Minha redenção
6 Um anjo toca...
Notas iniciais
Era manhã de sábado e diferente de outros dias, eu nesta manhã não acordei em decorrência de um pesadelo, o dia começava gelado, afinal estávamos próximos ao último mês do ano, vestia somente uma calça larga de flanela, por isso resolvi colocar uma blusa, simples e branca. Conforme meus pés descalços me guiavam ao andar de baixo para preparar o café, eu era surpreendido por aquele som, algo suave, baixo, uma melodia quase tímida. Desci os degraus com uma estranheza impressa em meu rosto, a música era bela e eu me lembrava de já a ter ouvido em uma outra circunstância em minha vida.
A janela da sala de estar estava aberta e mesmo que a manhã fosse gelada havia sol, raios solares iluminavam o ambiente, uma brisa fraca fazia as cortinas brancas balançarem, deixando assim que a cena que se desenrolava à minha frente ganhasse a aparecia quase de um sonho.
Ciel, meu pequeno e tímido sobrinho, sentado ao piano, usando seu pijama azul, tocava.
Os dedos deslizavam calmamente pelas teclas do piano, uma mão tão delicada arrancando de um instrumento tão grande um som tão bonito, só podia ser obra divina, os fios escuros sendo jogados de um lado para o outro pela brisa, os olhos fechados, uma expressão que mesmo tristonha arrebatava a todos. Ciel era lindo, disso eu sempre soube, era filho de Vincent, e Vincent assim como eu, era um belo homem.
Mas existia algo a mais, a doçura, a delicadeza de cada movimento dos dígitos, em como seus olhos, mesmo que fechados, se moviam como se estivessem lendo as partituras, de repente eu me via em um universo alternativo, longe de toda a minha vida, longe de tudo de mais podre que existia no mundo. Nesse mundo perfeito, só existia Ciel... Ciel e seu piano cor de marfim, as cortinas balançando com o vento, a luz do sol clareando parcamente a sala, Ciel e suas mãos pequenas e tão preciosas tocando a música que certamente até os anjos deviam apreciar.
Fiquei ali em silêncio, observando-o até que a música terminou. Ele abriu os olhos e então me viu.
– Eu te acordei? -me perguntou corando adoravelmente.
– Não, eu já havia acordado. Isso foi muito bonito. Você toca muito bem. -sorri ao responder-lhe.
– Eu... Sou mesmo muito bom não é? -ele deu-me um sorriso que me encantou. Por ser sincero e cheio de confiança. A primeira vez que ele pareceu-me totalmente relaxado e orgulhoso de si mesmo. Me lembrou muito como Vincent costumava ser... mas ao mesmo tempo era diferente.... aquele sorriso cheio de si era novo... maravilhoso.
– Mamãe sempre dizia que eu era talentoso ao piano. -ele disse e uma pequena sombra de dor cobriu seus olhos e o sorriso morreu. Não! Eu precisava mais daquele sorriso!
– Está com fome? Vamos tomar café? -eu disse apressado tentando mudar o humor da situação.
– Sim. O que teremos para o café? -Ciel me perguntou.
– Que tal panquecas? -eu disse me aproximando dele.
– Você sabe fazer panquecas, tio Sebastian? -ele perguntou genuinamente curioso. E eu sorri ao vê-lo assim e respondi com uma careta.
– Não. -e Ciel riu. Ah, o som de sua risada... tão doce foi para mim quanto a linda música que ele tocara. O que havia comigo? Eu me sentia... contente... satisfeito... Há quanto tempo eu não tinha essa sensação leve...?
– Eu via mamãe fazer. Vamos tentar juntos? -Ciel disse se levantando do piano.
– Só se for agora mesmo. -pousei a mão no ombro dele e fomos juntos para a cozinha.
Ciel e eu fizemos uma bagunça que demoraria eras para conseguirmos limpar, as panquecas ficaram horrorosas, tinha bolinhas de farinha que explodiam na boca quando mordidas, mas ali comendo aquelas panquecas tenebrosas todo sujo de farinha eu me sentia feliz, Ciel sorria alegre o cabelo sujo de farinha e as mãos também, mas ele estava feliz e eu me sentia exatamente assim só de ver seu sorriso.
No final da manha ambos tomarmos banho eu tive que ir para meu escritório realizar algumas ligações, falar com alguns fornecedores, afinal era uma escolha minha não trabalhar mais aos sábados, mas não era um dia de folga, Ciel jogava videogame no quarto, quando após finalizar uma ligação meu telefone tocou. Atendi o aparelho, a assistente social que cuidava do nosso caso queria nos fazer uma visita, obviamente que eu aceitei.
E no começo da tarde a Senhorita Hopkins, Nina Hopkins chegou em nossa residência, abraçando de um modo estranhamente carinhoso meu sobrinho, afinal ela nem o conhecia.
–Pobre criança. -falou se afastando e depois voltando a o abraçar apertado. Depois de que eu me apresentei e fui olhado de cima a baixo como se fosse um bandido, os olhos pequenos da mulher soando ferinos ao me conferir chegou a hora dela conferir quarto por quarto, cada pequeno e grande ambiente da casa, parecia até uma visita daquelas que Ciel e eu fazíamos para comprar uma casa.
Depois de olhar todos os títulos de livros na estante do quarto do Ciel ela disse que era uma boa hora para um chá. Preparei um chá sob o olhar atento da mulher, depois nos sentamos nos sofás confortáveis da sala de estar. Ela chamou Ciel para que ele se sentasse conosco. E ali começou um intenso interrogatório. Ela questionou Ciel sobre inúmeros assuntos, a escola, a casa nova, os amigos e eu sentia minhas mãos suarem, estava extremamente nervoso, afinal, aquela mulher podia tirar Ciel de mim, não que nós corrêssemos algum risco, afinal de contas, eu era um empresário bem-sucedido e único parente vivo. Mas ainda assim eu sentia os olhos dela queimarem em cima de mim. E então ela perguntou algo que fez com que meu coração acelerasse em ansiedade pela resposta.
–E você gosta do tio Sebastian, Ciel? -não consegui evitar de ficar com os olhos cravados em Ciel. Ele ficou vermelhinho e me olhou de rabo de olho, a coisa mais fofa que já presenciei e, por fim, respondeu.
–Sim, muito, Senhorita Hopkins. -meu coração deu um solavanco e eu me permiti ficar envergonhado pela reação exacerbada e fora de contexto, por ter ficado tão feliz por aquela revelação.
–Isso para mim está bom. -ela disse se levantando. -Senhor Sebastian eu só sugiro que contrate alguém para cuidar da alimentação de vocês... -largou a xícara em cima do pires sobre a mesa. -Seu chá é horrível. -Ciel riu e eu revirei os olhos, o óbvio não precisava ser jogado na minha cara. Acompanhamos ela até a porta.
–Ciel qualquer coisa me ligue, esse é meu número. -entregou um cartão com o número do serviço social e o seu número pessoal. -E você, cuide muito bem deste lindo menino, Senhor solteiro bonitão... -e piscou pra mim, piscou pra mim...! Quando voltei a mim ela já tinha entrado no carro e ido embora e Ciel ao meu lado tinha um bico nos lábios.
–O que foi? -perguntei.
–Nem pense nisso. -ele disse entrando de volta na casa.
–Nisso o quê?
–Eu não preciso de uma tia! -ele disse e eu sorri.
Ciel estava certo, ele não precisava de uma tia e eu também não precisava de uma esposa, nós só precisávamos um do outro.
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