Juan Hussie

Quando ouvimos as batidas na porta, todos congelaram no lugar que estavam. Nenhum de nós parecia querer abrir a porta para ver quem estava lá, pois estávamos todos muito apavorados. Cada suspiro, cada pensamento, cada segundo de silêncio parecia estar durando uma eternidade. A luz do iglu estava acesa, mas, após o que tínhamos acabado de ver, parecia que estávamos numa eterna escuridão.

E, depois de algum tempo, que não pude definir quanto, todos correram para se esconder. Na verdade, eu acho que não tinham se passado nem dez segundos. Greeny e Minkis se esconderam debaixo de uma mesa e se ocultaram pelo pano que se estendia por ela e ia até o chão. Thay e Lina correram até o sofá, o empurraram um pouco para frente e ficaram atrás dele. Quando vi que todos os meus amigos estavam escondidos, eu também corri até o primeiro lugar que pensei: o sofá onde estavam Thay e Lina. Me escondi atrás dele e me arrependi um pouco de ter escolhido lá, pois era um pouco apertado com nós três ali.

E um problema foi quando tentei ficar em uma posição e o sofá chegou um pouco para a frente, fazendo um barulho alto. Todos se viraram para mim com as nadadeiras em frente ao bico, dizendo “Shh!”, para eu não fazer mais barulhos. Tentei fazer um sinal para me desculpar quando ouvimos as batidas na porta novamente.

Nessa hora, ficamos todos completamente quietos, esperando que quem quer que estivesse ali fosse embora. Mas as batidas continuavam, cada vez mais fortes.

— Juan, vai verificar, você é o mais velho! —Thay disse baixinho, olhando para mim. Eu não queria ir, estava morrendo de medo.

— É... — Eu murmurei, enquanto decidia comigo mesmo se deveria ir ou não.

— Greeny, por que você não vai? — Ouvi a voz de Minkis vindo da mesa ao lado.

— Eu não, acho que o Juan devia ir mesmo! — Greeny sussurrou.

— Sim, ele é o mais velho! — Thay reafirmou, com uma voz bem baixa.

— Ok, pessoal, eu v... — Comecei a falar em voz baixa, quando fui interrompido.

— Shh! Parem de discutir! Podem deixar que eu vou. PC gamer — Lina disse, com coragem em seu rosto, e saiu engatinhando de trás do sofá. Depois se levantou, passou a nadadeira nas roupas para tirar um pouco de poeira que tinha grudado nela enquanto ela estava atrás do sofá, e foi andando até a porta. Eu fiquei observando pelo canto do sofá. Ela pôs a nadadeira na maçaneta, a girou e... Lá estava alguém. De primeira, não consegui distinguir o que era, mas logo vi que era um pinguim debaixo de um capuz marrom escuro, deixando visível apenas seu bico. Lina não pareceu assustada ao vê-lo, por mais que eu não estivesse vendo seu rosto.

— Garota, graças a Deus! Você viu o que acabou de acontecer ali no Centro? Estou tão feliz de ver alguém salvo! — O pinguim disse. Ele tinha uma voz meio rouca, como se tivesse gritado tanto que ficara sem voz.

— Não...— Thay disse, baixinho, ao meu lado. Ela parecia não estar muito bem, e estava com uma cara de quem estava com dor de cabeça. “Eu tenho um mal pressentimento sobre isso...”

— Ei, espera, quem é você? PC gamer — Lina perguntou ao pinguim.

— Eu estava no Centro, mas consegui escapar de... daquilo! Não sei exatamente o que era — ele explicou. “Por favor, deixe-me abrigar aqui! Estou desesperado e meu iglu fica muito longe! Fiquei muito feliz de ver esse iglu com a luz acesa, na esperança de encontrar alguém vivo!”

— Ah... PC gamer. — Lina parecia estar decidindo se deixava ele entrar, enquanto se virava para meu lado. Ela olhou em meu rosto e começou a dizer:

— É... Eu estou aqui com me...— Nesse momento eu quase dei um grito. Ela iria dizer que estávamos ali. Eu não confiaria em quase ninguém depois do que tinha acontecido, muito menos um estranho que nem seu nome tinha dito. O máximo que pude fazer foi um sinal de não com a cabeça. Lina pareceu confusa.

