Minha redenção
38 Sob um tortuoso céu de tempestade.
Notas iniciais
O quanto de dor um corpo pode aguentar?
O quanto de mentiras seus ouvidos podem suportar?
O quanto de mim pode ser quebrado?
Frágil, delicado, pequeno.
Mas não fraco!
Lutar às vezes se mostra tão difícil.
Devo continuar tentando?
Devo tentar manter essa mentira?
Não sei se posso suportar a isso, não sei se posso aguentar.
Não sei se saberei viver sem te amar, sem o seu amor.
Foi tudo mentira? Foi uma ilusão?
Mas para mim… Para mim, não.
~Chibi Lord
Ciel
Eu estava no banco do carro, imóvel como ele ordenara. O carro fazia curvas e seguia em alta velocidade. Eu tentava me controlar, respirar e me acalmar. Se eu estivesse em pânico não conseguiria fugir dele. Meu estômago ainda doía pelo soco que eu levara mas eu não podia dar atenção a isso agora.
De repente ele parou o carro, desceu e deu a volta abrindo a porta traseira.
– Não grite e nem faça nenhuma besteira está me ouvindo? – ele murmurou encostando o cano da arma no meu rosto – se você me obedecer eu não vou te machucar e nem matar o desgraçado do seu tio.
Concordei com a cabeça sem dizer nenhuma palavra. A garganta seca, eu mal conseguia engolir.
Ele jogou algo sobre a minha cabeça, uma peça de roupa ou um tecido, e me puxou me jogando sobre o seu ombro. Gemi pela dor na minha barriga. E assim ele me carregou sem que eu visse para onde ele me levava. Senti as mãos dele sobre mim, apalpando meus bolsos e o riso quando ele encontrou meu celular e o pegou.
– Você não vai precisar disso, Ciel... pelo menos não por enquanto.
Levei meus pulsos até a boca e comecei a afrouxar o nó da gravata que me amarrava. Eu precisava tentar fugir. Eu tinha de me soltar para ao menos tentar me defender quando ele tentasse...
Um arrepio de horror correu pela minha espinha ao pensar naquilo, eu passaria por tudo de novo? Fechei os olhos e prossegui mordendo o tecido e tentando não deixar o pânico voltar a me dominar.
Senti quando ele parou, ouvi um som como o de uma máquina funcionando e percebi que estávamos subindo como se em um elevador. Quando a máquina parou ele andou mais um pouco. Eu já tinha conseguido libertar meus pulsos e então ele me colocou no chão. Puxou de uma vez o que cobria minha cabeça e eu rapidamente corri os olhos ao redor tentando descobrir onde eu estava.
Percebi que estávamos em uma construção. Ao meu redor paredes semierguidas, portas ainda não instaladas, muito material acumulado nos cantos. Eu podia ver o céu noturno através de uma varanda ainda sem grades à minha direita, onde uma tempestade estava se formando. Estávamos no alto.
Me afastei dele e corri para a beirada para ver onde estávamos. Era o que seria futuramente a cobertura de um prédio. Ao nosso redor outras torres inacabadas mas em estágio menos avançado. As ruas ao redor vazias.
E, por incrível que pareça, eu reconheci o local. Eu já estive aqui antes.
– Não adianta, meu querido. Para fugir por aí só se você realmente puder voar, meu passarinho.
Eu me voltei e o encarei. Ele, o homem que eu mais temia e odiava. Engoli em seco enquanto ele me observava. Ele estava no caminho, eu não poderia correr para o elevador sem passar por ele.
E ele estava armado.
Eu não teria chance.
– Veja só como é o destino... nos encontramos mais uma vez! – ele sorriu e se sentou sobre uma pilha de material qualquer que estava ali. – Estamos completamente sozinhos. Esta obra parou há cerca de dois dias e parece que os trabalhos só vão recomeçar na próxima semana.
– Por que não me deixa em paz?! – eu disse cheio de raiva e medo – Porque adora me atormentar?!
– Atormentá-lo? Oh, não, Ciel... você não consegue compreender... eu adoro você. Eu anseio por você. E agora, eu salvei você.
– Me salvou?! – eu murmurei cauteloso, talvez se eu conversasse com ele... ganhasse tempo para que alguém nos encontrasse. – Você realmente pensa isso? Por quê?
– Porque eu busquei você. E com isso eu o salvei do verdadeiro monstro, seu tio Sebastian.
– Meu tio não é um monstro.
– Oh, ele é sim. Pensa que eu não sei? Eu vi vocês dois. Eu vi ele beijar você na boca. – ele disse sorrindo cruelmente.
Meu queixo caiu e meus olhos se arregalaram em choque. Ele nos vira?! Como? Quando?
Ele descobrira?!
