Minha redenção
40 Livres fluem as lágrimas.
Notas iniciais
O céu derrama seu pranto.
Doloroso, pesaroso.
Pesando sobre nosso ombros como mentiras ilusórias.
O tortuoso tormento, tem fim.
O tenebroso momento, se acaba.
Mas... diante de tantas mentiras.
Perante a verdades indevidas reveladas.
Existirá um céu azul para nós?
O que o amanhã nos reserva?
Terei a ti no meu futuro?
Terei futuro sem ti?
~Chibi Lord
O vento gelado prenunciando uma grande tempestade agitava os fios revoltos. Os cabelos tão únicos, cor de ardósia. Tão únicos quanto os olhos, chorosos e amedrontados, de seu pequeno.
Sebastian, em um estado de pavor, ainda permanecia com os olhos cravados no menino. Um corpo jazia lá em baixo, onde futuramente seria a área de lazer do conjunto de prédios residenciais.
Claude Faustus estava morto.
O som do tiro ainda parecia reverberar em seus ouvidos. E então o homem viu que seu sobrinho segurava o ombro esquerdo e viu um filete de sangue descer rubro, contrastando com a pele clara de porcelana.
Aquilo bastou para tirá-lo de seu estado letárgico.
– Ciel! Meu Deus! Ele o atingiu?! – ele se levantou rápido e estendeu os braços em direção ao seu pequeno mas a criança se afastou para trás.
– Ciel? — chamou Sebastian, esticando umas das mãos em direção ao menor. — Ciel? — novamente chamou, o menino fixou então nele o olhar bicolor.
Ele estava apavorado. Balançou a cabeça em uma negativa e gemeu.
– Vem aqui, meu amor? Me deixe ver isso. — o moreno pediu dando pequenos passos temerosos na direção do outro. Ciel deu outro passo para trás.
– Ciel, não, por favor.
O menino, em choque, balançou com brusquidão a cabeça, apavorado. Ele estava atordoado pelos recentes acontecimentos e magoado infinitamente pela revelação de Claude, que era o que mais lhe doía. Muito mais do que o ferimento a bala em seu corpo frágil.
Um estrondo tremendo cortou o céu e grossas gotas de chuva principiaram a cair. Sebastian olhou para a imensidão negra do céu pedindo por auxílio. Pedindo por força e por fim por coragem.
Ele também tinha medo.
Puxou o ar para tentar se acalmar e andou firme em direção ao outro.
Ciel, cambaleante, deu passinhos mínimos para longe. Murmurando um mantra de negativas. Os olhos arregalados e a respiração ofegante.
– Não, Ciel, não me rejeite. – Sebastian implorou.
A chuva caía com força agora, o vento fazendo as espessas gotas caírem sobre ambos. As lágrimas salgadas deles se misturando com a chuva.
–Você mentiu para mim... — Ciel sussurrou.
Sua voz tão repleta de dor que assustou o mais velho. As lágrimas descendo livres pelo rosto tão jovem mas tão sofrido.
– Eu não... Eu nunca quis te enganar, eu... – Sebastian começou não sabendo muito bem como terminar.
O vento e a chuva fria castigando o seu corpo e a dor de ser renegado pelo seu menino lhe açoitando a alma.
Como? Como poderia viver sem Ciel?
Não, não seria possível. Não seria capaz de voltar ao seu mundo de trevas ao qual fora anteriormente habituado. Não depois de ter conhecido o céu. Não depois de ter tido a alegria e o prazer de ter em seus braços um puro anjo.
– Por favor, meu amor, por favor... — a voz já era só um sussurro, tão baixo quase inaudível. — Por favor, Ciel... deixe eu me explicar... Você está ferido... por favor, me deixa ver isso...
Mais um passo e o menino recuou um pouco mais.
–Você não me ama... não me ama. — acusou o menor, soluçando. — Mas eu amava você... amava tanto você...
