Marinette chegou em casa e com um breve “boa noite”, despediu-se dos pais, subindo para seu quarto. As lágrimas retidas a todo custo durante o curto trajeto até ali, agora caíam livremente por sua face.

— Marinette... Porque você fez isso? Tudo parecia tão bem entre vocês!

— Você sabe por que eu agi assim Tikki...

— Eu sei... Mas tinha esperança que você mudasse de idéia. – A kuami respondeu triste. Agora ela torcia para que a carta de Marinette que havia colocado no bolso do terno de Adrien fosse lida pelo loiro e que ele a procurasse. Ela arriscara bastante com aquela atitude, mas agora estava feito e ela não se arrependia. Só queria a felicidade de Marinette e de Adrien também. Afinal, não estava na cara que os dois eram apaixonados? E que haviam nascido um para o outro? Tikki nunca havia interferido antes, mas não conhecera nenhuma Lady Bug como Marinette antes. Ela era especial e merecia muito ser feliz.

— Não chore Marinette... – Tikki enxugou-lhe as lágrimas com as patinhas.

A garota sorriu agradecida

— Obrigada por estar sempre ao meu lado Tikki... Não sei o que faria sem você!

— Pode sempre contar comigo! – A joaninha apertou sua bochecha em um abraço.

Marinette aprumou-se e enxugou completamente as lágrimas. Não choraria mais porque sabia que tinha tomado a decisão certa.
No entanto ainda não conseguiria dormir.

— Ainda estou um pouco agitada para ir pra cama. — Tikki a compreendia perfeitamente. Silenciosamente acomodou-se em um dos ombros da garota enquanto Marinette dirigia-se até a sacada acima de seu quarto, ainda usando o vestido de festa. Colocou apenas um casaco preto quentinho e subiu as escadas, abrindo o alçapão e recebendo no rosto uma rajada de vento frio. Encostou-se na grade e seu olhar vagou pelo céu escuro salpicado de estrelas e adornado pela imensa lua brilhante.
Pensou em como Adrien devia estar naquele momento. Será que ele já estava em casa? Será que pensava nela? Será que ele a estaria odiando agora? Suspirou. Esperava que um dia ele pudesse entender e perdoá-la. A música deles chegou aos lábios de Marinette antes que ela pudesse evitar

Você pensa em mim?

O que sou para Ti?

Chegue mais perto de mim

Você não pode ver que eu estou sempre aqui...?

Chat Noir ouviu a voz doce da sua princesa quando pousou silenciosamente na sacada. Ela estava de costas e ainda não notara sua presença. Era lindo vê-la cantar, mas ele percebeu certa tristeza nos versos entoados. Caminhou lentamente em sua direção.

A voz de Marinette se calou ao ouvir passos atrás de si. Antes de virar-se ela já sabia quem era.

— Mari... — Chat a chamou pelo apelido usado diversas vezes por Adrien, mas já não importava. Queria mesmo que sua máscara caísse diante dela.

Apesar da tristeza alojada em seu coração, um sorriso terno chegou aos lábios da garota quando virou-se, deparando-se com as íris felinas de Chat Noir.

— Chat... – ela correu até ele e o abraçou com força. Dois dias sem vê-lo e sem ter nenhuma notícia dele. Ela estava muito preocupada. – Você está bem gatinho?

Os olhos de Marinette estavam cheios de preocupação e Chat demorou para assimilar que ela ainda não sabia quem ele era e portanto havia dois dias que não se encontravam, considerando que ela estava meio dormindo na noite passada quando a visitara. Ela devia ter visto as reportagens que saíram sobre ele ter sido ferido gravemente no combate contra Governant. Chat arrependeu-se de não tê-la contactado nem que seja para tirar aquela ruga de preocupação dos olhos azuis que ele amava.

— Me perdoe princesa por não ter vindo antes. Eu estou bem!

Ela desvencilhou-se dele como se só então tivesse se lembrado de seu descaso.

— Fico feliz que esteja bem seu gato de rua idiota! – Ela estava brava com ele, mas ainda havia algo no seu olhar que o encorajou a ajoelhar-se diante dela e tomar-lhe a mão para um beijo. Ainda de joelhos ele suplicou

— Por favor, my princess, perdoe esse gato de rua imprestável por ter te abandonado todo esse tempo.