— ...Estou... sozinha! Sim, sozinha! Eu ia nesse evento e... acabei dormindo, e acordei agora com os gritos das pessoas! PC gamer — Fiquei um pouco aliviado quando ela não disse nada sobre nós. Eu me preparei para fazer algo caso o estranho tentasse alguma coisa suspeita.

— Oh... Ótimo.

E então, ele entrou no iglu, empurrando Lina, e, antes que eu pudesse tentar qualquer coisa, ele foi até o interruptor ao lado da porta e apagou a luz. Como meus olhos estavam acostumados com o claro, eu não consegui ver nada, e dessa maneira, não consegui sair de trás do sofá, pois poderia tropeçar. Eu queria ajudar, mas não sabia o que fazer. Estava muito nervoso, até suando.

E, quando meus olhos começaram a se acostumar com o escuro, eu vi apenas Minkis e Greeny em frente à porta aberta, sem Lina nem o refugiado.

— Pessoal! A Lina... desapareceu! — Foi o que eles disseram.

***

Como eu poderia saber? Foi só... um sonho! E eu tenho sonhos lúcidos o tempo todo! Sonhos são apenas misturas e fusões dos vários pensamentos e memórias que temos ao longo de nossa vida, mensagens do subconsciente. Como eu poderia saber que um dia eu teria algo assim, um sonho real?

Ah, eu devia ter contado, foi tudo culpa minha! Não, não, não foi! Como eu poderia saber?

Mas eu podia pelo menos ter tentado impedir...

Pensando bem, se eu tentasse impedir cada coisa ruim que acontecesse em meus sonhos, eu acabaria ficando louco. Pare de se culpar, Juan! O máximo que eu posso fazer a partir de agora é ficar atento para outras dessas “visões” nos meus sonh...

Meus pensamentos foram interrompidos por algo que vi na TV, ainda ligada. Já tinha se passado pelo menos meia hora desde o misterioso desaparecimento de Lina. Eu estava muito preocupado. Eu me sentei no sofá e comecei a pensar, enquanto Thay estava de cabeça baixa, sentada em uma cadeira, se segurando para não chorar. Greeny estava tão chocado que ainda não havia dito nada. Minkis estava do lado de Thay, tentando acalmá-la, mas também se segurando para não chorar, por mais que não demonstrasse tanto. Na verdade todos parecíamos muito calados. Nenhum de nós queria falar sobre o que tinha acontecido. Por quê? Talvez medo? Provavelmente.

“Está confirmado. Não encontramos nenhum policial restante na ilha. Parece que todos estavam no evento para protegê-lo, e todos desapareceram junto à maioria dos pinguins” dizia o repórter na TV. “Receamos que o causador do acontecido seja muito mais perigoso do que imaginamos. Pelo menos temos uma notícia boa.” Quando ouvimos falarem sobre a notícia boa, todos viramos nossas cabeças para a televisão, querendo ouvi-la.

— Foram encontradas pistas na cena do crime! Sim, pistas! — Agora a câmera apontava para o chão cheio de neve. Eles aproximaram, aproximaram mais e... nós vimos as pistas. Algum tipo de pó cinza, semelhante a fuligem. “Esse pó apareceu no chão após o ocorrido, e pode querer significar algo. Nosso detetive oficial está conosco para analisá-lo e descobrir para quê ele serve. Nós só precisamos de uma amost...” O repórter não terminou a frase, e nesse momento pareceu que a câmera estava caindo no chão. Após isso, vimos, pela televisão, o detetive correndo para um lugar cheio de árvores e desaparecendo em meio a elas. E, depois, uma nadadeira apareceu em frente à câmera e... a TV deu interferência.

Nós quatro parecíamos ainda mais chocados e assustados. Eu, pelo menos, estava biqueaberto.

— Vocês viram... O que eu vi? — Eu perguntei, sem tirar os olhos da tela, que fazia um ruído irritante agora.

— Eu não vi o que eu vi, vi? — Greeny indagou, colocando as duas nadadeiras em frente ao bico.

