Miraculous - Amor Revelado
25 Percepções e consolo
No dia seguinte, Marinette acordou cedo. Estava cansada pela noite mal dormida, porém achou difícil continuar a dormir com a mente povoada por pensamentos sobre tudo o que acontecera no dia anterior. Tantas coisas para pensar e decisões para tomar consumiam sua energia e ao mesmo tempo a mantinham em um estado de ansiedade inevitável.
Arrumou-se para ir à escola e desceu para tomar café. Tikki já estava bem acomodada dentro de sua bolsinha.
— Bom dia mãe.
Sabine deu-lhe um beijo na bochecha
— Bom dia filha! Dormiu bem?
— Mais ou menos...
— Está ansiosa com o baile?
Com tudo que acontecera Marinette nem estava pensando no baile. Lembrou-se que ainda tinha um último ensaio com Adrien naquela tarde. Seu coração já começava a acelerar só em pensar nisso.
— Deve ser isso mesmo mãe... – mentiu desviando o olhar dos sagazes olhos maternos
Sabine percebeu que não se tratava apenas de ansiedade para o baile. Marinette estava com um semblante preocupado, incomum para uma garota da sua idade. Ela havia acordado cedo, e isso no caso de sua filha era preocupante, pois significava que ela não dormira bem.
Sentou-se ao lado dela na mesa, servindo-lhe uma xícara de chocolate quente.
— Você me parece preocupada com mais alguma coisa além do baile.
Marinette olhou para sua mãe e pensou em como ela sabia que algo a estava incomodando... Ela parecia saber de tudo. Aos olhos da garota, sua mãe tinha respostas para todos os problemas do universo. Era uma pena não poder contar-lhe tudo que se passava em seu coração e seus dilemas como heroína de Paris, mas talvez pudesse pedir algum conselho.
— Mãe, como podemos saber se estamos tomando a decisão certa sobre algo importante?
Sabine refletiu na pergunta da filha.
— Bom, a nossa vida é feita de escolhas minha querida e cada uma delas traz uma conseqüência. Creio que sempre devemos pensar no resultado de nossas decisões antes de tomá-las, mesmo assim, não há garantias de acerto.
Marinette assentiu, mas Sabine percebeu que ela ainda estava apreensiva
— O mais importante é tentar corrigir nossos erros e aprender com eles filha, com a humildade de entender que somos apenas humanos e estamos longe da perfeição.
A garota sorriu. Era verdade. Ela era uma heroína com poderes mágicos, mas ainda era humana.
— Tem razão mãe! Você sabe de tudo, obrigada!
Sabine achou graça
— Eu não sei tudo, mas minha experiência de vida ajuda um pouco. Eu já tomei muitas decisões erradas que me fizeram arrepender... Mas também aprendi muito com meus próprios erros.
Mariente levantou-se mais animada. Abraçou a mãe e deu-lhe um beijo
— Você é a melhor, mãe. Até mais tarde!
— Não se esqueça de buscar o vestido na costureira heim!
Marinette bateu com a mão na testa
— Nossa, tinha me esquecido. Obrigada por me lembrar, tchau mãe!
— Tchau querida!
Marinette passou pela padaria e pegou seu lanche com seu pai, além de cookies para Tikki.
— Obrigada papai. Tenha um bom dia!
— Você também meu amor!
Marinette saiu para as ruas de Paris e sentiu o vento frio fustigar-lhe o rosto. Ajeitou mais ainda o casaco de lã rosa em seu corpo. Foi caminhando até a escola o que lhe deu mais tempo para pensar. Há um ano ela havia aceitado a missão de proteger Paris. Ela amava ser Lady Bug, mesmo com todas as exigências daquela vida dupla. Esforçava-se para cumprir todos os seus compromissos e tinha plena consciência de suas responsabilidades, mas como pôde perceber pelos fatos recentes, ainda tinha muito que aprender.
