Miracle

22 Capítulo 22 - Messages


Notas iniciais
Desculpe a demora!
Boa leitura, espero que gostem.
Novamente, o capítulo ficou grande.

Miracle


Capítulo 22 – Messages


Mai ficou olhando atônita para o medico por uns bons segundos, até que os dois ouviram o barulho da porta se abrindo, revelando a motoqueira negra.


–Celty! – A garota exclamou, indo até a mulher e abraçando-a com força, sem se importar se estava molhada. –Tem algo muito errado!


–“O que houve, Mai-chan? Não devia estar na aula?” – Mal conseguia digitar corretamente. –“Shinra?” – Virou-se para o outro.


–Acho que terão muito que conversar. – Se aproximou.


Celty inclinou-se um pouco para olhar para a garota em seus braços; seu rosto estava corado e seus olhos arregalados, como se não acreditasse na realidade que havia sido colocada.



Depois que Mai se soltou da moça, as duas deixaram Shinra na sala e foram para o quarto da Dullahan, que enquanto se secava e se trocava, ouvia os relatos da colegial.


–“O que passa na cabeça daquele idiota?!” – Digitou, visivelmente perturbada com relação ao que ocorreu entre Izaya e Atsuki. –“Como ele pode fazer isso com você?”


–Bom... Ele não sente nada por mim, então... – Deixou os ombros caírem.


–“Mas quanto ao que Shinra falou? Acha mesmo que é o Izaya?”


–Faz sentido. – Olhou para baixo. –No entanto, deixa tudo mais complicado. O que eu posso fazer pelo Izaya? Ainda mais agora...


–“É realmente complicado. O Izaya é complicado.”


–E depois disso tudo que aconteceu, eu estou com um pouco de receio de me aproximar novamente dele.


–“Mai-chan...”


–Agora tem muito mais em jogo, e não depende só de mim. E quanto ao Izaya, eu não sei como vou fazer para me aproximar dele novamente. Na realidade, nem sei se quero... Isso é agonizante.


–“Talvez o Shinra possa nos ajudar. Ele e o Izaya foram colegas de escola, deve saber algumas coisas sobre ele.” – Pegou a mão da menina, guiando-a para fora do quarto e levando-a para sala.


–Acabaram de conversar? – O rapaz perguntou do sofá, ao ver as duas se aproximando.


–“Precisamos de sua ajuda.” – Celty começou. –“Você e o Izaya são amigos, o que pode nos dizer sobre ele?”


–Hm... – Parou realmente para pensar. –Bom, eu o conheci no ginasial, e ele sempre aparentou ser um pouco diferente do resto. No entanto, naquela época, ele ainda não tinha o hábito de testar as pessoas para ver suas reações.


–Sério? – Mai começou a ficar realmente interessada, ao mesmo tempo em que tentava imaginar um Izaya quase “normal”.


–Verdade. No ginasial, ele apenas gostava de observar as pessoas. Sempre foi muito inteligente, se relacionava bem com as pessoas, mas era perceptível, pelo menos para mim, que ele não tentava aprofundar muito as relações. E então veio o colegial, e foi nessa época que ele começou a manipular e testar as pessoas. Todos no Raira o conheciam, mas ele ainda se mantinha afastado dos colegas. Até com garotas, mesmo chegando a sair com algumas, era tudo para sua diversão. As únicas pessoas que ele parecia ter alguma “preferência” de aproximação, eram eu e o Kyouhei-kun. O Orihara-kun, desde mais novo, sempre se manteve longe das pessoas. Como se ele colocasse uma barreira que dividisse ele do resto.


Shinra se calou por alguns momentos, como se estivesse escolhendo as palavras.


–Mesmo dizendo que ama a humanidade, ele nunca se aproximou de uma pessoa em exclusivo, nunca se abriu com ninguém. Acho que ele é uma pessoa solitária, mas duvido muito que queira mudar sua situação.


–Então o que eu devo fazer?


–Não sei. – Respondeu simplesmente.


–“Shinra...”


–Mas é verdade, não sei que caminho a Mai-chan deve seguir. Entretanto, se quiser um conselho, não faça nada por agora. Fique aqui com a gente, pense bem nos fatos e espere o próprio Orihara-kun tomar alguma atitude. E, a partir disso, você começa a se planejar.


–Certo... – Soltou um suspiro.


–“Não fique desanimada” – Celty colocou a mão no ombro da amiga. –“Vai ser bom para você e o Izaya reorganizarem os pensamentos”


–Sim, eu sei.


–“Ligue a T.V e se distraia um pouco” – Pegou o controle remoto com suas sombras e o entregou para Mai.


–Obrigada. – Aceitou o aparelho e ligou a T.V.


