Juan Hussie

Nós estávamos frente à frente. Eu do lado e esquerdo e ele do direito. Bem no meio daquela caverna. À nossa volta, estavam alguns pinguins encapuzados, Minkis, Thay e Greeny. E também as pessoas que tinham acabado de chegar, como o detetive, a Tia Arctic e Lina.

E, afinal, era apenas uma questão de tempo até praticamente todos da ilha chegarem ali. Pelo menos a proteção de Greeny envolvia o portal, então ninguém poderia ser jogado nele a menos que o feitiço acabasse.

Só eu e Dylan estávamos naquela proteção. A batalha era nossa e nada poderia interferir.

Eu comecei a sentir algo estranho desde que o portal tinha sido ligado. Era como se a gravidade ali estivesse sendo alterada, como se tudo estivesse sendo sugado para aquela fonte de energia. Ou, talvez, era apenas impressão minha. Porém, aquilo parecia estar aumentando cada vez mais.

— Uh, chefe... Você disse que caso algo assim acontecesse, nós deveríamos jogar os reféns na lava... Você quer que eu jogue as duas? — Um dos encapuzados em volta de Minkis e Thay perguntou.

— O quê? Não, não as jogue! Digo... A proteção provavelmente também está na lava, seria apenas um desperdício de tempo e elas iriam escapar — Dylan disse.

— Certo, sr. Brincadeira.

— Eu já te disse pra não me chamar assim — ele falou, com uma voz séria.

Foi nessa hora que comecei a ver pinguins encapuzados entrando pela porta principal. Pri, pri, pri... Eles foram entrando, trazendo um barulho irritante de um apito, que provavelmente era o aviso de suas pulseiras.

Logo depois, os pinguins normais da ilha foram entrando junto, sendo tragos pelos encapuzados.

Resolvi não prestar muita atenção nisso, e aproveitei o momento da rápida conversa dos dois para abrir a caixa com água e usá-la para derrubar Dylan no chão. Ele caiu, mas depois se levantou. Imaginei que ele estivesse desarmado, quando ele tirou uma luva de seu bolso e a colocou em sua nadadeira. Eu não sabia o que aquela luva fazia, e também não queria ficar ali parado para descobrir.

Quando ele se aproximou de mim e tentou me acertar com a luva, eu desviei, mas ele continuou correndo e demorou um pouco para conseguir parar totalmente e se virar para mim.

Aproveitei aquilo para jogar a água nele novamente. Ele caiu mais uma vez no chão e me xingou. Sem palavrões, é claro, pois não gostaria de receber um banimento do CP.

Depois, ele se levantou rapidamente e veio correndo até mim. Dessa vez, não consegui me desviar, então ele relou com a luva em mim, e foi aí que senti uma grande dor. Ele me dera um choque.

Senti todos os músculos em meu corpo vibrarem por alguns segundos que pareceram muito mais do que apenas segundos. Foi uma terrível dor, mas logo Dylan desencostou de mim. Eu percebi que, como ele estava molhado, também tinha levado o choque, afinal água conduz eletricidade.

Mas, nesse momento, caí no chão, após o ataque. Caí com tudo, naquele chão frio e duro, e senti minhas forças se esvaírem por alguns segundos. De que adiantava continuar? Tudo acabaria mesmo, de uma maneira ou outra. Eu estava cansado, com fome, talvez até doente.

E, então, um flash se passou por meus olhos.

Não sei o que aquilo significa, não entendo o motivo de ter acontecido, mas algo se passou, não sei o motivo.

Guerra.

Era a imagem de Dylan, ele estava de pé... Não consigo descrever, não consigo me lembrar muito bem dos detalhes.

Morte.

Uma caixa... Algo perverso...

Fome.

Algo indistinguível, provavelmente de um futuro distante. Plantas morrendo, frio, talvez?

Peste.

Vi os meus amigos, todos em volta de uns círculos. Eu não via o rosto deles, apenas o de Thay. Ele estava... diferente. Seus olhos... Vermelhos.