Ele a olhava com olhos de gatinho perdido e o coração dela enterneceu. Era mesmo uma boba!

Sorriu ao responder

— Eu te perdôo seu gato bobo e você não é imprestável!

Ele levantou-se e a enlaçou pela cintura trazendo-a para mais perto. Queria muito beijá-la e acabar com aquela tortura, mas precisavam conversar

— Eu preciso te explicar o que houve chérie...

— Não precisa Chat... Eu imagino que deve ter seus motivos. – Ela tinha medo que ele a rejeitasse de alguma forma, preferia não saber sobre seu sumiço.

— Mas eu preciso princesa, é importante!

Ela suspirou e assentiu. Ele desfez o abraço e manteve uma certa distância para poder colocar os pensamentos no lugar. Quando estava abraçado com ela, sentindo o perfume e o calor que emanava dela, perdia sua capacidade de raciocínio e só pensava em saciar aquele desejo de beijá-la que lhe queimava dentro do peito.

Marinette o sentiu distanciar-se e interpretou errada sua atitude. A dor transpassou seu coração. Duas perdas no mesmo dia ela não suportaria...

Ele percebeu a expressão de dor no olhar azul e tocou-lhe a face com carinho

— Princesa, o que foi?

— Você se afastou... — ela murmurou

Ele entendeu que ela havia se sentido rejeitada com a atitude dele. Ela devia estar muito sensível aquela noite é claro e ele era um idiota em não entender isso antes. Ele a abraçou de novo.

— Me afastei só para manter minha sanidade e conseguir falar frases coerentes, porque quando estou assim tão perto de você não consigo pensar direito.

Ela sorriu, corando de vergonha e ele a achou mais linda do que já estava.

— A propósito, você está linda com essa roupa.

— Eu estava em um baile no Hotel Le Grand. A entrega do prêmio do trabalho de história, a apresentação... Lembra?

— Hum... Sim eu me lembro desse baile – ele murmurou acariciando os cabelos de ébano — Então me concede uma dança princesa?

Ela o olhou esperando ver o costumeiro sorriso zombeteiro, mas ele a fitava com intensos olhos verdes

— Nós não temos nenhuma música aqui agora...

— Temos sim – diante do olhar de dúvida dela ele tomou-lhe uma das mãos enquanto a outra continuou pousada em sua cintura. Chat começou a conduzi-la em uma dança silenciosa, passos lentos e lânguidos enquanto os olhos verdes não deixavam os seus – Sinta chérie. A música está dentro de você.

Ela se perdeu naquele olhar e deixou a mente vagar, aproveitando aquele momento. Seus sentimentos por Chat Noir ainda estavam ali... Sempre vinham à tona quando estavam juntos. Aquela paixão desenfreada e arrebatadora que ela não conseguia controlar. O gato mascarado havia conseguido arrebatar-lhe o coração mesmo que parte dele ainda pertencesse ao Adrien. Era uma loucura total que ela jamais entenderia.

Chat estava prolongando aquele momento e adiando contar-lhe a verdade porque subitamente teve um medo descomunal de perdê-la, de ser rejeitado por ela. Porém não poderia deixar que aquela chance lhe escapasse por entre os dedos. Foi diminuindo o ritmo da dança lentamente e encostou a testa na dela com um suspiro.

— Eu poderia ficar assim a noite toda, mas nós realmente precisamos conversar

Ela assentiu e soltou-se do abraço dele encostando-se na grade novamente. O semblante estava calmo, mas por dentro sentia-se como se uma tempestade estivesse se formando dentro de si.

Chat se colocou a seu lado e começou a falar:

— Eu fiquei muito confuso depois das visitas que fiz a você. – Ela o olhou surpreso, mas ele prosseguiu – Precisava pensar sobre meus sentimentos. Eu não suportaria magoar você princesa... Por isso achei melhor me afastar enquanto eu ainda conseguia fazer isso, ou quase. – Chat lembrou que não tinha se afastado de fato já que começou a se reaproximar dela como Adrien.

— O fato é que depois que vi você no Hotel Le Grand naquele dia da batalha contra o Prefeito, percebi a grande besteira que havia feito. Porque me afastar de você só me deixou mais confuso e frustrado. Plagg me avisou sobre isso, mas eu não quis ouvi-lo.