Seus lábios tremiam. Ciel se sentia sufocado pela própria dor. O cabelo, agora molhado, grudava em sua testa. Os fios compridos caindo sobre seu rosto. Os olhos vermelhos chorosos, agora semicerrados. A respiração sôfrega, soluços e acusações dolorosas abandonando os lábios.
– Você não me ama... como isso dói... dói tanto... — a criança murmurou, chorando perdida.
Sebastian podia aceitar qualquer acusação que lhe fosse feita, menos aquela.
De fato, ele ouviu calado inúmeras injúrias em sua vida. E a todas elas ele apenas abaixou a cabeça e as aceitou como se fossem verdades. Foi chamado de monstro e sua própria consciência acreditou que ele realmente fosse um. Mas...
Avançou contra Ciel. Impediu que o menino fugisse, o agarrando pelo braço. Puxou com violência, o trazendo para si e o abraçou, mesmo que essa não fosse a vontade do menino. O prendeu fortemente em seus braços.
Não deixaria Ciel escapar, não deixaria, não aceitaria, não!
Porque aquela acusação era uma mentira!
Não que as outras fossem reais, mas aquela era uma mentira com a qual ele não poderia conviver. Afinal era uma mentira e ele não a aceitaria como verdade, não, não daquela vez!
– Eu sempre fui um covarde. Eu nunca lutei por aquilo que quis. Sempre desisti de tudo e estou cansado de ser assim.
Ele se ajoelhou no chão, agarrado a Ciel. Trazendo o menino consigo. Reduzindo a diferença de altura entre eles.
A boca colada no ouvido deste, sussurrando seriamente, como se fosse a maior verdade de sua vida e de fato era. Ciel aos poucos parou de se debater.
– Mas de você eu não desistirei, nunca! Terá que me odiar muito mais para se ver livre de mim. Eu não vou te deixar.
Sebastian, por fim, sentiu o menino relaxar em seus braços. E as pequenas mãos o envolverem num abraço trêmulo.
Ciel era tão dependente dele, quanto ele era do garoto.
– Tenho inúmeras coisas para te explicar, é bem verdade... mas a maior verdade é que eu o amo. Amo a você, Ciel. Amo mais que tudo na minha vida.
Ele levou uma das mãos ao rosto da criança, retorcido pela dor.
– Eu te amo... amo mais do que jamais amei a qualquer um nessa vida.
Tocou suavemente os lábios na testa do pequeno.
– Por você eu mataria e por você morreria...
Sebastian tinha a voz trêmula a garganta trancada como se ali estivesse um nó. Ciel o olhava atentamente, aqueles belos e únicos olhos bicolores úmidos pelas lágrimas.
– Eu... queria poder dizer que lhe odeio... — o menino soluçou. — Mas seria mentira... sem você... eu não sou nada, não sou ninguém... eu o amo tanto, tio Sebastian...
E finalmente seus braços circularam Sebastian num abraço apertado e ali o perdão estava implícito.
O mais velho estreitou o menino. O alívio fluiu por seu corpo. Ele puxou Ciel para seu colo e cobriu-lhe o rosto de beijos repletos de amor. Seus olhos correram para o ombro ferido da criança e ele constatou, aliviado, que a bala não o perfurara. Raspara, apenas rompendo a pele delicada. O ferimento não era profundo e a vida de Ciel não correria risco.
Ele voltou seus olhos para o rosto lindo de seu menino, marcado pelas lágrimas, e suavemente ergueu-lhe o queixo, fazendo seus olhos se encontrarem. Uma onda de sentimentos os envolveu.
Sebastian estava tomado pela beleza de seu sobrinho. A sensação horrível de quase perdê-lo, daquele monstro machucando-o, a sensação sublime de tê-lo de novo em seus braços...
O seu pequeno salvador. Ele estaria morto se seu menino não tivesse se lançado contra aquele monstro. O maravilhava ver que o garoto delicado encontrara forças para derrubar um homem adulto que devia pesar duas vezes mais que ele.
