Minha redenção
14 A cobra sussurra o pecado.
Notas iniciais
Acordei com o despertador, meus olhos pesados de sono. Claro que não era um sono natural, eu havia me medicado para dormir ou de outra maneira seria impossível. Me levantei, fui ao banheiro tomei um banho, escovei os dentes e me arrumei para o serviço. Já passava das oito horas da manhã, com certeza Ciel já tinha ido para a escola. Eu me sentia um idiota por fugir de um garotinho, ainda mais quando ele não parecia estar bem, mas estar perto demais dele, do modo que ele queria, me fazia querer cometer um crime. Fiquei ao seu lado até ele dormir. O rosto adormecido, com as lágrimas já secas... eu devia me compadecer, ficar a noite toda do seu lado lhe dando carinho e sendo um bom tio, mas quando notei minhas mãos já apertavam as pequenas coxas, eu já me sentia queimar por sua pele morna exalar aquele cheiro tão doce. Eu já arrastava meus lábios por seus ombros. Eu simplesmente não conseguia me controlar. Deixei Ciel em sua cama e fui para meu quarto, tranquei a porta e tomei dois comprimidos para dormir, quando o recomendado era somente um.
Vestido e pronto, abri a porta e meus olhos se arregalaram: deitado, emboladinho no chão como um gatinho estava Ciel. Ele dormira ao lado de minha porta. Meu coração doeu diante da cena. Eu era fraco, eu devia saber me controlar para poder dar ao menino o que ele precisava. E por fraqueza e medo eu trancara a porta de meu quarto impedindo que uma criança que notavelmente precisava de mim não pudesse entrar.
Me agachei, pegando-o no colo. Ciel acordou e piscou os olhinhos, afundando o rosto no meu peito.
– Tio Sebastian, por favor, eu não quero ir para a escola hoje... — ele disse sonolento enquanto eu me encaminhava para o seu quarto.
– O que deu em você para ficar na minha porta? — perguntei já deitando-o em sua cama, uma de minhas mãos em seu peito e a outra ajeitando os fios revoltos.
– Eu só queria ficar com você... — ele sussurrou e lambeu os lábios com os olhos ainda fechados.
– É perigoso, você sabe... — eu disse e meus dedos já tocavam a boca rosadinha.
–Tudo bem... — ele murmurou, a mão pequenina pairando em cima da minha que se encontrava em seu peito.
–Tudo bem se precisa me tocar... — sua mão moveu a minha de seu peito até o abdome. Ele certamente não devia ter consciência do que fazia. Ele estava acabando comigo...
– Só... — suspirou mordendo os lábios, os olhos fechados, sonolento, e eu não consegui resistir. Segurei seu queixo, levantando seu rosto e abaixando o meu, umidifiquei meus próprios lábios, fechando também os meus olhos, nossas respirações se chocando, as bocas quase se tocando — Só não me deixa... tio...
Aquela palavra me fez abrir os olhos de repente. ''‘Tio’'' ? Que merda eu estava fazendo? Ciel precisava de mim como um adulto responsável! Claro que ele me queria, mas não como eu o queria. Ele me queria como uma imagem paterna, para diminuir a falta que o pai fazia. E ele estava disposto a deixar que o monstro em mim se saciasse de seu corpo, somente para não ficar só... E eu ia mesmo me aproveitar daquilo?!
Elevei meu corpo com brusquidão e saí porta afora correndo, minha respiração ofegante, eu estava derretendo, tudo à minha volta parecia ruir. Em instantes eu já estava na garagem, nem me lembrei de pegar minha maleta, era claro que eu não ia para o trabalho. Desorientado passei as mãos em meus cabelos, olhando para os lados, o que eu estava fazendo? Era óbvio que eu não podia cuidar de meu sobrinho, era óbvio que meu estado mental estava influenciando a percepção de minha criança no quesito de como deveria ser o amor paternal. Talvez, por eu não saber amar como uma pessoa normal, eu tivesse ensinado ao meu sobrinho que aquela forma errônea com a qual eu o queria era a forma certa de se amar. Entrei em meu carro, abri o porta-luvas e peguei ali minha maior relíquia: uma camisa pequena e ainda com o cheirinho dele... Cobri meu rosto com a peça de roupa rasgada, cheirando e fazendo minhas lágrimas molharem o tecido. A uns dois dias atrás a senhora Coburgo tinha me perguntado o que deveria fazer com a camisa rasgada do uniforme de Ciel que ela havia encontrado na lavanderia. Eu disse que cuidaria daquilo, pegando a camisa e desde então a mantendo comigo. O tecido já estava mais sujo do que limpo... vergonhosamente eu já havia me masturbado usando aquela peça de roupa dele como estímulo. Outro objeto também estava no porta-luvas, meu celular, que eu peguei ainda com o tecido colado ao meu rosto e digitei os números com pressa.