— Plagg? – Ela perguntou curiosa

— Meu kuami. Ele é um gatinho preto irritante, mas no fundo tem um bom coração e me advertiu que poderia te magoar se me afastasse...

— Eu não o conheço, mas já gostei dele! – ela sorriu

— Ahhh... Ele vai amar saber disso e provavelmente vai jogar isso na minha cara pelo resto da vida – Chat dramatizou com uma careta. Marinette riu mais ainda jogando a cabeça de lado, deixando a mostra o pescoço fino e Chat desejou espalhar beijos quentes por toda sua extensão. Pigarreou

— Enfim, naquela batalha do hotel eu... Fiquei seriamente ferido.

— Eu soube... – ela murmurou e sua expressão mudou completamente. O sorriso que ele amava sendo substituído por um torcer dos lábios e os olhos azuis ficaram opacos cheios de uma tristeza que ele desejou que jamais voltasse a ver naquele olhar lindo e brilhante.

— Ei... – ele tocou-lhe o queixo com carinho – não fique assim, está tudo bem...

— Eu quase te perdi – ela disse em um sussurro cheio de dor e Chat pensou que ela se importava com ele... Talvez ela o amasse como Chat Noir assim como amava Adrien e devia viver o mesmo conflito que ele havia vivido entre ela e lady Bug. Ele suspirou. Precisa acabar logo com aquilo. Sua mão desceu do queixo para a nuca da garota que ele puxou com delicadeza, fazendo com que ela recostasse a cabeça em seu peito e acariciou os cabelos que agora já estavam totalmente lisos novamente, diferentes do penteado que ela havia feito para o baile. De todo jeito ele se deliciava com os fios sedosos.

— Você não me perdeu. Eu voltei pra você não foi? – ele sentiu ela balançar a cabeça afirmativamente em seu peito e suspirar – Bem, com tudo o que aconteceu eu aprendi coisas muito importantes princesa. Eu percebi que eu curto muito ser o Chat Noir, me sinto livre... Como se fosse outra vida entende? Porém não é bem assim que funciona. Não posso anular quem eu sou debaixo dessa máscara, então eu decidi me aceitar e fazer o melhor possível da minha vida civil com o bônus de ser um super herói.

Marinette entendia perfeitamente o que ele estava dizendo por que ela mesma vivera o mesmo conflito e também havia aprendido a aceitar que Marinette e Lady Bug eram a mesma pessoa, com suas qualidades e defeitos.

— Você fez bem Chat e tomou uma excelente decisão. Não se pode separar duas metades de um todo, porque senão ficaria incompleto...

— Sim, você entendeu perfeitamente chérie. – Ele sorriu satisfeito – Resolvido isso, havia outra questão que estava me tirando o sono e perturbando o meu equilíbrio... – suspirou. Chegara a hora da verdade — Meu coração confuso...

Ela levantou a cabeça e olhou pra ele com aqueles dois oceanos profundos. Ele sentiu-se como um marinheiro prestes a naufragar. Desencostou-se da grade e andou dois passos à frente ficando de costas pra ela. Seu coração acelerou e as mãos começaram a tremer. Ele achou difícil manter o controle sobre suas emoções, mas decidiu que não voltaria atrás. Talvez fosse mais fácil dizer aquilo estando em sua forma civil, já que conhecia os sentimentos de Marinette por Adrien, mas precisava ter certeza sobre o que ela sentia pelo Chat Noir.

Marinette sentiu o nervosismo dele. Percebeu que o que ele iria lhe falar era muito importante. A tensão era quase palpável entre eles. Sentiu que a tempestade dentro si ganhava mais intensidade. Ela havia tomado sua decisão naquela manhã. Precisava resolver os dilemas da sua vida civil e da sua vida como heroína se quisesse alcançar o equilíbrio e maturidade necessários para prosseguir. Um daqueles dilemas ela pensava ter resolvido quando abriu mão de seu amor pelo Adrien a fim de mantê-lo seguro. E a outra decisão importante que havia tomado era revelar sua identidade a Chat Noir. Tinha planejado fazer isso no dia seguinte quando se encontrassem para patrulhar, porém já que ele viera a sua casa naquela noite não adiaria mais aquela revelação.
Parecia que Chat também tentava resolver os dilemas de sua vida. Sua voz saiu quase inaudível quando falou

— Outra coisa que aprendi foi que... Existe uma força poderosa capaz de romper barreiras e vencer as batalhas, não importam quão difíceis elas sejam. Uma força que nos faz seguir em frente, que nos faz forte, mesmo quando nos sentimos fracos. Uma força que pode salvar um coração ferido... — Ele pensou em como Marinette o aconselhara no dia anterior quando havia discutido com seu pai. As palavras dela conseguiram remover a mágoa e rancor do seu coração e lhe deram esperanças de dias melhores.