Ciel observava o rosto de seu tio, tão banhado pelas lágrimas quanto o seu próprio. Os olhos castanho avermelhados fixos em seu rosto. O calor suave e a sensação dos braços fortes o amparando. Apenas seu tio Sebastian era capaz de fazê-lo esquecer todo o desespero, dor, vergonha e medo pelo ataque daquele monstro infernal. Como era bom, depois de tudo o que ele passara, poder se aconchegar ao seu amado, seu salvador.
Um momento depois Sebastian se aproximou e Ciel fechou seus olhos e entreabriu os lábios.
As bocas se uniram num beijo suave, os corações se unindo e as lágrimas correndo.
A chuva ainda caía intensa e ao longe se ouvia o som de sirenes se aproximando. A polícia estava chegando e Sebastian agradeceu mentalmente à velha governanta por isso.
Quando os policiais chegaram encontraram o corpo de Claude Faustus. Ele ainda trazia a arma presa a seus dedos. Ele foi recolhido assim como todas as evidências ao seu redor. Encontraram tio e sobrinho abraçados, trêmulos e visivelmente abalados. Uma ambulância foi prontamente chamada e ambos conduzidos ao St. Mary´s hospital.
Eles passaram lá todo o restante da noite. Os depoimentos foram colhidos ali mesmo, depois que Willian, advogado de Sebastian, chegou. O moreno precisou levar dois pontos na testa, onde Faustus o atingira com a barra de ferro. Ele insistiu em acompanhar todo o atendimento a seu sobrinho. Ciel teve seu ferimento a bala limpo e enfaixado e Sebastian mordeu o lábio para não gritar de raiva ao ver o grande hematoma que o menino tinha na barriga, devido a um soco daquele maldito desgraçado. Ele ainda tinha vários outros pequenos hematomas e ferimentos devido à luta que travara contra seu agressor para se defender.
Felizmente Faustus não conseguira o que tanto desejava.
Ciel estava muito abalado e o médico recomendou uma pequena dose de sedativos para o acalmar. O menino adormeceu e Willian observou Sebastian cochilar na cadeira ao lado da cama onde Ciel fora acomodado. As mãos deles com os dedos entrelaçados. O advogado não pode deixar de sorrir ao pensar o quanto tio e sobrinho eram unidos e depois se entristeceu ao pensar no quanto ambos haviam sofrido nos últimos tempos.
Eles permaneceram em observação até o meio da manhã e então foram liberados. William os advertiu que não poderiam deixar a cidade enquanto durasse toda investigação do o caso. Afinal um foragido da justiça raptara uma vítima e o caso terminara com um óbito. Ele insistiu em levá-los até em casa mas Sebastian pediu que seu advogado apenas os levasse para buscar o seu próprio carro no departamento de polícia e que depois ele fosse para casa descansar. Sua filha provavelmente deveria estar preocupada.
Sebastian, juntamente com Ciel, pegou o carro e dirigiu para casa sob a chuva, que ainda que caía.
Sebastian
Dentro do carro o silêncio reinava. Eu dirigia lentamente por causa da chuva. Meus olhos se volveram para meu sobrinho. A criança ao meu lado olhava para fora pela janela. Eu não podia definir como Ciel deveria estar se sentindo, eu mesmo não sabia como me sentia.
Eu só queria tomar um de meus remédios para dormir e acordar dias depois do acontecido, mas eu era o responsável ali e prometera nunca mais deixar meu menino só.
–Você... — a voz embargada soou ao meu lado. -Você pretendia me contar algum dia sobre isso?
Eu suspirei pesado, sabia bem do que ele falava. Eu temia mais do que tudo aquela conversa.
– Por favor, Ciel, deixemos isto para depois. — pedi suplicante.
– Não! Fale agora. — a voz ficou um tom mais alta.
– Por favor, conversamos em casa então? — novamente pedi.
– Não! Agora! Fale agora. — ele se irritou — Pare de mentir para mim, pare de me tratar como uma maldita criança.