Durante algum tempo, os três ficaram assistindo a um programa qualquer, mas logo Shinra se levantou do sofá, dizendo que precisava começar a preparar o almoço, e foi para cozinha, sendo seguido por Celty. Mai só foi perceber a ausência da mulher quando o programa acabou e foi virar-se para perguntar algo. A garota olhou para o assento vazio e depois levantou seu olhar para cozinha, vendo que os dois preparando o almoço de costas para ela. E não foi a única coisa que notou, também percebeu que Shinra falava com Celty em um tom baixo, acompanhado dos dedos da motoqueira, que digitava suas falas.


–“Será que está tudo bem mesmo?” – Mai ouviu, quase tendo certeza de que Celty não havia compreendido que ela tinha a capacidade de ouvir sua voz. –“Não acha muito para Mai-chan tentar ajudar o Izaya? Quer dizer, ela só tem quinze anos e é completamente inocente. A meu ver, é arriscado demais para ela se envolver com alguém como o Izaya. Ela vai acabar saindo ainda mais ferida. Você conhece bem aquele informante, Shinra.”


–Eu entendo o seu ponto de vista, mas isso depende só dela. Afinal, a Mai-chan não é humana, por que mais ela estaria aqui entre nós, se não estivesse disposta a lutar e realizar seu objetivo? Acho que ela está bem ciente disso tudo. – Parou para ajeitar os óculos. –Mas mudando de assunto, será que ela me deixa examinar os olhos dela? Você viu o brilho que eles adquirem? Gostaria muito de saber que mecanismos os fazem ficar daquele jeito.


–“Shinra!” – Cutucou as costelas do outro. –“É melhor você e o seu bisturi ficarem longe dela.”


–Desculpe, desculpe. Vou tentar me controlar.


Com uma risada contida, Mai deixou de lado a conversa e voltou a prestar atenção no programa na T.V – que, no caso, era uma previsão do tempo, informando que aquele seria um mês muito chuvoso.


–Ei, Mai-chan. – O medico a distraiu novamente. –Você e o Orihara-kun já se beijaram?


–O que? – Seus olhos se arregalaram. –Não fui eu! Ele é quem me puxou e me beijou sem que eu deixasse! Eu não fiz nada de errado!


–“O Izaya é um pervertido!”


–Ah, como deve ser bom beijar quem se ama. ~ — Brincou Shinra. –Pena que eu e Celty estamos privados de tal maravilha. Porém não preciso me preocupar, há muitas outras formas de demonstrar meu amor, só preciso que ela me permita faze-las. ~


–“Não ouça o que o Shinra diz, Mai-chan, ele não fala nada com nada!”


Depois de mais alguns pequenos escândalos, os três foram almoçar. Na verdade, apenas Shinra propriamente, Celty obviamente não comia e Mai não sentia muita fome, apenas beliscou um pouco da omelete e do arroz, evitando tomar qualquer líquido, com medo de outra crise de tosse. Quando terminaram, voltaram a assistir T.V e conversaram mais um pouco. Entretanto, logo Celty teve que sair para mais uma entrega e Shinra recebeu uma ligação requisitando seus serviços como médico clandestino, deixando a adolescente sozinha.

Para felicidade da garota, a motoqueira deixou ligado para ela o vídeo game com alguns jogos, para que não se sentisse entediada. E mesmo que viesse a ficar sem nada para fazer, Shinra disse para ir até sua escrivaninha e pegar dentro da segunda gaveta o primeiro livro que visse.


Durante as primeiras três horas, a jovem se manteve realmente entretida com os jogos, achando tudo novo, interessante e colorido. No entanto, sua visão começou a doer, e decidiu, mesmo que um pouco a contra gosto, parar de jogar. Desligou os cabos e guardou os CDs nas devidas capas, indo em seguida até ao móvel de madeira que Shinra mencionara. Abriu a tal gaveta e a primeira coisa que viu foi um livro não muito grosso, mas estranhamente comprido. Sua capa era marrom e realmente dura. Virou o objeto e notou que em sua parte frontal havia “Álbum Escolar”.

Muito curiosa, se afastou da mesa e sentou-se novamente no sofá com o objeto em seu colo. Passou os dedos pelas bordas e o abriu. Ficou surpresa ao ver que pelas páginas brancas, ao invés de letras, havia varias pequenas imagens espalhadas – todas de Shinra usando o uniforme azul do Raira. Nas primeiras páginas que passou, viu apenas fotos do médico, mas foi ficando cada vez mais empolgada quando, à medida que as passava, começou a reconhecer alguns rostos; Celty, Shizuo, Kadota e... Izaya!