Reconhecia a veracidade das palavras de Mestre Fu sobre si mesma. Ela não se sentia segura como Marinette. Sempre se sentira tímida, fraca e desajeitada. Era certo que algumas coisas estavam mudando aos poucos, porém o processo era lento e dentro de si ainda carregava muitas dúvidas e inseguranças. Ela gostava de ajudar os outros. Faria o que estivesse a seu alcance para proteger e auxiliar quem quer que fosse, mas quando se tratava de si mesma, era um desastre! Prova disso era seu relacionamento com Adrien Agreste. Um ano amando o modelo em silêncio, tentando se aproximar, usando das formas mais patéticas e absurdas para ganhar um olhar, um sorriso... Até que em algum momento recebeu atenção e viveu seu sonho colorido por alguns dias... Mas o sonho acabou, levando consigo suas esperanças.
Mais um fracasso como Marinette! E enquanto seu conflito pessoal se desenrolava, seus poderes enfraqueciam, até chegar ao ponto de colocar seu parceiro em risco. Falhara como heroína também...
Sentia-se culpada por permitir que sua vida pessoal interferisse em sua atuação como combatente do mal, porém aquilo a tinha ensinado algo importante: Ela era Marinette, com suas falhas e dificuldades, mas também sabia possuir a coragem, ousadia e força, características de Lady Bug que havia em algum lugar dentro de si e que apenas se manifestava com mais intensidade quando estava de uniforme.
Sua máscara vinha acompanhada de uma boa dose de autoconfiança, concluiu. Só precisava trazer um pouco disso para sua vida civil.
Ela chegou à escola alguns minutos antes do início da primeira aula. Alya e Nino conversavam do lado de fora da sala.
— Bom dia! – cumprimentou os amigos com um sorriso
— Bom dia sumida! – Alya a abraçou – Você desapareceu ontem e nem sequer atendeu o celular! – A ruiva fez um bico de chateação que fez Nino e Marinette soltarem uma gargalhada
— Nossa Alya, você é tão dramática às vezes! – Marinette suspirou. Iria mentir mais uma vez – Eu precisei ajudar meus pais com uma encomenda grande para o hotel Le Grand e quase não tive tempo para nada.
— Sei... Engraçado é que o Adrien também tomou um chá de sumiço após o primeiro período de aula. Isso depois de ter chegado atrasado de uma sessão de fotos impossível de ser remanejada...
— O senhor Agreste deveria te contratar para ser a secretária dele, já que você está tão bem informada sobre os passos do Adrien – Nino disparou com ironia
— Como que é garoto? Isso foi uma piadinha?
Marinette riu quando os dois começaram a discutir. Alya era uma tonta em não notar o quanto Nino gostava dela. O comentário ciumento do moreno com relação a Adrien provava isso.
Enquanto eles ainda trocavam farpas entre si, Marinette viu o modelo chegar. Seu coração sempre disparava quando o via e seu estômago se contorcia. Será que isso nunca iria passar?
— Bom dia! – Ele parecia cansado. Olhando mais de perto Marinette notou os cabelos loiros um pouco mais desalinhados do que o normal e algumas leves sombras ao redor dos olhos. Pensou ter visto uma expressão de tristeza no olhar de esmeralda, o que despedaçou seu coração. Ficou imaginando o que teria acontecido. Será que também havia tido uma noite ruim?
— Bom dia Adrien! – Nino e Alya disseram juntos ainda de cara amarrada um para o outro.
Marinette respirou fundo. Não iria gaguejar, era uma questão de honra!
— Bom dia Adrien...
— Está tudo bem cara? Você parece cansado! – Nino perguntou com a mão no ombro do amigo em um gesto de apoio.
— Hã... sim, tudo bem. É só que... com essa semana de provas e muitas sessões de fotos... a rotina está ficando mais cansativa que o normal. – Ele coçou a nuca e um sorriso fraco surgiu em seus lábios, um gesto que Marinette conhecia. Ele fazia isso quando estava sem graça.
