Minha redenção
33 Algo a mais para ser escondido.
Me encho de receios.
Temores. Tão reais e palpáveis quanto aquilo que toco com minhas mãos.
E perante a isso. Existe a necessidade de proteção.
Proteger algo que não posso tocar.
Um sentimento. Uma sensação. Um bem querer.
Minha redenção.
~Chibi Lord
– Sebastian eu preciso falar com você.
Era meu advogado Willian T. Spears no telefone.
– Pode falar, Will.
– Eu prefiro que seja pessoalmente... posso ir até a sua casa?
Estranhei este fato. O que poderia ser para que ele me ligasse repentinamente num sábado à tarde desejando falar-me pessoalmente?
– Claro... mas... tem relação com aquele maldito desgraçado? – perguntei já me sentindo tenso.
– Estarei aí em 15 minutos. – e desligou.
Willian era um excelente advogado mas um tanto seco e descortês. Eu não me importava muito com isso, para mim bastava que ele desempenhasse sua função com perfeição, mas hoje o fato dele desligar sem responder a minha pergunta me deu uma sensação desagradável.
Pouco tempo depois a campainha soou e fui eu mesmo atender, já sabendo de antemão quem estaria ali. Mas me surpreendeu ver que ele não estava sozinho.
– Boa tarde, Sebastian... eu precisei trazer minha filha, espero que não se importe.
Ao lado de meu advogado estava uma menina muito bonita de cabelos negros longos e olhos muito verdes. Devia ter uns 12 anos. Ela sorriu-me e se apresentou.
– Boa tarde, Sr. Sebastian. Meu nome é Sieglinde.
– Boa tarde – respondi sorrindo – que nome diferente. Mas é lindo como você.
Ela riu e olhou para os próprios pés, encabulada. E Will limpou a garganta, chamando minha atenção.
– Eu preciso lhe falar. Mas gostaria de alguma privacidade. Ciel poderia fazer companhia para Sie?
Mal meu advogado pronunciou a pergunta e meu sobrinho surgiu atrás de mim, acompanhado do inseparável Sky.
– Boa tarde, Sr. Spears. E... oh... você é? – Ele perguntou sorrindo para a menina.
– Sou Sieglinde. Você é o Ciel? Eu estava ansiosa para te conhecer! Você tem olhos de duas cores mesmo! – ela exclamou fascinada.
Vi Ciel corar e abaixar os olhos. Ora... parece que meu advogado fala de meu menino em casa... pensei franzindo o cenho. Talvez ele tenha percebido pois rapidamente chamou minha atenção.
– Sebastian... este assunto vai lhe interessar. Podemos ir ao seu escritório, por favor?
O seu tom era sério e me fez esquecer, pelo menos por enquanto, a menina que se inclinava para o meu amado.
– Ciel, poderia fazer a gentileza de fazer companhia para minha filha enquanto eu e seu tio conversamos? – Will perguntou com um mínimo sorriso.
– Claro, Sr. Spears. Venha, você gosta de cães? Vamos brincar com Sky.
Deixamos os meninos com a sra. Coburgo e subimos para o meu escritório. Sentamo-nos nas poltronas macias e ele principiou:
– Você viu esta manhã nos noticiários? A notícia da explosão?
– Explosão? – eu o encarei sem entender – a que se refere?
Eu levantara tarde aquele dia e não havíamos ligado a tevê durante todo o tempo
– Ocorreu hoje no princípio da manhã, na penitenciária Kelvin, uma explosão. Ocasionada talvez por um vazamento de gás no refeitório. Várias vítimas fatais. Um muro ruiu e houve fugas também. – ele disse ajeitando os óculos no rosto.
Senti meu interior se revirar, essa era a penitenciária onde o maldito professor Faustus cumpria sua pena. Após o caso de Ciel outros ex-alunos da Weston se apresentaram como vítimas dele. Ele fora condenado após um julgamento rápido e por unanimidade.
– O que quer dizer...? – minha voz tremia – ele fugiu?
– Na verdade não sabemos. Ele estava encarregado de pequenos serviços no refeitório, uma prática comum. Não foi encontrado após a explosão. Há pelo menos 15 corpos muito mutilados e apenas exames de arcada dentária ou DNA poderão identificá-los. Ele pode estar entre os mortos.
Fiquei em silêncio, minha mente processando a informação. Eu acreditava que o maldito estava fora de nossas vidas. O julgamento havia acontecido há pouco tempo e ele fora condenado. Outras vítimas dele haviam sido localizadas e se apresentado.
Outros meninos assediados e molestados, mas o caso mais grave sem dúvida fora o de Ciel. Levei as mãos ao rosto e massageei minhas têmporas. Fora muito desgastante e doloroso.
Após o depoimento do meu sobrinho eu quase me levantei para agredir o canalha, mas Will permaneceu todo o tempo com a mão sobre meu ombro. Para todos poderia parecer um gesto de apoio mas eu sabia que ele o fizera para me conter e para me lembrar de onde estávamos.
