Minha redenção
22 Inicia-se a redenção.
Notas iniciais
Culpa...
Se antes o interior era abarrotado por inveja.
Agora a culpa o banhava.
Mais do que precisar para seguir em frente. Querer.
Para a salvação é necessário a aceitação.
Perdoar e pedir perdão.
E ao lado de lápides frias dar início à redenção.
Chibi Lord ~
Ciel
O dia estava ensolarado mas uma brisa fria soprava. Eu caminhava ao lado de meu tio Sebastian, a mão dele carinhosamente pousada em meu ombro, em meus braços um grande ramalhete de rosas brancas, as favoritas da minha mãe.
– Aqui estamos... — ele sussurrou afagando -me.
Concordei com a cabeça e dei mais alguns passos até estar bem em frente às duas grandes lápides brancas.
Os túmulos de meus pais.
Ajoelhei -me e depositei em seguida as rosas diante deles. Já fazia tanto tempo que nós havíamos nos separado. Dentro em pouco faria um ano. Fiquei em silêncio, olhando a pedra fria e as imagens doces do passado dançaram diante de mim.
Meu pai me levando nos ombros, rindo. Nós andando de bicicleta em um dia de verão. Minha mãe cuidando de mim quando eu adoecia. Seus braços cheios de amor me envolvendo. Sua voz cantando enquanto ela tocava ao piano. As coisas boas que ela fazia... aquele sabor único de comida de mãe...
As lágrimas começaram a descer pelo meu rosto e eu as deixei vir livremente. Meu tio se agachou ao meu lado e me abraçou. Solucei em seus braços e o abracei apertado e foi quando senti suas próprias lágrimas caírem no meu rosto. Ele sofria como eu e neste momento éramos um consolo um para o outro.
Após um tempo considerável, quando nossas lágrimas já não mais caíam ele me deu uns tapinhas nas costas e pediu para eu me levantar.
– Está esfriando é melhor irmos... eu não quero que você se resfrie.
Limpei o rosto e assenti. Era irônico que a maior tristeza de minha vida houvesse me conduzido a algo que eu pudesse considerar uma de minhas maiores felicidades. Pois estar com meu tio Sebastian se tornara minha felicidade.
– Tio Sebastian, por que meu pai e você brigaram? – perguntei. Até hoje eu ainda não sabia o motivo. Meu tio prometera me contar quando eu crescesse na noite em que conversamos em sua cama, pouco tempo depois que eu viera morar com ele. Nunca mais eu tocara no assunto. Mas hoje eu senti vontade de perguntar novamente, eu queria realmente saber.
Ele ficou em silêncio por alguns momentos e respondeu sem olhar para mim.
– Talvez por eu ser uma pessoa ruim. Com certeza fiz algo que ele odiou e creio que ele me odiaria muito mais se estivesse vivo agora.
De maneira alguma eu acreditaria nisso. Porque ele não era alguém ruim, não, ele era bom. Ele tinha uma expressão triste e eu desejei não ter perguntado nada.
– Sabe, tio... minha mãe sempre dizia que você era uma boa pessoa. Ela estava certa. — Eu disse sorrindo timidamente para ele.
– E por que ela diria isso? — ele respondeu com as sobrancelhas franzidas como se eu tivesse dito algo inacreditável. Não entendi bem o porquê dele fazer isto.
– Eu conversava muito pouco com ela. Creio que não me lembro de fazer algo que lhe chamasse a atenção. — ele resmungou para se explicar, um tanto emburrado, e eu não pude evitar achar engraçado porque ele parecia uma criança ao fazer isso.
– Fez sim... — Eu respondi pensativo — uma vez eu perguntei a ela porque tinha a certeza de que você era bom se vocês mal conversavam e você não vinha nos ver e ela me disse que era por causa do ela vira quando você estava comigo.
Meu tio arregalou os olhos e eu continuei.