Ela não conseguia desviar o olhar das costas do loiro que ainda não tinha se virado para fitar-lhe os olhos. Marinette sabia do que ele estava falando. As palavras de Mestre Fu atingiram sua mente como um raio.

“Amor, minha jovem. Puro e simples amor. A força mais poderosa que existe... No entanto esse amor precisa ser revelado para mostrar o seu poder.”

Marinette sentiu um tremor passar por todo seu corpo. Ela não conseguia dizer nada, as palavras pareciam ficar presas na sua garganta, os sentimentos chicoteavam em seu interior... Paixão, desejo, amor... Estavam todos ali, represados em seu coração, apenas esperando que ela rompesse as barreiras e abrisse as comportas, deixando que aquelas águas turbulentas ganhassem força.

Diante do silêncio da garota, Chat Noir fechou os olhos, não tinha a menor idéia de como ela reagiria às suas palavras. Ele ainda não tinha coragem de se virar, mas prosseguiu

— Foi essa força que me fez chegar aqui Marinette... A força do amor! – suas palavras agora eram firmes e bem claras — No entanto aprendi que para alcançar a totalidade desse poder, esse amor precisa ser...

— Revelado! – Marinette completou a frase dele, fazendo-o virar-se e fitar-lhe os olhos com total espanto

— Como você...? – A voz dele voltara a sumir e a pergunta soou como um sussurro

Marinette apenas sorriu, encarando os olhos felinos deixando transparecer toda a verdade em apenas um olhar. Ela não precisava verbalizar, reconheceu na expressão do loiro o momento exato em que ele descobriu a verdade e agora ela não tinha mais nenhuma máscara diante dele.
Chat deu dois passos em sua direção

— My lady...

Ela fechou os olhos ainda com um sorriso nos lábios, um segundo antes dele alcançá-la e traze-la para seus braços, colando a boca na dela em um beijo sôfrego, cheio de paixão. Ela correspondia com a mesma intensidade, achando irresistível estar nos braços do gato mascarado.

Chat Noir não cabia em si tamanha era sua alegria em saber que sua princesa era sua lady. Sentia-se o gato preto mais sortudo do universo. Deixou os lábios da garota e passou a beijar-lhe toda a face, distribuindo pequenos beijos nos olhos azuis, no nariz, nas bochechas de Marinette enquanto murmurava extasiado

— É você, my princess, my lady, minha Bugboo... – ela ria e se deliciava com as carícias do seu gatinho

— Você me deu apelidos demais chaton!

Ele riu e a abraçou com força, como se nunca mais fosse soltá-la.

— Porque demorou tanto para me contar? – Ele estava com a testa encostada na dela e não deixava de olhá-la. A respiração acelerada fazendo seu peito subir e descer com rapidez, tamanha a emoção que sentia.

— Eu... Passei pelos mesmos conflitos que você Chat... Estava confusa e tinha medo...

— Medo de que?

— De você se decepcionar comigo... com a desajeitada Marinette Dupain-Cheng. Eu pensava não ser boa o suficiente... Para ninguém.

Ele mal podia acreditar no que estava ouvindo

— É sério isso chérie...? Como pôde pensar uma coisa dessas? Você é incrível Mari... Você tem tantas qualidades dentro de si que apenas em sua forma civil já poderia ser considerada uma verdadeira heroína. Nunca conheci ninguém como você, sempre tão disposta a ajudar os outros, tão talentosa em tudo que faz! Você é gentil, doce, meiga, linda... Você fez com que eu me apaixonasse duas vezes por você princesa, você virou meu mundo de cabeça pra baixo...

Ela fitava os olhos verdes e enxergava tudo aquilo que ele dizia com seus lábios. Havia tanto amor ali e ela sentiu seu coração se abrindo mais uma vez pra ele.

