eu... Porra, eu sou uma ameba.
— Não é não, só agiu de maneira burra. Não significa que vai continuar agindo. Galateia é uma boa menina, não vai simplesmente fingir que você não existe.
— Nem sei o que pensar direito! Parece que não ter memória é algo normal pra mim? Quer dizer... Por que não me fez lembrar dela? Por que me contou isso agora também?
— Você não se lembrava nem de mim, Victória. Foi uma luta te fazer me chamar de mãe de novo. Eu estava atolada de problemas referentes a isso, Galateia era a última pessoa que iria pensar em um momento como aquele. Você não se lembra, mas nessa época eu quase precisei fechar a loja definitivamente. Já havia parado com tudo pra cuidar de você, os gastos foram absurdos do hospital e não me sobrava tempo para trabalhar. Se não fosse seu pai arcando com tudo depois que fiquei sem nenhum puto no bolso, eu estaria trabalhando de diarista hoje. – Contou e encolhi os ombros com a informação. Eu não sabia que tinha prejudicado ela em algum momento da minha vida.
— Desculpa. – Sussurrei abraçando o travesseiro e sua mão tocou minha cabeça de leve. – Eu não queria ter lhe dado tanto trabalho.
— Meu bem, isso é irrelevante. Você não teve culpa do que aconteceu e se tivesse tido, eu faria a mesma coisa quantas vezes fosse preciso. Você é meu bebezinho, não tem nada que não faça por você. Só não lhe contei da sua amiga, mas não por maldade. Diariamente quando ia me chamar, usava dona Valquíria e seu humor parecia congelado em desconfiança. Foram meses em que sua própria família foi uma completa estranha na sua vida, meu anjo. Todo e qualquer progresso que tinha era uma vitória imensa, mesmo que você progredisse tão lentamente. Entenda, coisas acontecem e não é sempre que podemos resolver tudo e deixar como antes. – Me abraçou e foquei no chão com os olhos marejados. Nada disso me ajuda com a Galateia, só serviu para me deixar ainda mais pra baixo. E daí que nos conhecíamos? Não me lembro e pra ser sincera, saber disso só piora ainda mais minha situação. Eu não tenho memórias com ela, mas ela as tem comigo. A minha tristeza não chega nem perto da dela. Não faço ideia de como me desculpar. – Te contei agora sobre isso porque talvez não tenha sido tão do nada você se interessar pela “mãe” dela, não que isso anule a sua culpa. Você foi idiota! – Bradou e me encolhi. – Mas durante uma semana inteira, tudo o que você dizia era que Galateia tinha te dito que quando fosse para cidade era só procurar pelo nome da mãe dela e depois tudo aconteceu e nunca mais ouvi o nome dela outra vez. – Explicou e arregalei os olhos. Scarlet? A Galateia tinha me dito o nome da mãe dela? Mas mesmo que tenha me dito, mesmo que isso tenha sido um incentivo. Se ela não quiser mais falar comigo, não estou no direito de reclamar.
— Eu realmente gosto dela, mãe. – Sussurrei começando a chorar. – Não lembro de nada, mas gosto tanto dela.
— Você sempre gostou, meu anjo. Vivia grudada nela. – Falou divertida e sequei as lágrimas tentando cessar o choro. – Só que, são tempos passados. Mesmo que você se lembrasse, não é a mesma pessoa que era quando criança. Galateia não é a mesma menina também. Cada uma passou por suas próprias situações e elas serviram para moldar o que são hoje. O passado talvez nem seja tão importante pra ela, e se for, ele não é a única coisa na qual ela vai se focar. Vocês foram amigas, se afastaram, voltaram a ser amigas e agora se afastaram de novo. A única coisa que pode mudar isso, é sua atitude para mudança. Se quer que ela continue na sua vida, faça com que ela queira continuar.
— E se ela não quiser? – Perguntei em um sussurro.
— Uma escolha que pode tentar mudar aos poucos e se mesmo assim não der certo, você vai ter tentado. – Sorriu e neguei com a cabeça por ter sido basicamente o conselho que dei para Galateia quando a incentivei a investir na pessoa desmemoriada, só agora sabendo que estava ME ajudando com isso. Eu lhe chamei de leão covarde e agora quem está sendo covarde, sou eu.
— Só queria poder abraçar ela agora, mas não posso nem lhe enviar uma mensagem de texto.
— E por que não? Ela te bloqueou?