Sua respiração estava alterada e eu...
Eu deseja poder me esconder.
Já havíamos entrado na área residencial e as ruas estavam vazias por causa da chuva. Estacionei o carro deixando o pisca-alerta ligado.
Apertei nervosamente o volante.
– Não. – respondi, envergonhado, a verdade.
Eu nunca pensei em contar para Ciel meu pior pecado, meu maior segredo.
Ele soluçou alto e eu desejei abraçá-lo mas me mantive afastado.
– Por quê...? — ele perguntou baixinho. — Eu merecia saber.
– Por que, Ciel? Como eu poderia lhe contar algo assim? — eu respondi também ficando alterado.
Estávamos ambos com os nervos abalados e aquela conversa só pioraria tudo. Por isso, e também por vergonha, eu não desejava falar.
– Eu nunca lhe contaria algo assim, nunca! Nunca contaria a você o quão asqueroso eu sou. Não correria o risco de perde o seu amor, eu sou fraco! -meus olhos já liberavam lágrimas cristalinas.
– Deixar de amar você? — ele sussurrou e só então eu criei coragem para o olhar.
Assim como eu, ele chorava.
– Como posso deixar de amar você...? Como...? — seus soluços eram altos. -Você é tudo que eu tenho... você é tudo que eu conheço. Eu me entreguei por inteiro a você.
Ele passou a manga da blusa bruscamente nas bochechas para secar as lágrimas.
– Eu matei um homem por você... Porque te amo. Para proteger você. Como pode pensar que eu deixaria de lhe amar? – ele sussurrou sem me olhar.
– Eu era apaixonado pelo seu pai. Meu irmão gêmeo! Não vê o quanto isso é nojento, sujo, errado?
Ele se lançou contra mim, me rodeando com seus braços pequenos e delicados, me calando.
–Eu sou apaixonado por um homem vinte anos mais velho que eu. -sussurrou rente a minha orelha. -Meu tio. Um homem que eu deveria amar como pai, mas amo como amante.
Meus braços o circularam , abraçando-o apertado.
–Eu ambém sou sujo... — Ele ditou me fazendo soluçar enquanto escondia meu rosto em seu pescoço.
–Você sabe todos os meus segredos sujos, você faz parte deles. – Ciel disse e acariciou meus cabelos. — É tão injusto que eu não saiba os seus. Eu quero saber... eu preciso saber...
Ele se afastou me encarando, aqueles olhos tinham tanto peso sobre mim. Eu era um homem acorrentado, aprisionado.
E meu carcereiro, um doce menino.
–Eu tenho tanta vergonha. — murmurei acariciando a bochecha dele, a pele tão macia.
–Esse é o momento decisivo do nosso relacionamento. — ele sussurrou sério. — E depende todo e completamente de você, tio Sebastian.
Eu engoli em seco. Ele se afastou, voltando a se sentar no lugar do carona, ainda me olhando seriamente.
Meu menino era tão maduro. E eu vergonhosamente imaturo.
–Agora... É por isso que papai o afastou de nossas vidas? Ele sabia? Você chegou a se confessar a ele?
Eu suspirei cansado e abri um pouco o vidro da janela permitindo a entrada do ar úmido de chuva. Eu me sentia sufocado.
– Sim. – respondi baixinho.
– Sim...? — minha resposta não parecia satisfazer a Ciel.
– Eu me confessei a ele. — eu queria sumir tamanha era a minha vergonha.
– E o que mais?
– Ciel, por favor. — choraminguei.
– Conte-me tudo.
–Por que está fazendo isso? – eu passei a mão sobre meus olhos.
– Por quê? Porque eu tenho o direito de saber... – ele falou num tom sério — Por que como poderei voltar a confiar em você se não me contar toda a verdade? Porque dói mais saber por outros...
–Esta bem. — eu disse de cabeça baixa. — Eu contarei. Só... só, por favor, por favor, não me odeie.