— Chat... Eu também fiquei muito confusa com meus sentimentos. Você sabe sobre o Adrien...

— Espere – ele colocou o dedo em seus lábios – Antes que você continue, eu quero te perguntar uma coisa.

Marinette viu horrorizada quando Chat tirou do bolso do uniforme o papel rosa amassado. A carta que ela escrevera se declarando para Adrien e que depois de haver tomado a decisão de se afastar, havia jogado no lixo.

— Chat...

— Me diga princesa, é verdade o que está escrito aqui?

A garota corou até o último fio de cabelo. Sabia cada palavra que havia naquele papel. Seus sentimentos mais íntimos.

— Você pegou isso no meu lixo?

Chat pestanejou, ela havia jogado a carta no lixo? Então como fora parar no bolso do seu paletó?

— Responda minha pergunta Mari... – Chat pediu suavemente, tocando-lhe o queixo para encontrar-lhe os olhos.

Aquela expressão de dor e sofrimento voltou às íris azuis e Marinette lhe respondeu em um sussurro

— É verdade sim...

O coração de Chat falhou uma batida, duas, três...

— Então porque jogou a carta no lixo?

Os olhos dela encheram-se de lágrimas. Ela não queria chorar, não queria que Chat a visse chorar nem que soubesse o quanto estava sofrendo...

— Para protegê-lo...

Chat a olhou com espanto

— Como assim?

— Eu jamais poderia ficar com ele Chat! Imagine os riscos que Adrien correria se tivéssemos alguma coisa. Poderia ser pego pelo Hawk Moth! Você se lembra da batalha contra Volpina... Por pouco eu não estrago tudo e entrego meu miraculous, se não fosse você me mostrar que era apenas uma ilusão, não consigo sequer imaginar o que aconteceria... Eu não posso colocar meus sentimentos na frente de tudo isso! Seria egoísmo... – Chat tentou falar alguma coisa, mas a garota o cortou. Estava desabafando com ele mais uma vez. – O meu maior medo sempre foi perdê-lo... Então prefiro sacrificar minha vontade se tiver a certeza de que ele ficará bem e seguro. E que não vou tomar nenhuma decisão que poderia colocar em risco pessoas inocentes — Ela suspirou — Mestre Fu nos disse que provavelmente teríamos que tomar decisões difíceis e lidar com as conseqüências... então creio que esse seja meu destino...

Chat Noir sentiu seu coração se apertar dentro do peito. Ele já sabia o quanto ela era abnegada, o quanto estava sempre pronta para ajudar e proteger as pessoas. Lembrou-se do desespero dela quando achou que o tinha perdido. A palavra heroína a definia muito bem.
Marinette continuou a falar, agora com uma voz quase inaudível. Como se fosse doloroso contar aquilo

— Depois de escrever essa carta eu tive um sonho terrível, Volpina voltava, sabia minha identidade e havia sequestrado Adrien novamente, você não estava lá e ela ficava me pedindo os brincos. A velha história de Hawk Moth, mas dessa vez, ela jogou Adrien da torre... – Chat pode ver o horror nos olhos da garota – Sei que foi apenas um pesadelo, mas parecia tão real Chat! Tão real que eu me levantei como uma louca e no meio da madrugada me transformei e fui até a casa dele... Só para me certificar de que estava bem...

— Você fez o que?

Ela sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.

— Eu disse que parecia uma louca... Cheguei à janela do quarto dele e o vi dormir seguro. Somente nesse momento consegui me acalmar. Mas isso me fez tomar uma decisão. Vou me afastar dele, aproveitando-me das férias escolares. Por isso quando voltei pra casa, embolei a carta e a joguei no lixo. Eu só quero protege-lo.

— Mari... – Só de pensar que ela havia tomado a decisão de se afastar dele, já sentia uma dor lancinante no peito. Não queria nem pensar o que aconteceria se não tivesse encontrado aquela carta. Por isso ela saira correndo do terraço do hotel depois de lhe dar um beijo e dizer adeus. Estava se despedindo dele!
Sua expressão dolorosa deve ter sido percebida por Marinette, pois ela o olhava com ansiedade quando disse

— Me desculpe Chat... Eu te amo, mas para mim ainda é impossível esquecê-lo...

