Minha redenção
3 O inicio de uma vida a dois.
Notas iniciais
Ciel estava comigo a quase dois meses, surpreso eu constatei que apesar de a pouca idade ele conseguia ser bastante independente. Outro fato que também me surpreendeu, ele não se permitia ficar pelos cantos alimentando sua mágoa. Era como se a morte dos pais tivesse posto um fim em sua infância. Tentava eu trabalhar menos para ficar um tempo a mais com ele em casa, mesmo que ele soubesse se alimentar sozinho, ainda assim era uma criança de apenas doze anos e seria irresponsabilidade de minha parte o deixar só.
Por tanto optei por vender meu apartamento, que se mostrou pequeno e desconfortável para nós. Eu precisava de um escritório assim poderia trabalhar e ficar em casa e Ciel precisava de um quarto maior, teria que ter também um quarto para uma empregada, não podíamos viver de congelados e comidas prontas. Era por causa destas circunstâncias que agora nos encontrávamos indo para mais uma visita em uma casa candidata a compra.
Estacionei o carro logo encontrado o corretor que já nos esperava. Realizamos a visita, olhando os quartos, eram quatro, banheiros que eram cinco um em cada quarto e mais um no andar de baixo. A casa era quase por completo mobiliada, tendo na sala de estar um lindo piano de calda, cor de marfim. Reparei nos olhos brilhantes que meu sobrinho ficou ao admirar o instrumento.
—Você sabe tocar? -o corretor perguntou ao ver Ciel passar os dedos delicadamente sobre a superfície do piano.
—Minha mãe era professora. Ela me ensinou. -naquele momento decidi que não era mais necessário visitar nenhum outro imóvel. Eu já tinha feito a minha escolha. Naquela tarde mesmo eu fechei negócio, comprei a casa e aluguei meu apartamento.
Apenas uma semana depois e nós já nos encontrávamos de mudança, contratei uma empresa que me foi muito bem recomendada para fazer o transporte de nossos pertences, não era muita coisa, só um grande número de caixas de papelão, com roupas, minhas e de Ciel e com os meus livros, agora eu finalmente teria espaço para montar a minha biblioteca particular, seria também um ótimo lugar para meu sobrinho estudar, e ainda alguns utensílios de cozinha e pequenos eletrodomésticos. Estava pensando em como a minha atual realidade se tornara imensamente diferente da qual eu julgava que teria até o fim de meus dias, estava pensando em como de um apartamento frio e sem vida eu acabara de me mudar para uma casa digna de uma família feliz, quando fui retirado de meus devaneios.
—Essa é a última, Senhor. -o entregador avisou, colocando a caixa de papelão no chão. Agradeci e os dispensei, subindo as escadas indo em direção ao quarto de Ciel, ele já tentava mesmo em meio a toda aquela bagunça de caixas, organizar as roupas no roupeiro, descobri que meu sobrinho era um pré adolescente extremamente organizado. Sorri diante da cena, o pequeno quase sumia por completo entre as caixas, tentando dobrar um casaco de frio, que era pesado demais para ele.
Ciel era adorável, ficava envergonhado pelas mínimas coisas e as bochechas se coravam, tinha a mania de tirar sempre o cabelo do rosto, mas se negava a cortar, ele já tinha retirado o gesso, mas continuava com a bandagem no olho, o médico com quem Ciel se consultava disse que provavelmente ele desenvolveria heterocromia por causa do impacto no acidente, mas a visão não havia sido afetada, só usava o curativo porque a córnea ainda estava muito fragilizada e a luz a machucava.
— Deixe isso para depois. Vamos comer? Eu já pedi o nosso jantar. -disse escorado no batente da porta, Ciel veio em minha direção e sem dizer nenhuma palavra passou por mim, descendo até a cozinha e se sentando de frente para a bancada onde estava o nosso jantar. Eu o segui também em silêncio, nós não costumávamos conversar muito.
Eu me sentia desconfortável perto dele e ele provavelmente se sentia do mesmo modo perto de mim. Peguei os pratos e os talheres, eu não via a hora de contratar alguém que cozinhasse para nós. Afinal eu tinha menos de três semanas para a visita do oficial de justiça que verificaria a situação na qual a criança vivia e eu queria que estivesse tudo perfeito, não queria que, de modo algum Ciel pudesse ser tirado de mim e ir parar em algum lar para menores desamparados.
—Huh... -chamei a sua atenção. Ele só levantou o rosto para mim, sem realmente tirar sua atenção do alimento. -Amanha é a sua consulta, está ansioso para se livrar desta bandagem?
—Talvez... -murmurou de boca cheia.
—Talvez? -aquele certamente não era o tipo de resposta que eu esperava.
