Mirror

4 Capítulo 4


O fato de eu estar praticamente sozinho na linha da frente meio que dificultava um pouco as coisas. E eu tive de abusar de meu poder um pouco mais do que eu deveria. Consequência? Muitas visões.

Em uma delas eu vi eu e Shi lutando. Eu fui morto por ele, com minha própria espada. Ele caiu em pânico, com as mãos na cabeça e lágrimas nos olhos. Diferente das outras visões, em que ele manteve a calma.

E dessa forma, apesar de eu estar limpando as linhas da frente rapidamente, eu passava muito perto de perder minha vida. Afinal, as visões me impediam de perceber o que estava acontecendo ao meu redor.

Eu me vi morrendo várias vezes, de diversas formas. Maihime, Shi, alguém que eu não tinha conhecimento, algum Wahr, em batalha, Daichi, protegendo alguém… Por que eu sempre acabava morto?

Um soco passou raspando em meu rosto e usei a oportunidade para acabar com meu oponente. Em seguida, minha Visão me permitiu ver um projétil me atingindo, de modo que eu puder desviar antes que isso acontecesse. Mas já estava me confundindo. As visões que me permitiam ver o que aconteceria daqui alguns segundos para que eu possa acabar com o oponente e as visões do passado que eram involuntárias.

Maihime encontrou Shi e ambos começaram a lutar. Uma luta até a morte e o resultado era óbvio. Shi não foi feito para lutas corpo-a-corpo, enquanto Maihime era uma especialista.

— Merda.

Eu não sabia se era uma visão do futuro ou do passado, mas era melhor prevenir do que remediar. Então fui atrás deles.

Corri rente ao espelho, procurando-os. Achei Maihime no caminho e a vi próxima a uma rachadura do espelho. Ela poderia estar muito bem apenas examinando, mas quando ela deu um soco na rachadura, aumentando-a, ataquei a Falsch automaticamente.

Talvez eu estivesse fora de mim, talvez a esse ponto minha magia já tenha vantagem sobre minha razão. Era uma luta que eu não poderia ganhar, mas se isso permitisse que Shi continuasse vivo, eu estava disposto a tentar, mesmo custando minha vida.

Ela rapidamente defendeu, apesar de eu a ter pego de surpresa.

— Yon! — ela exclamou, surpresa.

No começo, ela ficou apenas na defensiva, enquanto eu desferia golpes atrás de golpes. Eu não sabia direito o que eu estava fazendo, apenas que eu deveria impedí-la. Ela era a inimiga. Ela estava quebrando o espelho do nosso lado para que os Wahr finalmente ganhassem essa guerra.

Eu mostrei uma brecha e ela atacou imediatamente. Maihime não demorou a me imobilizar. Era uma luta que eu não iria ganhar e eu sabia disso. Mesmo assim, eu fui teimoso em desafiá-la.

— Eu não quebrei o espelho. Shi quebrou — ela declarou.

— Por que você estava batendo nele ainda agora?

— Eu estava tentando descobrir como Shi o fez. E talvez uma prova de que foi ele que fez.

— Então você não tem provas.

— Não, mas eu sei que foi ele. Foi ele que forjou a reunião também. Era uma memória falsa, ele só teve de manipular o tempo e o espaço. — Maihime respirou fundo e disse: — Olha, você precisa limpar a mente. Poucos sabem disso, mas irei te contar. Você é um Wahr.

— O quê?! Então o que eu…

— Seus amigos também são. Vocês foram tragos para cá quando bebês e foram criados para lutarem pelo nosso lado.

— E por que está me contando agora?

— De que lado você está, Yon? Você é um aliado ou um inimigo? Você precisa de tempo para pensar, então irei deixar você imobilizado, mas o efeito passa.

Ela arrumou meu tapa-olho no lugar.

— Não deixe suas emoções dominarem, Yon.

E assim, Maihime me deixou sozinho com meus pensamentos.

“De que lado você está, Yon?”

Acontece que nem eu sabia. Eu lutava por Falschheit. Mas eu não queria ter de enfrentar Shi ou vê-lo sendo condenado. Não, eu não poderia suportar.

Era irônico como, em tão pouco tempo, aquele garoto tinha surgido na minha vida e conseguido me conquistar daquela maneira.

Na verdade, eu sempre soube de que lado eu iria lutar. Seria ao lado de Shi, onde quer que ele estivesse.

Só então percebi que já podia me mover novamente. Hesitei em fazê-lo, já que a magia já estava me dominando, mas não pensei em outro método e acabei usando minha Visão. Assim, pude ver o caminho que Maihime fez. Eu sabia que ela estava indo atrás de Shi. E Shi tinha menos chances do que eu.

Eu finalmente entendi minhas visões. Eu morria em todas elas, mas aqui estava eu, mesmo Shi alegando que elas eram do passado. Considerei o fato de que minhas ações mudavam o modo que eu morreria. Mas, talvez, elas realmente fossem do passado.

A primeira era a que Shi perdia o controle depois de me matar com minha própria espada. Nas outras ele provavelmente tinha se conformado com isso.

E seu poder era o controle do tempo e espaço.

“De novo. Nos conhecemos de novo.”

Provavelmente não seria difícil para ele voltar no tempo sempre que algo desse errado. Agora o motivo pelo qual ele estaria do lado dos Wahr eu não tinha a menor ideia. Eu o perguntaria depois que passássemos por isso. Se passássemos.

Encontrei os dois. Shi estava apenas desviando dos ataques seguidos de Maihime, mas por muito pouco. Haviam diversos corpos no chão, provavelmente de Wahr. Eu ia me intrometer na luta, mas a pergunta de Maihime me fez parar:

— Quantas vezes já voltou no passado? Na verdade, por que está do lado deles? Aqueles que você sempre chamava de “vermes”?