Eles ouviram o sinal tocar para o início das aulas e entraram na sala.
***
O período de aula passou devagar. Estavam fazendo as provas finais e Adrien precisou se esforçar para se concentrar dessa vez.
Sua noite fora péssima, recheada de pesadelos, resquícios do ataque que sofrera de Governant.
O dia anterior havia sido muito exaustivo. Ainda tinha calafrios quando se lembrava que por pouco não havia morrido. Se não fosse Lady Bug... E depois de tudo, ainda teve que encarar sua vida civil pra lá de complicada. Ficara tempo demais fora de casa e correra um enorme risco de seu pai descobrir que não estava na mansão e mandar a guarda nacional procurá-lo por toda cidade. Sua sorte fora que naquela tarde Gabriel havia recebido uma ligação importante do escritório que o obrigara a sair para uma reunião as pressas e Nathalie ficara tão ocupada com o restante das obrigações relativas à mansão que só entrara em seu quarto depois que ele havia chegado da casa de Mestre Fu.
Pena que sua tranqüilidade durara pouco. Naquela manhã o pai o havia procurado em seu quarto. Sua face estava transtornada.
Adrien estremeceu ao lembrar-se da conversa
— Bom dia Adrien! Preciso falar seriamente com você.
O rosto de Gabriel estava duro como se tivesse sido esculpido em uma rocha. Os olhos frios fizeram Adrien se encolher. Ele odiava sentir-se assim com seu próprio pai.
— Bom dia pai. O que houve?
— Você pegou alguma coisa em meu escritório? Mais precisamente um livro grosso, de capa marron, um livro antigo...
Adrien sentiu o sangue esvair-se da sua face, mas esforçou-se por se manter firme quando respondeu
— Não vi livro nenhum pai. Do que se trata?
— Não é da sua conta! — Essa resposta lhe soara como uma bofetada. Gabriel continuou implacável – Não está mentindo para mim não é Adrien?
— Não. Eu não peguei seu precioso livro e pouco me importo com ele.
Gabriel avançou e segurou seus ombros com força. Pela primeira vez Adrien pensou que o pai iria lhe agredir. Seus olhos eram de uma fúria impressionante
— Se eu descobrir que você pegou esse livro... Eu não respondo por mim! – Sacudiu-lhe os ombros com violência.
Diante do olhar perplexo do filho, Gabriel percebeu que havia perdido a compostura. Endireitou-se, soltando-lhe os ombros e em seus olhos também havia uma expressão incrédula. Como se não acreditasse no que acabara de fazer.
— Me desculpe Adrien... eu...
Adrien o olhou com um misto de raiva e tristeza
— Não precisa se desculpar. Eu já sei que para você qualquer coisa é mais importante do que eu. Agora preciso ir. Estou atrasado para a escola.
Adrien saira do quarto deixando para trás um Gabriel totalmente sem reação.
— Adrien... Adrien!
Ele ouviu a voz da professora lhe chamar trazendo-o de volta ao presente.
— Sim Srta. Bustier... me desculpe.
— Você ainda não terminou a prova? — a expressão dela era um misto de surpresa e preocupação.
Adrien olhou em volta e só então percebeu que todos os alunos já haviam saído, exceto ele e Marinette. Ele já tinha terminado, mas acabou se deixando levar pelas lembranças daquela manhã fatídica.
— Eu... Terminei sim. Só preciso assinar...
Percebeu que Marinette se levantou, passou a seu lado entregando a prova para a professora. Ele também entregou a dele e os dois saíram juntos da sala.
— Adrien você está bem?
Marinette tocou-lhe o ombro, fitando-o com aqueles imensos olhos azuis brilhantes cheios de preocupação.
Ele suspirou. Ela estava linda naquela manhã, apesar de parecer tão cansada quanto ele.
— Estou sim Mari, só preciso descansar um pouco. Eu vou para casa almoçar e tentar dormir. Nos encontramos as três aqui na escola para nosso último ensaio certo?
