Miracle

23 Capítulo 23 - Confessions


Notas iniciais
Desculpe a demora.
Não me abandonem!!!
Caro leitores, eu peço do fundo do meu coração que leiam atentamente as notas no final da capítulo.
Boa leitura.

Miracle


Capítulo 23 – Confessions


Então, o momento chegou.


Suas pernas tremiam e seus passos em direção ao ponto de encontro eram incertos, mas Mai persistia. Chegou a uma das ruas que contornava a praça; olhou para os lados à procura de Izaya, até que seu coração deu uma batida de alívio ao ver o informante sentado em um dos bancos virado de costas para onde ela estava.

Sentiu vontade de chorar. Estava feliz por ele ter vindo, mas se segurou. Deu um passo para frente, mas não passou disso, estava travada. Ela estava nervosa, seu coração batia desenfreadamente e não tinha ideia do que poderia acontecer dali para frente.

E se ele quisesse beija-la?!

Não, não, não. Isso de novo, não. Era muito estranho e constrangedor. Se naquele dia em que o beijo foi repentino e apressado já havia sido uma situação embaraçosa, imagina se fosse algo calmo, lento e demorado? Mai iria morrer de vergonha. Era um ato estranho e vergonhoso.

Mas, afinal de contas, por que ele a beijou?


– Quanto tempo ainda pretende me fazer esperar?


– Ahn? – Mai levantou o olhar, dando de cara com Izaya em pé na sua frente, com uma expressão um tanto irritada. – I-Izaya! – Deu um passo para trás com os olhos arregalados. – Eu não te vi chegando.


– Mas eu, sim. – Respondeu, tirando as mãos dos bolsos do casaco e usando uma para agarrar o pulso de Mai e arrasta-la dali.


– Ei, Izaya... – Tentou chamá-lo, mas ele nada respondia.


O mais velho não parava de andar ou de segurar seu pulso, mesmo que estivessem entrando no centro comercial de Ikebukuro e começassem a passar por pessoas conhecidas. Mai olhou para os lados, corando ao perceber que vários conhecidos os observavam com, de certa forma, curiosidade e espanto – viu Erika e Walker, que olharam para os dois e soltaram risinhos; viu Celty, que apenas acenou com a cabeça e viu até Masaomi e Mikado, que olharam com real espanto, principalmente o loiro. Entretanto, a atenção da garota logo deixou os a sua volta e se focou em Izaya um pouco a sua frente.

Estreitou de leve os olhos e abaixou a cabeça, sentindo o rosto esquentar ainda mais.



O escritório estava do mesmo jeito desde a última vez em que Mai esteve lá; de aparência luxuosa, porém simples. Um local que causava nela uma misteriosa sensação de conforto e aconchego. Ao chegarem, Izaya largou a mão da garota e se jogou no sofá, fechando os olhos e soltando um suspiro cansado. Ainda em pé perto do sofá, Mai também suspirou e deixou os ombros caírem, pensando se seria ela a começar a falar ou se as coisas ficariam por isso mesmo.


– Eu não te odeio. – Izaya cortou o silencio, fazendo a outra retrair. – Eu realmente não te odeio. – Repetiu, se ajeitando no sofá, enquanto Mai saia de seu lugar e ia para frente do rapaz.


Os dois se olharam nos olhos, sem desviar. Aquele estranha ligação continuava entre eles.


– Izaya...


– Mas eu não te amo. – Interrompeu.


Mai sentiu o coração apertar e as lágrimas ameaçavam sair, mas ela se manteve firme, nunca perdendo o contato com aqueles rubros olhos, tão sérios agora.


– Eu sei. – Respondeu tristemente. – Então porque me trouxe de volta?


– Porque você pode me dar algo que desejo e preciso. – Deixou os ombros caírem pesadamente. – Vou agraciar você com minha sinceridade, então aproveite e preste muita atenção.


– Certo.


