Em poucos minutos Chat Noir chegou à casa de Marinette. Ele não foi direto para a sacada. Decidiu olhar pela janela do quarto dela primeiro. Ela estava ajoelhada no chão, com a cabeça baixa, chorando. Mas o que estava acontecendo? Decidiu subir na sacada.

Tikki havia ido buscar lenços de papel para Marinette. Ao voltar para o quarto ouviu passos no andar de cima e se escondeu um segundo antes do alçapão se abrir.

— Marinette – Chat Noir a chamou e começou a descer as escadas para o quarto – Princesa?

Ela só percebeu sua presença quando ele abaixou-se e lhe acariciou os cabelos.

— Chat Noir? – Ela enxugou as lágrimas – O que faz aqui? Vai embora! – Ela gritou e deu-lhe as costas.

Aquilo doeu, mas ele não iria desistir

— O que houve princesa? Estou preocupado com você! Está chorando...

— Eu estou bem, não serei uma vítima de Hawk Moth, não se preocupe.

— Está na cara que você não está bem! – ele tentou se aproximar, mas ela se afastou mais – Por favor, princesa, me conte o que houve. Confie em mim... Seja lá o que for, quero te ajudar.

Ela virou-se pra ele. Os olhos verdes de gato a fitavam cheios de preocupação. Marinette lembrou-se que ele sempre estava com ela nos momentos mais difíceis, nas batalhas mais duras... Havia lutado ao lado dela na noite passada e a protegido como sempre fazia, se arriscando por ela! Sim, podia confiar nele... Era mais do que apenas um parceiro. Ele era seu amigo!

Chat Noir viu nos olhos de Marinette a batalha que travava consigo mesma e o exato momento em que se rendeu. Um segundo depois ela estava em seus braços. O choro incontrolável sacudia seus ombros. Ele acariciava os cabelos negros, enquanto ela soluçava com a cabeça no seu peito. Não saberia precisar por quanto tempo ficaram assim. Quando finalmente ela se acalmou um pouco, continuou com a cabeça apoiada nele.

— Está melhor princesa? – ele murmurou com carinho

Ela apenas balançou a cabeça afirmativamente. Olhou pra ele e o coração de Chat Noir parecia partir em vários pedaços ao olhar as íris azuis tomadas de um tom avermelhado do pranto que ela derramara. Ele lhe acariciou o rosto

— Quer falar sobre o assunto?

Ela sentia uma dor quase física e a imagem de Adrien e Chloé juntos era insuportável, mas precisava por para fora tudo aquilo ou iria enlouquecer! Olhou para Chat Noir e decidiu falar

— Eu... Amava uma pessoa... Ou... Ainda amo... Não sei mais – Ela começou ainda relutante

O coração dele falhou uma batida. Marinette amava alguém? Mas quem? Ele começou a sentir o aguilhão do ciúme em seu coração. Ela prosseguiu

— E hoje eu descobri que ele ama outra pessoa... Eu fui apenas uma idiota apaixonada e me enganei achando que poderia ser correspondida.

Ele a abraçou de novo. Iria matar o imbecil que havia magoado Marinette daquele jeito, pensou sombrio.

— Não diga que foi idiota! Ninguém escolhe quando ou por quem se apaixona...

— Eu fui idiota porque nunca disse a ele que o amava entende? Eu tinha medo, vergonha... Eu e esse meu jeito tímido e atrapalhado que só serve para me causar desgostos...

— Pare... Não se torture desse jeito.

Ela se soltou dos braços dele e Chat sentiu um vazio gigantesco sem ela. Marinette continuou

— Eu senti que poderia perdê-lo a qualquer momento se não falasse sobre meus sentimentos – Ela começou a andar pelo quarto devagar, como se falasse consigo mesma – E eu tentei dizer a ele muitas vezes... Mas nunca consegui. Até que... Agora eu o perdi... – os olhos começaram a marejar novamente.

Ele queria fazer alguma coisa para apagar aquela dor nos olhos azuis.

— Seria tão simples Chat! – ela falou com a voz embargada – Eu poderia te-lo chamado para sair! Eu poderia dizer... “Vamos ao cinema!” Ou “Vamos tomar um sorvete!” "Eu te amo Adrien! Mas não... Simplesmente meu cérebro não me obedece quando estou perto dele...