— Tem certeza Adrien? Se quiser, podemos cancelar...
— De jeito nenhum! Eu quero fazer esse último ensaio com você. – Ele pegou na mão de Marinette e desceram juntos a escadaria da escola. O gorila já o esperava na calçada.
— Até mais tarde Mari – beijou-lhe a bochecha
Ela fechou os olhos. Deus, como amava esse garoto!
— Até...
***
Adrien chegou mais cedo ao colégio. Ele almoçara sozinho como de costume, mas dessa vez não se importou. Não queria encontrar-se com o pai tão cedo. Havia tentado dormir um pouco, mas era impossível, então decidiu voltar para a escola onde sentia-se melhor do que em sua própria casa.
Foi obrigado a ouvir as reclamações de Plagg que queria ficar assistindo televisão, mas aplacou a ira de seu kuami com uma porção dupla de queijo fedido.
Foi direto para a sala de música e sentou-se ao piano. Enquanto dedilhava as teclas deixou sua mente vagar em pensamentos profundos. Nunca havia visto seu pai tão nervoso como naquela manhã, nem mesmo quando sua mãe desaparecera! Ele parecia possesso, fora de controle. Qual era o interesse de seu pai naquele livro sobre os super heróis? E como ele o conseguiu? Essas dúvidas persistiam na mente de Adrien e ele não via possibilidades de esclarecê-las, não ainda. Teria que aguardar um novo contato de mestre Fu para então perguntar-lhe sobre o livro.
Lembrou-se das palavras que o mestre havia lhe dito no dia anterior: “Porque você acha que esse é o seu melhor lado se os dois são um só?” Aquele velhinho sabia das coisas, não era a toa que o chamavam de mestre. Essa enigmática pergunta levara Adrien a uma percepção de si mesmo. Ele aceitava ser Chat Noir de bom grado, simplesmente adorava ser o gato negro que protegia Paris ao lado da sua Lady.
Mas agora precisava aceitar-se como Adrien Agreste... Mesmo que sua vida civil fosse tão complicada. Mesmo diante das restrições, obrigações, compromissos e a profunda tristeza pela perda de sua mãe e distância de seu pai. Era a sua vida e não podia simplesmente fugir dela atrás da máscara negra, precisava vivê-la e faria isso de agora em diante.
E essa recente decisão o fez pensar em outro dilema... Precisava resolver sua situação com Marinette e com Lady Bug. Suspirou. Lembrou-se do beijo que a joaninha lhe dera ao saírem da casa de mestre Fu. Oficialmente foi o primeiro beijo deles, já que ele não se lembrava do beijo que ela lhe dera para desfazer o feitiço do cupido negro. Havia sido tão calmo e doce e ele não pôde deixar de pensar em Marinette. Até o gosto dos lábios das duas era semelhante! Seria possível algo assim? Ele precisava se decidir, não podia mais ficar naquele impasse entre os dois amores que ardiam em seu coração, senão acabaria magoando Marinette novamente. Marinette... Seus pensamentos sempre se voltavam para ela. A mestiça de olhos azuis brilhantes e cabelos de ébano que havia virado seu mundo de cabeça pra baixo em tempo recorde!
Adrien fechou os olhos e sua mente lhe trouxe a imagem dela como estava naquela manhã. O casaco de lã rosa e o cachecol preto enrolado no pescoço, o rosto corado e a boca rosada que ele precisava resistir para não beijar. Ele podia sentir o cheiro de baunilha e ouvir nitidamente a voz suave bem próximo a seu ouvido...
— Adrien... Adrien! – Ele abriu os olhos e tomou um susto quando percebeu Marinette materializada a seu lado. Ficou tão assustado que se inclinou pra trás e caiu do banco onde estava batendo as costas no chão.