– Eu não te amo, eu não tenho a capacidade de retribuir nenhum tipo de sentimento concentrado em uma única pessoa. Eu não amo ninguém em especial. Meu amor está na humanidade, eu amo os humanos. – Um sorriso distorcido brotou nos lábios do rapaz, assustando um pouco a garota. – Por isso, não perca seu tempo e se conforme. Independente dos seus sentimentos, dos quão profundos são, eu não me importo nem um pouco com eles. Resumindo, você nunca terá tal importância para mim.


– Mas... – Apertou os olhos, tentando não chorar, mas parecia difícil. Ouvir aquilo doía, saber que tudo o que Izaya disse era verdade, machucava. Ser rejeitada dessa forma era a pior sensação do mundo. – Por que...?


– Você não prestou atenção? – Irritou-se. – Acabei de dizer.


– Eu prestei. – Interrompeu. – Eu também prestei atenção nas vezes em que você cuidou de mim; quando você veio me buscar na casa da Celty, mesmo madrugada, e me carregou de volta para o escritório; quando você tentou me consolar quando eu chorei; quando me deixou dormir na sua cama; na vez em que você fez café para mim; quando deixou o guarda-chuva na porta, sabendo que eu ia acabar saindo sem um... – Sua voz era baixa e lenta, e quanto falava, notou os olhar de Izaya se contrair.


– Já chega disso. – O informante levantou do sofá, fazendo Mai dar um passo para trás. – Não vou perder meu tempo te explicando as coisas, já percebi que você não quer entender.


– Mas, Izaya...?!


– Chega! – Saiu de perto do sofá, seguindo em direção à sua mesa.


– Eu te amo. – Disse, seguindo o rapaz. – Eu realmente te amo!


– Pare de falar besteiras, Mai. – Percebendo que a garota o seguia, ao invés de sentar em sua cadeira, deu a volta por trás da mesa e acelerou seus passos, na tentativa de se distanciar de Mai.


– Mas é verdade! – Continuou a segui-lo, acompanhando seu ritmo.


– Isso está ficando ridículo! – Xingou irritado.


Izaya aumentou a velocidade dos passos, entretanto, no momento em que estava contornando a fileira de bancadas, tropeçou em sabe-se lá o que. Teria conseguido se manter em pé, mas pelo fato de Mai estar correndo logo atrás dele, a garota acabou não conseguindo parar, por fim, trombando com ele, fazendo-o perder completamente o equilíbrio e cair, literalmente, de cara no chão, junto dela.

O barulho causado pela queda dos dois foi alto, mas em seguida o silencio prevaleceu. Nenhum dos dois se mexia.


– Ai, ai... – Ela reclamou com a voz abafada por estar pressionada contra as costas do informante. – Por que você me derrubou? – Levantou a cabeça.


– Eu não te derrubei, você me derrubou. – Levantou-se um pouco, se apoiando nos cotovelos para olhar para trás. – Vamos, saia de cima de mim.


A colegial saiu de cima do outro, porém continuou no chão, apenas sentou-se sobre suas pernas. O informante também se manteve no chão, com uma das pernas dobradas e o braço apoiado em cima, de frente para Mai. Os dois continuavam a se encarar.


– Izaya...


– Pare de repetir isso e me escute. – Suspirou cansado. – Você dá muito trabalho, Mai-chan.


– Mas você disse que estava disposto a isso. – Sorriu, recebendo em troca um olhar irritado.


– Preste atenção, eu só estou te mantendo aqui por motivos puramente egoístas. Não é porque eu gosto de você, longe disso. Eu apenas te vejo como uma ferramenta que vou usar para saciar meus desejos impuros e minhas carências. Não há nenhum tipo de sentimento, como amor, envolvido nisso. Resumindo, você vai continuar a viver aqui comigo da mesma forma que estávamos antes, posso até te dar o que quiser, dinheiro não é problema. Também pode continuar com seus sentimentos, para mim não faz diferença.