Aproximou o Álbum do rosto, mirando a foto em que o informante aparecera pela primeira vez. Era realmente ele. Ao contrário de Shizuo e Shinra, ele usava um modelo de uniforme diferente, além de ser preto e usar uma blusa vermelha por baixo. Passou mais algumas páginas e a quantidade de fotos com o rapaz foi aumentando, junto com a dos outros colegas.


A última foto do Álbum era dos quatro, na cerimônia de formatura. Sorriu com as expressões. Shizuo tinha uma cara raivosa, prestes à acertar um objeto cilíndrico em Izaya, que fazia uma careta para provocá-lo, enquanto Shinra, que estava entre os dois, ria se divertindo com a situação, e Kadota, que também estava ao seu lado, suspirava com tudo aquilo.

Riu de leve, imaginando como seria frequentar o Raira com aquele quarteto. Provavelmente teria sido muito bom.


–Tadaima. – Ela ouviu, o que provavelmente seria Shinra.


Com passos calmos e abafados pelas meias, o médico adentrou na sala e avistou Mai no sofá com o Álbum.


–Ah, então você achou. – Sorriu. –Gostou das fotos?


–Muito! Pelo que parece, os anos em que você estudou lá foram muito bons.


–Sim, e foram. – Se aproximou do sofá por trás de onde a menina estava e se inclinou de leve, para que alcançasse as páginas do livro e as passasse. Parou assim que chegou à foto que procurava, descolando-a em seguida. –É essa mesmo. Pode ficar com ela, Mai-chan.


–Sério? – Pegou a foto das mãos do outro e a fitou. Nela tinha apenas Izaya, estava em pé, encostado em uma árvore de flores rosa, com uma das mãos no bolso e a outra segurando o celular, que era para onde olhava.


–Ele não percebeu que eu a tirei. – Riu.


–Obrigada, Shinra. – Mai agradeceu, olhando para a imagem com carinho.


Rapidamente a noite caiu sobre a cidade, e como Mai havia decidido que iria à escola apesar de tudo, se retirou logo para o quarto de Celty, sendo seguida pela mesma.


–Eu sinto muito pelo trabalho que estou dando, Celty. – Desculpou-se, enquanto se ajeitava num colchão baixo, ao lado da motoqueira.


–“Não há necessidade para isso. Sabe, assim como você, eu também não tenho muitas amizades. Então, fico feliz em ter você por perto.”


–Obrigada.



Mesmo tendo se passado apenas uma semana, a menina logo se acostumou à rotina naquele novo apartamento. Todos os três acordavam cedo, “tomavam” café juntos e Mai junto de Celty desciam para seus respectivos deveres. Ao chegar da escola, não havia ninguém em casa, mas não demorava muito, Shinra já estava de volta do seu trabalho. Mesmo naquele dia tendo desabafado com o rapaz, a colegial ainda ficava um pouco retraída ao ficar sozinha com ele. Coisa que não durou muito, pois o médico parecia adorar fazer-lhe perguntas e observa-la. Como ele sempre dizia: “Estou tentando entender o mundo na sua perspectiva”. E, em troca, tentava explicar à Mai coisas simples do cotidiano que ela não compreendia. Entretanto, os complexos cálculos da sua aula de matemática pareciam milhões de vezes mais fáceis do que entender a utilidade do “-Kun” ou do “-Sama”.


Infelizmente, ainda que os dois a tratassem tão bem, ainda não se sentia totalmente à vontade. Sempre achava que podia estar sendo, de alguma forma, um tipo de incômodo para o casal. E pensar que nunca se sentiu dessa forma enquanto morava com o Izaya... Ah, como sentia falta daquele escritório e do rapaz que lá morava.



Estava saindo da escola na companhia de seus amigos, quando deu uma última olhada para o prédio do Raira, se lembrando com desgosto de Atsuki. Ela havia comentado algo sobre querer encontra-la na escola para poder conversar, mas uma semana se passara e Mai não viu a mulher uma vez, se quer, nas dependências do colégio.


–Nossa, o céu estava nublado novamente... – Anri comentou, fazendo Mai tirar os olhos do prédio e olhar para cima. –Acho melhor nos apressarmos.


–Verdade. – Concordou Mikado. –Na previsão do tempo disse que ia ser assim até o final do mês.


–Mas para quê correr, Anri-chan? A chuva só lhe fará bem, mostrando suas belas curvas. ~ — Brincou Masaomi.


–Não seja impertinente, Kida-kun! – Exclamou Mikado, com o rosto corado.


–É melhor eu ir também. – Avisou Mai, acenando para os amigos e se afastando.


Mesmo com a ameaça de chover e ficar completamente molhada, ela decidiu não voltar para o apartamento de Celty. Ainda mais que a mesma havia comentado sobre ter pouco serviço naquele dia e que iria voltar mais cedo para casa. O bom senso de Mai, ainda que meio inexperiente, lhe dizia que era melhor dar aos dois um tempo só para eles. Por fim, optou por vagar pela cidade até o escurecer.