Meu coração estava tão acelerado que doía. Meus olhos cravados no rosto detestável de meu ex-professor. Ele sorria como se tudo fosse extremamente divertido.
– O que mais ele fez? Ele o abraça? – ele apoiou o queixo na mão como alguém que analisa uma questão – Ele faz você se sentir bem? Ele o seduziu? Ele já o levou para a cama dele?
Meu rosto queimava com as palavras dele e eu desviei o meu olhar daquele rosto cheio de escárnio. Eu começava a entrar em pânico novamente.
– Não precisa responder. Posso ler no seu rosto. — a voz dele soava muito irritada agora. Eu olhei para ele com meus olhos arregalados de horror.
– Ele sujou você... satisfez os desejos imundos dele com o seu corpo. Não foi? — ele rosnava enquanto sua voz se erguia ameaçadoramente — Quantas vezes? Quantas vezes ele o teve?! Me responda, Ciel!!
E ele jogou em minha direção um pedaço quebrado de Dry wall. Consegui me desviar e a peça se estilhaçou contra a parede atrás de mim. Eu tremia, enfurecido ele poderia fazer qualquer coisa contra mim.
– Por que você cedeu a ele e não a mim?! — ele me olhava furioso e então começou a rir — Eu fui tratado como um animal e no entanto alguém muito pior que eu ficou livre e desfrutando do que eu tanto desejei.
Ele riu mais uma vez e então ficou pensativo por algum tempo. Depois ele falou com uma voz suave.
– Mas a culpa não é sua, Ciel... Você é inocente. Um pequeno anjo. Como você poderia saber que ele estava enganando-o todo o tempo? Pobrezinho.
Eu não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando mas a minha única esperança de manter as mãos dele longe de mim era fazer com que ele continuasse falando.
– Eu... eu não sabia que você se importava tanto comigo... — sussurrei, fingindo compreendê-lo. Eu tentaria fazer o jogo dele.
Eu não podia irritá-lo. Ele se tornaria violento e eu estaria perdido. Ele sorriu ao ouvir minhas palavras.
– Ciel... tão lindo e inocente. Como ele foi cruel... o que ele lhe dizia? Que o amava? Você acreditou nele? É por isso que ele pôde tocar em você?
Eu não respondi. Não sabia o que dizer sem que ele voltasse a ficar furioso. Enquanto eu tentava pensar ele prosseguiu.
– Sim, você acreditou nele... ou jamais teria se entregado. Bem, meu pequeno, ele mentiu o tempo todo para você... ele nunca amou você. E eu posso provar.
Eu olhei para ele e ele continuou com voz terna.
– Ouça, Ciel, nunca desejou saber porquê seu pai e seu tio não se falavam?
Eu o olhei espantado. Como ele podia saber que eles não se falavam?
– Surpreso por eu saber disso? Eu devo dizer que sei muito mais, Ciel... na verdade sei bem mais do que você sabe.
– Como você soube de tudo isso? — perguntei num fio de voz.
Ele riu e fez um gesto para que eu me aproximasse mas eu dei um passo para trás.
– Nunca se perguntou por que dois irmãos gêmeos se afastaram assim? A razão por seu pai nunca contar? Nunca notou nada estranho no comportamento do seu tio logo que vocês começaram a morar juntos?
Eu pisquei lembrando de como meu tio realmente se comportava de modo estranho logo que fui morar com ele. Como ele me evitava tantas vezes e tentava me agradar outras tantas. Como ele fugia do meu olhar e como eu o flagrava me observando atentamente ás vezes.
– Vejo que você percebe que não estou apenas jogando palavras ao vento.
Eu o olhei desconfiado. Devia ser algum jogo dele mas ao mesmo tempo me desconcertava ele saber tanto sobre a nossa vida. Como ele podia saber? O que eu deveria dizer para mantê-lo ocupado? Como se lesse o meu pensamento ele sorriu.
– Diga — me, meu passarinho... Você já ouviu falar de Angelina Durless?
Reconheci o nome de imediato, a psicóloga amiga de meu tio Sebastian. A mulher de cabelos vermelhos com quem tomáramos chá no sábado. Em casa, mais tarde, eu me lembrara que havia visto o nome dela na agenda do meu tio, naquela vez em que fui investigar em seu escritório.
– É... o nome da amiga do meu tio.
– Sim, mas não uma amiga comum... ela é a psicóloga dele. Uma pessoa a quem você revela seus problemas, angústias e — ele fez uma pausa e seus olhos dourados brilharam — perversões...
Meu coração continuava acelerado. Acuado contra um canto ouvindo palavras tortas daquele que já tentara me matar e violar.
– Foi assim que eu descobri tudo. É incrível como as pessoas são descuidadas com certas informações. Bem, eu fui até o consultório dela e consegui isto. — ele ergueu uma pasta arquivo.