Chat a abraçou. Como imaginava, ela estava sofrendo assim como ele por amar duas pessoas sem saber que eram a mesma. Ela amava Chat Noir assim como Adrien, ela o amava por inteiro. Ele queria apagar aquela dor dos olhos azuis e vê-la feliz assim como ele estava naquele momento.
Quando sentiu os braços de Marinette rodearem sua cintura, ele falou-lhe com voz emocionada

— Mari... Você não precisa proteger o Adrien... Ele é quem sempre irá te proteger...

Ela suspirou. Havia acabado de dizer a Chat que ainda era apaixonada por outro e ele a tratava com todo aquele carinho.
Ela murmurou com a cabeça baixa, a testa amparada no peito do loiro

— Do que você está falando Chat? Como Adrien pode me proteger...?

Ele beijou-lhe os cabelos negros, sentindo o delicioso perfume de baunilha. Sorriu e explicou ainda acariciando-lhe os cabelos.

— Eu não peguei a carta no seu lixo Mari... Eu a encontrei no bolso do meu paletó.

Marinette ouviu aquelas palavras e sentiu que a tempestade que parecia ter se acalmado em seu interior ganhara proporções gigantescas.

— No bolso do...? – Ela ia se afastar, mas ele a apertou de encontro ao peito, mantendo-a junto dele enquanto pronunciava as palavras calmamente – Plagg, esconder garras...

Marinette viu a luz verde e branca, aquele poder que ela conhecia tão bem, deixando o corpo do gato mascarado e dando lugar a sua forma civil. Seu olhar acompanhou a transformação de baixo pra cima e ela viu o terno preto de corte perfeito que ela reconheceria em qualquer lugar, seus olhos passaram pela gravata verde oliva e finalmente fitaram aquele rosto tão conhecido, tão amado...

— A-adrien... – O sorriso nos lábios do modelo também estava presente no par de esmeraldas que a fitavam.

Marinette sentiu-se atordoada, as pernas bambearam e se não estivesse amparada pelos braços do modelo com certeza ela teria caído. Imagens dos momentos em que ela estivera com Chat Noir encheram sua mente. Desde o primeiro dia que ele invadira sua sacada sem ser convidado. As conversas, as risadas, os beijos roubados, a sensação maravilhosa de estar em seus braços... Até aquele momento era ele, sempre ele!

— Como...? Era você... O tempo todo era você!

As lágrimas que ela tentara reter a poucos minutos agora escorriam livremente por sua face. Aquilo só podia ser um sonho...

Adrien enxugou as lágrimas da garota com os lábios, enquanto voltava a beijar-lhe o rosto. O semblante cheio de preocupação.

— Mari, porque está chorando? Não faz isso comigo... Eu não suporto ver você chorar!

— Não posso acreditar Adrien... Se isso é mais um dos muitos sonhos que tive com você, por favor, não me deixe acordar!

Ele sorriu aliviado e a abraçou com ternura.

— É um sonho sim... O nosso sonho se tornando realidade... – Ele segurou seu rosto entre as mãos e fitou os olhos azuis que brilhavam mais que mil estrelas — Eu te amo Marinette!

Ela fechou os olhos e sorriu. Quantas vezes sonhara em ouvir aquelas palavras saindo da boca dele? E nem em seus sonhos mais ousados ela teria se aproximado daquela felicidade que sentia agora. Voltou a fitar os olhos de esmeralda resumindo toda aquela avalanche de sentimentos em apenas uma frase.

— Eu te amo Adrien... – Sentiu-se como se uma tonelada tivesse sido arrancada dos seus ombros. Ela finalmente havia conseguido dizer a ele que o amava! Finalmente conseguira expressar tudo que se avolumara em seu coração naquele ano.

Adrien tomou-lhe os lábios em um beijo cálido e demorado, fazendo com que os dois experimentassem todas aquelas sensações indescritíveis nos braços um do outro. Mesmo após o beijo terminar, ficaram abraçados ainda por longos minutos até que conseguissem acalmar o turbilhão de emoções que os acometera naqueles momentos em que desnudavam a alma e o coração um para o outro.

— Eu nunca mais quero ficar longe de você. Nunca mais pense em se afastar de mim mon amour...

Marinette se perdeu nas íris verdes e lembrou-se que por pouco não o perdera para a morte há poucos dias atrás.