Andou por Ikebukuro por talvez mais de duas horas, resolvendo parar em uma praça, quando suas pernas pediram por descanso. Sentou-se num banco e relaxou, olhando para as pessoas à sua volta; viu alguns Cachecóis Amarelos conversando, um grupo de colegiais, um velho desenhando, Izaya conversando com dois rapazes... Izaya?

Piscou algumas vezes para ter certeza se era ele realmente, e era. Sentiu-se tensa no mesmo instante, apertando a barra de sua saia para tentar se acalmar. Abaixou a cabeça e se encolheu no banco, na tentativa de passar despercebida. Ficou nessa mesa posição como uma estátua durante bons minutos, quando resolveu olhar por entre os fios de sua franja e espiar o rapaz, engasgando ao notar que, enquanto conversava com os homens, Izaya olhava para ela; era um olhar de indiferença, acompanhado por um sorriso fino.

O coração de Mai começou instantaneamente a bater mais forte, mas não era uma aceleração agradável, que ocorre quando se vê a pessoa que ama. Eram batimentos agonizantes, de quem sente que algo de ruim pode acontecer a qualquer momento.


Os dois jovens disseram mais algumas coisas e logo se afastaram do informante, que voltou sua atenção completamente para Mai. A garota, por sua vez, levantou-se apressadamente do banco e saiu em disparada para longe do rapaz.



Enquanto se encontrava com dois homens na praça principal de Ikebukuro para tratar de negócios, teve a surpresa de ver Mai se aproximando do local. Inicialmente ela pareceu não nota-lo, quando resolveu olhar em volta. Seus olhares se encontraram, Izaya e Mai. Por um segundo, sentiu algo que se assemelhava a felicidade. Porém não deixou que aquilo durasse muito, empurrando brutalmente aquele sentimento para o fundo de sua mente. Ao invés de ficar sentindo coisas inúteis, concentrou-se em intimida-la pelo olhar, percebendo rapidamente que a colegial ficou instantaneamente tensa.

Depois que terminou sua conversa, fez uma pequena menção de se aproximar dela, mas não foi necessário dar nenhum passo para fazê-la fugir dali.

Riu internamente da situação, compreendendo parte dos sentimentos de Mai. Ela não tinha a menor ideia do que fazer, não sabia o que esperar dele e, por isso, estava com medo e insegura. Seria divertido brincar com ela, testa-la com coisas que nunca viu o estava preparada.


–Até mais, Mai-chan.



Olhou para os lados, sentindo-se aliviada pelo informante não tê-la seguido. Suspirou, não de alívio, mas de pesar. Como poderia ajudar Izaya se ficava sempre fugindo dele? Entretanto, mesmo que conseguisse se aproximar, o que faria por ele? E havia outro impasse ainda pior: mesmo que conseguisse se aproximar, mesmo que soubesse o que fazer, e se Izaya não quisesse receber ajuda? Duvidava muito que ele tivesse qualquer intenção se receber algum tipo de ajuda, ainda mais vinda de Mai. Tudo parecia conspirar para que não desse certo.

Se era tudo muito simples como Shinra havia dito, então Mai não tinha entendido o seu ponto de vista.



Da porta do prédio, Mai olhava para as nuvens escuras daquela manhã. Chovia uma fina garoa, mas mesmo assim Celty insistiu que levasse um guarda-chuva consigo, seu velho inimigo.

Saiu do toldo que cobria a portaria e começou a saltitar desviando das poças d’agua, até chegar à escola. Lá, o dia foi sem muita movimentação. Prestou atenção na aula, conversou com os amigos, riu um pouco e assim foi até o final das aulas.

Estava no corredor acompanhada por Anri, seguindo parar ir embora, quando ouviu alguém chamá-la. Uma voz que a fez congelar e ao mesmo tempo apertar os punhos. Com receio, olhou por cima do ombro e viu Mizawa Atsuki caminhando em sua direção.


–Que bom que eu te encontrei. – Ela falou.


–Mai-san... – Sonohara olhou para amiga de forma preocupada.


–Tudo bem, Anri. Pode ir na frente, vou ficar bem.


Com um aceno relutante, a de óculos se afastou. Só quando Anri dobrou o corredor, Mai voltou a olhar para Atsuki.


–Você tem uma boa amiga, pena que é uma Saika mãe. – Deu de ombros.


–O que você quer comigo? – Mai perguntou, encostando as coisas na parede e assumindo uma expressão neutra.