— Não, acho que a Galateia nem sabe como bloquear o número de alguém. – Sorri brevemente para em seguida fechar os lábios em uma linha. – A irmã dela vai me esfaquear se eu mandar alguma coisa. – Maneei a cabeça em decepção comigo mesma. Se eu não tivesse sido tão idiota, a irmã dela não teria motivos para me odiar, ou pelo menos não seria uma primeira impressão tão horrível. – A senhora acha que ela vai me perdoar? No sério, mãe. Sem tentar ser positiva e me dar esperanças. Acha realmente que ela vai me perdoar e que podemos formar um relacionamento por cima disso? – Perguntei e sua expressão ficou pensativa. – Acha que eu mereço? Com memória ou não, o que eu fiz foi muito idiota. Ver ela chorar ao saber de tudo só reforçou esse título. Se tivesse visto, teria protegido ela com unhas e dentes. – Contei. – Como uma pessoa normal, sem ser no seu papel de minha mãe. Acha que ela pode me perdoar? – Perguntei com os olhos marejados. Depois de saber de tudo que ela me disse, minha esperança de falar com a Galateia de novo caiu de 20% para 5%. Me sinto mais idiota que nunca.
— Poder ela pode, qualquer pessoa poderia e pode perdoar as outras, mas o que você precisa se perguntar é: Ela pode me perdoar e me querer por perto de novo? Você irá valer um voto de confiança? – Questionou e engoli em seco. – Não é sobre ela poder, é sobre o que você fará pra merecer o perdão. – Caminhou até sua bolsa em passos lentos. – Meu conselho de imediato é que dê tempo pra ela e pra você. Ela precisa pensar e você ainda mais, por mais que lembranças seja algo que não vai recuperar. Informação é informação e elas causam impacto. Resolva seus problemas primeiro antes de resolver seus problemas com ela, enquanto isso ela assimila tudo e fica mais preparada em ter uma conversa. – Aconselhou e arregalei os olhos.
— E se o tempo a fizer desistir completamente de mim?
— Você não dá o espaço para alguém sufocando a pessoa com sua presença. Principalmente quando o espaço que ela precisa é de você. Dê o tempo dela e deixe claro que mesmo assim quer resolver as coisas. – Alertou passando brilho labial e encolhi os ombros por saber que embora eu não queira, é exatamente o que vou fazer. Nunca ignorei um conselho da minha mãe, eles sempre acabam sendo o melhor para o momento.
— O que eu faço enquanto isso? Nós temos aulas juntas, sentamos juntas. – Contei começando a me desesperar ao lembrar que literalmente ficamos um dia todo sentadas uma do lado da outra na escola.
— E Deus não lhes fez siamesas. Você pode estar no mesmo ambiente da pessoa e ainda assim lhe dar espaço. Vai se sair bem, sei disso. – Sorriu carinhosa e meus olhos marejaram.
— E se eu estragar tudo?
— Querida. – Andou até mim e puxou minha cabeça para seu peito. – Você é uma menina muito esforçada, sei que pode fazer isso com êxito. É simples, deixe com que ela digira as coisas com calma. Você não vai morrer por esperar. – Acariciou minha nuca e passei os braços por sua cintura para me manter na posição e me deixar chorar.
Galateia Merok Pov.
Desci as escadas em silêncio para ir beber água e na metade dela pude ver tia Cass sentada no sofá da sala mexendo no celular. Sorri carinhosa por ela ainda estar ali e fui em sua direção, lhe abraçando por trás pelos ombros, beijando seu rosto algumas vezes.
— Bom dia, tia. – Saudei e olhei para frente, só então notando minha mãe sentada no outro sofá, que me olhava com extrema curiosidade.
— Bom dia, meu anjo. Vejo que sua febre passou, isso é ótimo. – Sorriu e olhou para minha mãe de canto de olho. – O que é que você tá encarando aqui com essa cara de cu? Não tenho culpa se você não sabe ser mãe. – Debochou e maneei a cabeça tentando não rir.
— Por que sempre retorna nesse assunto? – Mãe murmurou focando a atenção no celular e me endireitei pra ir para cozinha. Sei exatamente onde essa pergunta vai levar e não quero ficar pra ver.
— Oh... Desculpa. Você se incomoda com o fato de ser chamada de péssima mãe, mas continua sendo uma péssima mãe. – Começou e parei meu trajeto por Liane vir em minha direção enquanto bebia uma xicara de café. – Uau, eu toco sempre nesse assunto! Maninha, olha, tá sendo uma mãe ruim, ei! Sua filha vai fazer aniversário em breve, tem algo a dizer sobre isso ao invés de só depositar dinheiro na conta dela? Scarlet, a Galateia é uma garota incrível, faça parte da vida dela, seja presente nos dias dela. Oh sua anta, você ter feito algo errado uma vez, não te exclui da vida dela, não foi evaporada no estalar de dedos do Thanos. – Tia continuou e Lily ergueu uma sobrancelha olhando na direção do sofá para em seguida suspirar e deixar a xicara sobre a primeira mesa que viu. – Scarlet, a minha própria filha ficou sem falar comigo por oito, OITO anos.