— Estamos condenados! — Thay disse, começando a chorar. “Eu disse que estava com um mau pressentimento! Não podíamos ter deixado a Lina ir ver quem estava batendo na porta!”

E, após alguns momentos de silêncio, a televisão começou a passar um desenho animado bobo para crianças de 5 anos sobre um puffle aventureiro, que precisa da nossa ajuda pra ver uma coisa que está na frente dele, ou seja, ele provavelmente é cego.

— Ah, não, ninguém merece! — Greeny disse, andando em direção à televisão e preparando para desliga-la.

— Não! — Eu corri até ele e dei um tapa em sua nadadeira, para impedi-lo.

— Ai! O que foi? — Ele perguntou.

— O cara que estava aqui pensa que não tem mais ninguém. Se nós acendermos a luz ou desligarmos a TV, ele pode perceber que algo mudou e desconfiar de nós! Vamos apenas... Tentar dormir, certo? — Eu sugeri.

E, nesse momento, Thay apontou para algo na janela. Olhamos para lá e vimos o pinguim encapuzado andando. E, então, todos corremos para nossos mesmos esconderijos de antes. Eu coloquei o meu capuz e tentei fazer o mínimo de silêncio possível.

Passaram-se dez minutos e ninguém ainda tinha saído de onde estava. Eu já não estava aguentando ficar naquela mesma posição, atrás do sofá.

— Ei, pessoal! Não tem como a gente ir pra um lugar melhor não? Algum lugar onde possamos nos esconder e pelo menos ficarmos confortáveis — Thay perguntou, com uma voz alta o suficiente para que todos nós ouvíssemos.

— Espera! Acabei de me lembrar! Tem sim! — Minkis comentou. “Aquele armário onde o Juan foi para pegar os enfeites hoje mais cedo. É perfeito!”

— Mas ele é grande o suficiente? — Greeny perguntou.

— É sim! — Minkis respondeu. “Apenas temos que chegar naquela porta!” Ela apontou para um lugar. Eu olhei para lá e reconheci o lugar onde eu tinha ido no dia anterior. Fomos de um em um e entramos lá.

De início, não vimos nada, mas Minkis encontrou uma lanterna e a acendeu. Era um lugar um pouco abafado, mas quentinho, o que era bom por estarmos quase no inverno. Só havia uma caixa ali, com poucos enfeites de natal que tinham sobrado.

— Gente, vamos só tentar dormir, ok? Amanhã a gente fala sobre o que aconteceu... — Thayla disse, virando-se para um canto. “Boa noite."

— Boa noite, gente — Greeny falou.

— Boa noite — Minkis disse.

Eu olhei todos se deitando em algum lugar e Minkis apagando sua lanterna. Então, cruzei meus braços e tentei me aquecer o máximo possível, sentado e encostado em uma das paredes do armário. Tentei pensar no que tinha acontecido em meu dia, algo que sempre faço antes de dormir. Mas o horror das imagens recentes estava em todos os meus pensamentos. Apenas tentei não pensar em nada, enquanto deitava minha cabeça em uma das paredes.

— Boa noite — Eu disse, adormecendo logo em seguida.

***

E, então, eu acordei. Uma pequena faixa de luz vinha do vão que ficava em baixo da porta. Já estava de manhã. Olhei em volta e não vi nenhum dos meus amigos. E então fiquei muito preocupado. Será que eles tinham sido levados enquanto eu dormia? Será que algo tinha acontecido? Eu me levantei rapidamente e abri a porta, ficando aliviado quando vi os três lá fora, comendo o café da manhã.

— Nossa, Juan, você finalmente saiu do armário! — Thay disse, não muito animada. "Nós três já acordamos há, tipo, uma hora.”

Eu olhei para ela, sem muita animação. Lina não estava lá. Tudo que acontecera tinha sido real.

— A Lina não está aqui. Então o que aconteceu ontem foi...? — Perguntei.

Os três fizeram que sim com a cabeça. Greeny mostrou um prato com cookies para mim e eu fui andando bem devagar até a mesa. Me sentei lá e comecei a mastigar os biscoitos com gotas de chocolate.