–Sei que você tem motivos para me odiar, mas acho que entendeu as coisas de forma errada. Minha única intenção aqui é a de ajuda mútua. Eu sei que você não é daqui, na verdade, desconfio seriamente que não é humana, mesmo não sabendo exatamente o que você é...


–Aonde quer chegar? – Interrompeu.


–Você não tem sobrenome, passado, família ou conhecimento comum. Uma vida difícil a aguarda, ainda mais que não vive com o Izaya. É complicado para você. Por isso eu estou aqui, quero te ajudar.


–Mas você quer algo em troca, como disse.


–Não muito, na verdade. Eu posso te dar tudo o que precisa para viver bem, tudo. Em troca, quero apenas o que seus olhos podem ver, se é que você me entende. – Enfiou a mão no bolso do jaleco e tirou um cartão, que entregou para Mai. –Me ligue, vamos discutir mais. – Deu um passo para trás e deu as costas para a colegial.


–Mizawa Atsuki. – Chamou em um tom sério, tanto que fez a outra parar e olhar para trás com as sobrancelhas erguidas. –Não perca o seu tempo esperando, não tenho o menor interesse nessa sua oferta. E não tente insistir, tenho um objetivo que preciso cumprir e nada mais importa. – Parou de falar, no entanto se lembrou de algo, ao mesmo tempo em que seus olhos começavam a adquirir brilho. –Ah, e é mais perda de tempo ainda colocar pessoas me observando. – Riu. –Nem você, nem ninguém pode conseguir descobrir o que eu realmente sou, sim? – Jogou o cartão no chão e deu as costas para a atônita mulher.


–As coisas podem mudar.


–Não para mim. – Olhou com tristeza para a palma da própria mão, enquanto seus olhos voltavam ao normal. –Infelizmente.



Estava quase chegando aos portões do Raira, quando sentiu como se alguém a estivesse observando. Olhou para os lados, à procura do que estava lhe causando tal sensação, quando achou seu ex-colega Kyosuke sentado em um banco do pátio. Mesmo estando junto de alguns amigos, o rapaz não tirava os olhos de Mai. No entanto, algo pareceu chamar mais ainda sua atenção, desviando o olhar para cima do ombro da garota. Percebendo isso, ela virou-se na direção do olhar do garoto e arregalou os olhos ao perceber que no passeio contrário ao do Raira estava Izaya; em pé com as mãos no bolso e sorrindo de forma cruel para ela.


Pânico.


Novamente, aquele torturante sentimento a tomou, fazendo Mai se repreender por ser tão covarde. Procurou em volta alguns de seus amigos, mas não viu nenhum. Engoliu seco, não havia ninguém que pudesse ajuda-la.

Respirou fundo e seguiu para fora do colégio, mas ao invés de atravessar a rua como sempre fazia, continuou no mesmo passeio, seguindo pela direita. Continuou a andar por longos metros, sem ter coragem de olhar para trás. Mesmo que tivesse tomado uma boa distância de onde vira o informante, não se sentia segura, então entrou numa ruela a fim de despista-lo, mas para o seu azar, ao chegar ao final, percebeu que era apenas um longo beco.


–Só espero que ele não tenha me visto entrar aqui... – Murmurou desanimada, colocando a mão na parede do beco.


–Não conte com isso, Mai-chan ~ — Ouviu, fazendo-a virar-se bruscamente e bater as costas na parede.


–Izaya! – Sua respiração falhou por um momento.


–Quanto tempo, não? – Sorriu, como se nada entre os dois tivesse acontecido. –Como está sendo viver com a Celty e o Shinra?


–Ahn... – Sua voz tremeu.


–Mas me diga uma coisa, – Se aproximou mais da garota. – você preferia viver comigo ou está melhor com a Celty?


–Nã-não... Quer dizer...


–Assim você me magoa, Mai-chan. Achei que... – Deu um sorriso malicioso. -... Achei que me amasse.


Arregalou os olhos, se lembrando daquele terrível dia em que se declarou e ao mesmo tempo se separou de Izaya.


–Por que você veio atrás de mim? – Perguntou com a voz ferida e olhando para os lados, tentando não encarar o penetrante olhar do rapaz.


–Por que a pergunta? – Fingiu surpresa. –Será que eu não posso mais me aproximar de você? Não diga isso. Sabe, desde que você foi embora, eu ando me sentindo muito sozinho, e isso não é bom.


Mai tentou se afastar de Izaya que se aproximava, arrastando-se para o lado, sentindo a parede úmida molhar seu uniforme. Entretanto, usando os braços, o informante conseguiu cerca-la facilmente.


–Acho que você terá de me recompensar por isso, não? – Olhou de forma maliciosa. –E há muitas formas de você fazer isso, mas que só podem ser feitas se você voltar comigo para o escritório.