— Eu quase te perdi na nossa última batalha Adrien... Eu não sei o que faria se tivesse te perdido...

Ele não mais queria ver dor e sofrimento naquele olhar. Faria o que estivesse a seu alcance para vê-la sempre feliz. Abaixou-se para capturar os lábios rosados em mais um beijo lento e cheio de calor. Era sempre assim entre os dois, a calmaria e a tempestade, o dia quente de verão e a noite fria de inverno. Amor e paixão!

— Você não vai me perder! Você me salvou princesa, de todas as formas que uma pessoa pode ser salva.

Ela sorriu e afundou o rosto na curva do pescoço do loiro

— Eu pensava que nunca conseguiria me declarar pra você quando na verdade já tinha me declarado várias vezes! Agora tudo faz sentido... Naquele dia, quando a Chloé... Armou toda aquela cena, você veio me ver...

— Sim... Perdi meu chão quando vi você naquele estado Mari, queria apagar aquela dor dos seus olhos. E por um impulso que até hoje não sei explicar eu vim atrás de você como Chat. Quando vi você chorando daquele jeito, meu coração parecia ter se partido em mil pedaços e eu quis matar o imbecil que havia feito aquilo com minha princesa.

— E então eu te contei tudo e ainda disse que te amava... Nossa que vergonha! – Ela riu e escondeu o rosto ainda mais no pescoço do loiro – Agora me lembro que você ficou com uma cara super estranha, meio pálido, parecia que estava passando mal...

Ele a aninhou mais ainda em seus braços

— Foi como um soco na boca do estômago. Saber ao mesmo tempo que você me amava e que eu havia sido o imbecil que te magoara tanto, mesmo sem intenção.

— Se soubéssemos nossas identidades antes, talvez tudo tivesse sido mais fácil! – ela suspirou

— Ou talvez não princesa. Nunca se sabe, mas acredito que tudo tem a hora certa para acontecer.

Ela assentiu e lhe deu um beijo suave no pescoço que o fez estremecer

— Você deve estar com frio gatinho... Vamos entrar. Pode ficar comigo mais um pouco?

Naquele momento se ela lhe pedisse o mundo todo ele daria.

— Posso! Teoricamente estou na casa do Nino – diante do olhar indagador dela ele contou – Mandei uma mensagem para Nathalie pedindo para avisar meu pai que dormiria lá.

— Nossa e ele deixou?

— Parece que sim, já que ainda não recebi nenhuma mensagem no celular me mandando voltar pra casa...

— E o Nino?

— Já resolvi isso também.

Ela não queria nem saber o que o moreno estaria pensando sobre eles uma hora dessas!

— Está bem, vamos!

Desfizeram o abraço, ainda relutantes em se separar. Marinette puxou Adrien pela mão, desceram as escadas para o quarto da garota.

Plagg, que após a transformação de Adrien havia rapidamente entrado no bolso do paletó do loiro para deixar o casal a sós, saiu do esconderijo assim que percebeu que estavam no quarto de Marinette.

— Nossa, finalmente! Achei que nunca mais fosse sair daquele paletó – O gatinho negro surgiu na frente de Marinette, olhando-a com os imensos olhos verdes e arrancando um suspiro do modelo.

— Como sempre esse jeito ranzinza... – Tikki saiu de dentro do casaco de Marinette encarando o kuami negro com os bracinhos cruzados e um sorriso tímido no rosto vermelho.

— Tikki!

— Plagg!

Os dois kuamis se abraçaram. Adrien e Marinette trocaram um olhar divertido. O loiro começou as apresentações

— Mari, esse gato atrevido e mal educado é meu Kuami, Plagg.

O gatinho negro soltou a joaninha e dirigiu-se a Marinette

— Por favor, Marinette, não acredite nesse ingrato. Se tem algo que eu sei muito bem é como tratar uma dama. – Pegou o dedo indicador de Marinette com as minúsculas patinhas e deu-lhe um beijo — Ë um prazer conhecê-la pessoalmente My Lady...

Adrien revirou os olhos sem acreditar na ousadia do kuami. Marinette riu maravilhada

— O meu Deus, que gatinho mais fofo. É muito parecido com Chat Noir!