***
Sebastian, desorientado, dirigiu em alta velocidade até aquele endereço conhecido. Deixou o carro parado na frente do conjugado de prédios baratos e nem ao menos se preocupou em ativar o alarme. Entrou num deles e subiu correndo o lance de escadas. Não tinha paciência para esperar o elevador e não queria ser visto por ninguém. Chegou em frente ao apartamento e bateu com força na porta. A porta foi aberta por Grell. Do lado de fora desta estava o homem que, apesar de bem-vestido, tinha a expressão de um homem sem posses. Sebastian estava com os cabelos bagunçados, o rosto suado e os olhos vermelhos e em uma das mãos havia uma camisa enrolada. O garoto de programa estranhou, mas não podia nunca sair do personagem.
– Oh, amor... — engoliu em seco quando notou a expressão vazia no rosto do outro. — Isso tudo é pressa em me ver... -falaria mais alguma coisa se não tivesse sido empurrado com força para dentro do próprio apartamento.
– Quieto! — Sebastian rosnou próximo ao ouvido do ruivo. — Hoje vamos fazer diferente. — o Cliente já se livrava das roupas do outro. E em instantes, por Grell ter um apartamento pequeno de duas peças e um banheiro, o ruivo já se encontrava em sua cama, jogado de bruços nesta. Sebastian mantinha seu rosto prensado nos travesseiros e a outra mão já abria o cinto e o zíper da própria calça.
– Sebastian... — o ruivo gemeu. Mesmo que não estivesse apreciando aquela violência toda, ainda assim era o seu trabalho.
– Quieto, eu disse!! -Sebastian quase gritou, usando ainda mais força para afundar o rosto do rapaz contra os travesseiros. — E se gemer eu bato em você! — a mão que impedia que Grell elevasse a cabeça era a mesma que tinha a camisa amarrada e Sebastian se inclinou, cheirou e mordeu o tecido quando, sem preparo nenhum, penetrou o outro.
Grell rapidamente entrou em modo sonhador, era essa a sua defesa. Imaginou um lugar onde ele conseguia ter uma vida perfeita e feliz. Era sempre assim. Quando estava com um cliente mais bruto ele simplesmente se abstraia mas nunca antes tinha sido necessário usar destes artifícios com o moreno. Sebastian era muito bom de cama, mas daquela vez as coisas estavam sendo diferentes. O outro estava fora de controle! Ele gemia incoerências e se arremetia sem cuidado nenhum contra seu corpo. Grell não reconhecia Sebastian. Ele podia não saber de nada da vida do outro, mas na cama ele sabia bem como Sebastian agia, mas... O maior estava descontrolado, violento, desnorteado e chorando...
Já Sebastian fechou os olhos e sua mente vagueou...
Grell precisava ficar em absoluto silêncio para não destruir a sua fantasia. Porque na mente de Sebastian era Ciel quem estava diante de si. Era seu jovem sobrinho quem ele violava! Era a voz de Ciel que ele imaginava ouvir... gemendo seu nome em prazer. Sebastian arremetia com força, violentamente, satisfazendo sua frustração de meses. Ele imaginava as nádegas pequenas e macias vindo de encontro a seus quadris, as costas do menino se arqueando, a pele branca, aquele perfume só dele, a boquinha rosada aberta, gemendo, arfando.
– Aaahn... ah! T-tio... Sebastian... Aah... ! Mais... gostoso... aahn...!
Ao ouvir isso em sua mente ele se desfez, gemendo alto.
– C-Ciel...! Aah... Aah...! C-Ciel...Ciel...!
Grell, maltratado, ouviu em silêncio enquanto seu cliente gemia esse nome, pensando que ele já o ouvira antes... quem era mesmo?
***
Sebastian tinha uma expressão pensativa e preocupada na face, os lábios contorcidos e a mandíbula prensada. Estava no quinto cigarro e ele nunca passava do terceiro. Grell ainda sentia o corpo arder, estava machucado e mesmo que estranhasse o fato não reclamaria, ossos do ofício, como se diz. No entanto Sebastian nunca antes havia sido bruto com ele. Com certeza não era o mais carinhoso de seus clientes, mas nem de longe era um dos mais violentos. O moreno era uma incógnita para si. Sebastian era belo e rico. Óbvio que não teria uma esposa e filhos, do contrário não encontrar-se-ia em sua cama. Mas certamente deveria ter algum belo jovem, sedento por tornar reais as fantasias do empresário. Só que Sebastian nunca falou de ninguém, somente falava do irmão. Irmão esse que Grell só foi descobrir ser gêmeo quando viu a morte deste sendo anunciada nos telejornais. Grell era curioso, mas sabia bem que Sebastian não gostava de falar sobre a própria vida, então ele não perguntava. Afinal não era para isso que ele era pago, mas estava preocupado, não porque morresse de amores pelo outro, mas sim porque sabia que, apesar da aparência taciturna e viril, Sebastian era frágil. Frágil como um copo de vidro. Era necessário apenas um simples empurrão e Sebastian se quebraria em inúmeros pedaços.
–Aconteceu algo? — perguntou receoso — Quer conversar?