Por um momento Mai sentiu seus membros amolecerem; Izaya estava chamando-a de volta para o escritório? Se fosse realmente isso, uma parte de seus problemas estaria resolvida. Porém não era alívio que estava sentindo. Não, longe disso. Seus sentimentos agora beiravam ao medo. Era isso, estava com medo de Izaya.


Medo, receio, desconfiança...


Tinha medo que ele brincasse com ela novamente, tinha receio dele abandona-la. Descarta-la simplesmente quando se cansasse dela. E ele iria, Mai tinha absoluta certeza disso. Ela o conhecia, sabia que ele era movido apenas pelos próprios desejos e que ninguém mais importava. E ele iria fazer isso com ela, como já deve ter feito com outras e assim faria depois.

E era por isso que ele era alguém solitário. Ao mesmo tempo em que feria as pessoas, feria a si mesmo, ainda que achasse que não.


O certo seria Mai se afastar de Izaya, cortar com qualquer tipo de relação. Só que o amor era um sentimento estranho, porém profundo. E esse amor subjugava qualquer tipo de sentimento ruim que Izaya lhe causava, fazendo-a querer ajuda-lo.


Queria ajuda-lo.


E agora sabia como.


Mai sabia que iria ser difícil, provavelmente iria se machucar de novo, e choraria, mas não se importava.


Iria, definitivamente, cumprir sua missão.


–Izaya! – Chamou um pouco mais alto, para que ele parasse de falar e prestasse atenção nela. –Você se sente sozinho? – Perguntou, percebendo um contrair de olhos do outro.


–Que besteira é esse que você está perguntando, ein? – Riu.


–Eu sei que você se sente. – Tocou de leve o braço que a cercava. –E eu também me sinto. Por isso eu... Eu...


–Mai... – Izaya já não sorria.


–Eu vou voltar com você, mas não agora. – Abaixou-se rapidamente para sair por baixo dos braços que a cercavam, quase tropeçando. –Eu preciso fazer algo antes! – Exclamou ao sair correndo para fora do beco.


Depois que Mai saiu, Izaya ajeitou sua postura e fitou o muro sem nenhuma emoção nos olhos.

Solidão, droga de sentimento.

Conseguiu fazer com que ela decidisse voltar, não da forma como esperava, mas conseguiu. Entretanto, havia algo de errado com sigo.



–Então eu disse que precisava fazer uma coisa antes e sai correndo! – Depois do pequeno encontro com Izaya, Mai voltou direto para o apartamento, onde encontrou apenas Celty, para quem naquele momento relatava os acontecimentos. –Mas a verdade é que eu não tenho nada para fazer, eu só disse aquilo porque quando estou perto do Izaya, não consigo pensar direito! E seu eu quiser realizar minha tarefa, preciso de algo planejado ou, ao menos, algo em mente.


–“Você é engraçada, Mai-chan.” – Celty digitou, contraindo de leve os ombros. –“Mas o que pretende fazer para ajuda-lo?”


–Isso é complicado... – Coçou a cabeça. –Acho que se eu te disser, não fará muito sentido. Nem para você ou para qualquer outra pessoa.


–“Tudo bem, irei confiar em você.”


–Obrigada, Celty. – Mai sorriu com carinho. –E agradeço a você e ao Shinra de todo o coração. Sinto muito não poder fazer nada por vocês.


–“Não diga isso. Só de você ser minha amiga e conseguir me compreender, já é algo muito importante.”


–É, talvez... – Ela respondeu, ainda achando que aquilo era tão pouco em relação ao que fizeram por ela. –Bom, vou tomar um pouco de ar. – Levantou-se do sofá e seguiu para a varanda do apartamento, fechando a porta atrás de si. O vento lá fora era frio e úmido, batendo em seus cabelos tão escuros quanto à noite.


Era triste... A sua missão.


De agora em diante, teria um difícil caminho a trilhar. Izaya não se deixaria ajudar tão facilmente, colocaria todos os tipos de barreiras e empecilhos em sua frente. E tudo isso iria causar um grande estrago em Mai, sabia disso. Sua trajetória seria dura, mas não desistiria.


E quando conseguisse... Seria deprimente e sôfrego.


Pois o final é sempre triste.


Ficou observando a grande Ikebukuro, atenta aos detalhes daquela misteriosa cidade; aos comuns e aos que apenas seus olhos podiam captar. Debruçou-se sobre o parapeito e assim ficou até que a noite chegasse e a Lua banhasse com sua luz prateada os prédios e ruas.

Tirou um dos braços que usava para apoiar o queixo e o desceu até o bolso de seu blazer, tirando o celular e levando-o para frente de seus olhos. Apertou uma das teclas e o aparelho ligou, emitindo uma luz que fazia o rosto da jovem brilhar no meio daquela noite.