E, então, os flashes desapareceram e eu voltei para onde estava. Tudo foi em um segundo, e ainda tinha acabado de cair no chão enquanto Dylan andava para trás, tentando tirar a luva de sua nadadeira ao perceber que agora ela não seria mais útil.

Eu não tinha tempo de pensar no que tinha acabado de ver, e os detalhes se esvaíam em questão de segundos. Peguei a caixinha e a abri, tentando acertar Brincadeira. Ele desviou dessa vez, pois previu o movimento.

— Haha. Você seria um ótimo dobrador de água! — Ele disse.

Tentei acertá-lo mais vezes, no entanto, agora ele abaixou, correu, pulou, e não foi atingido nenhuma vez. Ou melhor, não iria ser atingido, porque eu estava quase conseguindo acertá-lo. Só precisaria de mais um segundo. Mais um segundo...

Mais...

Um...

Segundo...

Só que eu não tive esse segundo. A água acabou. Eu não podia imaginar que a caixa se esvaziaria tão rápido. Na verdade, percebi que tinha usando grande parte do estoque para ganhar um boost enquanto corria pela caverna.

Mas, agora, eu estava desarmado. Eu ainda poderia colocar outras coisas na caixa, mas não a água. Por isso, resolvi continuar segurando-a. Ela poderia guardar até uma pessoa dentro.

Para que nada de ruim acontecesse comigo, comecei a andar para trás, sem olhar onde pisava, e me concentrei em Dylan caso ele tentasse algo.

Sem perceber, continuei andando para trás, e agora era um movimento automático.

— Juan, não! — Dylan exclamou.

Mas eu não parei. Ele começou a correr até mim, e foi aí que me virei para correr, mas percebi que não tinha nenhum lugar para onde ir. A um passo de distância estava o poço de lava. Como não percebi o calor? Dylan estava me avisando sobre aquilo.

Ouvi, nesse momento, Thay dar um grito. A pressão do momento fez com que eu me desequilibrasse e começasse a cair. Então era assim que tudo terminava? Comecei a gritar, mas, antes que qualquer coisa acontecesse, Dylan segurou na minha nadadeira.

Ele tinha me salvado. Foi tudo muito rápido: eu acabei soltando a caixa mágica que eu segurava, e ela acabou caindo na lava. Quando vi, Dylan estava me puxando para terra firme. Olhei em seu rosto. Talvez ele não era tão psicopata quanto eu pensava? Agora eu o achava um pouco menos louco. Só um pouco.

No entanto, um segundo depois ele me jogou no chão, longe do poço de lava. Apesar de tudo, ainda éramos inimigos. Mas foi aí que comecei a me sentir mais leve. A gravidade podia estar ficando cada vez mais alterada.

E, ao alto, vi um brilho. Esse brilho começou bem no meio e foi formando uma cúpula em volta do lugar onde eu estava. Era o feitiço de Greeny. Agora ele estava visível a olhos pinguins.

Mas logo ele começou a desaparecer. Na verdade, o feitiço estava acabando.

E aí percebi que a gravidade realmente estava alterada, pois comecei a cair para o lado. Me lembrei de quando tinha caído para cima na dimensão das caixas, e pensei em como era uma péssima sensação.

Quando olhei para o lado, vi que a mesma coisa acontecia com Dylan. Ele estava sendo sugado. E todos em volta também. Os pinguins em volta se seguraram uns nos outros, se ajudando para que não caíssem.

Greeny se escondeu atrás de uma pedra, impedindo que a gravidade o levasse. Minkis, Thay e os pinguins encapuzados se seguraram no corrimão da plataforma onde estavam e tentaram ao máximo ficar ali. As duas pinguins, na verdade, começaram a andar lentamente contra a gravidade, segurando no corrimão, indo em direção à escada. O que estavam fazendo, eram loucas?

Eu me segurei em uma pedra pontuda perto de mim e percebi que estava a salvo por alguns segundos. Na verdade, todos estavam ao menos um pouco seguros, a não ser... Dylan.

