Miracle
1 Capítulo Um — The Strange
Notas iniciais
Miracle
Capítulo Um — The Strange
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Aquela era uma manhã relativamente comum em Ikebukuro. As ruas da cidade, sempre movimentadas, serviam de palco para milhares de vidas. Com cada pessoa seguindo seu próprio caminho e desfrutando de um dia a dia pacato e simples.
Independente da dupla que travava uma batalha de vida ou morte no meio da rua, aquele deveria ser um dia completamente comum em Ikebukuro, se não fosse por um pequeno detalhe: algo, alheio a todos ali, estava acontecendo. Uma existência que estava voltando para realizar algo e dar continuidade a acontecimentos passados, que ninguém se lembrava, mas que pertenciam a algo bem maior do que aparentava.
Ao menos para aquela pessoa.
Mas essa outra existência, que também fazia parte dos acontecimentos, não tinha a menor consciência disso.
— IZAYA! — Gritou Shizuo, completamente enfurecido. — Dessa vez, eu definitivamente irei matá-lo!
Erguendo uma máquina de refrigerantes do chão, o loiro a arremessou contra o informante, que se desviou facilmente dela, soltando uma risada petulante logo em seguida.
— Não diga isso, Shizu-chan — falou em tom falsamente magoado. — Assim vou achar que não me quer por perto.
— Calado, seu bastardo! — Esbravejou, correando até uma placa de PARE e tentando arrancá-la do asfalto. — Ninguém em sã consciência gostaria de te ter por perto!
Vendo naquele pequeno intervalo uma chance de escapar, Izaya deu as costas para Shizuo e começou a correr. Já o loiro, um pouco atrasado em perceber a fuga do outro, acabou tendo que deixar de lado sua nova arma para dar início a uma nova perseguição.
Entretanto, mesmo com o esforço do ex-barman, o informante era bem mais rápido. Com isso, em pouco tempo, uma distância razoável foi colocada entre os dois, fazendo com que os gritos de Shizuo ficassem para trás e Izaya fosse capaz de se sentir seguro novamente.
Rindo e pensando em como o loiro era um monstro estúpido, o rapaz, ainda correndo, olhou para trás por cima do ombro para se certificar de que estava de fato livre dele, quando se sentiu trombar em alguém. O baque chegou a desequilibrá-lo, mas não o derrubou, ao contrário da outra pessoa, que acabou caindo sentada no chão.
Um pouco surpreso, olhou para baixo, vendo que havia trombado em uma garota. De tez pálida e olhos azuis, ela possuía longos e lustrosos cabelos negros, que chegavam quase aos seus quadris e com frios que cobriam sua testa e parcialmente os olhos. A jovem usava um vestido escuro de mangas cumpridas e chegando até os joelhos, suas pernas estavam cobertas por meias também pretas e seus pés calçavam botas.
— Ai, ai… — ela gemeu baixinho, esfregando as costas.
Por um momento, Izaya até considerou puxá-la para cima e colocá-la de pé, mas então uma lixeira de metal descreveu um arco acima de sua cabeça e se espatifou no passeio a frente deles. Alarmado, ele olhou para trás novamente, percebendo que Shizuo havia conseguido cobrir a distância entre eles, provavelmente pegando um atalho, e agora se encontrava no final da rua, com um sorriso afetado e ofegante.
— AGORA EU TE PEGO!
Tentando reconhecer o local onde estava e buscando uma rota de fuga, Izaya observou a sua volta. Estava parado no meio de um parquinho cheio de brinquedos coloridos que, infelizmente, ele chegou a conclusão de que não conhecia.
Sem opção, acabou decidindo que o melhor era correr às cegas do que continuar ali parado enquanto o loiro se aproximava. Todavia, no momento em que se preparada para sair dali, sentiu alguém pegar sua mão e puxá-la.
Foi nesse momento que Izaya percebeu que aquela garota estava tentando ajudá-lo a fugir.
Sem nunca soltá-lo, ela o guiou por várias ruas e ruelas, até não conseguirem mais ouvir os gritos de Shizuo ou o barulho de coisas sendo destruídas. A jovem só o largou quando pararam, já bem distante do local onde haviam trombado.