— Oh meu Deus! Adrien, você está bem? – Marinette estendeu-lhe a mão ajudando a levantar-se. O loiro estava rubro de vergonha
— Hã... Estou bem Mari, obrigado. Eu só estava distraído...
Ela riu baixinho
— Muito distraído você quer dizer. Te chamei várias vezes!
Ele riu
— Pois é... Pensamento em outro lugar – desviou o olhar das íris azuis. Se ela soubesse...
— Bom, vamos começar? — Ele a chamou para sentar-se a seu lado.
Marinette assentiu e eles começaram o ensaio. Adrien havia criado uma melodia maravilhosa para a música que ela já considerava deles. Sempre que a cantava ela se emocionava, tanto com a letra quanto com os acordes do piano que ele tocava com maestria. Ficaram repassando a canção por cerca de uma hora. Eles estavam absortos na música e em seus próprios sentimentos que pareciam transbordar ainda mais ao som de In the rain.
Após Adrien tocar a última nota, o silêncio reinou sobre a sala. Nenhum deles se atrevia a pronunciar nenhuma palavra.
Adrien estava com a expressão carregada e os olhos ainda pousados nas teclas do piano. Sentiu a mão de Marinette tocar a sua.
— Adrien... O que aconteceu com você hoje? – Ele fitou os olhos azuis sem conseguir disfarçar o que estava em seu coração – Eu estou vendo tristeza nos seus olhos desde cedo. Eu posso te ajudar?
Ele não queria mais negar nada, estava cansado de desculpas. Enquanto tocava o piano voltou a pensar em tudo que estava acontecendo em sua vida naquele momento e não pode evitar que os sentimentos de dor e solidão invadissem seu coração quando se lembrara da mãe... e também do episódio com seu pai.
Queria tanto se abrir com alguém e expor seus sentimentos mais íntimos. Ele confiava em Marinette e ninguém melhor do que ela para abrir seu coração. Ela o entenderia, ele tinha certeza. Era tão bondosa, amável e excelente amiga.
Ele respirou fundo, como se preparando para falar, mas falhou miseravelmente em segurar um soluço que escapou de seus lábios.
Marinette viu grossas lágrimas descerem pela face de Adrien e o soluço contido que despedaçou seu coração.
Ela o abraçou e deixou que ele chorasse em seus ombros. Ficou acariciando os cabelos loiros e murmurando palavras de conforto. Devia ter acontecido algo muito grave pra ele ter ficado abalado daquele jeito. Ela apertou ainda mais o abraço. Não suportava vê-lo assim. Como era possível alguém como ele, que tinha tudo, pudesse sofrer daquele jeito...?
Quando Adrien finalmente se acalmou, sentiu seu rosto corar de vergonha. Ele não tinha conseguido segurar aquele pranto desesperado que contera por muito tempo. Desfez o abraço e passou as mãos pelo rosto removendo os resquícios do choro.
— Me desculpe por isso... – ele começou com um sorriso sem graça – acho que encharquei sua blusa.
Marinette ainda queria abraça-lo, mas percebeu seu constrangimento.
— Não se preocupe com isso... — ela estendeu a mão e acariciou o rosto do modelo em silêncio. Aguardou o momento em que ele falaria.
— Meu pai e eu tivemos uma discussão. Ele ficou muito nervoso e por um breve momento pensei que ele fosse me agredir
Marinette ficou surpresa
— Ele não faria isso Adrien...
— Eu não sei Mari... ele estava com muita raiva
— Mas por qual motivo?
— Ele perdeu uma coisa importante pra ele... Um livro. E achou que fui eu quem pegou. – Adrien corou e desviou o olhar de Marinette. Ele não podia contar os detalhes a ela.
Ela suspirou. Droga! O livro dos heróis que ela havia pegado e entregado a Mestre Fu. Já imaginava que aquilo aconteceria, mas secretamente tinha esperança de que Gabriel não desse falta do livro. Doce ilusão!