Quando sua sentença saiu , lembro de Ciel correndo para mim, o alívio em seu rosto. Eu o abracei e sussurrei que nunca mais aquele desgraçado faria mal a ele.
– Sebastian, é mais provável que ele esteja morto. Eu não vim trazer esta informação para alarmá-lo, apenas para que a notícia chegasse até você por meio de alguém de confiança e não por jornais ou algo do tipo.
– Sim... compreendo... obrigado. – murmurei sem olhar para ele. – Mas... se ele estiver vivo... se ele fugiu...
– Se ele sobreviveu e está foragido é muito mais provável que tente se ocultar e escapar do país do que vir tentar algum tipo de vingança. – Will disse ajeitando mais uma vez seus óculos – Mas é prudente tomarem cuidado. Evitem se expor, não deixe Ciel andar desacompanhado, cuidado ao saírem. Lembre-se de que o que o condenou foi o caso contra o menino.
Ri baixinho... como esquecer? Como esquecer as marcas que eu vi no corpo do meu pequeno? Como esquecer se as vezes ele ainda despertava gritando no meio da noite, assombrado por pesadelos?
Ciel era um menino forte e corajoso e na maior parte do tempo agia como se nada disso tivesse acontecido a ele. Mas eu notei que ele se tornara mais reservado com adultos que não conhecia e não gostava muito que eles o tocassem.
Mas comigo era diferente. Ele se tornara muito mais dependente de mim, dos meus abraços e da minha presença. E eu cada vez mais apaixonado recebendo e oferecendo amor. Nós éramos o refúgio um do outro, e quando estávamos juntos nada parecia errado, nada parecia nos atingir. Esquecidos do mundo e da realidade.
– Você está me ouvindo, Sebastian?
– Hm? Oh, desculpe! Eu acho que me perdi em pensamentos...
– Bem, eu dizia que saberemos se ele está ou não entre as vítimas nas próximas semanas.
Continuamos a conversar por algum tempo discutindo a respeito do caso. Will me aconselhou cautela mas também me fez relaxar pois a possibilidade de uma possível retaliação por parte do maldito ( se ele estivesse vivo) era mínima, visto que sua prioridade seria a fuga. Terminada a conversa descemos para encontrar Ciel e Sieglinde.
Eles estavam sentados sobre o carpete da sala, rindo. A sra. Coburgo sorria e Sky corria em volta deles, alegre. De repente o cão latiu e fez que ia saltar sobre a menina. Ela soltou um gritinho e se lançou nos braços de Ciel, escondendo o rosto no peito dele.
– Sky! Está assustando a nossa convidada! – ele ralhou com o mascote que ganiu e se deitou no chão, virando de barriga para cima, como se pedisse desculpas.
– Está tudo bem, ele só estava brincando. Não recebemos muitas visitas então ele fica muito empolgado. – Ciel disse dando tapinhas nas costas de Sieglinde.
– Obrigada... você é um amor. – ela sorriu e deu-lhe um pequeno beijo na bochecha, o soltando em seguida. Vi o rosto de meu sobrinho ficar corado. Senti o ferrão do ciúme picar o meu espírito mas a má notícia que Will me trouxera dominava mais a minha mente do que isso.
– Vamos para casa, Sieglinde, já estamos atrasados. Obrigado por fazer companhia a ela, Ciel. – Willian disse me tirando de meu transe.
– Foi um prazer, Sr. Spears. Nos vemos outro dia, Sieglinde.
Fomos até a porta e nos despedimos dos dois.
Depois que pai e filha foram embora minha expressão se tornou pesada. O assunto conversado antes com meu advogado tornando meu pensamento mais nebuloso.
Comecei a dar passos vagarosos e titubeantes para a escada, naquele momento eu só pensava em deitar em minha cama para que pudesse ser levado para o mundo dos sonhos e depois dele despertar e perceber que a realidade a mim apresentada recentemente não passava de uma mera ilusão.
– Onde está indo? -Ciel perguntou quando eu já me encontrava no meio da escada.
– Deitar… — disse baixinho, temeroso.
– Por quê? Não assistiríamos a um filme? — perguntou forçando as pernas curtas a percorrem rapidamente a distância existente entre nós.
–Hoje não…
E o deixei intrigado na escada.
Entrei em meu quarto não me preocupando em dar qualquer explicação a Ciel. Fui para o banheiro me preocupando com mínimos detalhes desnecessários, como retirar e dobrar a cada peça de roupa que usava e que iria para em um cesto de roupas sujas. Um claro sinal de meu estresse.
Eu só conseguia pensar que em algum lugar aquele monstro poderia estar à espreita esperando o momento certo para tirar de mim minha amada criança. Will tinha conseguido até me acalmar em nossa conversa, mas agora, a sós com meus pensamentos, eu estava extramente pessimista.
Saí do banho sem pressa, a toalha enrolada em minha cintura e encontrei em minha cama meu menino. Sentado como se estivesse meditando e uma expressão preocupada em seu rosto.