—Doutor Arthur disse que a cor da minha íris poderia mudar. Eu não sei, se talvez não fosse melhor continuar com esse curativo. -terminou ele, dando de ombros. Eu suspirei, era mais difícil do que eu pensava lidar com ele.
—Semana que vem recomeçam suas aulas. -tentei puxar outro assunto. -Com isso aposto que está ansioso?
Ele dessa vez não se deu nem o trabalho de responder, soltou os talheres e se limitou a dizer que havia terminado sua refeição, me deixando ali com cara de bobo. Ciel, apesar da aparência encantadora tinha um gênio terrível, com o qual eu ainda não sabia como lidar. Depois de cuidar da limpeza dos pratos subi as escadas, tomaria um banho e dormiria. Passei pelo quarto do meu sobrinho, a porta meio fechada, não resisti a dar uma espiada, queria ver se ele estava bem. Ciel estava deitado em posição fetal voltado para a parede, senti um aperto no peito, ele chorava baixinho, enquanto eu me sentia um lixo por não conseguir lidar corretamente com a situação. Eu era o tio dele, era meu dever cuidar não só das suas necessidades físicas, mas eu nem ao menos conseguia manter um diálogo com o mesmo, quanto mais me atreveria em entrar em seu quarto e lhe abraçar secando suas lágrimas, o deixei só. Indo para o meu próprio quarto, optando por também ficar só com a minha infelicidade.
"Havíamos ido acampar, agora depois de nadarmos observamos o céu estrelado, era noite já. Vincent sorria para o céu, eu por outro lado sorria para si, fazia tempos que não ficávamos assim, tão próximos, Vincent estava namorando sério agora. Mas eu não queria pensar nisso, nesse momento eu só queria aproveitar o quanto a pele branca de Vincent parecia perfeita ao toque sob a luz do luar. Os olhos exprimidos pelo sorriso... Vincent era tão bonito!
— Eu a amo. -ele falou baixinho e eu senti o ar faltar em meus pulmões.
— Já amou outras. -eu disse, como uma explicação a mim mesmo.
—Com ela é diferente irmão. -a voz saía carinhosa. Sim, eu sabia, com ela era diferente. Vincent nunca havia se mostrado tão apaixonado, ele se virou deitando de lado, os fios com aquela coloração única caindo sobre o rosto, eu o queria mais que tudo naquele momento.
—Eu vou pedir ela em casamento!
Mas ele nunca seria meu."
— Bom dia sr. Phantomhive. Bom dia, Ciel. Venha... vamos ver como está o seu olho.
Sentei-me numa cadeira dentro da sala do oftalmologista e observei enquanto este removia a bandagem que cobria o olho direito de meu sobrinho. Ciel estava de costas para mim e então não pude ver seus olhos, mas notei o espanto no rosto do médico. Ele pegou um instrumento cujo nome eu desconheço e examinou atentamente o olho do menino.
—Hum... Bem... Vamos realizar alguns testes.. Pode ler o cartaz para mim, Ciel?
Ciel voltou-se para o cartaz e leu com perfeição até as letras mais miúdas. O médico então pareceu satisfeito. -A sua visão está perfeita. Isso é excelente. Mas realmente houve uma mudança na coloração do seu olho, meu jovem. -vi o médico pegar um espelho numa gaveta e entregá-lo a meu sobrinho que estremeceu.
—O... o quê?! O que é isso?! -ele disse com a voz trêmula.
Levantei-me e corri para Ciel.
—Deixe-me ver!
Ciel olhou para mim e o que eu vi muito me impressionou: o olho direito de Ciel não estava azul, mas num tom violeta intenso. A cor era totalmente exótica, eu nunca a havia visto antes.
—Por... Por que está assim? -perguntei sem afastar os olhos do rosto de Ciel. Eu não conseguia deixar de olhar para aquele rosto tão lindo e seus olhos, agora bicolores... era uma imagem bela e surreal.
—Essa é uma excelente pergunta, Sr. Phantomhive... -o médico suspirou. -Já havíamos notado uma certa mudança no tom quando o curativo foi feito mas nem mesmo eu esperava que ficasse tão diferente do outro. Nunca vi um caso igual, na verdade. Talvez se deva há alguma hemorragia na íris... Não sei dizer... Apenas o tempo dirá se é permanente ou não.
Ciel abaixou o rosto e desviou o olhar rompendo o contato visual. Eu estendi a mão para acariciar seu rosto, mas me contive... Talvez eu não tivesse esse direito.
— Vou continuar acompanhando seu caso, Ciel. Ao menos sua visão está totalmente preservada. -ele sorriu tentando aliviar o estresse da sala. -Acredito que essa heterocromia desapareça com o tempo... No entanto, é fantástico! Vou tirar algumas fotos, por favor olhe para cá.
Sebastian percebeu que Ciel posou a contragosto para as fotos mas nada disse. Quando terminaram se despediram do médico e seguiram de volta para o carro.