— Sinto muito Adrien – Foi só o que ela conseguiu dizer
Adrien ficou grato por ela não ter perguntado se ele tinha pegado o livro de fato. Não sabia quantas mentiras ainda teria que dizer pra ela, coisa que não o agradava.
— Tudo bem Mari... Acho que fiquei mais chateado porque meu pai prioriza tantas coisas na vida, menos o próprio filho. Desde que minha mãe... – respirou fundo antes de continuar – desde que ela desapareceu meu pai nunca mais foi o mesmo comigo. Ele tenta me distanciar do resto do mundo! Conseguir estudar nesta escola foi uma verdadeira batalha. Mas sabe, a dor maior não é devido ao fato dele praticamente me proibir de ir a todos os lugares sem um segurança ou não permitir ter uma festa de aniversário ou me obrigar a fazer aulas de esgrima, de piano, mandarim e ainda exigir que eu seja seu modelo e participe de intermináveis sessões de fotos... não. Isso é "café com leite" Mari... O problema é que ele se distanciou de mim e afundou-se no trabalho. Ele sequer faz as refeições comigo, mal conversamos e nem me lembro mais da última vez em que ouvi um "eu te amo" ou "estou orgulhoso de você filho".
Marinette compadeceu-se dele e entendeu que Adrien até podia ter tudo que o dinheiro comprava, mas faltava-lhe o crucial, o amor de uma família, o calor de um lar... Tudo na vida de Adrien era bem programado, mas estava longe de ser perfeito.
— Adrien, seu pai te ama sim... Ele só não deve estar conseguindo lidar com a ausência de sua mãe...
Adrien a olhou, tentando entender seu raciocínio. Marinette suspirou e prosseguiu
— Ele deve amá-la muito e eu imagino que esteja sofrendo com a falta dela, com dificuldades em seguir em frente o que talvez o faça distanciar-se de tudo que lembre sua mãe... Inclusive você... E a super proteção nada mais é do que um imenso medo de perdê-lo também.
Os olhos do loiro dilataram-se um pouco com aquelas palavras. Nunca havia pensado dessa maneira. Pensava muito em seu sofrimento, mas não parou para pensar no quanto seu pai também devia estar sofrendo.
— Mas nesse caso ele não devia se unir ainda mais a mim e juntos tentarmos superar toda essa dor?
Marinette segurou as mãos dele
— Sim, você tem razão Adrien. Porém cada pessoa tem uma forma de lidar com a dor e sofrimento... Seu pai escolheu refugiar-se no trabalho e afastar-se das lembranças do tempo em que sua mãe estava lá com vocês e eram felizes, na tentativa de não sofrer tanto!
— Eu não sei o que pensar Mari... eu sinto tanta falta dela e o pior é não saber o que aconteceu e nem porque ela se foi...
Marinette não conseguia mais ver tanta tristeza nos olhos de Adrien. Abraçou-o de novo, fazendo sua cabeça recostar-se em seu peito. Acariciava os cabelos dourados como se fosse uma criança.
— A dor e vazio da perda de alguém é a pior coisa que se pode sentir.- Ela sabia do que estava falando. Havia sentido dor semelhante a menos de vinte e quatro horas quando pensou que tinha perdido Chat pra sempre — Eu sinto por você, posso imaginar sua dor, mas também sinto por seu pai Adrien... Ele perdeu a esposa, a mulher que ele ama, não consigo imaginar nada mais doloroso que isso...
Adrien sentiu as lágrimas de Marinette caírem em seu rosto e levantou a cabeça para fitá-la.
— Mari... você está chorando... – eles se abraçaram mais uma vez. Marinette estava chorando por ele e também por seu pai. Como ela podia ser tão sensível e carinhosa.
— Não chore Mari, eu não gosto de te ver assim... – Ele segurou o rosto dela com as mãos e enxugou-lhe as lágrimas com os polegares.
