Juan Hussie

Após entrarmos no portal, tudo ficou escuro, um verdadeiro breu. Parecia que estávamos todos flutuando por um vasto túnel, e eu não sabia para onde aquilo levaria. Eu esperava que Greeny soubesse realmente o que estava fazendo.

Mas, logo, depois de algum tempo, comecei a sentir algo em meus pés. Eu estava de sapatos, mas percebi que o chão era algo até um pouco mole, não muito resistente. Algo como... Papelão.

E, depois de alguns segundos, minha visão se clareou. Percebi que estávamos em outro lugar, um lugar bem diferente do que eu sempre estive acostumado.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o céu: Ele ainda tinha nuvens por aqui ou ali, mas nenhum sinal de sol, lua ou outros planetas. E sua coloração era o mais estranho. O céu daquele lugar era inteiramente roxo. Olhei para todos os lados apreciando aquilo, e, para onde que que fosse que eu olhasse, era o mesmo tom de roxo.

E foi aí que eu percebi onde eu estava pisando. Era uma caixa! Uma caixa feita de papelão claro com um desenho de uma seta e a palavra “UP” escrita em verde. E, em volta dela, estavam várias outras caixas, todas uma do lado da outra, formando um chão para pisarmos. Esse chão não era muito grande e tinha um formato retangular.

Quando eu olhei em volta novamente, vi que tinham várias outras caixas flutuando por todos os lados. Algumas apenas ficavam balançando para cima e para baixo, enquanto outras ficavam girando e outras eram lançadas de um lado a outro. Então, resolvi olhar para uma das bordas do chão de caixas em que nós estávamos. E foi aí que vi que nós também estávamos flutuando no meio do ar. Lá, nas profundidades, eu apenas vi mais nuvens. Aquilo me deu um pouco de tontura, então eu me afastei e me agachei para evitar que eu caísse.

Parecia que naquela dimensão onde estávamos, a física não existia. Qualquer coisa era permitida e nada era explicável cientificamente.

Além disso, por mais que a maioria das caixas estivesse fechada, algumas em alguns cantos ainda se encontravam abertas. E estas tinham algo dentro soltando um brilho. Era como um tanto de água roxa que ficava girando de um lado a outro, se movendo e brilhando, e eu deduzi que fossem vários portais.

— Gente... Que lugar é esse? — Eu disse, enquanto me recuperava do susto que levara quando vi que estávamos flutuando no alto do nada.

— Sei lá, parece uma dimensão alternativa da ilha. Eu tenho a impressão de que já li sobre esse lugar, só não sei onde... — Minkis falou, observando o local, tão impressionada quanto eu. “Eu preciso escrever sobre isso em algum lugar! Por acaso alguém aí tem uma caneta?” Ela perguntou, enquanto corria até uma caixa e arrancava uma das faces dela para ter algo onde poderia escrever.

Eu consegui finalmente me acalmar um pouco e me levantar. Coloquei a nadadeira no bolso e peguei uma caneta, e logo a entreguei para Minkis.

Greeny parecia impressionado com o lugar, mas não tão surpreso, como se ele já tivesse estado ali antes. Thay estava encantada com aquele grande céu. Mas, quando eles me viram entregando a caneta para Minkis, olharam para mim e disseram ao mesmo tempo:

— De onde você tirou essa caneta?

Eu me impressionei com aquela sincronia. Eles também se impressionaram e ficaram olhando um para a cara do outro, surpresos. Mas o problema é que eu não podia explicar o motivo de estar com a caneta. A verdade é que eu tinha tido um outro sonho na noite anterior. Quando acordei, eu não lembrava de nada, mas, ao longo do dia, fui lembrando. E, por algum motivo, no sonho eu precisava muito de uma caneta em certo momento. Por isso, coloquei uma em meu bolso, só por precaução. Também tinham outras coisas que aconteciam no sonho, mas...

— Hein? De onde? — Thay repetiu. Eu percebi que estava hesitando.

— Ué... Eu sempre... Carrego uma caneta... — Menti, enquanto os encarava. Minkis apenas pegou a caneta e começou a escrever todos os detalhes que via no pedaço de papelão.

— Nunca soube. Ela é bem escondida, hein? —Thay comentou.

— Ok, ok, vamos parar de discutir sobre a caneta e falar sobre coisas sérias. Por que a gente ficou tão desesperado assim? Vocês fecharam a geladeira, né? — Greeny perguntou enquanto ajeitava o chapéu em sua cabeça.