– Eu não quero nada, apenas que o Izaya seja uma pessoa feliz. – Falou um pouco acanhada.


– Dessa forma... – Ignorou o comentário. – Você só terá que satisfazer meus desejos. – Sorriu maliciosamente, passando o olhar pela garota.


– E o que você deseja?


– Você saberá quando eu quiser, mas por enquanto, só a sua presença aqui já está sendo suficiente.


– Isso só vai me ferir mais ainda...


Ao mesmo tempo, os dois desviaram o olhar e se levantaram do chão. Mai bateu a mão em sua saia para tirar a poeira e Izaya ajustava seu casaco nos ombros.


– Eu vou subir para me trocar. – Ela avisou, dando as costas para o rapaz e seguindo para as escadas.


As coisas não tinham se desenrolado como Mai queria, mas era o suficiente. Precisava ficar perto de Izaya para conseguir ajuda-lo, e havia conseguido. Não sabia muito bem o que ele queria dela, mas tentaria atende-lo da forma que conseguisse. Talvez através disso, até conseguisse se aproximar mais dele.


Mai estava passando ao lado da mesa principal, indo subir o primeiro degrau, quando sentiu a mão de Izaya segurar seu braço.


– O que foi?


Ele não sabia explicar o que estava sentindo. Era como se seu corpo se aquecesse de uma forma estranha de uma hora para outra. A única coisa que sabia era que queria Mai naquele exato momento, queria senti-la.


– Eu mudei de ideia. – A puxou para trás, fazendo-a ficar de frente para ele. – Eu quero algo. Agora.


– Mas o que você quer? – Ela perguntou de forma inocente, não entendendo onde ele queria chegar e o motivo daquela estranha expressão em seu rosto.


– Eu quero aquilo que fizemos naquele dia na chuva. – Falou com um ar de malícia, se aproximando mais, fazendo a colegial arregalar os olhos.


– Nã-não! – Deu um passo para trás. – Peça outra coisa, qualquer coisa, menos isso. – Seu rosto começou a esquentar, lembrando-se daquele momento.


– Que reação é essa, Mai-chan? Por acaso não gostou da última vez que eu te beijei? – Continuou a se aproximar, sempre cobrindo a distância que ela colocava entre os dois.


– Não, é que... – Se retraiu ao sentir suas costas encostarem ao vidro frio da janela, deixando-a sem saída e em pânico. – É serio, Izaya.


– O que foi? ~ – Aproveitou a chance para cerca-la definitivamente, colocando as mãos na delicada cintura da menina. Tal ato a fez sobressaltar e colocar as mãos no peito de Izaya, para tentar mantê-lo longe. – Não precisa ficar tão assustada, não vou te machucar. ~


– Não é isso. – Olhou para o chão com o rosto vermelho. – É que aquela vez na chuva foi a primeira vez que eu beijei alguém, e ainda sim foi algo muito rápido. Por isso... Eu não tenho a menor ideia do que fazer, eu me sinto insegura. – Voltou a olhar para cima, arregalando os olhos ao ver a expressão de surpresa no rosto do informante.


– Quer dizer que eu sou a primeira pessoa que você beijou? – Perguntou, com um perceptível tom de humor na fala. – Mas você é tão inocente e tímida, que já era de se esperar.


– Izaya... – Falou constrangida.


– Então vou apreciar esse momento mais ainda. – Sorriu malicioso, satisfeito por ser o primeiro e, provavelmente, o único a poder tirar da garota toda a pureza que tinha.


Não disse mais nada, se aproximou mais de Mai, prensando-a contra o vidro, sentindo o corpo da garota contra o seu. Inclinou-se um pouco e colocou os lábios próximos ao ouvido dela, sentindo-a arrepiar.