– Eu nunca conseguiria lhe odiar. – ele sussurrou como se falasse consigo mesmo — Esse amor é tudo o que sou. Por favor... eu preciso saber...
Eu o observei de rabo de olho e ele me sorriu fraquinho, tentando me passar coragem e confiança. Um menino, recém chegado à adolescência, que sofrera horrores sem fim nesta noite infeliz e ainda ele buscava me dar conforto quando devia ser eu aquele quem devia confortá-lo.
– No dia do seu nascimento, estávamos tão felizes. — eu comecei hesitante — Bebemos algumas cervejas e enquanto conversávamos sobre quem lhe ensinaria a jogar futebol e andar de bicicleta... eu estava embriagado... e eu o beijei.
Ciel baixou os olhos e seus lábios se apertaram numa linha fina.
–Eu... beijei meu irmão gêmeo no dia que o filho dele havia vindo ao mundo. – a vergonha tomava conta de mim.
Ciel mantinha a cabeça baixa, retorcendo a barra da blusa.
– Nós, depois disso, ficamos brigados. Quero dizer, Vincent ficou brigado comigo.
– Foi por que você o beijou? – ele perguntou num fio de voz.
Eu arregalei meus olhos. Eu não esperava interrupções e também não esperava ter que revelar o verdadeiro motivo por detrás da mágoa de meu irmão para comigo. A verdade era que Vincent talvez me perdoasse por beijá-lo.
Mas jamais por ofender a mulher que ele amava.
– Não... Por eu ter ofendido sua mãe.
Eu desejava que um buraco aparecesse magicamente sob meus pés e que eu pudesse me afundar nele.
– Ah... — ele disse cheio de tristeza e pela primeira vez seu olhar não me passava segurança.
Meus dois amados Phantomhives defenderiam, acima de tudo, Rachel. A mulher boa e gentil que nunca me maltratara. A mulher que pedia a meu irmão que voltasse a falar comigo. A mulher que deu à luz o amor maior de minha vida, que sempre falou de mim a seu filho com palavras carinhosas.
A mulher que jamais mereceu sequer uma fração do ódio que tive por ela.
Agora eu não sentia mais a mínima vontade de odiá-la. Eu, na verdade, me sentia envergonhado por tê-la maltratado no passado e a invejado.
– Hoje eu percebo o quanto eu fui injusto com a sua mãe. Eu era um babaca ciumento... — uma pausa e eu admiti — Não que hoje eu não continue cometendo os mesmos erros... mas pelo menos os erros do passado eu reconheço. Eu acabei por perceber o quanto errei com sua mãe graças a você. Eu queria poder reparar o meu erro... – sussurrei sincero.
– Eu e meu pai... amávamos muito a minha mãe. – Ciel sussurrou ainda olhando para o tecido de sua blusa que ele retorcia nas mãos pequenas. Eu via carinho em cada gesto de meu pai para com ela. E como ela preenchia a vida dele... — uma pausa e Ciel riu baixinho — ele dizia sempre que era lindo eu ter os olhos dela. Ele amava isso, e que quando nós o olhávamos ele gostava de se perder no azul dos nossos olhos.
– O azul dos seus olhos... dos olhos dela... não há cor mais linda neste mundo... Azul como céu de verão, azul como o oceano... — Ele me deu um sorriso pequeno.
– Continue. – ele sussurrou após um tempo em que permanecemos em silêncio. Eu olhei para o teto do automóvel desejando poder ver o céu, buscando forças. Mas então olhei para o meu lado, meu céu estava ali, ao meu lado.
– Quando você completou dois anos sua mãe me convidou para o seu aniversário e, mesmo que eu soubesse que seu pai não me queria lá, eu fui.
Uma pausa, e eu procurei e segurei sua pequena mão.