Ele estava bem no meio, desprotegido, e parecia que iria ser sugado pela própria criação. E, nesse momento, me questionei se deveria ajuda-lo.

Eu não sabia ao certo o motivo daquele questionamento. Eu estava tentando ser bom? Ou apenas trouxa, confiando em um inimigo? Não, não era apenas aquilo... Aquela ilha... Ele seria livre lá, seria feliz. Ele não merecia algo assim, o que ele precisava era ser preso, de acordo com a lei!

Eu nunca soube ao certo o motivo de ter feito, isso, mas...

“Dylan!” Gritei. Ele olhou pra mim, enquanto estava agachado no chão. “Vem cá, segure na minha nadadeira!” Falei, esticando a nadadeira. Ele ouviu aquilo e começou a engatinhar para meu lado. Quando chegou perto, começou a esticar a nadadeira calmamente.

E, então, olhei para ele e um flash se passou em minha mente novamente. Estava escuro, pouca luz entrava por algum lugar do teto, e aquilo parecia um local vazio, a não ser por um pinguim bem no meio da luz. Dylan estava angustiado, confuso, gritando. E... Sua pele! Parecia estar coberta por um líquido preto, talvez petróleo. Um líquido estranho, não conseguia identificar qual.

Aquilo parecia tomar conta do corpo do pinguim, como se ele não pudesse controlar.

Guerra. Minha praga já foi jogada.

E, então, tudo voltou onde estava, Dylan ainda esticava sua nadadeira para mim. Eu ia segurá-la, quando...

O portal se intensificou. Eu comecei a ser puxado, mas continuei segurando na pedra. E, no caso de Dylan, ele foi totalmente sugado. Ouvi um último “Não!” gritando enquanto ele lentamente caía no portal e ia para um lugar desconhecido por todos. A Ilha do Club Penguin...

Mas, do jeito que as coisas estavam, eu seria o próximo. A gravidade cada vez me puxava mais. Eu não aguentaria segurar por muito tempo... Minhas nadadeiras estavam... Escorregando...

E soltei a pedra. Não consegui segurar. Aquilo provavelmente era meu fim.

E foi aí que Minkis me segurou. Ela segurou com força minha nadadeira, e, atrás dela, Thay a segurava, enquanto, com a outra nadadeira, abraçava uma pedra. Elas tinham vindo ali para me salvar.

— O que estão fazendo! Vocês vão ser sugadas junto! — Exclamei.

Olhei suas roupas... As duas usavam suéteres que pareciam ser feitos em casa, costurados... Eu nunca tinha os visto... Espera, Minkis tinha me contado sobre aquilo: os três tinham costurado enquanto estavam no iglu de Greeny, após eu ser capturado.

— Greeny, desligue! — Thay exclamou. É claro! O pinguim estava bem do lado da alavanca. Ele só precisava alcança-la. Eu não pude olhei para lá, mas, após alguns segundos, ouvi um barulho.

Pri!

O portal foi desativado. Senti a gravidade voltar ao normal e pude ficar em pé, no chão, normalmente. E, quando isso aconteceu, eu me joguei no chão de pedra e me deitei. Estava bem cansado.

— Ah, obrigado por ajudar, gente— falei, calmamente. Os pinguins em volta pareciam estar confusos, se ajudando, perguntando se todos estavam bem. Lina parecia ter desmaiado após ver Dylan cair no portal. Eu me perguntava o motivo. Os encapuzados não sabiam o que fazer sem comandos. Afinal, não ganhariam nada se ninguém fosse para a ICP.

Greeny, Thay e Minkis estavam perto de mim. Eu deveria estar feliz, mas...

—Vocês... costuraram suéteres? — Perguntei, olhando para suas roupas.

— Sim! — Thay disse. — Fizemos um para cada um de nós e um para você.

— Enquanto eu estava preso, junto com a ilha toda, vocês estavam costurando? — Perguntei, sem compreender.