– Coloque os braços em volta do meu pescoço. – Sussurrou, fazendo Mai deslizar as mãos que estavam em seu peito, para seu pescoço e entrelaçando um pouco em seu cabelo, lhe causando uma sensação boa. Ao mesmo tempo, subiu as mãos pela cintura dela, fazendo-a estremecer.


– Isso é estranho, Izaya. – Ela falou, com o rosto corado, visivelmente nervosa e sem coragem de encara-lo. – Vamos parar...


– Não. – Tirou uma das mãos que estavam em seu tronco e a levou até o rosto de Mai, obrigando-a se virar para ele. – Não mais.


Não deixou que ela protestasse mais, rapidamente juntou seus lábios aos dela. Inicialmente foi um toque superficial, apenas para se acostumar com a nova sensação. No entanto, Izaya não tardou em aprofundar mais o beijo, inclinando um pouco a cabeça e puxando Mai mais para si.

Através do beijo, ele podia facilmente perceber a inexperiência e nervosismo da garota, que tinha dificuldade em acompanhar seu ritmo. Só que não era apenas isso. Notou com agrado que, mesmo naquele estado, ela não o repelia. Também não tomava grandes atitudes, tentava apenas acompanha-lo e o deixava no total controle, dando-lhe a liberdade de tomar quaisquer atitudes.


Sentindo que tanto ela, quanto ele estavam ficando sem ar, encerrou o beijo, separando-se dos lábios da outra, mas ainda com seus corpos muito próximos. Olhou para Mai, ela estava ofegante, com o rosto corado e lábios entreabertos.

Aquilo provocava Izaya, tudo em Mai o provocava. Toda aquela inocência e inexperiência misturada a uma estranha imprevisibilidade e mistério, só o fazia quere-la cada vez mais.


Os dois continuaram a se encarar, nenhum tinha vontade de quebrar aquela conexão, muito menos se afastarem. Demorados segundos se passaram, até que voltaram a juntar seus lábios, os dois. Beijaram-se mais uma vez e mais outra. Já completamente sem ar, Izaya se afastou por completo, dando alguns passos para trás.

Ao contrário do rapaz, que ainda a encarava, Mai não teve coragem de olha-lo nos olhos, mantendo a cabeça abaixada, tocando com as pontas dos dedos os próprios lábios. E quando reuniu forças para levantar a cabeça, o informante de repente deu as costas para ela e subiu as escadas sem dizer nada.


A garota também não fez nada para que ficasse, deixando que ele simplesmente a largasse sozinha com os sentimentos à flor da pele. Ainda um pouco ofegante, ela apoiou as costas no vidro e escorregou para o chão, enquanto apertava o uniforme na área do peito. Seu coração parecia doer a cada batida, borbulhando com a quantidade de sentimentos, que mal conseguia suportar. Porém havia dois que se sobressaiam.


Amor e dor.


Amor... Não sabia porque, mas aquele beijo só fez seu amor por Izaya aumentar ainda mais, se intensificar. Queria mais ainda estar próxima dele. Queria beija-lo novamente, abraça-lo, dizer o quanto o amava e, principalmente, ser correspondida.

Só que ela não seria, e era por isso que doía tanto. O informante nunca a amaria de volta. Ele estava apenas usando-a, e ela deixava. Ter essa certeza, saber que não havia nenhum tipo de ligação entre os dois, rasgava seu coração.

Entretanto, um outro sofrimento a afligia. Uma dor que ninguém compreendia ou fazia ideia do que era. Tal dor que existiria mesmo que ele retribuísse verdadeiramente seus sentimentos.


O final. Saber o que estava por vir a torturava impiedosamente.



Mal a estudante sabia que não era só ela que sofria com o que acabara de acontecer. Izaya também se sentia perturbado, tomado por um sentimento de duas faces. Satisfação e receio. Satisfação por ter conseguido o que queria e receio por ter percebido que os dois haviam cruzado uma linha perigosa.