– O que aconteceu? -perguntou enquanto eu me sentava na cama.
Retirou a toalha que estava em meus ombros e principiou a secar-me os cabelos. Ajoelhado atrás de mim, as mãos pequeninas enxugando meus fios. — O que conversou com o senhor Spears?
– Não importa. — respondi simplista.
Nunca contaria a ele. Não me perdoaria se o fizesse perder mais uma noite de sono, com medo daquele ser asqueroso.
– Como não importa? É claro que importa. Você ficou assim depois da conversa que tiveram…
– Assim como? -perguntei, o procurando com os olhos.
–Assim… — ele movimentou as mãos no ar como que para demonstrar algo. -Pra baixo. — sibilou me encarando.
–Está tudo bem Ciel. -menti, porque mesmo que não fosse de meu feitio mentir, para o bem de meu pequeno eu até mesmo fingiria não existir preocupação nenhuma em mim.
– É ciúme de novo?
– O quê?
– Você sabe... – ele sussurrou meio corado – ela me deu um beijo. E você viu. Por isso está bravo comigo?
– Eu não estou bravo com você!
– Você me evitou e veio pro quarto. E agora está todo estranho, desistiu de ver o filme.
– Mudei de ideia. — falei acariciando seu rosto e ele deitou a bochecha em minha mão apreciando meu toque. -Vamos assistir a aquele filme? -perguntei.
– Não… — ele tentou escapar, mas eu o agarrei o trazendo para meu colo, as pernas, ambas para o mesmo lado em cima de meus joelhos.
–Me conta, por favor? – Ciel pediu me olhando com aquelas lindas orbes de cores diferentes.
– Não quero lhe deixar preocupado. — disse segurando o queixo fino.
– Mas eu já estou, porque você esconde as coisas de mim? Não confia em mim?
Eu não respondi.
– Acha que eu sou pequeno demais, criança demais para entender o que acontece a nossa volta? Mas eu sei. Eu percebo que sua conversa foi importante e que é o que lhe incomoda.
– Não é isso, Ciel… — tentei disfarçar.
–Então o que é?
–É… — respirei fundo. -Eu, às vezes, tenho tanto medo, tanto medo de te perder… — o trouxe para mim, abraçando-o apertado.
– Mas não precisa… — ele sussurrou rente ao meu ouvido. -Eu estou aqui e sempre estarei, não pretendo ir a lugar algum.
Eu sorri, meu rosto escondido entre os fios revoltos cor de ardósia do meu menino. Eu queria mais do que tudo nesse mundo que suas palavras fossem verdadeiras.
– Olha – ele disse e segurou meu rosto nas mãos suaves – eu lhe faço esta promessa. Eu nunca irei deixá-lo. E você também nunca me deixará, não é? Por outra pessoa...?
– Nunca. Nunca vou te deixar.
– Então está tudo bem. É a nossa promessa. Sem mais ciúmes, medos ou mentiras, certo?
– A palavra “mentira” foi como um chicote estalando na consciência de Sebastian ainda que ele soubesse que Ciel dissera isso por pura inocência. Esta omissão se somaria à sua lista de segredos.
– Ei.
– Hm? – Sebastian olhou para seu sobrinho.
– Você está fazendo aquela cara de novo.
– Oh, estou?
Ele me olhou franzindo o cenho e então suavemente, segurando ainda meu rosto em suas mãos, aproximou-se de mim e beijou suavemente os meus lábios. Eu fechei os olhos enquanto ele me dava mais um beijo e mais um e mais um. Quando eu abri meus olhos ele me olhava com um imenso sorriso e disse cheio de si.
– Agora sim, essa cara fica muito melhor em você.
Eu sorri. Ciel sabia mesmo como me dominar.
– Ah, é? E que cara estou fazendo?
– De bobo apaixonado. – ele riu.
– Ora, seu pequeno petulante! – e com um movimento eu o derrubei na cama, beijei o seu pescoço e ele riu alto.
– Está fazendo cócegas! Pare! – e sua risada encheu o quarto.
Ah, eu o queria sempre sorrindo, sempre feliz. Queria sempre protegê-lo.
– Quem é que manda agora? – perguntei rindo, momentaneamente esquecido de meus temores.
– Eu! – ele respondeu sem hesitar.
E eu o beijei nos lábios. Era verdade.
Sky latiu no corredor e percebemos que ele avisava que a sra. Coburgo estava vindo. Era como se nosso cão se tornasse um cúmplice de nosso amor.
Me separei de Ciel e fui até a janela, ele permaneceu deitado na cama. Um tanto ressentido de nossa separação.
– O jantar está servido.
– Muito obrigado. – respondi com uma aceno e Ciel se levantou para ir atrás da governanta, não sem antes passar por mim e roçar seus dedos em minha mão.
Sorri pelo gesto enquanto ele se afastava e , depois que ele saiu, mais uma vez a sombra da preocupação tomou conta do meu rosto.
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