Precisava mandar uma mensagem para Izaya.



Izaya estava sentado na cadeira de seu escritório, remoendo o tédio. Já tinha feito de tudo, havia irritado Shizuo na volta para seu escritório, trabalhado com serviços da Yakuza, feito algumas pesquisas, conversado nos chats, pesquisado novamente... E mesmo assim o resto do dia não passava e levava junto aquele estranho sentimento de desânimo e tédio que havia se apoderado dele.

Virou a cadeira para os janelões que mostravam a noturna Ikebukuro. Entediante... Não havia nada de novo que chamasse sua atenção. Pegou seu celular em cima da mesa e olhou para sua brilhante tela. Nada, nenhuma ligação perdida ou mensagem.


Por puro tédio, resolveu reler as mensagens que ele mesmo mandou para as mais variadas pessoas. Havia várias mensagens para várias pessoas, até para Mai. Clicou na primeira que vou o nome da garota como destinatário, rindo ao ler seu conteúdo.


Mensagem

–--------------------

Para: Mai

Assunto: Urgente


Mai,

Preciso de você neste momento, é um assunto urgente. Venha já.


Izaya

–--------------------


Lembrou-se do motivo da mensagem, rindo novamente. Era tarde da noite no dia em que a enviou. Já tinha terminado seus serviços e estava sem sono e completamente sem nada para ocupar sua mente, até Mai já havia ido dormir havia horas. Quando teve a ideia de mandar aquela mensagem atoa e ver como ela reagia.

Depois que a enviou, em menos de dois minutos ouviu o barulho da porta do quarto se abrindo e os passos apressados da garota descendo as escadas. Mai parou à sua frente na mesa, com o cabelo caindo da frente dos olhos e só com uma blusa social como pijama, e perguntou o que havia de errado. Izaya simplesmente disse que não havia nada e que só mandou a mensagem porque estava entediado.

A expressão de descrença de Mai foi hilária, mas ela não demonstrou mais do que isso. Apenas deixou os ombros caírem e se afastou da mesa seguindo para o sofá, onde se sentou. Ficou lá, sem nem ligar a T.V, até Izaya ficar com sono e resolver ir dormir.


Desceu mais um pouco, e achou mais outra. Ah, sim, essa também foi interessante.


Mensagem

–--------------------

Para: Mai-chan

Assunto: ~


Mai-chan,

Sei como gosta de usar minhas roupas como pijama, mas estou precisando justamente desta que está usando.

Por favor, retire-a antes que eu saia do banho, se não, eu mesmo o farei. ~


Izaya-sama.

–--------------------


E como foi interessante. Novamente Mai havia pedido para dormir na cama de Izaya, mesmo ele tendo perguntado o porquê e ela se recusado a falar. Durante a noite realmente não houve nada de estranho ou incomum. No entanto, ao amanhecer, Izaya se levantou mais cedo que a garota. Ainda sentado na cama, virou-se para a menina ainda adormecida; ela possuía uma expressão de extrema tranquilidade e conforto, como se não visse nenhum perigo em dormir na mesma cama que outro homem. Tal fato atiçou-o.


Levantou-se da cama e trancou a porta do quarto, guardando a chave na gaveta do criado-mudo. Pegou seu celular e seguiu para o banheiro, e antes de entrar no Box, mandou aquela mensagem. Depois tomou seu banho tranquilamente, sabendo que a garota, mesmo tendo lido a mensagem, não conseguiria sair do quarto. Riu internamente só de imaginar o pânico da menina.


Quando terminou, colocou propositalmente apenas uma calça de moletom e manteve os cabelos úmidos. Ao sair do banheiro, deu de cara com Mai em pé em frente à porta do quarto, segurando a maçaneta com as duas mãos e com uma expressão de completo pânico e constrangimento, e quando o viu, seu rosto ficou em chamas.

Por estar apenas com uma blusa social que batia um pouco acima dos joelhos, Izaya pode dar uma boa olhada no corpo de Mai, e perceber suas delicadas curvas, apesar de haver lugares em que elas eram um pouco mais acentuadas. Realmente, se agradava com o que via.

Infelizmente ou não, a colegial percebeu seu olhar e soltou um grito. Diante disso, o informante começou a rir e já satisfeito com a reação e “visão” que conseguira, deu um passo para frente, indo em direção ao criado para pegar a chave. Entretanto, Mai interpretou como se ele estivesse indo em sua direção tirar sua blusa, assustada, pegou seu celular e jogou nele.

Foi realmente complicado explicar à adolescente que era tudo uma brincadeira, e mesmo assim ela o evitou pelo resto do dia. Porém não nega que se divertiu com a situação.