Deitada em sua cama, a garota de cabelos negros olhava para o teto branco de seu quarto. Só de encarar seus olhos – que tinham um tom escuro, quase negro –, dava para perceber que não tivera uma boa noite. Era óbvio que não. Passou a noite inteira relembrando os acontecimentos do dia anterior. Analisando tudo, cada uma das atitudes, tanto suas, quanto as de Izaya.

Levantou-se da cama, estranhando o fato de que, mesmo tendo passado a noite inteira acordada, não estava cansada. Nem sua cabeça latejava, que era o que acontecia quando dormia mal.


Foi até o armário e ao invés de colocar seu uniforme azul, pegou um par de meias pretas 7/8, saia de pregas da mesma cor e uma blusa vermelha de mangas compridas. Já que era final de semana, iria aproveitar para passear por Ikebukuro e esfriar a cabeça, ainda mais agora que não tinha que se preocupar com a possibilidade de encontrar Atsuki com Izaya.


Desceu para o escritório, logo percebendo o rapaz sentado no sofá assistindo T.V. Rapidamente os sintomas dos acontecimentos da noite anterior a atingiram. Seu coração disparou e sentiu a respiração falhar.


– O-oyasuminasai! – Tentou.


– Ahn? – Riu da garota. – Acho que você está algumas horas atrasada. Já é de manhã, Mai-chan.


– E-eu sei! – Corou com o erro.


– Será que é por causa do que aconteceu ontem que você ficou tão perdida? Ah, e olha que nem fomos tão longe. ~


– ... – Mai abaixou o olhar, desanimada, ao lembrar-se dos próprios sentimentos. – Eu vou sair um pouco, ok?


– Já tão cedo vai me largar sozinho? ~


Ela preferiu não responder ao comentário, simplesmente saiu do escritório e desceu para a rua. O ar do lado de fora estava úmido e tanto o passeio quanto a rua estavam cobertos por uma fina camada de água, assim como os carros estacionados, proveniente da chuva noturna. Feliz por não precisar do guarda-chuva, saiu rua afora sem um destino especifico.

Passou em frente à uma loja de conveniências com portas de vidro, quando viu alguém de relance acenar para ela do lado de dentro do estabelecimento. Retrocedeu alguns passos, parando em frente à porta que abriu sozinha – assustando-a, e encontrou Anri pagando em frente ao caixa.


– Que coincidência, Mai-san. – A de óculos cumprimentou ao sair.


– Verdade. – Riu. – O que estava comprando?


– Algumas coisas para improvisar um almoço. – Respondeu, abrindo a sacola e mostrando seu conteúdo.


– Anri... – Hesitou por um instante, olhando para a sacola e depois para quem a carregava. – Como são os seus pais? – Perguntou, percebendo que aquelas palavras haviam causado um estranho efeito da colega.


– Bom... – Olhou para os lados um pouco receosa. – Eu não tenho pais, eles morreram.


– Morreram? – Ela repetiu, fazendo a palavra parecer um pouco vaga. – Ah, certo.


Sonohara levantou o olhar para Mai, achando estranho, e até um pouco ofensivo o fato dela ter tratado sua resposta como algo comum, não demonstrando um pouco de companheirismo ou compreensão quanto à sua situação.


– Mas está tudo bem, não é? Eu também não tenho pais, e não sinto falta. – Respondeu rindo. – Sabe, esses dias eu fiquei pensando em como seria ter pais, mas pelo que parece, não faz muito diferença entre ter ou não.


– Você está errada. – Falou rápido. – Faz, sim. Eu sinto falta dos meus pais e penso neles todos dos dias. – Parou e olhou para a amiga. – Eu preferia que você não tocasse mais nesse assunto, Mai-san, principalmente se pretende trata-lo como algo banal.