— ...Eu não lembro de ter fechado. Minkis? Thay? — Falei.

— Eu fui a primeira a entrar, não tinha como! — Minkis se explicou.

— Eu não fui a última. Quem foi o último? — Thay perguntou, ansiosa.

— Não lembro. Acho que isso não importa agora. O que importa é que vamos ganhar tempo e o encapuzado nunca vai nos encontrar aqui. Certo? — Perguntei.

— Não, de nenhuma forma. A poeira deles é limitada, só podem se teletransportar dentro da ilha, e aqui não faz parte da ilha — Greeny explicou, deixando todos nós aliviados.

— Mas eles não podem entrar na cripta e achar o portal? Ou ele já se fechou? — Perguntei, só para ter certeza.

— É, quanto tempo durava esse portal? — Thay acrescentou.

— Eu o fechei com outra poção — Greeny disse. “O problema é que não tem como reabrir o portal por aqui. Estamos presos, porém protegidos. O ideal seria abrir um novo portal, porque os que têm nessas caixas são meio inúteis... Só temos um pequeno problema... Magia de sangue não funciona aqui, o máximo que podemos usar são poções.” Eu acompanhei o raciocínio de Greeny, olhando para as várias caixas abertas e imaginando para que lugares loucos elas poderiam levar. O único comentário que achei meio inútil foi ele dizer que magia própria não funcionava ali. Pelo que eu saiba, nenhum de nós é uma bruxa, né? Só usamos poções, mesmo.

— Espera, por sinal, a Lucy e a Lizzie vieram junto com a gente, né? Cadê elas? — Perguntei, me lembrando das duas pinguins invisíveis que encontramos na cripta.

— Eu não sei, não as vejo — Greeny falou.

— Lucy? Lizzie? — Minkis chamou.

— Luzzie? — Thay disse, juntando os nomes das duas para chama-las de uma vez só. Ou, talvez, Thay apenas shippava elas... “Eu ouvi as duas no portal...” Ela acrescentou.

— Estamos aqui. — Ouvi uma voz dizer à minha direita, a de Lucy. “E se vocês pensam que nós vamos confiar em vocês, estão enganados. Vocês simplesmente chegam no nosso iglu, invadem a nossa cripta e nos levam pra uma dimensão paralela doida. Vamos encontrar nosso caminho sozinhas! Quem sabe se vocês não são mesmo os encapuzados e estavam apenas mentindo? Quem sabe se aqui não é o lugar para onde vocês estão levando todos?”

— Exato! Não confiamos em vocês! — Lizzie disse.

— Ei, esperem! Nós não somos os... — Thay tentou falar, enquanto vimos uma caixa ali perto se abrir sozinha e revelar um dos portais roxos. Depois disso, ouvimos barulhos como se alguém tivesse passado pelo portal. “...encapuzados.”

— Mas... Ah, certo. Eu também não confiaria na gente se fosse elas — eu comentei.

— Ei, para onde os portais levam? — Thay perguntou a Greeny.

— Nem queira saber, tem cada coisa sem sentido dentro desses portais...

— Tipo o quê? Um mundo de doces? — Minkis perguntou, rindo, enquanto terminava de completar a primeira face do pedaço de papelão que pegara.

— Exatamente. — Greeny respondeu.

E, depois disso, ficamos em um minuto de silêncio.

— Gente, olhem aqui dentro! — Thay exclamou após andar um pouco pelo local e chegar até uma caixa. “Tem comida!”

Fiquei surpreso com a notícia e me preparei para correr até lá e ver também. Mas, nessa hora, percebi que foi a primeira vez que eu realmente iria andar pelas caixas. E foi uma sensação bem estranha. A cada passo que eu dava, a caixa onde eu estava balançava e eu quase perdia o equilíbrio. Quando eu passava de uma caixa a outra, esta abaixava um pouco ou se levantava. As leis de Newton realmente não estavam presentes ali. Foi um pouco difícil, mas depois de um pouco de prática, consegui andar normalmente e chegar até a caixa onde Thay vira a comida.

— Realmente, tem comida! E é bastante! Podemos levar para a ilha quando voltarmos! — Exclamei, após ver vários pedaços de pizzas, cookies, hambúrgueres e outras porcarias. Não era tão saudável, mas ao menos era comida.