Chat Noir sentiu o ar lhe faltar. Suas mãos tremeram e ele cerrou os punhos

— C-como... v-você... Disse que ele se chama? – Perguntou com a voz trêmula

Marinette estava tão absorta em seus pensamentos que nem percebeu a repentina mudança no gatuno.

— Ele se chama Adrien... Agreste. É da minha sala no colégio Françoise Dupon. Talvez você o conheça. Ele é o modelo famoso, filho do designer de moda Gabriel Agreste – Ela suspirou e só então olhou para ele – Chat você está bem?

Mil coisas passavam pela mente de Chat Noir naquele momento. Marinette o amava? Isso era incrível, mas como ele havia lhe causado toda aquela dor? E quem era a outra garota que ela achava que ele amava? Seria Lady Bug? Que confusão era aquela!

— Estou bem, apenas... Um pouco cansado... Mas o que exatamente aconteceu para você pensar que ele ama outra pessoa?

Ela sentou-se na cama esgotada. Olhou para o teto e contou

— Após o término da aula de hoje eu voltei na minha sala para buscar um livro que havia esquecido na mesa... Quando eu cheguei lá... eu o vi beijando a outra garota — as lágrimas voltaram a escorrer livremente pelo seu rosto com aquela lembrança.

Chat Noir fechou os olhos. Agora entendia tudo. Nem passou pela sua cabeça que alguém poderia ter visto aquela cena bizarra.
Ele foi até Marinette e ajoelhou-se na sua frente, limpando as lágrimas do rosto dela com seu polegar

— Tem certeza que não foi um engano? Um... Mal entendido... Você falou com o... Tal de Adrien?

Ela fitou as íris verdes e novamente Chat Noir sentiu como se tivesse levado um soco no estômago ao ver a dor nos olhos dela.

— Quando vi os dois, foi tudo muito rápido, eu apenas queria sair dali... Corri para o banheiro, mas a Chloé, a tal garota, me encontrou lá e me disse um monte de coisas... – Ela fechou os olhos com a dor daquela lembrança – Disse que eles estavam juntos há muito tempo, que ele havia se aproximado de mim apenas por causa de um projeto da escola e que o Adrien, sendo quem é, jamais amaria alguém como eu.

— Ela... O que? E você acreditou em tudo isso? – Ele estava perplexo com a maldade nas palavras de Chloe

— Bom... Eu havia visto o beijo... O que mais poderia pensar!

— Mari...

— Por favor Chat, não me chame assim... – Ela abaixou a cabeça e mais algumas lágrimas rolaram pela sua face. Ele entendeu que aquele apelido a fazia se lembrar da sua outra metade, que a havia magoado profundamente. Ele se sentiu a pior pessoa do planeta. Segurou o queixo dela e levantou delicadamente até que seus olhos se encontrassem.

— Eu sinto muito! Sinto muito mesmo!

Ela o abraçou e mais uma vez ele sentiu seu coração se despedaçar.

— Chat, você pode ficar aqui comigo só mais um pouco? — Ela lançou-lhe um olhar suplicante

Ele lhe acariciou os cabelos

— Ficarei o tempo que você precisar.

Ela suspirou confortada por aquele abraço carinhoso

— Obrigada.

Ele se sentou na cama ao lado dela e fez com que ela deitasse a cabeça no seu colo. Continuou lhe acariciando os cabelos.

Só então ele começou a analisar o quarto de Marinette. Era a cara dela. Cor de rosa, cheio de coisinhas delicadas e fofas. Material de costura, cadernos de desenho, os materiais da escola.
O olhar de Chat começou a passear pelas paredes do ambiente. Viu um pôster do seu cantor de rock preferido Jagged Stone... E então ele viu as fotos. As fotos dele! Haviam várias delas espalhadas pelo quarto. Capas de revista, recortes e um porta retrato. Olhou para o computador dela e o descanso de tela também era uma montagem de fotos dele.

Chat Noir engoliu seco. Ela realmente o amava. Como pode ter sido tão cego para não notar?

— Desde quando... Você ama esse... Tal de Agreste?

Ela pensou um pouco naquela pergunta e bastou alguns momentos para concluir:

— Desde a primeira vez que eu o vi... Talvez não no primeiro momento, mas... Desde o dia em que o conheci minha vida nunca mais foi a mesma. Ele é... Tudo que qualquer garota poderia sonhar... Bonito, inteligente, doce, gentil... Para mim ele era perfeito.