— Galateia e Liane estão bem ali. – Mãe usou um tom debochado e firmei os pés no chão quando Lily pegou minha mão direita para sairmos dali.
— Uau! Caralho. Não acredito! Nossa, que decepcionante saber que você não é uma mãe pra elas por escolha própria. Você tem tudo, Scarlet. Eu poderia usar até a palavra “literalmente” para frisar isso. E as suas filhas são duas garotas maravilhosas que você não fez questão alguma de conhecer. – Sua voz saiu irritada e olhei para Liane sem dizer uma palavra, o que ela entendeu. Nós ficaríamos e defenderíamos a Tia Cass se fosse preciso.
— Mas estão ali.
— Estão! Elas estão. – Tia massageou as têmporas e suspirou antes de apoiar os cotovelos nos joelhos e o rosto na mão para focar sua atenção diretamente em minha mãe, que eu já não podia mais ver de onde estava. – Agora parece tão orgulhosa e superior dizendo isso. – Sorriu brevemente. – O que sabe sobre elas? Você nem deve saber que a Liane consegue fazer um solo de guitarra impecável. A Galateia escreve poemas lindos e tira fotos perfeitas. Você sabe que a Liane alcança notas absurdas com a voz dela? – Perguntou e olhei para Liane sorrindo. Ela realmente é muito boa nessas coisas e tia sempre a elogiou. – Galateia tem aquafobia, você sabe sobre isso? – Tornou a perguntar e desfiz o sorriso me encolhendo. Saber ela sabe, se importar, nem tanto. – Ou essa é mais uma das várias coisas que não sabe sobre sua própria filha ou decidiu ignorar? Liane teve problemas sérios com álcool, você sabia? – Continuou e Lily passou o braço por meus ombros, apoiando a cabeça de lado sobre a minha. Nossa mãe não sabia disso e não era algo que iriamos contar. – As duas adorariam ter a mãe delas presente. Principalmente a Galateia, que já cresceu metade da vida longe de você e na outra sua brilhante ideia foi joga-la de escanteio. A Liane já fez tantas coisas para tentar agradar você. E elas estão bem aqui! Duas garotas lindas, idênticas a você. Só não digo que foram cuspidas, porque é capaz de confirmarem que fez isso em algum momento. Você é uma mãe horrível e elas ainda estão aqui. Acredita que eu sempre fui uma mãe presente? De verdade, eu sempre fiz o possível e o impossível pra Vanessa e mesmo assim ela não fala direito comigo, por causa do pai dela. Eu tenho uma neta que não posso ver. Sou avó de uma garotinha linda e esperta, mas não posso chegar perto dela. E você me diz com tom de superioridade que as suas filhas estão bem ali? Cada uma com sei lá tantos traumas que você causou nelas. – Se levantou e arrumou a blusa ao redor do corpo. – Eu te digo que está sendo uma mãe ruim e sua resposta é essa? Elas ainda estão ali e você não quer ser mãe pra elas? Não entendi porque isso faz com que se sinta superior. – Veio em nossa direção e arregalou brevemente os olhos por ver que tanto Liane quanto eu estávamos de fato “ali”. – Deus... – Suspirou negando com a cabeça e se virou para olhar minha mãe. – O seu orgulho é pelo seu nível de babaquice? As duas estão passando por momentos péssimos e o seu orgulho vem do fato delas ainda estarem perto de você? Por tentarem fazer pra você algo que deveria ser o mínimo da sua parte? – Voltou a caminhar em nossa direção e ver seus olhos marejados me acertou diretamente no coração. – Por que está tão orgulhosa? De onde vem tanto orgulho por ser um pedaço de bosta? – Perguntou um pouco mais alto e ergueu ambas as mãos para tocar tanto minha cabeça como a da Liane. – Desculpa, meus amores. Achei que vocês já haviam saído. – Pediu e Liane se moveu em sincronia comigo quando a abracei, juntas apertamos seu corpo com carinho.
Tia Cass é de longe a melhor pessoa que poderia ter feito parte da minha vida e da vida da Lily. Ela foi a responsável por nos dar uma figura materna que nunca tivemos e vê-la dizer tantas coisas para minha mãe nesse momento, além de todos os outros, foi o ato de carinho mais valioso que ela poderia fazer por nós.