– Foi assim que eu descobri que ele o enganou todo esse tempo. — ele riu e ajeitou os óculos — e descobri porque seu pai e ele romperam quando você ainda era um bebê.
Ele fez uma pausa e me olhou atentamente como se gravando em sua memória a minha expressão de medo e angústia. E então ele falou em alto e bom som.
– Ciel... seu tio era apaixonado pelo seu pai.
Eu fiquei mudo. O que ele havia dito? Não... ele era louco. Como podia inventar coisas assim? Eu semicerrei os olhos e sacudi em negativa a minha cabeça.
– Como pode dizer isso? Você é louco? — eu ri nervoso, a tontura voltando e me fazendo oscilar. Como ele podia inventar uma mentira tão ridícula como essa?!
– Se não acredita em mim veja por si mesmo.
E ele jogou a pasta aos meus pés.
– Eu achei uma leitura muito interessante. Mas um tanto longa. Então eu grifei as partes mais reveladoras e as deixei na frente. Oh, e tem uma carta de próprio punho dele também se você dúvidar da veracidade dessas informações.
E ele se sentou e cruzou as pernas. Sorrindo amplamente para mim. Olhei a pasta a meus pés.
Não! Era mentira! Ele estava mentindo! Não tinha como isso ser verdade...
– Vamos, Ciel, pegue a pasta. Abra e veja. – ele comandou com voz tranquila.
Me abaixei e peguei a pasta. Minhas mãos tremiam. Eu a abri. O nome do meu tio estava no no alto de todas as folhas. Corri meus olhos pelas anotações.
"O paciente relata nutrir paixão pelo próprio irmão gêmeo desde os tempos da adolescência."
"Tem consciência de que o irmão jamais aceitaria um relacionamento deste tipo porém não consegue se libertar da idéia de ser aceito algum dia."
"O paciente, Sebastian, apresenta sérias dificuldades em superar o sentimento pelo próprio irmão e seguir com sua própria vida. Ele não demonstra interesse em novos relacionamentos. Não aceita sequer conversar sobre isso."
"Já há cinco anos Sebastian e seu irmão Vincent não conversam. No entanto o paciente não demonstrou evolução em esquecer a dor pelo amor não correspondido. Ele se dedica ao trabalho como forma de ocupar seu tempo mas não obtém satisfação para suas frustrações."
Havia um papel e nele reconheci a letra de meu tio. Ele descrevia um sonho que tivera com meu pai. Das sensações que teve por tocá-lo e beijá-lo! Meus olhos se encheram de lágrimas.
Aquilo me doeu!
Me doeu como se eu fosse golpeado mil vezes mais forte que o soco que eu recebera.
–É mentira! — gritei fazendo com que a minha garganta doesse. -Você intentou tudo isso! É mentira...! — comecei a soluçar.
– Você sabe que não é. — Claude disse calmamente. — termine de ler
As lágrimas rolavam livremente pelo meu rosto, minha cabeça doía e eu me sentia sufocar. Eu não queria ler mais... não queria saber mais mas meus olhos me traíram e prossegui com a leitura, como o meu algoz dizia para fazer.
"Nos meus sonhos eu posso rever Vincent. O único que eu amei e o único a quem eu irei amar. Mesmo que eu desafogue minhas necessidades físicas com outros meu coração pertence unicamente a ele. Todos os outros não passam de distração temporária."
Minhas mãos tremiam tanto que eu quase não conseguia ler mais. Eu enterrei meus dedos naqueles papéis, amassando-os.
Minha vista embaçada pelas lágrimas. Eu ouvia a mim mesmo soluçar como um som distante. Como se minha alma não estivesse ali no meu corpo
Meu tio... meu querido, meu amado... aquele que eu amava a ponto de doer o simples pensamento de o perder...
Ele... amava o meu pai.
Ali estava em sua própria caligrafia.
Nunca imaginei ser possível sentir tamanha dor.
Havia outras notas na caligrafia da doutora Durless...
"Na sessão de hoje, Sebastian relatou a morte de seu irmão gêmeo e o fato de ter se tornado o guardião legal do único filho dele. Com certeza esta criança trará mudanças à vida do paciente. É preciso dar atenção a este assunto em futuras sessões."
"Hoje Sebastian repetiu por diversas vezes durante a sessão o quanto seu sobrinho Ciel se parece com o pai Vincent. Em aparência, nos gestos, na voz... ele fala do menino com um interesse que ele não costuma ter por ninguém. Isso pode ser bom ou ruim. Se canalizado para o amor familiar será extremamente benéfica a presença do menino. Mas é necessária atenção. Sebastian pode vir a enxergar seu sobrinho como um substituto para Vincent. Projetar o antigo amor no garoto. E com isso buscar satisfazer suas carências e necessidades. O menino pode se tornar um "Vincent" para ele o que seria realmente desastroso para ambos. Não acredito que Sebastian seja capaz de fazer avanços sexuais contra seu próprio sobrinho porém a hipótese não pode ser descartada."