— Pegue isso aqui! — Minkis me disse, chegando rapidamente ao meu lado e me entregando uma pequena caixa de papelão, um pouco maior que um cubo mágico. “Ela será bem útil. Você pode usá-la para colocar infinitas coisas dentro e ela não gastará espaço.”

— Wow, obrigado. Como você aprendeu tão rápido essas coisas desse lugar? — Perguntei enquanto pegava a caixa e me agachava para colocar a comida dentro.

— Eu sou bem inteligente, né. Sempre quis aprender mais e explorar as coisas, nunca ter medo da aprendizagem. — Ela explicou.

Eu terminei de colocar toda a comida, com a ajuda de Thay, e então me levantei, segurando a caixinha com bastante cuidado.

— Acabei de ter uma ideia! Como eu disse, magia de sangue não funciona, mas uma poção com ingredientes daqui funcionaria... Temos diversos lugares para procurar infinitos ingredientes! — Greeny sugeriu. “Minkis, você decorou alguma poção que abra portais de volta?” Ele perguntou.

— Acho que sim, acabei lendo sobre isso esses dias — Ela respondeu.

E, ao olhar novamente para a caixa onde estava a comida, me veio uma lembrança em mente. Eu senti que devia entrar em um daqueles portais que me levaria para uma dimensão de... Cream Soda. Era como um déjà vu. Como se eu já tivesse feito aquilo antes, mas não lembrava onde. Ah, é claro! Na verdade, eu lembrava sim! No sonho!

O mesmo sonho em que eu precisava da caneta, eu também precisava entrar em uma caixa que levava para o lugar de Cream Soda! Bom, de acordo com um dos meus últimos sonhos, parece que eles são visões... Será que eu realmente tenho sonhos reais? Não, deve ser apenas uma coincidência. Mas não custa tentar...

— Ei, gente. Acabei de me lembrar de uma coisa — Eu falei, sem pensar. Depois, fui me corrigir. “Quer dizer... Por acaso aqui tem uma caixa que nos leva para um lugar cheio de Cream Soda?”

— Pri — Thay disse, sem motivo algum.

— Por sinal, sim. Tem um portal que leva direto para um universo de Cream Soda! — Greeny falou, entusiasmado.

— Eu acho que a gente devia ir lá — falei.

— Thay, você poderia tentar encontrar. Já que sente quando algo vai dar errado, talvez sinta quando algo der certo... — Greeny sugeriu.

— Sim! Bem pensado! — Minkis exclamou.

— Ah, pode ser — Thay aceitou a sugestão.

A partir disso, começamos a andar pelo local, de um lado a outro, esperando Thay sentir algo. Na verdade, nós não queríamos nos afastar dessa ilha principal onde estávamos, mas do jeito que as coisas estavam, talvez teríamos que ir pulando para outros lugares. Aquilo poderia levar uma eternidade!

— Espera, estou sentindo. É... Aquela ali! — Thay exclamou, apontando para uma caixa aberta, de cabeça para baixo, flutuando acima de nós, em uma altura bem grande.

— Ah, como vamos chegar lá? — Minkis indagou. “Está alta demais!”

— Espera, já sei! — Exclamei, quando percebi algo que poderia ser a solução. “Quando eu comecei a tentar andar por aqui, percebi que as caixas ficam balançando enquanto andamos. Podemos tentar ir pulando e ter sorte de os pulos irem cada vez mais altos. O que acham?”

— Não custa tentar, certo? — Minkis disse.

Então, começamos a fazer isso. Nós quatro começamos a pular de um lado ao outro, de uma caixa a outra. Logo, percebemos que os pulos estavam ficando cada vez mais altos. Até parecia que nós estávamos nos perdendo da gravidade. E então, foi aí que eu dei um pulo muito mais alto. Porém, não alto o suficiente.

O pulo quase me levou para a caixa, mas, bem quando eu estava chegando, comecei a cair novamente. Eu comecei a gritar, desesperado, querendo me segurar em algo... Quando vi: Um tipo de placa flutuava um pouco abaixo de mim. Era uma placa com a mesma cor das caixas, mas com uma seta virada para baixo, pintada em verde. Quando me aproximei dela, eu tentei me segurar, mas, ao tocá-la, ela apenas virou de cabeça para baixo, deixando a seta para cima.

E foi aí que tudo mudou. Nesse momento, eu não parecia mais estar caindo. A minha queda parou de repente. Olhei para baixo e vi meus três amigos, também parados no ar. E então, depois de alguns segundos, voltamos a cair. Não para baixo, mas para cima.