— Nós... Sim, estávamos — Thay falou, novamente.

— Você queria que saíssemos no frio, sem proteção? — Greeny disse, em um tom de voz sarcástico não levando minha indignação a sério.

— Sério? E eu, que podia já estar morto? Eu também estava sem proteção, cada dia aqui seria mais um momento de risco — falei, argumentando.

— Você tá morto? Não! — Minkis falou.

— Além disso, vocês tinham outras roupas, não precisavam fazer novas — falei.

— Claro que temos, mas você acha que estávamos com elas nessa situação? — Thay argumentou.

— Mas você estava sem proteção dentro de uma caverna com crateras vulcânicas enquanto nós estávamos no topo de uma montanha, no meio de uma nevasca — Greeny disse, aumentando o tom de voz.

— Nevasca? — Perguntei, até me lembrar de um detalhe do que Minkis e Thay tinham me contado. “Ah, sim, elas disseram. Uma nevasca que vocês mesmos criaram, não?”

— Foi necessário! — Greeny exclamou.

— Veja o nosso lado, Juan! — Minkis disse.

— Necessário? Pra proteger seu precioso iglu? — Falei.

— Pra nos proteger! — Greeny exclamou, mais alto ainda. “E o iglu também.”

— Pra impedir os encapuzados de alcançarem a gente, também! São vários motivos! Thay disse, com bastante raiva.

— Na verdade, eu camuflei o iglu com magia. Eles não veriam o iglu, mas e depois? — Greeny disse.

— Pelo menos não fui eu que não desconfiei do ex, que tinha enormes chances de ser o vilão — Minkis disse.

— Espera, aquele doente era ex do Juan? — Greeny perguntou.

— Sim, mas isso é passado. Eu nem lembrava dele, poxa! — Gritei.

— Não me diga que quebrou as novas regras da Dua Lipa... — Disse Greeny.

— Não fui eu! Ele que quebrou me trazendo para cá — Respondi.

Um minuto de silêncio se passou. Apenas ouvi as vozes das pessoas em volta, conversando. Também percebi que algumas seguravam pipoca tiradas de sei lá onde e apenas assistiam a treta.

— Depois vocês falam que eu estou sempre do lado dele — Thay provocou, dessa vez com uma voz calma.

— Ai, Thay, ninguém tá dizendo isso agora — Greeny respondeu.

— É, isso é verdade — Minkis concordou com Greeny.

— Mas vocês já disseram que eu estou sempre o defendendo!

— Passado, Thay. Isso já passou, para com isso! — Dessa vez, Minkis gritou.

— Vai começar, anjo? — Thay disse.

— Você que começou... — Greeny sussurrou, do lado.

— Eu que devia perguntar isso, vai começar, anjo? — A pinguim estudiosa disse.

Mais um minuto de silêncio se passou.

— Ok, melhor eu não falar mais nada. Eu já sou estranha, né? Melhor não complicar — Thay reclamou.

— Você está complicando — Greeny cruzava suas nadadeiras. “Vocês gostam de brigar, não é mesmo?”

— Thay, para com esses dramas e esse jeito de complicar tudo! — Minkis mostrava raiva em seu rosto.

— Por que vocês não caíram no portal? — Greeny disse.

— Sério, Greeny? — Perguntei.

— Você não disse isso. — Minkis desviou a atenção de Thay para olhar no pinguim.

— Eu devia reabrir isso agora para pararem de me incomodar... — ele revirou os olhos.

— Na verdade, acho que eu devia me jogar lá, mesmo, pra não ter mais que te ver! — Exclamei.

— Verdade! Abre, aproveita e joga a gente lá, e nunca mais vai precisar nos ver! — Minkis exclamou.

— É o que eu mais queria — a bruxa disse. “Mas se eu usar mais uma vez essa varinha, coisas piores podem acontecer.”

Eu fiquei alguns segundos para processar aquela última frase.

— Coisas piores? Você está usando uma varinha que pode trazer consequências depois? — Perguntei. “Que falta de responsabilidade.”