– Desculpe. – Sorriu, mas era um sorrido de decepção para consigo. – Acho que eu fiz de novo... Eu não tinha percebido isso antes de ter amigos, mas agora fica um pouco evidente a diferença que existe entre eu e os humanos na forma de ver o mundo. Eu não tenho muita experiência de vida, e nem vou ter, por isso não entendo muitas coisas. Fora que o simples fato de não ser humana, muda muita coisa. – Olhou para o lado, não querendo encarar Anri. – Sinto muito se te ofendi.


– Tu-tudo bem...


– Eu até gostaria de te acompanhar até sua casa, mas tem algo que quero fazer. – Acenou com a mão. – Até a escola.


Com a consciência um pouco pesada, voltou para sua solitária caminhada, pensando nas varias coisa que também não compreendia. Realmente, havia muitas coisas naquele mundo que fugiam de seu conhecimento. Tantas culturas, conceitos, lugares, situações e sentimentos... O mundo era enorme e cheio de coisas incríveis, mas que ela própria nunca poderia ver.


Isso era triste. Via as pessoas à sua volta fazendo planos para o futuro, planejando a vida e pensando no dia de amanhã, enquanto ela mal sabia se abriria os olhos no dia seguinte, pois estava privada de um futuro. Sentia até um pouco de inveja dos seres humanos. E por causa disso, recentemente um forte sentimento de curiosidade a incomodava e a fazia tentar imaginar como seria sua vida caso fosse humana. Infelizmente, o resultado de tentar perguntar sobre como é ter uma família não foi muito agradável. Talvez o melhor fosse ler em livros por conta própria e perguntar ao Izaya, que parecia uma pessoa inteligente e com muitos conhecimentos.


– Mas, no final das contas, estou apenas me torturando com isso tudo... – Suspirou, enquanto olhava para os lados para atravessar a rua.


Andou um pouco pelo passeio, até chegar a um lugar que lhe era bem conhecido: a praça principal de Ikebukuro. Adorava aquele lugar. Os bancos de madeira, as belas e frondosas árvores e a fonte jorrando água no meio refletiam uma beleza incomum.

Como estava cedo e era final de semana, não havia ninguém, a não ser um senhor sentado em um caixote com um bloco de desenhos em mãos. Curiosa e sentindo que poderia ser bem recebida pelo homem, se aproximou a passos calmos.


– Com licença. – Falou, fazendo o velho levantar os olhos do caderno.


– Ohayoo, senhorita. – Abaixou o bloco, revelando um esboço da praça.


– Que belo desenho. – Ela elogiou.


– Você acha? – Levantou-o para olhar melhor. – Eu o achei um tanto sem vida. – Virou-se para Mai, olhando-a atentamente. – Será que a senhorita me permitiria desenha-la?


– Eu? – Apontou para si mesma, sem graça. – Acho que tem coisas mais interessantes para desenhar.


– Ai que você se engana. Tenho bons olhos e vi em você algo muito interessante. Não sei dizer ao certo o que é, mas é algo bem especial.


– Serio? – Riu sem graça e com uma pontada de receio dele ter percebido algo que deveria ser mantido em segredo. – Tudo bem, o que devo fazer?


– Vejamos... – Olhou para os lados. – Ah, sente-se naquela fonte, é um bom lugar.


Mai olhou para o lugar e foi até ele, sentando-se na beira, enquanto e senhor arrastava seu caixote para perto.


– É só ficar parada?


– Sente-se da forma que desejar.


A garota observou à sua volta, até que seu olhar pousou sobre a translúcida água, que refletia ela própria e o sol matutino.


– Eu soube por alguém que você já viu um Dullahan. – Ela comentou, lembrando-se das coisas que Izaya falava para Celty.


– Você é a segunda ou terceira pessoa que me pergunta isso. Mas vou contar. Na minha juventude, enquanto viajava pela Irlanda, vi uma mulher sem cabeça em uma carruagem. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida.


– Então você deve se interessar muito por esse assunto.


