Miranda: Starve
12 Delicate
Greeny Wicked
Depois da última discussão que tive com os meus “amigos” eu passei a ignorar todas as suas mensagens e ligações, principalmente as de Marcus, eu até lia, mas não respondia. Ele sempre me falava sobre o progresso da investigação. Eu tinha minhas teorias, claro. Mas se eu falasse aos meus amigos, eles provavelmente iriam achar que eu estava enlouquecendo, como sempre.
Afastei esses pensamentos e decidi me dedicar a coisas mais importantes como a misteriosa mansão e a voz que me chamava. Ela dizia que era Thay, mas como eu podia ter tanta certeza? O som estava abafado, parecia vir de longe. Podia ser só algum idiota do lado de fora da mansão tentando fazer piada devido ao ocorrido comigo e as bruxas.
Eu ia me preparar para mais uma noite para entrar na mansão, mas eu estava com medo de ouvir a voz de novo, ou ver alguém no espelho. Eu sempre tive medo de espíritos, fantasmas, mortos e qualquer outra coisa ligada ao mundo espiritual. A possibilidade dessa Miranda existir e estar controlando todos esses problemas na ilha me assombrava...
Peguei meus equipamentos, os mesmos da outra noite. Imagine se eu abrisse a porta e visse que eu estava no fundo do mar?
Enquanto não anoitecia eu tentava assimilar a voz de Thay pelos áudios que ela mandava enquanto estava viva e a voz que ouvi na mansão. Era parecido, mas tinha algo que diferenciava. Eu me lembrava que logo após sua morte eu tinha pensando na possibilidade de trazê-la de volta, será que a voz que eu ouvia era um sinal que eu devia deixá-la em paz?
Eu tinha muitas coisas na cabeça, eu precisava relaxar um pouco. Fui para meu jardim e percebi que logo as plantas morreriam devido ao frio que aumentava a cada dia, isso sem contar com a luz do sol que também diminuía diariamente.
Sentei-me em um espaço vazio de terra e resolvi meditar, pensar em tudo, o que estava acontecendo, o que poderia acontecer, o que aconteceu.
O que aconteceu? Bem, várias coisas aconteceram, em dezembro do ano passado... Bom... Dylan e seus lacaios sequestrou quase todos os pinguins, nós fomos caçados por vários dias, ficamos um tempo sem banho, sem comida, sem felicidade. Há poucos meses uma tempestade de bruxas se formou na ilha, feitiços, sacrifícios, falsos assassinatos e uma morte que me marcou para sempre.
O que estava acontecendo? Possivelmente o terceiro e último cavalo estava na ilha, com toda certeza essa grande fome era obra dele. Só nos faltava descobrir quem era, eu tenho certeza que meus amigos conseguirão fazer isso.
O que iria acontecer? Bem, esse é o mistério. Se esse cavalo ter sucesso, ela volta e acaba com tudo. Eu me pergunto desde o dia em que Juan nos contou sobre a Miranda, quais são os planos dela? Destruição? Quais são seus motivos? Isso era um grande mistério para todos.
Não demorou para anoitecer, logo eu sairia em caçada a mansão. Peguei minha mochila e saí para fora, era 23h, dei uma olhada na luneta e nada. Olhei de novo e acabei vendo uma estrela que brilhava fortemente, ela parecia ser a única estrela persistente a brilhar naquela noite, todas as outras estavam encobertas pelas nuvens nubladas.
De repente vejo uma luz forte no Dojô, provavelmente era mansão. Olhei pela luneta de novo e a vi de longe. Peguei a última cápsula de Dylan e joguei-a no chão, pensando na grande estrutura ninja. O chão desapareceu e apareceu de novo, mais uma vez a estrutura velha e empoeirada estava na minha frente. Coloquei meu pé na escada e abri a porta. Ela se fechou sozinha dessa vez.
Cada passo arrepiava minhas penas, cada passo fazia um barulho diferente, cada passo era um tipo de temor em minha mente. Os quadros de retrato pareciam acompanhar meu andar, e pareciam também entrar em meu cérebro.
Distraído com as pinturas acabei pisando em uma madeira frouxa, meu pé afundou e começou a doer. Eu tentei tirar desesperadamente com medo de ter algum inseto, mas parecia ser em vão.
Calma.
Me acalmei, respirando fundo. Eu sabia que se eu forçasse, poderia ficar ali para sempre, então delicadamente retirei meu pé da minha bota. Com minhas nadadeiras eu consegui removê-la da cratera que eu havia criado ali.
Examinei a bota para ver se algum animal entrou ali, nada, ainda bem. Vesti-a novamente e voltei a andar, dessa vez com mais delicadeza.
Ouvi um passo atrás de mim, mas quando me virei era só um dos retratos que havia se mexido e entortado, provavelmente devido aos meus movimentos, percebi que a mansão era frágil.