Passou para outra mensagem, só que dessa vez não riu, mas um pequeno sorriso brotou em seus lábios.


Mensagem

–-------------------

Para: Mai-chan

Assunto: Encontro


Mai-san ~

Eu sei que você é uma pessoa muito ocupada que fica vagando pela cidade sem ruma algum, mas caso sua atarefada agenda permita, peço que me encontre na rua do prédio Sunshine.


Izaya-kun ♥

–--------------------


Aquele dia não teve nada de mais, mas foi interessante. Izaya havia acabado e sair de uma reunião perto daquele prédio e tinha o resto da tarde, quase noite, livre. Lembrou-se que Mai também já tinha saído da escola, então mandou aquela mensagem. Não recebeu uma resposta, mas mesmo assim esperou.

Algumas minutos depois, ouviu atrás de si calmos passos se aproximando. Virou-se e viu Mai, ela estava com o rosto corado e não o olhava nos olhos, mas estava lá.

Nenhum dos dois disse nada naquele dia, apenas se viraram juntos e caminharam lado-a-lado de volta para o escritório.


Era estranho, mas parando para pensar, Mai nunca respondeu nenhuma das mensagens, a única vez que mandou uma, foi para avisa-lo que ia ficar na casa de Celty. No entanto, mesmo assim, Izaya tinha sempre a certeza de que ela acataria ao seu chamado.


Estava indo olhar outra mensagem, quando o celular apitou e a imagem da tela mudou repentinamente, mostrando agora um pequeno envelope e em baixo escrito “Nova Mensagem”. Curioso, clicou para visualiza-la.


Era de Mai.


Mensagem

–-------------------

Para: Izaya

Assunto:


Izaya,

Ao por do sol de amanhã, me espere naquela praça em que nos encontramos naquele dia de chuva semana passada.

Por favor... Apareça.


Eu te amo.


Mai

–--------------------


Bateu o celular com força em cima da mesa ao terminar de ler, sem saber se estava irritado com ela por mandar uma mensagem daquelas e colocá-lo numa posição extremamente ridícula, ou consigo mesmo por ter se sentido bem ao ler seu conteúdo.



–“Está tudo bem mesmo?” – Celty digitou, reunida com Mai e Shinra na porta do apartamento.


–Espero que sim, tenho que me arriscar. E se der tudo certo, não voltarei para cá.


–Ah, não, o Orihara-kun é um destruidor de lares. Vai levar nossa filhinha embora e desestruturar nossa família, Celty. O papai vai ficar muito triste.


–“Você só fala besteira, Shinra!” – A mulher digitou irritada, enquanto Mai ria.


–Muito obrigada mesmo por tudo. – A garota sorriu. –E... E foi realmente um prazer conhecer vocês dois.


Mai se despediu singelamente dos dois e seguiu para escola. Caminhava na rua completamente distraída, não conseguindo tirar a mensagem que enviara para Izaya da cabeça. Lembrou-se do momento em que a digitou e enviou; suas mãos tremiam na hora de apertar os botões, quase deixou o celular cair prédio abaixo umas duas vezes e quando finalmente enviou a mensagem, enfiou o aparelho com toda força no bolso e não voltou a olhar para ele até agora.

Foi ridículo. A mensagem era ridícula, porém sincera.


Na escola, mal conseguiu prestar atenção na aula ou em seus amigos. Contava os minutos para o final do período chegar, ansiosa. Estava tomada por uma dualidade. Queria logo que chegasse a hora de se encontrar com Izaya e resolver aquilo logo, mas ao mesmo tempo, queria que a hora se arrastasse, pois estava nervosa e não sabia como as coisas poderiam decorrer.


Droga! Esse nervosismo estava matando-a!



Fim do capítulo 22.



Notas finais
Entãão, o que acharam?
Com relação aos fatos que o Shinra comentou sobre o Izaya, foram baseados no Light Novel 9, que uma de minhas queridas leitoras me enviou ~
Outro fato peculiar, eu não tenho a menor ideia do porque do uniforme do Izaya ser daquele jeito e não o azul. Se alguém souber, me conta, pois sempre tive essa curiosidade.
E, não, eu não tenho a menor ideia do porque da Mai odiar guarda-chuvas. Quando eu dei por mim, ela já tinha medo de usa-los.
Hahahaha, eu notei pelos reviews mais antigos que os leitores gostam um bocado das mensagens que o Izaya manda. Então resolvi colocar mais algumas aqui. Me digam o que acharam.
Espero que tenham gostado do capítulo! Eu agradeço muuito os comentários! Mandem cada vez mais, dizendo o que acharam.
Ahh, desculpe, não consegui colocar a imagem da Mai. Mas vou tentar novamente...