– Ela dizia que você me segurava com tanto carinho e que você não via mais nada e nem ninguém enquanto estava comigo. Ela podia ver no seu rosto um amor tão grande que isso bastava pra ela saber que você era uma pessoa boa.
– Ela dizia isso? – ele murmurou.
– Sim. E que eu chorava quando você tinha de ir embora e chamava por você por muito tempo depois que você já tinha ido. E eu não fui uma criança que ia com qualquer pessoa.
Meu tio me ouvia em silêncio, me aproximei mais e segurei sua mão, apertando-a levemente.
– Minha mãe queria que você e meu pai fizessem as pazes...
–E porque ela quereria isso? – ele disse resmungando de novo.
Estranhei a sua pergunta. Porque ela não desejaria isso?
Respondi fechando meus olhos, minha mente se enchendo de lembranças dela.
– Minha mãe perdeu, quando criança, um irmão mais velho que ela amava profundamente. Ela me disse que nunca superou totalmente a perda dele.
Suspirei e recostei a testa no braço do meu tio. Ela sentia tanto a morte deste meu tio que jamais conheci. Minha mãe era muito sorridente e alegre e somente duas coisas faziam ela parar de sorrir, lembrar da dor da perda de seu irmão e ver como meu pai se recusava a procurar o seu próprio gêmeo.
– É por isso ela queria que vocês se dessem bem... porquê ela sabia qual é a dor de perder o irmão que tanto se ama. E ela sentia que você nos amava.
Senti meu tio estremecer levemente e apertar meus dedos em sua mão. Olhei para ele e ele olhava para o céu, perdido em pensamentos. Ficamos longos momentos em silêncio até que ele sussurrasse algo.
– Eu não sabia... que ela se importava assim comigo. – foi o que ele disse.
Sorri feliz, não soube dizer o porquê de me sentir assim apenas por revelar algo sobre minha mãe ao tio Sebastian. Apenas sentia-me feliz e estranhamente aliviado.
– Ela me deu uma foto do meu aniversário de dois anos onde eu estou no seu colo.Você sorria e eu também. Era a única foto sua que havia em casa.
– Verdade? — ele sorriu e acariciou meus cabelos.
Não respondi, apenas sorri e abracei sua cintura. Ele me abraçou carinhosamente. Eu decidi não perguntar mais a razão dessa briga. Se algum dia ele quisesse me contar eu ficaria feliz em saber mas se ele quisesse jamais tocar neste assunto novamente eu respeitaria isso. Não importava o passado dele e sim o presente em que ele estava comigo.
–Vamos? Acho que podemos passar naquela sua loja favorita e comprar um bolo pra levar para casa.
Concordei com a cabeça, abrindo o maior dos sorrisos e deixamos aquele lugar triste com corações mais leves do que quando chegamos.
Semanas depois
Para Sebastian as semanas passaram repletas de momentos de paz e amor ao lado de Ciel. Em conversas doces e beijos ainda mais doces. Ciel contara a seu tio um pouco mais sobre a sua rotina e a sua vida antes de morarem juntos.
A sua vida com Vincent e Rachel.
Contara mais sobre como a mãe nunca o deixara esquecer que possuía um tio que o abraçava e mimava com olhos repletos de amor. Ouvindo tudo aquilo Sebastian percebera uma grande verdade e também um grande erro. E o desejo de reparação se instalou em seu peito.
Isso porque, ele agora se dava conta, ele era um homem e não um monstro.
Em uma tarde de sábado Sebastian levou Ciel para a casa de Alois. Os garotos iam fazer juntos um trabalho escolar e Alois parecia ter algo a contar ao amigo. Provavelmente relacionado a amoricos de crianças.
Sebastian aproveitou este momento em que o sobrinho não estava em sua companhia e dirigiu até seu objetivo.
Estacionou o carro em frente ao cemitério onde estavam sepultados seu irmão e a cunhada e desceu. Caminhou silenciosamente por entre os jazigos, seus pés levando-o até os túmulos de Rachel e Vincent.