*~~*~~*
Aguardei enquanto meu tio Sebastian foi buscar o carro. Olhei para a fachada envidraçada do prédio e vi meu próprio reflexo e meus olhos.
Descombinantes... Anormais.
Suspirei profundamente. Parecia que não bastava o meu mundo ter se despedaçado num acidente. Tinha de haver algo mais... Sempre algo mais.
Recostei-me à parede e fechei meus olhos. “Ah... Pai... Mãe... Quantas saudades... Se vocês estivessem aqui...” — abri meus olhos e suspirei mais uma vez. “Se estivessem aqui eu não moraria com o tio Sebastian...”
Meu tio... Tio Sebastian era um mistério para mim. Eu não conseguia compreendê-lo! Havia algum mistério em torno dele. Ele era meu único tio, meu único parente no país e, no entanto, ele era para mim como um estranho. Ele nunca vinha nos ver, nunca ligou ou mandou notícias, nem no Natal e nem nos aniversários. A única recordação dele que eu tinha era uma foto do meu aniversário de dois anos em que ele me segurava no colo. Seu olhar nessa foto sempre me intrigou. Ele me olhava sorrindo mas parecia triste e eu o abraçava rindo. Não havia nenhuma outra lembrança. Meu pai se irritava se o mencionássemos em conversas então eu e mamãe evitávamos falar dele. Mamãe sempre me dizia que tio Sebastian gostava de mim. Gostava de nós mas não sabia explicar o porquê dele nunca nos procurar.
Lembro-me de uma vez... Eu devia ter uns 8 anos, ouvi meus pais discutirem por causa dele.
—Ele é seu irmão. Seu único irmão. Porque você o detesta tanto? -minha mãe dizia.
—Ele é da família, Ciel precisa ter contato com o tio.
—Rachel eu não vou discutir isto com você. Eu não quero vê-lo, não quero falar com ele... Não quero falar sobre ele. Ponto!
—Por quê você odeia seu irmão? -minha mãe perguntou. -O que ele te fez?
—Eu não desejo falar sobre isso. E por que você o defende? Ele não é o que você pensa! Ele provavelmente conversava com você desejando a sua morte.
—Vincent!
—Acredite em mim, Rachel. Eu não quero aquele homem perto de nós. Eu não o quero convivendo com Ciel. Por favor, entenda isso... -ele disse cansado.
E minha mãe nunca mais tocou no assunto. Mas aquela conversa eu nunca esqueci... Por que meu pai odiava o tio Sebastian? Por que ele desejaria o mal para minha mãe? Essas perguntas permaneceram em minha cabeça por muito tempo.
Meu tio chegou com o carro. Entrei e fiquei em silêncio. Ele dirigiu em silêncio por algum tempo e então puxou assunto.
—Ei, está tudo bem?
—É só isso do meu olho... — menti, na verdade não era só aquilo.
—Bem... está... diferente.... — ele comentou sem saber bem o que dizer.
—Diferente? Sim... eu agora sou uma aberração! Vou ser o centro das piadas na escola. -resmunguei frustrado. Provavelmente é o que iria mesmo acontecer.
—Não, eu acho que você está bonito. Você é muito bonito.
Me achando bonito? Que interessante... eu não conseguia compreendê-lo! As vezes ele passava por mim se esforçando para não me notar, dava pra ver que ele me evitava. Em outras ele era gentil e atencioso. Mas bastava que eu o olhasse nos olhos ou sorrisse para ele e ele virava o rosto, dizia algo sem sentido e fugia da minha companhia.
Eu o flagrava me observando e isso parecia mortificá-lo. E em seguida ele fazia algo para me agradar... eu não sabia como reagir a isso. O que ele realmente pensava. O que eu era para ele? Um sobrinho amado ou uma criança que ele foi obrigado a aceitar? Ele gostava da minha presença ou me considerava uma obrigação?
—Sou bonito? Então olhe para mim! -eu disse e o encarei. Ele estacionou o carro na garagem da nossa casa e me olhou. E eu vi seu desconforto e quando ele desviou o olhar. Como ele sempre fazia e desta vez eu fiquei com raiva.
— Ciel, eu estou preocupado com você. Não quero ver você se comportando assim. -ele sussurrou olhando para o teto do veículo.
—Eu?! Me comportando como?! E você está preocupado comigo?! Você nunca se preocupou comigo... Por anos e anos nem lembrou que eu existia! Eu sou sua obrigação eu sei. Muito obrigado por ficar comigo e desculpe por eu estragar a sua vida! -eu disse com raiva e saí do carro correndo para a casa. Eu não queria olhar para ele... não queria ouvir a voz dele...
“Por que não morri também? Pelo menos não seria um fardo para ninguém!”
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