— Você é uma ótima mãe. – Sussurrei e me afastei dando espaço pra Lily, que segurou seu rosto entre as mãos.
— A pessoa mais importante pra vida da minha irmã e a que me deu os melhores conselhos. Você é incrível, tia. – Sorriu beijando sua testa e passou os braços por seu ombro. – Nós iremos deixar de estar aqui agora e estaremos onde você estiver. – Alertou e assenti passando o braço por sua cintura, ficando do outro lado do seu corpo.
— Vocês não precisam.
— Não é essa a questão, nós queremos. – Falei sorrindo. – Eu gostaria de comer torta também. Liane nunca ajudou a preparar uma de maçã. – Lembrei e ela riu baixinho, nos rodeando com os braços.
— Então seremos obrigadas a assar uma. Acho que não temos maçã, teremos de passar no mercado. – Falou pensativa.
— Bom que compro chocolate. – Sorri.
— Morango. – Lily continuou e assenti várias vezes enquanto saiamos da casa da minha mãe, batendo de frente com o D. que subia as escadas. Gosto de me referir a ele somente assim, porque pode ser interpretado como: Desnecessário, Diabo, Demônio, desnaturado. As possibilidades são infinitas.
— Nossa, hoje é meu dia de sorte. Chego e as indesejadas estão saindo. – Falou com desgosto e revirei os olhos tentando ignorar sua presença. – Menos você, Liane. Você vai ficar. Não quero que fique junto dessas duas. – Alertou em um tom autoritário e Lily suspirou.
— Nem se agora fosse o pior dos pesadelos. Se a Galateia e tia Cass não são bem vindas, claramente esse lugar também não é bom para mim. – Continuou caminhando conosco e sorri sabendo que mesmo que eu esteja triste, hoje será um dia extremamente agradável estando com essas duas.
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Ajeitei a massa cortada em tiras sobre os pedaços de maçã e Lily pousou o queixo por cima do meu ombro pra observar o que eu fazia. Ela disse que ia ajudar, mas ficou só olhando o que fazíamos, dando a desculpa de que na Itália trabalhou feito um camelo.
— Pronto? – Perguntou curiosa e neguei com a cabeça.
— Pincelar ovo por cima. – Ergui o potinho pra ela e vi sua careta. – Para de preguiça e passa isso. – Mandei e tia riu do outro lado da cozinha por Lily me obedecer.
— Sobre o que aconteceu para vocês ficarem brincando na chuva. – Tia começou quando fui para seu lado lavar minha mão e involuntariamente encolhi os ombros me lembrando de toda a situação com Vick. Depois de conversar com a Liane eu estava tentando evitar pensar no assunto, porque sei que isso vai me deixar triste. – Você está bem, meu amor? – Me olhou carinhosa e neguei com a cabeça secando a mão no pano de prato.
— Nós podemos falar disso outra hora? Quando eu voltar da escola, pode ser? – Perguntei indo ver se Liane fazia a tarefa certo, sendo seguida por tia Cass.
— Com certeza podemos. Mas quer realmente ir para escola hoje? Não tem problema ficar em casa.
— Querer eu não quero, mas já faltei ontem. Vicent também não está indo. Se o grupo todo ficar em casa, vamos perder conteúdo. Não que pra mim seja um problema, mas o Vicent realmente está se esforçando esse ano. Vou anotar as coisas para ele. – Lembrei e ela sorriu. Quando Sam acaba precisando ir para o hospital, Vicent passa todos os dias lá, independente se ela quer ou não.
— Então irei passar um tempo com ele no hospital. Quer ir junto, Liane? Se ficar com a titia a Sara não vai te incomodar. – Chamou e Lily sorriu levando a torta em direção ao forno.
— Posso ir e ficar um pouco. Depois acho que vou me encontrar com Kate e uns amigos antigos do colégio. – Ajustou a temperatura do forno e se virou com ambas as mãos na cintura e o queixo erguido, como se estivesse acabado uma tarefa extremamente complicada. O bom de estar com essas duas é que consigo manter meu foco somente nelas e evito de pensar em coisas que me deixam triste.
— Tudo bem. Quem quer me ajudar no jardim enquanto a torta assa? – Tia sugeriu e tanto Liane quanto eu erguemos as mãos. Tudo o que ela disse para minha mãe hoje, foi extremamente necessário, porque se mãe se comprometesse a fazer metade do que tia Cass faz conosco quando estamos juntas, já seria o suficiente. Não precisaria ser algo exagerado, apenas passar um tempo com a gente, fazendo algo que gostamos. Não é muito difícil, visto que gostamos de quase tudo que envolva atenção. Ela meio que me surpreendeu nos levando para ver os quadros e almoçar, mas depois foi como se sua missão do ano tivesse sido cumprida.