Nós começamos a conversar um pouco. Greeny começou a comentar teorias sobre o que tinha acontecido. Ele parecia ser o mais avançado na linha de pensamento, mas ainda não tínhamos quase nada a nosso favor. Nenhuma pista, nenhuma ajuda, nada.

Eu até pensei em contar algumas piadas para quebrar o clima sombrio, mas percebi que não era o momento. O pior era a minha mente criando piadas a todos os momentos, como se não estivéssemos passando por algo sério. Cara, eu odeio a minha mente.

Depois de comermos, fomos trocar de roupas.

Aquele dia estava bem calor, por incrível que parecesse. Minkis colocou uma camiseta cinza, um short jeans e pequenas botas pretas. Thay estava usando uma saia jeans com um moletom preto e um colar. Greeny usava um enorme chapéu com uma fita e um laço e um poncho preto com pelos na gola. Uma blusa cetim verde ficava por baixo do poncho.

Eu coloquei uma camiseta branca simples, uma calça jeans e um tênis preto, e também meu boné na cabeça virado para trás. E, é claro, não podia me esquecer do meu colar dourado com um Fluffy, que eu carregava para todos os lugares.

Passamos o dia tentando descobrir alguma pista sobre o que tava rolando. Minkis pegou pelo menos uns cinco livros e começou a procurar informações neles, junto a Greeny. Eu fiquei olhando pela janela para ver se algo suspeito acontecia, mas a ilha parecia totalmente vazia. Thay pegou seu celular e tentou ligar para as autoridades, para a Lina e até para o detetive que saiu correndo, mas não obteve nenhuma resposta. Ela ligou, é claro, em número anônimo. Ninguém podia saber que estávamos lá.

— Ei, gente — Greeny chamou. “Acabei de pensar em uma coisa. Sabe aquele pó que eles mostraram na TV? Nós podemos pegar um pouco para descobrir o que é.”

— É uma boa ideia, mas... A gente não pode sair lá fora, né? É perigoso — Thay disse.

— Mas eu acabei de pensar... Se o pó está relacionado com os sumiços... E a Lina sumiu aqui no iglu...

Ficamos todos surpresos. Era genial! Nós quatro corremos até a porta e observamos. Chegamos bem perto e...

— Sim! Aqui está! É o mesmo pó que estava no Centro! — Minkis exclamou, animada. Nossa primeira pista estava ali. Ela pegou um pouco do pó e o colocou em um potinho, o levando até a mesa para examiná-lo.

E, como eu estava cansado de apenas observar a janela, resolvi andar pelo iglu. Andei por todos os quartos, até chegar no de Lina. E, vi algo bem suspeito. Em cima da cama dela, estava um objeto.

Era azul marinho, e eu não conseguia distinguir de longe se era um objeto inanimado ou não. Então, quando cheguei perto, vi que era uma pequena lula. Parecia um brinquedo de uma, mas não parecia ser de plástico, madeira, metal, ou nenhum outro material usado para fazer brinquedos. E eu nunca tinha visto Lina andar com aquilo.

Eu cheguei perto e toquei a lula. E, quando fiz isso, senti uma aflição, e logo tirei a nadadeira de perto. O que é isso?

— Pessoal? — Eu chamei. “Acho melhor vocês verem isso aqui.”

***

E então, a noite chegou. Nenhum de nós conseguiu descobrir o mistério da lula na cama da Lina. Apenas colocamos ela em um potinho e deixamos ao lado do pó. Greeny e Minkis continuaram tentando descobrir o que era o pozinho cinza, mas ainda não tinham resultados.

Nós dormimos no armário, e, novamente, eu não tive nenhum sonho. Curioso, pensei.

E, no dia seguinte, as pesquisas continuaram. Eu e Thay agora começamos a tentar programar um rádio, para caso alguns pinguins tentem nos contatar. É bem improvável, mas não custa tentar.

Estávamos cada vez mais perto do Natal, e isso me preocupava. E, no meio da tarde daquele dia, finalmente conseguimos mais uma pista.

Greeny e Minkis finalmente tinham descoberto o que era o pozinho cinza e para que ele servia.