Ligeiramente ofegante, Izaya olhou para a estranha, que respirava com dificuldade e fitava um tanto surpresa sua própria mão.
Ao perceber que estava sendo observada, ela voltou-se para o informante. Em seus olhos havia um brilho esperançoso.
— V-você… — ela começou, também um pouco perdida. — Você poderia…
Izaya ergueu a mão, interrompendo-a.
— Muitíssimo gentil da sua parte me ajudar, ojou-san. Tem minha gratidão — falou teatralmente, mas, ao mesmo tempo, um pouco irônico. — Todavia, sou um homem ocupado e preciso me retirar agora. Por isso, me der licença…
O informante, sem esperar uma resposta, deu as costas para ela e começou a andar.
— Espera! — Ela pediu, agarrando seu casaco.
Erguendo as sobrancelhas, ele a olhou por cima do ombro.
— Sim? ~
— Eu… Eu preciso fazer algo muto importante, mas para isso preciso de um lugar para viver — falou apressada. — Por isso…
Ela deixou o final da frase morrer, porém não era necessário mais do que aquilo para Izaya compreender o que ela queria. E era algo tão ridiculamente absurda, que o fez soltar uma gargalhada.
— Oh, então você tinha segundas intenções? Que decepção, só me ajudou porque queria algo em troca. Pergunto-me se você é presunçosa ou apenas estúpida mesmo — riu. — É melhor você pedir isso a outro, ojou-san.
Puxando seu casaco de volta, ele retomou seu caminho. Entretanto, ela o contornou e parou bem a sua frente.
— Por favor — implorou. — Eu realmente preciso fazer algo, mas se não tiver um lugar para viver, nunca vou conseguir!
Izaya bufou, começando a se zangar. Ele a olhou de cima a baixo, analisando a situação. Se ela pedia um lugar para viver, certamente no momento morava na rua. Entretanto, não era isso que aparentava. Suas roupas estavam limpas, não havia sinais de desnutrição e seu cabelo estava bem cuidado. A única alternativa lógica que sobrava era ela ter fugido de casa a pouco tempo ou de algum orfanato.
— Preste atenção no que vou dizer, ok? — começou, quase como se falasse como uma criança e estivesse sem paciência. — Eu tenho certeza que teria conseguido fugir do Shizu-chan sem a sua ajuda. Se você quis se intrometer, o problema não é meu. Por isso, não tenho a obrigação de lhe oferecer algo em troca.
— Mas…!
— Não insista, está começando a me irritar, criança — cortou.
Respirando fundo, Izaya passou por ela e foi embora, deixando-a para trás.
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Sentado na mase de seu escritório, completamente sozinho, Izaya fitava a tela de seu computador, enquanto digitava a senha de seu usuário em seu costumeiro chat.
CHATROOM
— – Kanra-san entrou no chat
(Kanra-san): Kanra-san chegou para animar a tarde de vocês ~
(Setton-san): Boa tarde.
(Tanaka Tarou-san): Olá.
(Kanra-san): E então, sobre o que estavam conversando?
(Kanra-san): Quero fazer parte do assunto ~
(Setton-san): Não ficou sabendo?
(Kanra-san): Sabendo do que?
(Tanaka Tarou-san): Agora a pouco, na rua do Teatro, um lobo negro foi visto.
(Tanaka Tarou-san): Não chegou a atacar ninguém, mas fez alguns estragos.
(Setton-san): Eu estava lá.
(Setton-san): O Controle de Animais tentou capturá-lo, mas não conseguiu.
(Setton-san): O animal tinha uma força extraordinária e era bem maior que lobos comuns.
(Setton-san): Nem dardos tranquilizantes funcionaram e no fim ele apenas fugiu.
(Tanaka Tarou-san): Como não ficou sabendo disso, Kanra-san?
(Tanaka Tarou-san): Todos estão comentando.
(Kanra-san): Hoje tive alguns contratempos.
(Kanra-san): Sem falar que uma garota irritante ficou me perturbando.
(Setton-san): Garota?
(Kanra-san): Ah, nada que mereça a atenção de vocês.