— Era a única forma de salvar a ilha, garoto tosco. Você não sabe nem como essas coisas funcionam, devia ficar quieto. — Respondeu a bruxa.

— Salvar a ilha e trazer um problema futuro. Uau! — Minkis disse, com cinismo.

— Vocês são muito ingratos!

— Você não fez nada, Juan. Só piorou a situação. Seus sonhos não adiantaram de nada, só nos prejudicaram — Thay disse.

— Exatamente, tudo o que você fez foi ficar sentado e chorando por causa do namoradinho. Se a Dua Lipa souber disso... — o pinguim disse.

— Eu derrotei o Dylan, esqueceu? — Falei para Thay, ignorando a fala de Greeny.

— Não foi você, fui eu! Sem o meu portal ele continuaria aqui!

Nesse momento, perdi a paciência. Olhei em volta e vi que todos nos observavam.

— É... Então... Nós queríamos entrevistar vocês... — Tia Arctic disse. “Afinal, você que salvaram a ilha, não?”

Nós quatro olhamos para ela.

— Desculpa, Tia Arctic, mas não estamos em um bom momento — Minkis foi a primeira falar.

— É, não quero ser entrevistado agora não. E, se me dão licença, eu estou indo embora, não aguento mais! — Exclamei, me aproximando de Greeny e pegando uma das esferas de teleporte de seu bolso. “Tchau, seus pinguins gordos!” Gritei, antes de jogar o objeto no chão e sair dali rapidamente.

Apenas vi as caras bravas dos três antes de desaparecer instantaneamente daquele lugar.

***

Era noite. Pouco mais de onze horas. Gary tinha arrumado o relógio do Forte Nevado, e agora todos os relógios da ilha estavam certos e sincronizados. Eu finalmente sabia em que dia estava.

Na verdade, eu não conseguia acreditar que tudo aquilo tinha acabado bem no dia 24 de dezembro. Eu tinha saído daquela caverna e ainda estava de dia, o sol brilhava no céu. Então, resolvi ir para meu iglu.

Passei a tarde lá, arrumei os móveis novamente, afinal todos tinham sido arrastados um pouco para o lado pelo portal de Dylan, e, depois, me sentei no sofá.

Comecei a pensar sobre toda essa aventura. Uma incrível aventura, cheia de drama, romance e amizade, que tinha acabado em... Uma briga.

Aquele provavelmente seria o pior natal. Minha mente se enchia de pensamentos ruins.

Guerra. Minha praga já foi jogada.

O que será que aquilo significava? Será que era por isso que... Nós tínhamos brigado? Pensando naquele momento, aquela briga tinha sido totalmente inútil e sem sentido.

Eu precisava... De um tempo para mim.

Quando vi que era praticamente onze horas, resolvi sair de casa. Eu esperava não ver ninguém fora do meu iglu querendo me entrevistar e, por sorte, consegui ficar livre disso.

Andei pela ilha. Passei pela floresta, o lugar mais próximo do meu iglu. Observei as árvores... Aproveitei para checar a pedra que levava ao Lago Secreto. Como imaginava, quando a tirei de lá vi apenas um monte de pedras. Realmente, todas as passagens para lá tinham sido bloqueadas.

"Por que ele fez isso tudo?” Me perguntei. Pensei nos flashes que tinha visto enquanto lutava contra Dylan. “Ou será que tinha algo maior? Alguém que vai além da nossa imaginação e que nunca vimos no nosso plano de existência?”

Os pensamentos vinham a minha mente em uma enorme velocidade. Quando percebi, já estava no Centro. Aquela enorme área livre com as três principais construções da ilha: o Café, o Dance Club e a Loja de Presentes.

Não demorou muito até que eu chegasse ao ancoradouro. A ilha não estava muito cheia. Alguns pinguins por aqui, outros por ali... Parecia que tinham ligado todos os pisca-piscas. Era incrível como eles conseguiam simplesmente esquecer o que tinha acabado de acontecer!