– Bastante. Depois daquilo, fiquei esperando um dia poder encontra-la novamente ou até outros do gênero, mas nada aconteceu.


– Talvez você já tenha visto, mas não reconheceu.


– Quem sabe... – Deu um pouco mais de atenção aos olhos da menina. – Seus olhos... São muito belos. Na verdade, quando eu olho para eles sinto uma estranha tranquilidade.


– Obrigada.


– Belos olhos. Profundos e misteriosos como um oceano e ao mesmo tempo puros como um cristal mais fino. Dizem que os olhos refletem nossa personalidade e sentimentos, sabia?


Mai nada respondeu, apenas continuou a olhar para a água, pensando e como seus olhos pareciam escuros e nebulosos.



Izaya passeava pela cidade observando seus amados humanos. Já estava quase na hora do almoço, então as ruas já tinham um considerável movimento. Estava passando pela praça principal para cortar caminho, quando passou atrás daquele velho desenhista e reconheceu o desenho que ele observava com tanta atenção em seu bloco.


– Com licença! ~ – Falou, assustando o homem, fazendo-o olhar para Izaya como se fosse uma criança barulhenta.


– Posso ajudar?


– Percebi que está olhando para o desenho dessa garota com bastante atenção. Por curiosidade, também posso vê-lo?


O velho olhou para o desenho e depois para o rapaz.


– Como quiser. – Entregou o caderno.


O informante pegou o bloco e se sentou numa espécie de escadinha que ficava atrás de onde o desenhista estava.


– Você conhece essa garota? – Izaya perguntou.


– Não sei bem dizer, ela me cumprimentou e depois eu pedi para desenha-la, nem ao menos trocamos nomes. Havia algo de realmente incrível com relação aos olhos dela que parecia refletir seu interior. Era uma garota muito gentil, fez até um desenho para mim. Olhe, está na próxima página.


Acatando ao pedido, virou a folha, ficando surpreso ao ver o desenho; era um grande pássaro que voava por entre as nuvens. Era realmente belo, suas asas pareciam ondas do mar batendo e tinha uma longa cauda.

Não sabia que Mai tinha habilidade com desenhos.


– Mas ao mesmo tempo em que eram belos, seus olhos pareciam ter uma sombra de aflição... Ela parecia triste com algo.


– Por que achou isso? – Voltou ao desenho da garota.


– Eu desenho há anos, e sempre quando eu peço para alguém posar, a pessoa normalmente sorri, mas em todo o momento a garota se manteve séria e com o olhar baixo. Porém, independente disso, foi interessante conversar com ela. Nem parecia que eu estava falando com uma colegial. É curioso, mesmo que curto o tempo que passei com ela, senti algo semelhante a quando vi um Dullaran. Não era igual, mas senti que estava ao lado de algo que não pertencia à esse mundo. – Riu do próprio comentário. – Que bobagem a minha, devo estar ficando realmente velho.


– Interessante. E ela fez algum comentário?


– Não chegou a falar sobre ela mesma, mas fez uma pergunta muito estranha. – Coçou a nuca. – Ela me perguntou para onde iam as pessoas quando elas morriam. Eu respondi que as levavam para o cemitério e ela quis saber onde ficava um desses.


– E o que respondeu?


– Disse que havia um ao sul de Ikebukuro, depois daquela área cheia de prédios antigos.


– Que garota peculiar, não? – Se levantou dos degraus, devolvendo o bloco.


– Bastante. – Fechou o caderno, mas quando percebeu que Izaya se afastava, o chamou: – Ei, garoto.


– Garoto? – Olhou para trás.


– Caso se encontre com essa garota, tente ajuda-la de alguma forma, ela parecia muito sozinha.


– Claro. ~ – Riu da ironia.


Izaya se afastou da praça, seguindo o caminho que possivelmente Mai havia percorrido.