Ele riu. Ela finalmente tinha parado de atacá-lo e ele estava aparentemente cansado, mas se aguentando.

— Você não entenderia. Você não conhece esse sentimento, o de se apaixonar.

Arregalei os olhos ao perceber a quem ele se referia e que o sentimento era recíproco. Eu deveria estar feliz agora, mas a situação não era a melhor. A expressão de Maihime escureceu e ela disse:

— Não esperava você, de todas as pessoas, a cair nessa ilusão.

Eu vi o ataque poucos segundos antes de acontecer e quase não consegui impedir. Coloquei-me entre os dois e minha espada foi a única coisa que impediu minha própria morte. Ela recuou rapidamente e ouvi uma exclamação de Shi.

No entanto, Maihime era forte e sabia disso. Ela voltou a atacar e eu não morria por pouco na maioria das vezes.

— Vamos sair daqui — Shi pediu. — Os reforços não vão chegar a tempo, então vamos…

— Acabar logo com isso.

Eu me preparei para tentar minha sorte num ataque, mas Shi segurou meu braço:

— Eu não posso te ver morrendo de novo.

Se ele morresse seria pior, eu não podia manipular o tempo. Eu me soltei e ataquei. Maihime estava esperando por esse ataque também. Nossos ataques não acertaram, mas o seguinte dela acertou. Ela não acertou nenhum ponto que poderia me imobilizar ou algo do tipo, mas seu golpe era pesado de qualquer maneira. Consegui recuperar o equilíbrio pouco antes de quebrar o pescoço em alguma árvore e voltei a atacar.

Foi uma sucessão de ataques rápidos por minha parte e pela parte dela. Mas acabava não dando em nada. Eu estava lutando praticamente de igual para igual com ela, mas sabia que isso não duraria muito tempo.

Merda, cadê os reforços?

Eu estava me cansando, mas Maihime não demonstrava nenhum sinal de que o mesmo acontecia com ela. Ela logo levaria a vantagem então eu tinha de terminar com aquilo rápido, não poderia me dar ao luxo de esperar o reforço.

Era uma pena ter de acabar com alguém que eu admirava muito. Mas era melhor do que perder alguém que aprecio.

Eu dei o ataque final, minha espada atravessou seu peito. Mas ela não iria embora sozinha, seu punho acertou um ponto vital.

Ela caiu, mas eu também.

Vi o rosto de Shi novamente. Aquela pessoa que antes parecia tão insensível possuía lágrimas nos olhos. Ele colocou minha cabeça em seu colo.

— Não, não, não… — ele começou a repetir e segurou minha mão. Eu apertei sua mão em resposta e disse:

— Não chore, isso não acontecerá novamente.

Minha voz saiu mais baixo do que eu estava acostumado e falhou bastante. Eu não sabia se ele tinha entendido o que eu falei. Consegui levantar meu braço e alcancei seu rosto, enxugando as lágrimas com meus dedos.

— O que garante?

— Eu garanto. Você sabe onde errou?

Ele balançou a cabeça negativamente. Eu sorri e disse, mas minha voz falhava comigo: — Confia em mim, na próxima vez. Eu posso te ajudar desde o começo. Você só tem… que ser honesto… comigo.

Eu já não conseguia manter meus olhos abertos e mesmo quando o fazia, tudo ficava borrado. Percebi que eu mesmo já estava chorando a esse ponto.

Ouvi passos que me fizeram acreditar que tinha muitas pessoas aqui.

— Os reforços chegaram — eu disse e sorri levemente, sem abrir os olhos.

— Não vá. Abra os olhos.

Eu abri os mais uma vez e vi o rosto do garoto na minha frente. Cabelos azuis escuros e olhos azuis claros. Eu sabia que ambos olhos eram da mesma cor, apesar de sua franja tapar um deles. Ele normalmente umedecia os lábios com frequência e estava sempre de capuz, mas dessa vez o capuz estava abaixado. Eu senti algo me molhando e percebi que chovia.

O cheiro de barro preencheu minhas narinas, mas se foi antes que eu percebesse. E eu soube que logo eu veria Shi pela última vez.

Minha visão estava desvanecendo assim como fez o meu olfato. Antes que eu realmente fosse, eu disse, baixo:

— Eu te amo.

***

— De novo.

As palavras preencheram o quarto de repente, acordando-me no meio da noite. A lua ainda estava alta e iluminava o quarto. Meu olhar foi rapidamente para o garoto que estava sentado no parapeito da janela, consultando um caderno com uma caneta em seus lábios.

Pelo meu olho esquerdo, que não estava tapado no momento, identifiquei-o como um Falsch. A diferença era clara, pelo menos para mim: eles possuíam uma névoa negra ao redor de si. No entanto, só era visível por causa da minha Visão.

“Visão” que as vezes me deixa mais cego do que me permitir ver algo. Assim, tapei meu olho esquerdo com a mão para poder vê-lo com mais clareza. Sem névoa negra para atrapalhar.

A luz da lua que entrava pela janela iluminava uma blusa de frio branca e um capuz, que não me permitia ver seu rosto direito. Ele levantou a cabeça finalmente olhando para mim. Ele tirou a caneta da boca e umedeceu os lábios com a língua. Quando ele me olhou nos olhos, encontrei olhos azuis claros.

— Nos encontramos de novo, mas você não sabe.

Ele se levantou, descendo do parapeito, e veio na minha direção. Falou em um tom um tanto baixo, sendo as únicas palavras que ouvi antes de apagar novamente.

— Você deveria descansar, grande dia amanhã.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!