– Eu... Você era a criança mais linda que eu jamais vi... eu tinha tanta saudade de você... Eu só o via em datas comemorativas. Mas depois que os convidados foram embora e seu pai não era mais obrigado a fingir que não havia problemas entre nós, ele me mandou embora. Ele disse que para ele, me ver com você em meu colo era o máximo que ele podia aguentar.
– Por que ele pensava assim? – ele sussurrou me encarando com aquelas lindas orbes. Safira e ametista me fascinando.
– Porque ele não queria nos ver juntos.
Ele franziu o cenho em incompreensão e apertou meus dedos. Sorri para Ciel. Sei que nele também doía o pensamento de estarmos longe um do outro e isso aquecia meu coração.
– Ele me via como um monstro, alguém perigoso e que poderia fazer algo contra o pequeno filho dele, enfim, errado ele não estava, não é mesmo?
Ciel me sorriu cúmplice.
Compartilhávamos aquele pecado.
E não tinha como eu me sentir culpado ou sujo por isso.
Pois um anjo aceitava e compartilhava do mesmo sentimento que eu. Isso não poderia ser errado então, não é?
– Ele me expulsou e me baniu da vida de vocês... e eu passei os dez anos seguintes sofrendo e me culpando por ser um monstro.
Os olhos bicolores da minha criança transbordavam piedade e ele apertou mais fortemente a minha mão.
– Então aconteceu o acidente... e o resto você já sabe... – finalizei.
O silêncio imperou dentro do carro por vários minutos. Ciel olhava para as próprias pernas. Ele estava imerso em pensamentos. E eu não tinha coragem de lhe dizer mais nada.
Eu nunca tinha imaginado contar à minha criança o meu pior segredo. Eu não sabia como Ciel reagiria a todas aquelas informações.
Mas eu não teria pressa, eu daria a ele o tempo que ele precisasse.
Afinal não importava quanto tempo Ciel ficasse afastado emocionalmente e fisicamente de mim para absorver a toda aquela história. Eu estivera só por todo o caminho que percorri até ele chegar em minha vida e achar em meus braços um lugar confortável. Eu esperaria mais uma vida inteira por ele.
– Tem algo a mais pra me contar? – ele disse sem levantar o rosto.
– E-eu...
– Sem mais segredos, por favor...
– Está bem. — suspirei cansado. -Se lembra do cara ruivo que se apresentou a você no restaurante naquele dia que saímos para jantar?
Ele concordou com a cabeça, fazendo uma carinha desconfiada
– Ele é, ou melhor era, um garoto de programa com quem eu tinha certos negócios. – eu disse envergonhado.
Eu estava contando a um garotinho de quatorze anos que eu tinha "negócios" com um garoto de programa.
– Quando foi a última vez que teve “negócios” com ele? — a expressão em seu rosto era zangada, e ao falar negócios existia notável nojo no tom de sua voz.
– Na manhã do dia em que nós nos beijamos pela primeira vez...
Eu me aproximei de meu sobrinho. Minha vontade de estar perto dele era enorme. Maior que qualquer bom senso.
– Mas depois de conhecer o gosto da sua boca, nunca mais desejei ou toquei em alguém. Porque em meu coração e em meus pensamentos só existia você.
Ele ainda tinha uma expressão zangada na face angelical. Virou o rosto para que eu não o olhasse .
– Eu não estou mais mentindo... – murmurei com voz suplicante — Nunca senti nada pelo ruivo. Ele foi uma distração para o meu corpo nos meus anos de solidão... e quando percebi que eu começava a desejar você... a querer tocar você... eu o usei como um meio de me manter longe de você. Porque eu temia tanto te machucar...
Ciel exalou um suspiro cansado e lentamente voltou o rosto para mim. Não havia mais raiva em seu rosto mas tristeza. Seus olhos estavam úmidos mais uma vez.
Ainda assim ele me sorriu, tímido, e eu me aproximei mais.
Eu queria beijá-lo, esquecer de tudo mergulhando em seus lábios doces, mas a mão pequena se ergueu e me parou a centímetros do seu rosto.
– Tem algo mais?