Que coisa, ela não tinha o menor interesse, ou bom senso, em tentar parecer normal diante de outras pessoas. E, incrivelmente, mesmo assim ela parecia ter muitos segredos escondidos. Agora que as coisas pareciam ter “normalizado”, Izaya finalmente pôde refletir sobre as informações que conseguiu através de Atsuki, e agora, aquele velho.

Eram muitas informações, muitos fatos que concordavam e ao mesmo tempo se divergiam.


O informante olhou em volta. Havia chegado a um lugar onde o fluxo de pessoas era quase nulo. As ruas estavam em estado precário, não havia mais lojas, apenas prédios velhos que ficavam muito próximos uns dos outros – alguns abandonados, quase caindo aos pedaços. Olhou por entre as residências e avistou ao final da floresta de edifícios antigos o tal cemitério. Entrou por uma das ruelas e seguiu reto, já percebendo um vulto negro em pé ao final. Aproximou-se da figura, ficando alguns passos atrás.


– No início duvidei um pouco, mas agora eu tenho certeza de que você não é humana. – Falou para Mai.


Fim do capítulo 23.



Notas finais
Então, o que acharam do capítulo???
Essa é a primeira vez que descrevo um beijo realmente. Espero ter ficado bom.
E, ohhh, a Mai desenha bem. Sim, eu sempre a imaginei com essa habilidade, mas nunca pude explora-la. Eu imaginei isso partindo do ponto de que pra pessoa desenhar bem, ela precisa ter bons olhos para captar verdadeiramente aquilo que quer desenhar. E como a Mai tem aquela habilidade estranha, achei que ia combinar.
Agora vem o que eu realmente queria discutir. Depois de certo ponto de Miracle, eu comecei a imaginar como ficaria a fic se eu colocasse um hentai, mas nunca pensei em aplicar. Entretanto, uma querida leitora em review, me perguntou se eu ia colocar hentai na fic. Confesso que achei isso interessante, mas não sei se os leitores em geral iriam querer. Então vamos às opções e discussões.
Você, leitores, querem ver hentai na fic? Caso queiram, eu já pensei nos momentos exatos em que apareceriam (só duas, ok?). Só que meu foco não será na descrição física e, sim, na sentimental. Vai dar a entender o que está acontecendo, mas sem dar detalhes sórdidos, por assim dizer. E, lembrando que é do Izaya de quem estamos falando. Não quero dar spoiler, mas para o primeiro, não esperem nada fofo ou romântico. E, logicamente, o decorrer dos capítulos irão sofrer influencia por causa desse acontecimento. E talvez eu alongue, em um capítulo ou dois, a fic. Ou aumente o tamanho dos capítulos para compensar.
Mas acaso achem sem necessidade ou que não caiba algo do tipo na fic, entretanto ainda sim tenham um interesse de var algo do tipo, eu faço um Extra hentai dos dois. Ai, nesse, talvez eu coloque mais detalhes.
Bom, é isso. Eu quero MUITO a opinião de vocês, leitores. De todos vocês que estão lendo. E, por favor, não me respondam: Você é a escritora, você quem decide. Pois, para mim, tanto faz. Eu quero saber o que VOCÊS acham. Me respondam, por favor. Pode ser por review, ou para quem se sentir acanhado, mande uma MP, até esvaziei minha caixa de entrada justamente para isso.
Quero que todos os que estão lendo me respondam isso, mesmo quem nunca comentou. Não se preocupem, não vou exigir review de ninguém, serio.
Claro, eu gosto de reivews. Quero que todos comentem, mas não é obrigação. Mas eu quero muito a opinião. Falem tudo o que tiverem em mente, não me escondam nada.
Conversem comigo!!! Ç-Ç
E é isso que eu queria falar de mais importante. Acho que não me esqueci de nada.
Espero que tenham gostado desse capítulo, hehe.
Digam o que acharam, se as descrições ficaram boas e tal.
Até o próximo capitulo, que terá fluffy.
E desculpe a nota gigantesca.