— Ei, Juan! — Ouvi alguém me chamar. Era uma voz conhecida. Um pinguim roxo vinha em minha direção.

— Ah. Hey, Padans — falei. Era um dos pinguins que eu conhecera no subsolo. Eu apenas continuei com minhas nadadeiras nos bolsos da blusa de moletom enquanto ele acenava para mim.

— Então, tudo bem? Eu ouvi dizer que você e seus amigos salvaram a ilha! Eu sabia que você iria conseguir! — Ele disse, entusiasmado.

Eu fiquei quieto.

— Então... Feliz Natal! — O pinguim disse, quebrando o silêncio.

— É... Obrigado. Desculpa, não estou no humor — eu respondi, sem muita animação.

— Ah... Ok. Obrigado por salvar a ilha... — ele pareceu um pouco desanimado também, após isso. “Bom... Vou apenas te dar um abraço de feliz Natal!” Ele trouxe a animação de volta e me deu um abraço.

Eu apenas fiquei parado, surpreso. Não esperava por aquilo.

— Uh... Obrigado. A gente se vê por aí — falei, terminando a conversa. “Tchau, Padans.”

Ele se despediu também e eu comecei a andar em direção à Estação de Esqui. Queria chegar até a Montanha para ficar lá, sozinho, e observar a ilha.

Fui andando calmamente até o teleférico. Eu ia subir nele para chegar rapidamente no topo da geração geográfica, mas, pensando duas vezes, preferi subir pela escada. Fui calmamente, subindo degrau por degrau. Esperava estar sozinho lá em cima, quando vi que já tinha alguém descendo do teleférico.

— Minkis? O que você está fazendo aqui? — Perguntei.

— Ah, Juan! Poxa, não rouba o meu lugar de ficar sozinha! — Ela reclamou.

— Ei, eu cheguei aqui antes! — Exclamei.

Como não queria brigar mais, me virei e fiquei com os braços cruzados. Ela provavelmente tinha feito o mesmo. Ficamos alguns minutos daquele jeito, até que...

— Sério? Vocês aqui? — Thay dizia, enquanto terminava de subir os degraus de madeira.

Olhei para ela e fiz um resmungo, enquanto Minkis bufava.

Greeny logo chegou lá, teleportando, alguns segundos depois.

— O quê? Sério, vocês combinaram de vir aqui? — Ele perguntou.

— Ah, não acredito! Me dá um tempo! — Falei.

Eu já ia começar a gritar, quando ouvi um sino. Ele começou a bater, e aí fiquei em silêncio. Ninguém disse nada enquanto ele batia.

O sino deu doze toques. Meia-noite.

Olhamos para o céu. Uma aurora boreal começava a se formar. O vasto céu azul escuro, quase preto, agora começava a ser coberto por tons de verde que se espalhavam para todos os lados, formando curvas, parábolas, e ziguezagueavam por todo o céu.

Aquele céu era como um grande tecido azul, cheio de pequenos pontos brancos, as estrelas. E... A aurora boreal... Eram traços de tinta feitos com um grande pincel, colocados exatamente no lugar onde deveriam ficar, de um jeito que era impossível não se impressionar.

Naquele momento, todo o ódio parecia desaparecer de meu corpo. Eu não queria brigar, eu não queria ficar sozinho. Eu queria apenas... Me sentar. E foi o que eu fiz. Me sentei em um lugar ali, e meus três amigos fizeram a mesma coisa.

Aquilo era algo inexplicável. O Natal... Ele limpava todos os sentimentos ruins, de rancor, ódio... Eu não sabia como, mas sentia que meus amigos sentiam a mesma coisa.

Sim... Nós éramos amigos. E isso era o que sempre seríamos.

Não importava o que acontecesse ou onde estivéssemos...

Nós estaríamos juntos.

Eu não precisava falar nada, não precisava ouvir nada. Apenas aquela situação, apenas aquele céu brilhante já dizia tudo.

Estava tudo bem. E assim sempre estaria.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!