(Kanra-san): Mas voltando ao lobo…
(Kanra-san): O que acham que era?
(Tanaka Tarou-san): Uma cobaia de laboratório que fugiu?
(Setton-san): Um lobo com Raiva?
(Kanra-san): Ou então…
(Kanra-san): Uma nova criatura mitológica!
(Setton-san): Impossível.
(Kanra-san): A Motoqueira Sem Cabeça existe, não existe?
(Tanaka Tarou-san): Mas como…?
(Kanra-san): Não faço a menor ideia, mas quero descobrir.
(Kanra-san): Ah, até gostaria de continuar a conversa, mas tenho que sair.
(Kanra-san): Bye bye ~
— – Kanra-san saiu do chat
Com um sorriso malicioso nos lábios, Izaya se recostou melhor na cadeira. Aquela nova informação o havia deixado muito intrigado. Nunca havia passado por sua cabeça a possibilidade de existirem outros mitos como Celty na cidade. Mas, considerando a própria motoqueira e a espada amaldiçoada, não era algo tão absurdo assim. Se aquele lobo realmente tivesse alguma ligação com o sobrenatural, ele seria de grande utilidade para Izaya. Ainda mais se ele se mostrasse nem tão passivo como a motoqueira.
— Ora, ora, Celty, talvez você acabe arranjando um inimigo a sua altura.
Faminto por mais informações, Izaya se pôs a pesquisar mais na internet sobre o aparecimento daquele lobo. O que não faltava eram imagens, relatos e vídeos sobre o ocorrido, o que só o fez acreditar ainda mais na passibilidade daquela criatura realmente ser um mito. E se ele era de fato isso, com toda certeza havia uma lenda contando sua história. Entretanto, ao contrário do que fizera a pouco, essa era uma informação que preferia procurar em livros que fossem de confiança. O melhor era ir em uma biblioteca e Izaya conhecia uma excelente a oeste de Ikebukuro, com um grande acervo, que seria perfeita para o seu objetivo.
Se pudesse, teria ido até ela naquele momento, mas tinha alguns serviços que precisava realizar e que não podiam ser adiados. Mas não havia problema, no dia seguinte iria até ela.
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Os raios de Sol atravessavam as frestas da cortina, atingindo o rosto de Izaya e lhe trazendo uma sensação incomoda. Coçando os olhos, ele os abriu lentamente, tentando se acostumar a claridade.
Após alguns minutos apenas deitado na cama e fitando o teto do quarto, ele se levantou e foi até o armário, pegando uma muda de roupas e seguindo para o banheiro.
Feita sua higiene pessoal e devidamente vestido, desceu para o andar inferior. Namie estava em um canto do escritório, arrumando alguns arquivos, e nem se deu ao trabalho de cumprimentá-lo. Izaya fez o mesmo, indiferente, e tomou seu café da manhã.
Completamente pronto, o informante deixou o apartamento e rumou em direção a biblioteca, ansioso para começar sua pesquisa.
Ao chegar ao local, que cheirava a papel velho e mofo, se deparou com longos corredores feitos de estantes abarrotadas de livros. Não querendo perder tempo com uma busca a esmo, foi até uma atendente e peguntou onde ficava a sessão que desejava. Devidamente informado, seguiu para o local, encontrando uma infinidade de livros sobre mitos de todo o mundo. Ver aquilo o fez pensar em como isso demoraria, mas não se importou, estava com tempo de sobra.
Primeiro, apenas passou os olhos pelas lombadas de couro, depois pegou um que abrangia lendas europeias e começou.
Mesmo folheando e pesquisando em mais de quinze livros, Izaya não conseguiu chegar nem perto de algo semelhante ao lobo. Suspirando, ele voltou com o livro que segurava para a estante.
— Talvez ele não seja mesmo um mito — murmurou frustrado.
— Na verdade, era sim. Procure pelo título: A Vingança do Lobo das Montanhas.
Ao ouvir repentinamente uma voz ao seu lado, Izaya errou o encaixe do livro e o deixou cair. Surpreso, ele se virou na direção da voz, deparando-se com ela, a mesma garota do dia anterior.
— Que coincidência! — Ela sorriu.
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