— Não existe ninguém perfeito princesa... – Chat murmurou

— Agora eu sei.– ela sorriu sem humor – acabo de aprender a duras penas

Chat ainda ficou com ela mais alguns minutos, olhou pela janela e viu que já estava escuro lá fora. Precisava voltar para casa antes que sentissem sua falta. Pela respiração de Marinette percebeu que ela havia dormido em seu colo.

Ele a ajeitou na cama e a cobriu com o lençol. Queria ficar ali, velando-lhe o sono a noite toda, cuidando dela... Acariciou a bochecha rosada e beijou-lhe a fronte. Ele achou que sair pela janela faria menos barulho e foi o que fez. Lançou um último olhar para a cama onde ela dormia profundamente, exausta pelo choro, saiu em silêncio.

***

A calmaria na mansão Agreste contrastava com a fúria da tempestade que estava dentro de si. Adrien entrou pela porta da frente após se destransformar em um beco.

— Divertiu-se no cinema? – Nathalie apareceu provocando-lhe um sobressalto

— Hã... Sim, foi bom – mentiu

— Está com fome?

— Não... Quer dizer... Acho que um pedaço de camembert cairia bem

— Vou pedir para levarem no seu quarto

— Obrigado Nathalie.

Ele entrou no enorme quarto e Plagg logo saiu do bolso do seu casaco se jogando na cama. O kuami não falou nada. Já tinha vivido bastante para saber que em momentos como aquele que Adrien estava vivendo a melhor companhia era o silencio.

Adrien abriu a porta para receber o camembert, entregou a Plagg sem uma palavra e dirigiu-se ao banheiro.

Ele ligou o chuveiro e deixou a água quente cair sobre si. Apoiou os braços na parede, havia alguns hematomas ali, mas ele não deu importância. Fechou os olhos e a imagem de Marinette chorando invadiu a sua mente... Droga! Ele socou a parede. Como pode ser tão idiota? Havia conseguido ferir a pessoa mais meiga e doce que conhecia. Ele se sentia um verme. Mesmo não tendo realmente beijado a Chloe ainda assim sentia-se culpado por um monte de coisas... Porque não havia sido totalmente sincero com Marinette sobre seus sentimentos, ele a beijara porque estava louco para fazê-lo e não pensou em como ela se sentiria. Marinette com certeza estava pensando que ele era um canalha!
Saiu do banheiro e jogou-se na cama ao lado do kuami que parecia já ter apagado. Adrien duvidava que conseguisse dormir... Tentava encontrar uma saída para aquela situação terrível que estava vivendo.
Mari... Será que não haveria como consertar seu erro? Como poderia reconquistar seu amor? Ou pelo menos sua amizade...
Horas depois ele dormiu, vencido pelo cansaço.

***

No dia seguinte foi a vez de Adrien chegar atrasado à escola. Entrou na sala e tomou o primeiro baque daquele dia. Marinette não estava sentada onde deveria estar... Não estava em lugar nenhum. Havia faltado de aula? Tentou perguntar para Alya, mas a ruiva lançou-lhe um olhar gelado que fez até sua espinha congelar. Com certeza já deveria ter conversado com Marinette, pensou desanimado.

Nino também parecia uma estátua do seu lado, mal o cumprimentara. Droga, seus melhores amigos pelo visto sequer lhe deram o benefício da dúvida. Havia sido julgado e condenado!

A única pessoa que sorriu para ele naquela manhã por ironia era a única que ele preferiria nem ver.

— Bom dia querido... – Chloé sussurrou acenando pra ele de sua mesa

Andrien não se dignou a olhar para a loira, ignorando-a completamente.

Definitivamente não conseguia se concentrar nos estudos, Adrien passou as mãos pelos fios loiros frustrado. O resultado da noite mal dormida já era visível em seus olhos e na sua concentração.

Nino o observava preocupado, mas evitou fazer qualquer comentário, pois a ruiva atrás de si com certeza o mataria.

No intervalo entre as aulas Adrien saiu sozinho da sala. Ao passar pelo corredor foi puxado pela camisa.

— Nino! Quer me matar de susto?

— Se a Alya me ver conversar com você arranca meu couro. Ela está furiosa cara!

Adrien ia começar a falar, mas lembrou-se que não podia revelar que ele sabia de tudo, afinal quem visitara Marinette havia sido o Chat Noir e não ele.

— Mas afinal de contas o que está acontecendo Nino? Cadê a Mari?

— Cara, a Mari viu você aos beijos com a Chloé ontem! Que vacilo mano! Porque você não me contou que estava namorando a Chloé?