Não suportei mais. As palavras da dra. ecoando em minha mente, queimando como metal em brasa...
"Sebastian pode vir a enxergar seu sobrinho como um substituto para Vincent", "avanços sexuais contra seu próprio sobrinho."
Agarrei aquelas folhas e as rasguei furioso. Eu estava gritando. Queria morrer... joguei os pedaços de papel para fora. Minhas mãos cobriram meu rosto e eu gritei e chorei como nunca antes em minha vida mas a dor não cessava.
Eu era isso? Um substituto para o meu pai? Meu tio fantasiava com ele quando me beijava? Era nele que ele pensou quando me possuiu?!
Não podia ser! Não podia ser!! Ele era meu mundo, meu amor, meu tudo... eu não sabia viver sem ele. Eu... Eu me entregara a ele... Eu o amava... Eu...
Eu era uma ilusão? Eu fui enganado? Fui manipulado?
Não. Eu não podia acreditar nisso, não podia aceitar isso. Não queria acreditar...
Me sobreveio nova vertigem junto de uma ânsia horrível, caí de joelhos e tossi mas não havia nada em meu estômago para sair. Minha cabeça latejava. Minutos depois eu me recostei exausto contra uma parede inacabada e ali fiquei...
Como uma casca vazia.
Nada me restava.
O professor Faustus se aproximou de mim. Em suas mãos o meu celular.
– Meu querido, eu acho que vou ligar para o seu tio... quer falar com ele?
Não respondi. Eu mal tinha forças para sequer me afastar do homem odioso que me raptara. Sentia que minha vida havia chegado ao fim. Pouco importava o que viesse a me acontecer
Sebastian
"Brilha tanto quanto meus olhos"
Fiquei estático quando a ligação foi finalizada. Perdido em sentimentos revoltosos. Demorou um tempo até que eu organizasse meus pensamentos. Pensei sobre aquela frase, sem sentido aparente, que Ciel disse.
– “Brilha tanto quanto meus olhos”? — murmurei pesaroso.
Era para aquilo ter algum significando? Ciel estaria me dando uma pista de onde ele estava? Busquei em minha mente, tentando me concentrar na única pista que eu tinha.
E uma imagem voltou a mim de repente.
–Aqui estamos! – eu disse a Ciel lhe mostrando o vasto horizonte.
Estávamos em uma das construções da minha empresa. Um conjunto de prédios que formaria um condomínio residencial. Ficava há alguns quilômetros de nossa própria residência. E por insistência do menor que desejava "conhecer os negócios da família" eu o levará lá.
O dia chegava ao fim. As estrelas começando a despontar no céu, ainda que fossem pequeninos pontos na imensidão azul que escurecia. Estávamos na cobertura que, ainda não devidamente finalizada, nos dava a liberdade especial de sentir o vento no rosto.
– É bonito aqui em cima. Dá para ver tantas estrelas. — Ciel disse admirado, observando o imenso horizonte.
Eu me aproximei, capturando a atenção da minha criança. Segurando o rosto pequeno com uma das mãos enquanto a outra retirava uma mecha fujona de cabelo da frente do belo rosto.
– Elas... As estrelas. — acariciei a bochecha dele com o polegar. — Brilham tanto quanto seus olhos..."
Sim! Ciel me dissera, de um modo que apenas eu pudesse entender, onde ele estava!!
– Eu sei onde eles estão! — me levantei num pulo.
Entreguei o celular para a mulher ainda no chão à minha frente.
– Ligue para a Polícia e diga o que houve. Eles estão em uma construção no bairro Bermondsay eu vou pra lá agora! E peça uma ambulância para vir ao seu auxílio.
– Senhor Sebastian. — A mulher me chamou e olhei para trás em meu caminho até a porta. -Traga de volta o nosso menino! – ela pediu com lágrimas nos olhos.
– Não se preocupe. – eu disse, convicto, com uma certeza que nunca antes sentira na vida. — Não voltarei de outra maneira que não seja com Ciel junto de mim!
Sai de casa aos tropeços, correndo para meu carro dando a partida sem me importar em colocar o cinto. Eu sabia onde eles estavam, onde aquele ser asqueroso mantinha meu pequeno. No momento eu não conseguia me importar com o fato de Ciel saber sobre meu terrível segredo do passado. Mesmo que minha amada criança nunca mais me deixasse toca-lo, ama-lo, ainda assim sua repulsa e ódio seriam melhor do que perdê-lo.
Porque mesmo que meu céu me abandonasse o observar de longe seria mais do que eu poderia esperar para a minha infeliz vida.
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