Eu suspirei mais uma vez, só queria que aquele dia terminasse. Mas Ciel, com certeza, me conhecia muito bem.
– Diederich. — eu falei baixinho e Ciel me encarou confuso, esperando que eu continuasse.
– Desde a infância ele e seu pai eram melhores amigos. Eu...
Mordi os meus lábios, aquilo era tão íntimo! Eu nunca havia contado isso a ninguém, nem à dr. Durless.
– Diederich parecia gostar de mim e eu acabei usando esta afeição... — disse de uma vez — Tentei tirar Vincent da minha cabeça com ele... Ele foi o meu primeiro. O primeiro com quem eu dormi.
Ciel abriu a boca de forma chocada. Os olhos arregalados de espanto e a boquinha um perfeito O.
E eu esperei qualquer coisa, até mesmo um tapa no rosto. Qualquer coisa.
Mas o tapa não veio.
Ciel quedou-se em silêncio por algum tempo. Processando a nova informação. E então seus lábios se curvaram num pequenino sorriso.
– Agora entendo o porquê de você ter feito aquela cara quando eu os "apresentei".
Mais um suspiro repleto de cansaço enquanto aquele sorriso mínimo ainda estava em seus lábios e ele disse baixinho.
– Será que todos com quem você já dormiu combinaram de aparecer ali naquele dia?
Eu sorri esperançoso.
Talvez o riso dele fosse um bom sinal. Eu não aguentava mais. Eu precisava beijá-lo. Minha boca ansiava pelo sabor da boca dele.
Eu queria sentir o calor dele em meus braços ainda que eu não merecesse isso. Tentei me aproximar mais uma vez.
E uma vez mais a mãozinha me deteve.
– Há ainda mais alguma coisa? — ele perguntou baixinho, a expressão novamente séria.
– Não. — murmurei — não há mais nada.
Ficamos em silêncio por algum tempo e então ele disse, retorcendo a barra da blusa nas mãos delicadas.
– Eu... preciso pensar um pouco... Estou me sentindo esgotado. O mundo caiu sobre mim e eu tenho muitas coisas em que pensar...
E ele deu um longo suspiro como se levasse sobre si um peso imenso. Virou o rosto para o lado e eu vi ele limpar o rosto com a manga da blusa.
Ele não queria que eu o visse chorar de novo.
Eu o compreendia. Ninguém devia passar pelo que ele passara desde o dia anterior. E ainda assim ele tentava ser forte.
A maioria dos adultos ruiria.
Eu ruiria se estivesse no lugar dele.
– Eu sei. – respondi — Eu vou esperar. O que você decidir eu vou respeitar.
E fechei os olhos para conter as lágrimas. Mais uma vez eu estava mentindo.
Porque eu não aceitaria se ele decidisse que não desejava mais ser meu. Eu enlouqueceria, eu não poderia mais viver.
Mas eu também sabia que não tinha o direito de jogar minhas frustrações sobre ele neste momento.
– Obrigado... vamos pra casa agora... — ele sussurrou e se recostou no banco do carro. Concordei e dei a partida e seguimos para nossa casa.
Já era o final da manhã mas ainda estava escuro por causa da chuva. Nuvens espessas no céu londrino.
Descemos do carro e entramos em nossa casa. A senhora Coburgo e Sky vieram correndo nos receber. A velha governanta chorava copiosamente.
– Ciel, meu pequeno, eu tive tanto medo de que nunca mais ia te ver!
E ela abraçou meu sobrinho enquanto as lágrimas dela caiam sem parar
– Bondoso Deus, obrigada! Obrigada por proteger esta criança!
Ciel a abraçou com genuína afeição. Ele olhou para a atadura em torno da cabeça dela com preocupação.
– A sra. está bem? Ele te machucou... eu sinto tanto... Eu fiquei tão assustado quando ele te machucou...
– Isso não importa, meu pequeno. Sou mais resistente do que aparento. Mas e você? Ele machucou você? Oh, meu Deus, não me diga que ele machucou você.