O retrato era de um pinguim sério, ele tinha uns óculos bem... Diferente dos que eu conhecia... Sua roupa era um manto branco com detalhes em azul, ele tinha penas amarelas e carregava uma coroa de trigo dourada, era quase careca, tinha alguns fios brancos e uma barba grisalha, problemas de calvície. Se nome era McCkenzie, e me lembrava bastante minha amiga, Minkis. Passei minha nadadeira no quadro e o ajeitei, ele estava empoeirado, mas eu senti uma coisa muito boa tocando nele. Depois ajeitei o quadro da pinguim que vira na minha primeira visita, Glaucea. Eu sentia uma conexão muito forte com aqueles quadros, mais especificamente no dela.
Embaixo do seu quadro, além da placa com seu nome, havia algo parecido com folhas de lírio em ouro, elas estavam enfileiradas e pareciam formar uma coroa também, assim como a coroa de trigo do outro retrato. Quando toquei nas folhas de lírios douradas, eu senti uma vontade imensa de colocá-la em minha cabeça. Era tão diferente, eu nunca tinha visto nada tão bonito e bem aproveitado da natureza. Tirei meu chapéu e coloquei a coroa, olhando-me no espelho. Estranhamente eu me parecia muito com o retrato de Glaucea. Nosso bico tinha o mesmo formato, os olhos azulados eram sinônimos entre nós, sem falar da cor do nosso cabelo e nossos cachos ruivos.
Tirei a coroa, colocando-a em seu devido lugar, antes que eu pudesse sorrir para o quadro eu ouvi uma voz vindo do fundo:
— Por que tirou? Ficou legal!
Com medo eu coloquei meu chapéu e fiz uma bola de fogo olhando para todos os lados.
— Ai! Desculpa! Acho que te assustei, Greeny...
A voz parecia vir do fundo do corredor. Fui me aproximando cautelosamente ainda armado com a bola de fogo.
— Quem está falando?! — Perguntei com a voz trêmula.
— Bem... Isso é uma situação delicada... — A voz misteriosa respondeu rindo aparentemente de nervoso.
— Não precisa ter medo de mim, eu sou sua amiga!
— E como eu posso acreditar em você? — Perguntei apagando a bola de fogo.
— O quê? Eu não escutei! Chegue mais perto do crucifixo que se encontra na sua frente! — Respondeu.
Minhas penas arrepiaram. E se fosse uma armadilha? Eu pensei. Abandonei esses pensamentos e me aproximei da cruz de madeira no fim do corredor. Embaixo dela tinha uma mesa com um pergaminho. Tentei tocar nele, mas assim que encostei minha nadadeira, eu senti uma descarga elétrica muito bizarra. Doeu.
— Eu tentei tocar aí uma vez, mas também senti isso... O que acha que é? — Perguntou a voz. Agora sim eu percebia como sua voz era parecida com a de Thay.
— Tem um feitiço de proteção aqui, por isso não conseguimos tocar... Mas... Quem é você? De verdade, quem é você? — Respondi tentando ver de onde a voz vinha.
— Não acredito que já esqueceu de mim! Nós nos encontramos todo dia no cemitério, xuxu. — Quando ela me chamou daquela forma eu senti cada pena arrepiar e meus olhos se arregalarem. Comecei a chorar.
— Thay... — Eu disse soluçando.
— Não chore, amigo, está tudo bem, eu estou bem. — Ela disse. Eu queria tanto ver seu rosto de novo...
— Vá no espelho, nós podemos conversar por lá, tipo uma chamada de vídeo!
Fui em direção ao espelho que não era muito longe do crucifixo e o limpei com um lenço umedecido que eu sempre carregava.
Chamei Thay algumas vezes, até que ela finalmente apareceu. Ela parecia diferente, estava bonita, seu rosto tinha uma expressão suave, como se todas as suas preocupações tivessem desaparecido, e tinham mesmo.
Seus cabelos verde-água estavam soltos, apenas um lado estava preso com um grampo, mostrando um brinco prateado no formato de uma cruz. Ela não estava com a roupa que foi enterrada, estava usando vestido branco rendado no busto, com a saia de seda, ela estava descalça e usava um colar com um pingente de uma cruz dourada.
— Você parece bem, velha amiga... — Eu disse colocando a minha nadadeira no espelho, deixando algumas lágrimas caírem.
— Mas você não. Eu vejo culpa, raiva e até arrependimento no seu olhar, por quê?
— Bem... Desde que você se foi eu me sinto culpado. Se eu não tivesse aceitado a proposta daqueles demônios de chapéu pontudo você não estaria aí.
— Não foi sua culpa, Greeny. Eu sei que não foi, e tudo que importa é minha opinião, se eu não te considero culpado não tem porque você achar.
— Eu sei... Mas os outros não pensam da mesma forma. É delicado.
— Você não precisa se importar com terceiros, ok? Eu estou bem aqui, isso que importa!
— Desde que você se foi eu sinto essa culpa em mim. Todos os dias eu te visito por causa dessa culpa. E há um tempo... Eu discuti com todos. Marcus acha que eu te matei e isso me torna o cavalo da morte, não Grampunzel.