— Que? Eu não estou namorando a Chloé Nino...

— Cara, mas você a beijou e a Marinette viu tudo! Você não pensou que iria magoá-la? Ela estava totalmente apaixonada por você...

— Você sabia disso? Porque não me contou?

— Pirou mano? Como eu iria te contar uma coisa dessas? Jamais trairia a confiança de uma amiga...

— Não conseguiu ficar longe do amiguinho não é Nino?

Adrien e Nino viraram-se e viram Alya encarando-os de braços cruzados

— Alya eu só queria... – Nino tentava explicar, mas Adrien o interrompeu

— Alya fui eu quem o procurei – mentiu – Agora, por favor, me diz como a Marinette está.

— Eu não quero nem mesmo olhar pra você filhinho de papai, quanto mais falar! – Ela deu-lhe as costas

Adrien empalideceu. Perderia seus melhores amigos e aquilo o devastava.

— Alya, por favor, me escute! – pediu

— Escutar...? Eu ainda tenho o som do choro da minha melhor amiga nos meus ouvidos garoto, por sua culpa! É só o que ficou martelando em minha cabeça nas últimas horas.

— Eu... Sinto muito – Ele não sabia mais o que dizer

Alya virou-se abruptamente e ficou cara a cara com o loiro

— Sente muito? Você a destruiu! Eu nunca a vi daquele jeito! Estava devastada... Como você pôde Adrien? Você a iludiu de todas as maneiras... Ela o achava perfeito, idolatrava você, ela te amava! – As lágrimas inundaram os olhos da ruiva e Nino tocou seu braço

— Pega leve Alya...

Cada palavra que ela dizia era como um tapa na face de Adrien. Ele perdeu ainda mais a cor se é que era possível e os olhos não tinham mais nenhum brilho. Mas ele engoliu aquela dor e começou a falar

— Eu... Sei que fui um idiota por não... Enxergar o amor dela... Eu também estava confuso com meus próprios sentimentos em relação à Mari...

— Porque você a beijou na exposição? Queria apenas saber como seria? Ou estava enjoado da loirinha? – A ruiva perguntou sarcástica

Adrien balançou a cabeça negativamente

— Alya, acredite em mim. Eu não tenho nada com a Chloé!

Alya riu sem humor

— Sério? Imagina se tivesse!

Adrien a segurou pelos ombros firmemente e olhou nos olhos da ruiva

— Eu não beijei a Chloé, ela me beijou, armou toda a situação para ferir a Mari. Pelo visto todos nesta escola sabiam o que ela sentia por mim, menos eu... — respirou fundo — Eu nunca namorei e não tenho a intenção de namorar a Chloé, jamais, entendeu?

Apesar de toda a raiva que estava sentindo, Alya conseguiu perceber a sinceridade nos olhos do loiro. Ele era modelo e não ator. Seria muito difícil fingir toda a dor que estava vendo nos seus olhos. Ela suspirou.

— Eu não sei ainda se acredito mesmo em você Adrien... E eu vou saber a verdade dessa história de qualquer maneira... Mas se você estiver mentindo, entre na fila daqueles que vão se ver comigo! Você está logo atrás da Chloé Borgeois.

— Não estou mentindo Alya... Por favor, você tem notícias da Mari?

Alya ainda resistiu alguns segundos para finalmente lhe contar

— Eu tentei falar com ela ontem a tarde inteira depois do... Episódio. Ela não atendeu o celular. Fiquei desesperada, mas não pude ir a casa dela porque tive que ficar com meus irmãos – ela se lembrou de como ficou preocupada que algo grave tivesse acontecido com sua melhor amiga – Ela só retornou minhas ligações tarde da noite. Começou a me contar toda a história... Ela chorou muito, se sentia péssima, sentia-se... Culpada! Ela achava que se tivesse lhe dito o que sentia antes poderia ter evitado tudo isso. Depois que ela se acalmou me disse que iria dormir e que provavelmente não apareceria na escola hoje. Precisava pensar... E reunir coragem para conseguir voltar à escola e te encarar outra vez.

— Meu Deus! – Adrien suspirou – Preciso conversar com ela. Explicar o que aconteceu...

— Ela não vai acreditar Adrien... Mesmo que tudo tenha sido uma armação daquela víbora, ela viu vocês. – Alya lembrou-se das palavras que Marinette havia lhe dito ao telefone — Ela nunca vai esquecer o que viu.

***