Plagg deu-lhe um sorriso atrevido

— Sou muito melhor do que ele my lady – apontou para o modelo que já estava rubro de raiva com a provocação

— Pare de chamá-la assim Plagg! Ela é minha lady, não sua! – Adrien a puxou para si, abraçando sua cintura, lançando um olhar fulminante ao kuami. Marinette olhou para Tikki e as duas riram. Eles pareciam duas crianças brigando.

— Se não fosse pelos meus conselhos você nem estaria aqui garoto! É tão lento que não conseguiu enxergar a verdade nem mesmo estando a um palmo do seu nariz!

Adrien estreitou os olhos

— Você sabia que era ela?

Plagg sorriu travesso, encarando seu portador

— Sabia, mas para sua informação não podia interferir...

Marinette olhou para Tikki com espanto

— Isso é verdade Tikki?

A joaninha abaixou o olhar sentindo-se culpada

— É sim Marinette. Quando você e o Adrien ficaram mais próximos eu senti a aura do Plagg. Todas as vezes que vocês estavam juntos nós podíamos perceber a presença um do outro, mas como Plagg disse, somos proibidos de interferir...

— Mas você andou quebrando as regras não é joaninha? – Plagg declarou zombeteiro

Adrien e Marinette a olharam com curiosidade e Tikki suspirou, lançando um olhar mortal ao gato preto

— Eu não quebrei as regras seu abusado! Apenas... dei uma forcinha.

Marinette imediatamente entendeu o que sua kuami tinha feito

— A carta... Foi você quem a colocou no bolso do Adrien!

A joaninha confirmou com a cabeça e sorriu. Os olhos azuis brilhando iguais aos de sua portadora.

Adrien sorriu para a joaninha e fez-lhe um carinho na cabeça. Seria eternamente grato a ela.

— Muito prazer em te conhecer Tikki. Obrigado por tudo que você fez!

A kuami sorriu de volta e pela primeira vez Marinette viu a joaninha envergonhada.

— O prazer é meu Adrien. Eu só queria que a Mari fosse feliz e sabia que se ela soubesse quem você era, iria esquecer a idéia maluca de se afastar para te proteger.

Adrien olhou para Plagg e fez um bico

— Ela é muito mais inteligente que você! – Apontou referindo-se a joaninha

— Ah é sério? E você seu... – Tikki interrompeu Plagg, abraçando o mesmo pelo pescoço e puxando-o para fora do quarto enquanto dizia

— Chega Plagg, vamos deixá-los a sós mais um pouco e tentar arrumar alguma coisa para você comer lá em baixo – A joaninha piscou para o casal e Adrien conseguiu ouvir Plagg dizer

— Será que tem camembert Tikki? Adrien não me alimenta direito sabe...

O loiro revirou os olhos. Iria ter uma conversinha com aquele gato atrevido. Marinette riu

— Vocês são sempre assim?

Ele se encantava com aquele sorriso. Beijou a boca rosada antes de responder

— Quase sempre. É uma espécie de relação amor e ódio... – Adrien sentou-se na cama e puxou Marinette consigo. Havia sido uma longa noite e ambos estavam exaustos. Ela deitou a cabeça no colo do loiro e suspirou

— Não quero dormir. Ainda estou com medo de que isso tudo seja só um sonho e amanhã vou acordar e tudo voltará a ser como antes e eu terei que seguir minha vida sem você fazendo parte dela...

Adrien acariciou os cabelos negros em seu colo e sorriu travesso

— Já que teoricamente estou na casa do Nino, eu posso dormir aqui para que você se certifique de que tudo é real sim e que eu não vou a lugar nenhum.

Ela olhou aquele sorriso e o brilho dos olhos verdes que lhe lembravam do seu gato mascarado

— Você não é tão diferente do Chat Noir afinal...

— Pelo menos não com relação a você.

Os olhos de Marinette estavam pesados e o carinho em seus cabelos a estavam relaxando sobremaneira. Era maravilhoso estar assim com ele. Mais do que poderia imaginar!

— Eu te amo Adrien... – murmurou fechando os olhos

O loiro abaixou-se para lhe beijar os lábios suavemente

— Isso é um sim? — Ela abriu um dos olhos e assentiu, corando logo em seguida. Ele riu e sussurou-lhe

— Eu te amo minha princesa, minha lady... meu mundo...

***