— Elas te manipularam, elas são inteligentes. O que houve com elas afinal? Eu não consegui ver...
— Eu consegui abrir o portal para a Ilha do Club Penguin, elas estão lá agora.
— Juan também está? Oh meu deus, precisamos tirá-lo de lá!
— Ele saiu, amiga. E logo depois do seu enterro, uns dias depois na verdade, ele nos contou tudo que Dylan disse a ele. Aparentemente existe uma entidade maligna vindo para o Club Penguin, e todos os acontecimentos, a guerra que Dylan causou, as mortes das bruxas... Tudo é em consequência á ela. O sacrifício... Sua morte quebrou uma das correntes que prendem Miranda na Ilha, aparentemente existe mais uma, ou talvez outra, e outra, e outra e outra.
— Uau! Parece que estamos em maus tempos...
— Sim. Agora aqui está um caos. Alimentos desapareceram, pinguins estão morrendo de fome, horrível.
— E a reserva de alimentos?
— Foi justamente ela que foi roubada! Eu acredito que o cavalo da fome esteja entre nós. Tenho minhas teorias de que seja um pinguim específico, mas se eu contar aos outros serei exilado da ilha...
— Sério? O que aconteceu? Você foi acusado de algum crime?
— É brincadeira, porém acho que alguém vai inventar alguma forma de me condenar pela sua morte... Sabe como é, né?
— Na verdade eu não sei, mas tudo bem... Parece que você tá evitando de falar sobre Minkis, Juan e Marcus.
— Eu estou. Quando eu disse á eles que ouvi sua voz, eles disseram que eu enlouqueci, na verdade foi a nova amiga deles que falou isso, eu odeio ela.
— Amiga? Quem é essa?
— Bella Frenkson.
— Que sobrenome estranho... O que ela faz da vida?
— Dizem que ela é policial, mas eu nem me importo, me trocaram por ela já, nem faz mais diferença.
— Eles nunca te trocariam, Greeny. Nem repita isso.
— Mas parece que ela consegue ser bem persuasiva. Marcus já acredita em tudo que ela fala. Ele disse que eu estava com inveja porque ela estava ajudando nas investigações e eu não.
— Mas porque você não está ajudando?
— Tia Arctic disse seria melhor não terem uma bruxa envolvida no caso.
— Nossa que chato...
— Bem, amiga. Vamos falar sobre você! Falamos muito sobre mim.
— Eu tô bem. É tudo diferente quando você morre. Eu passo a maior parte do tempo tentando falar com vocês, mas parece que você é o único a entrar nessa mansão...
— Você sabe o que é esse lugar? Achei bizarríssimo.
— Encontrei só alguns artefatos antigos, velas queimadas, quadros, mofo e outras coisas inúteis.
— Tem quartos trancados, né?
— Eu consegui entrar apenas em um, tinha vários terços, crucifixos, esculturas religiosas, pergaminhos, sal grosso e uma bíblia.
— Nossa, soa religioso.
— Tentou ir no quarto com a porta branca escrito Glaucea? Vi que você gostou bastante dela.
— Ainda não tentei, depois nós vemos isso.
— Eu estava me lembrando do dia que eu preparei um jantar para você e Marcus... Eu sabia que estava perto de morrer, mas queria ver você feliz. Parece que não adiantou muito...
— Aquele dia foi incrível, irmã... Tirando a parte que ele me beijou a força, né? Comemos pizza, doces, bebemos cream soda e talvez um pouquinho de álcool. — Dei uma pequena risada no final.
— Que feio, Greeny! — Brincou Thay.
— Senti muito sua falta. Muito mesmo. — Eu disse ajeitando meu chapéu.
— Também senti sua falta, amigo.
Ficamos um tempo em silêncio nos encarando, parecia que parte do meu sofrimento havia sido tirado com as nadadeiras.
— Está amanhecendo, você precisa ir se não vai morrer aqui dentro! — Thay gritou.
— Como assim? Eu morro se ficar até o amanhecer? — Perguntei me levantando da cadeira que eu havia sentado.
— Sim! O sol desintegra a mansão por completo, por isso ela só aparece de madrugada!
— Então no dia do solstício ela ficará o dia inteiro?
— Sim! Você precisa ir! Nos vemos de noite!
Antes que eu pudesse respondê-la, a estrutura começou a se desfazer, o crucifixo virou pó, e parecia que a destruição avançaria bem rápido até mim. Corri para fora o mais rápido que pude, caindo de cara na neve fofa.
Levantei-me ajeitando o chapéu e tirando a neve de minha roupa. Meu celular começou a receber mensagens freneticamente. Algumas eram de Marcus, Minkis e Juan, outras eram cobranças e uma em especial era de um número desconhecido, havia deixado recado:
— Mr. Wicked, favor comparecer no quartel general da EPF para depor, você tem as 17h para se apresentar.
Parecia que a minha teoria de que logo me culpariam por algo era real, mas pelo menos agora eu tinha uma amiga para desabafar, uma amiga incrível que surgiu como um anjo em minha vida, de novo.
Fale com o autor