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— Qualquer coisa você liga pra mim e eu venho te buscar. – Liane alertou saindo de dentro do carro e assenti colocando a mochila no ombro. – Se quiser, fico por aqui também, daí é só me gritar. – Brincou e ri.
— Vou ficar bem. Obrigada por vir comigo. – Ajeitei a mochila no ombro e segui seu olhar quando ela o fixou em um ponto da escola, vendo Vick recebendo vários beijos no rosto de uma versão adulta sua, o que imediatamente reconheci como sua mãe. Oh... Lembro dela dizer um dia que sua mãe só vinha lhe visitar na véspera de ano novo, isso quando ela não queria ir pra fazenda.
— Acho que tenho um taco de basebol em algum lugar aqui comigo. Quer levar com você? – Lily fez graça e lhe acertei um tapinha no ombro. – Aquela lá é a mãe dela, né?
— Uhum.
— Será que é casada? – Perguntou e lhe olhei em descrença, o que a fez rir alto, chamando atenção desnecessária para nós. – É brincadeira, calma. Não precisa me olhar desse jeito. – Falou entre risos e revirei os olhos voltando a olhar na direção da Vick, prendendo a respiração por seu olhar estar fixo em mim. Sua mãe olhou na minha direção também e sorriu acenando com as pontas dos dedos, ponderei no lugar e olhei para o outro lado, soltando um suspiro antes de erguer a mão e acenar de volta. Minha criação não me permite ser mal educada com gestos de educação. Vick por outro lado puxou a mão da mãe para baixo e gesticulou freneticamente em sua direção, levando a mão na testa e agindo como se estivesse inconformada com o gesto da mãe, que ignorou seu surto e veio andando em minha direção deixando a filha para trás. Arregalei os olhos em descrença e olhei para Liane em pânico.
— Lily... – Chamei e ela fez um biquinho segurando a risada que queria dar.
— Relaxa, eu estou aqui com você. – Tranquilizou e voltei a olhar para frente, dando um pulo no lugar pela mãe da Vick já estar ali. Como que ela chegou aqui tão rápido?
— Galateia! – Sorriu grande e me encolhi no lugar.
— Senhorita Valquíria. – Sorri miúdo e ela olhou para trás, me levando a olhar na mesma direção, vendo Vick parada ao longe feito uma estátua com a mão cobrindo os olhos.
— Ela vai se explicar no momento certo, não a odeie. – Falou carinhosa e desviei o olhar para o seu.
— Eu não odeio. – Sussurrei.
— Ela não é uma pessoa ruim, você sabe disso. – Continuou e mordi o lábio inferior sem saber o que dizer. – E ontem estávamos conversando e agora ela sabe que não tem memória. – Alertou e lhe olhei com os olhos arregalados. QUÊ? – Ela ainda não assimilou nada e está meio lenta, mas quando cair a ficha vai vir falar com você. – Sorriu e pude claramente ouvir o som da música “She knows” tocar no fundo da minha cabeça. Engoli em seco olhando na direção dela e por um momento foi como não ter nenhuma gota de sangue circulando pelo meu corpo. Como? Ela contou isso do nada? DEUS!
— Bom... Galateia não vai pra lugar nenhum, Victória sabe onde encontrar ela. Agora se nos der licença. – Liane falou séria e colocou a mão no meu ombro me guiando para dentro da escola. Olhei para trás ainda em choque pela notícia. Como assim ela contou? Eu estava esse tempo todo preocupada com o resultado da informação e ela simplesmente vai lá e conta? O que diabos tenho feito das decisões da minha vida? – Lembra do que você me disse. – Lily falou e lhe olhei rapidamente.
— O que...
— Não anule os seus sentimentos. – Lembrou e assenti respirando fundo para me acalmar. Só então notando que ela me seguia para dentro da escola.
— Vai estudar comigo hoje?
— Não, eu vou falar com a Vanessa. – Focou sua atenção no caminho a minha frente e fiquei observando seu rosto de perfil.
— Pra quê?
— Tia Cass. – Me abraçou assim que paramos no pé da escada. – Vai pra sua aula. Qualquer coisa é só me ligar que eu apareço. – Foi em direção a diretoria e me virei rapidamente ao lembrar que a Vick também viria pra sala e seria estranho esbarrar com ela na escada, como se por um acaso eu estivesse lhe esperando.
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