— Eu também não gosto de te ver sofrer... – ela murmurou
Ambos ficaram ali por longos minutos, meio abraçados, com os olhos fitos um no outro, em silêncio. Não precisavam de palavras, os sentimentos estavam expressos em seus olhares. As palavras de Marinette o haviam consolado e agora seu abraço o confortava. Ele via tanta ternura e doçura naquelas íris azuis que faziam seu coração saltar dentro do peito.
— Obrigado Mari... Você me fez enxergar a situação por um novo prisma. E você tem razão... Talvez toda essa dureza no coração do meu pai seja apenas um reflexo de seu próprio sofrimento.
Ela concordou encostando a testa levemente na dele sem deixar de fitar-lhe os olhos
— Ele precisa do seu amor Adrien, tanto quanto você precisa do dele... Tenha um pouco mais de paciência e eu acredito que as coisas vão melhorar entre vocês.
Adrien sorriu. Marinette tinha sempre uma palavra otimista para entregar, sempre tentando ajudar. Ela era um anjo... O seu anjo.
Um desejo imenso de beijá-la se apoderou dele, o doce perfume de baunilha que o atormentara durante todo o ensaio, agora estava ainda mais marcante e não havia como resistir aos lábios rosados. Eles estavam tão próximos que Adrien novamente reparou nas pequenas sardas no rosto de marfim que o encantavam. Venceu a pouca distância entre eles e colou seus lábios aos de Marinette. Sentiu a garota suspirar, como se estivesse morrendo de saudades daquele toque.
Eles se beijaram sofregamente. Não houve nenhuma delicadeza no beijo desta vez, apenas uma dança apaixonada das línguas que se entrelaçavam e exploravam um ao outro. Adrien enterrou suas mãos nos cabelos soltos de Marinette, enquanto a sua boca deixava a dela indo parar no pescoço onde ele beijou, sugou e mordiscou, fazendo a garota gemer baixinho.
— A-adrien... Por favor, não faça isso comigo... – A voz embargada dela o fez parar
— Mari... — Ela abriu os olhos, mas estavam turvos pelas lágrimas. Ele ficou sem reação. O que havia feito? – Me perdoe Mari... eu...
— Tudo bem. Eu entendo você estava triste e eu te consolei mas... eu não posso... não consigo, é doloroso demais pra mim — Ela se levantou – Eu preciso ir...
— Mari, não vai embora, não fuja, vamos conversar...
Ela não o ouvia, só queria sair dali.
— Não posso ficar... Adeus Adrien – saiu correndo porta afora
Adrien ficou olhando a porta se fechar. Parecia que toda luz daquela sala havia saído junto com Marinette. Pensou em ir atrás dela mas desistiu, os dois estavam com as emoções a flor da pele e ele sentiu-se um cretino. Claro que era exatamente isso que ele parecia, porque na cabeça dela ele namorava a Chloé. O pior é que ela ainda pensava que ele a tinha beijado daquele jeito simplesmente porque ela o consolara!
— Você tem o dom de fazer essa garota chorar Adrien... Mesmo depois de tudo que ela fez por você! — Ouviu a voz sarcástica de Plagg que estava com a cabeça pra fora de seu casaco.
O loiro olhou de cara feia para seu kuami antes de responder
— Obrigado por me fazer sentir pior do que já estou Plagg. — Suspirou impotente — Não entendo como Marinette não percebe o quanto estou apaixonado por ela...
— Talvez porque você ainda não lhe disse isso seu tonto! — Plagg se irritava com a lerdeza de seu portador quando se tratava dos assuntos do coração.
— Detesto admitir, mas você tem razão... — Adrien pegou o kuami nas mãos e olhou nos olhos felinos — Mas vou resolver isso de uma vez por todas!
O baile seria no dia seguinte e ele já tinha se decidido. Iria falar com sua princesa exatamente o que sentia por ela!
— Aleluia! — Plagg levantou as patinhas pro alto fazendo Adrien revirar os olhos — Agora vamos para casa Romeu. Preciso do meu queijo.
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