– Eu estou bem, sra. Coburgo. Está tudo bem. Mas estou tão exausto. Minha cabeça dói, meu corpo todo dói... Quero tomar um banho e dormir.
Sky saltou e latiu para chamar a atenção, e Ciel soltou a idosa mulher e ajoelhou-se para abraçar o cão.
– Sky... eu pensei que nunca mais ia ver você.
E ele acariciou o cão que choramingava como se para expressar sua alegria em rever o seu pequeno mestre.
– Você também, não é? Pensou que nunca mais me veria... Mas eu voltei, querido amigo. Eu voltei pra você.
O cão choramingou novamente como se respondesse. Abanando o rabo, feliz por ter seu pequeno dono de volta. Ciel permaneceu abraçado ao seu cão por vários minutos e nenhum de nós teve coragem de romper aquele momento.
Pouco depois Ciel se ergueu e subimos as escadas acompanhados pelos dois.
Meu coração negro pela ansiedade.
Tomamos cada um, um banho quente. Fizemos uma refeição leve e depois de tudo íamos finalmente descansar.
– Eu vou me deitar um pouco. Estou muito cansado... Com licença. — Ciel disse e em sua voz notava-se o cansaço extremo.
E depois de ir para seu quarto ele fechou a porta.
Curvei meus ombros, meu coração apertado. Ele não fechava a porta de seu quarto desde o primeiro ataque de Faustus.
Nossas portas estavam sempre abertas um para o outro. Mas agora ele a fechara.
E eu temia que ele fechasse também o seu coração.
Fui me deitar também, a chuva batendo na janela. Todos os erros que eu já cometera com Ciel me voltando dolorosamente à mente. Peguei o meu remédio para dormir e tomei. Eu precisava, pelo menos por agora, fugir de minha própria consciência.
Acordei muito depois. A chuva já não mais caía, porém o céu estava escuro indicando que anoitecera. Meu mundo também escurecera... meu amado céu, claro e brilhante, não estava mais comigo...
Suspirei e me mexi no leito e só então notei que junto a mim, envolto no cobertor, estava alguém.
Meus olhos se arregalaram de espanto.
Ciel estava ali comigo!
Ele estava adormecido. A face angelical tranquila, a mãozinha agarrada à camisa do meu pijama.
Eu não sabia o que pensar, o que dizer.
Meu Ciel ali, junto de mim.
Minha mão tocou os cabelos escuros dele, afastando-os para que eu pudesse admirá-lo. E os belos olhos se abriram devagar.
Ele me olhou. As orbes de cores diferentes, lindas, fixas em mim.
– Ciel...! Quando foi que você-...
– Eu pensei muito, tio Sebastian. – ele sussurrou me interrompendo — Se eu disser que não estou muito magoado e que tudo não é muito difícil para mim estarei mentindo. E eu não quero mentiras entre nós dois nunca mais.
– Ciel... Ciel, eu sinto muito! Eu... – gaguejei.
– Mas eu também entendi porque você não me contou tudo aquilo antes. — ele voltou a me interromper suavemente.
– Eu pensei e pensei... e entendi que tudo aquilo são coisas que aconteceram antes de nós dois nos amarmos.
– Sim. – eu disse com meu coração cheio de esperança.
– E eu... eu amo você, tio Sebastian. Eu quero ficar com você. Mesmo com tudo o que houve...
Ele sussurrou, a boquinha tremendo e os olhos se enchendo de lágrimas.
Eu não pude mais suportar e o puxei para meus braços. Ambos chorando. Sussurrei pedidos de perdão, promessas sinceras de amor enquanto eu me perguntava como eu podia merecer alguém como meu pequeno anjo. Beijei as lágrimas dele e acariciei a face linda.
E ele me sorriu.
E um momento depois nossas bocas se uniram num beijo repleto de amor.
O nosso primeiro de nossas novas vidas.
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