Mas, surpreendentemente, Sebastian não parou diante da sepultura de seu irmão como costumava fazer quando vinha trazer flores e sim da de sua cunhada.
Rachel Phantomhive, dizia a lápide e nada mais. Nem uma única palavra sobre a pessoa que ali repousava. Sebastian não se dera ao trabalho de mandar gravar dizeres bonitos para a morada final de sua odiada rival. E agora ele se envergonhava disso.
Ele ficou ali, parado por vários minutos até que seus joelhos se dobraram e ele se curvou diante do túmulo.
– Me perdoe... — Sebastian sussurrou — Me perdoe por tudo...
Ele estendeu a mão e tocou a pedra fria. Tão fria quanto fora seu coração para Raquel.
Mas agora, não havia mais ódio no coração dele. Não havia mais revolta ou desprezo porque Sebastian finalmente compreendera que não fora Rachel a responsável por Vincent não corresponder ao seu amor.
Por todos aqueles anos ele não compreendera ou simplesmente se negara a tentar compreender que Vincent não o amara como um homem e nem nunca amaria.
Isso era do coração dele e não por qualquer outra coisa.
Vincent o amara, sim. Mas apenas como seu irmão.
Sebastian detestara Rachel por puro despeito, por ela ter conseguido o que ele não conseguira, o amor de Vincent. A acusara de falsidade e interesse e sempre fechou os olhos para tudo que dissesse respeito a ela. Até o final.
Fora imaturidade, Sebastian agora entendia.
Sua cunhada nunca fora falsa ou interesseira. Ela amara Vincent de todo o seu coração. Amara a Ciel e amara até a ele mesmo, ainda que ele não tivesse feito nada para merecer isto.
Vincent o abandonara, o rejeitara, e, Sebastian agora o sabia, Rachel nunca se conformou com o rompimento dos irmãos. Se fosse apenas por Vincent, Ciel nunca saberia que possuía um tio Sebastian.
Mas Rachel nunca deixou Ciel esquecer que ele existia. Que o pequeno ainda possuía um tio.
E que esse tio era bom. Que esse tio o abraçara e amara. Apenas graças a Rachel, Vincent não conseguira apagar Sebastian de suas vidas.
– Eu... eu sempre a julguei... sempre a odiei... Por achar que você havia me tirado o grande amor de minha vida.
Uma pausa, Sebastian reunia as palavras de seu coração.
– Mas ele nunca foi meu amor... e nem nunca seria. Ele não podia me amar como eu queria e eu não entendia e nem aceitava isso. – ele sussurrou para o túmulo como se conversasse com Rachel e em seu peito havia o desejo de que ela pudesse ouvi-lo.
O vento soprou balançando os cabelos de Sebastian. E ele suspirou e continuou como se aquilo fosse um sinal de que ele era ouvido.
– Você não me tirou alguém... Você me deu o verdadeiro alguém. Você trouxe Ciel ao mundo, você fez com que ele conhecesse meu nome e eu só não fui um completo estranho para ele graças a você...
– Me perdoe... me perdoe por um dia ter te odiado...
O vento soprou mais uma vez como uma leve carícia no rosto belo de Sebastian.
– E me perdoe... porque eu amo seu filho mais que qualquer outra coisa neste mundo. Muito mais do que amei a Vincent...
Um minuto de silêncio e Sebastian prosseguiu.
– Ele tem os seus olhos... e eu agora entendo porque eles cativaram tanto o meu irmão. Eu não tenho forças para lutar contra o meu pecado... mas eu quero jurar a você que eu sempre amarei Ciel e estarei com ele. Eu o protegerei e o farei feliz da mesma forma como ele me faz. Eu juro a você, Rachel.
E ao dizer isso lágrimas rolaram por seu rosto. De alívio, de remorso e de perdão e quando ele se levantou, depois de um tempo considerável, seu coração estava leve como jamais estivera. Olhou para o relógio e partiu.
Partiu deixando o doloroso passado para trás e indo encontrar um futuro feliz.
Estava indo encontrar Ciel.
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