– Eu já pago alguém para isso. — Sebastian falou, apagando o quinto cigarro e acendendo logo em seguida o sexto.
–Também estou sendo pago... Então, se quiser mudar um pouco as coisas...
–Não vou transar com a minha psicóloga e contar os meus problemas para você!
– Ora, Sebastian! — o ruivo bufou de raiva. — Faz quase três anos que você vem ao meu apartamento e me fode. E eu nem de longe sou o garoto mais jovem e bonito que o seu dinheiro pode pagar. — encarou Sebastian -Se vem é porque algo em mim te cativou.
Sebastian sorriu triste e acariciou o rosto do ruivo.
–No dia em que te conheci, eu precisava desesperadamente transar. -Sebastian suspirou -Você estava sentado naquela mesa sozinho, bebendo. E mesmo que a sua aparência exalasse luxúria, seus olhos... — Grell abaixou o rosto, envergonhado. — Seus olhos eram tão tristes, tão... -Sebastian tentava achar uma palavra adequada sem sucesso — Eu pensei, ‘alguém tão vazio assim será perfeito, pois de modo algum olhos tão tristes algum dia se voltarão para mim com amor’.
Ambos ficaram em silêncio por um longo tempo, o suficiente para Grell assimilar o quão ele próprio era transparente para o outro.
– Olhe para mim. — o ruivo pediu. -Eu pareço alguém que te julgará?
Sebastian respirou fundo, fazia tempo que ele não tinha uma sessão com a doutora Durless, não queria deixar a mulher pensando que ela era um fracasso, afinal ele era um caso perdido. E também porque temia contar a ela seus desejos por seu pequeno sobrinho.
–Talvez... Talvez seja loucura da minha cabeça... talvez eu seja um doente. Não...! — o empresário apertou as mãos em punhos, cravando as unhas nas próprias palmas. — Eu sou um doente! Um monstro... Mas na minha cabeça... — ele balançou a cabeça em negativa — Na minha cabeça, ele está se insinuando para mim....
Grell arregalou os olhos e pensou em perguntar “Ele quem?” Mas a camisa com um rasgo e um emblema escolar ainda estava em cima de sua cama e ele se lembrou a quem o nome Ciel pertencia.
–Eu sei que é loucura, eu sei! Ele é só uma criança, mas... — Sebastian passou as mãos nos cabelos. — Às vezes parece que ele faz por querer... Parece que ele quer me ver enlouquecer e perder o controle! Eu sei que eu sou um doente, eu só queria fazê-lo feliz depois de tudo... mas eu estou fazendo tudo errado! — o moreno já chorava, lágrimas quentes rolando pelo rosto e os olhos vermelhos.
Grell ficou quieto, por tempo demais. Tanto tempo que Sebastian julgou que a conversa tinha acabado. Levantou-se e foi se vestir.
–Isso provavelmente não vai te ajudar em nada... — o ruivo finalmente falou -Mas quantos anos o seu sobrinho tem? Doze? Treze?
–Treze. Faz quatorze daqui a alguns meses.
–Sebastian, eu perdi a virgindade com treze anos.
Sebastian olhou para o ruivo com desentendimento.
– O que eu quero dizer é que meninos nessa idade já pensam em sexo.
– Ciel não! Ciel é inocente e puro e...
–E talvez esteja desesperado para te dar. — o ruivo o interrompeu.
–Não fale assim dele! Ele não é como você!! — o moreno avançou contra o outro o agarrando pelo braço.
–Eu nem sempre fui assim... Talvez seja difícil para você acreditar, mas eu fui filho de alguém. Um garoto de aparência inocente. — Sebastian o soltou, ele estava tão perdido.
– Quando eu tinha treze anos meu pai me colocou para ter aulas de natação, já que no futebol eu era terrível. — Grell fechou os olhos se lembrando da adolescência. — Meu instrutor era um cara de uns vinte e poucos anos, talvez trinta. Eu sempre soube que não me sentia como os outros garotos em relação às meninas. E aquele homem... — o ruivo sorriu. — Ele me deixava excitado.
Grell abriu os olhos. Sebastian parado na sua frente sem ainda ter fechado o zíper das calças.
–Eu tinha treze anos, Sebastian. Treze anos! Eu me parecia com um anjinho ruivo e eu fiz com que um homem de, sei lá, seus trinta anos tirasse a minha virgindade no vestiário. Eu me insinuei para ele, eu o seduzi.
–Você está querendo me dizer que... — Sebastian sibilou baixinho.
–Talvez seja só coisa da sua cabeça doente mesmo. Mas não é impossível. — o ruivo levantou e pôs a mão no ombro de Sebastian em sinal de complacência.
– Mas ele... Ele é meu sobrinho... e é tão errado. É um crime! — Sebastian disse.
–Não haverá crime algum se você não o forçar. — Grell se aproximou e sussurrou no ouvido de Sebastian sorrindo. Como uma cobra... como a serpente que plantou a ideia do pecado em Eva. — Se ele também quiser, qual seria o problema?
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