Minha nãoexistência
1 The end.
Era tarde, estava tão frio a ponto de fazer eu bater os dentes, o céu estava com algumas estrelas, mas ameaçava chover. Eu estava voltando para casa apenas vestindo uma calça jeans que agora se encontrava rasgada no joelho esquerdo —não porque era moda ou algo semelhante a isso, mas sim porque ela acabou rasgando quando meu joelho foi de encontro ao asfalto— e uma camiseta com estampa da banda AC/CD. Eu sentia a brisa gelada entrar em contato com minha pele e meus dentes retornavam a bater e em seguida tremia de frio. Meu nariz provavelmente estava vermelho e minhas mãos estavam tão geladas quanto as de um defunto, eu provavelmente ficaria resfriado, mas quem liga?
Meu nariz sangrava e havia um corte no canto da minha boca cujo esse também sangrava. Entrei em casa e suspirei por estar mais uma vez naquele lugar. Não demorou muito para que eu encontrasse um papel em cima da mesinha de centro fazendo com que eu ficasse curioso em lê-lo e assim fiz. Era um bilhete de meu pai —se é que eu podia chamá-lo assim— dizendo que estaria ocupado esta noite e por isso não estaria em casa, só voltaria pela manhã. Não sabia onde ele havia ido e para ser sincero eu nunca quis saber.
Subi para meu quarto, estava cansado de tudo, de sempre ser rejeitado até pela família. De fracassar em tudo que tento fazer, de não ter ninguém para sequer conversar. Esse era eu. Sozinho e abandonado até mesmo pelos próprios pais. Poderia ter sido feliz, poderia ter tido uma família ótima se minha mãe não tivesse traído meu pai e o trocado por alguém por causa de dinheiro. A partir daí por algum motivo desconhecido Michael Martinez —aquele que eu deveria chamar de pai— me mandou para um internato. Eu tinha apenas quatro anos de idade, mas lá estava eu longe da minha família tentando sobreviver em um lugar onde ninguém sequer se importava com o próximo. Com treze anos fui expulso e Michael ficou completamente nervoso com isso, a partir daí eu comecei a sofrer violência infantil —ou seria doméstica?— e já se dá para ter uma noção do quão minha vida era ruim, certo?
Michael nunca ficava em casa, eu não tinha uma boa relação com ele. Sempre bêbado ou sabe-se lá o que, descontava a raiva por tudo em mim. A culpa era sempre minha e aquilo era frustrante. E quando eu me apaixonei… CABUM! Desastre total. Eu recebi um fora e não foi um fora normal. Foi um “Sua existência não vale nada.” Exatamente com estas palavras, fazendo eu me sentir mais um lixo do que qualquer coisa. Fazendo eu me sentir uma porcaria. E mesmo que eu fosse para a escola e olhasse todos meus parentes com um sorriso e falasse que estava tudo perfeitamente bem, dizendo que eu era lindo e maravilhoso. Eu não estava feliz.
Queria ter sido capaz de me amar mais.
Aquela tarde/noite não era diferente de nenhuma outra, lá estava eu sozinho em casa sem o que comer e cansado da vida. Poderia ter tomado um banho, colocado um curativo em meus machucados, me deitado e chorado tudo que tinha para chorar até dormir, mas eu decidi que aquela tarde eu responderia minha dúvida sobre eu ser importante de verdade ou não. E lá fui eu, subindo as escadas lentamente, sentindo o sangue e as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, pensando em tudo de ruim que anda acontecendo comigo até chegar ao banheiro onde enchi a banheira e com roupa e tudo entrei, tirando apenas os sapatos e as meias.
1 minuto afundado debaixo d’água.
2 minutos.
3 minutos.
4 minutos.
10 minutos.
Oito letras: Suicídio.
E bem sucedido.
O fato é que foi assim que morri e bem as pessoas não reagiram como eu imaginei em nenhuma das três idéias que eu tinha formulado. E como eu sei? Bom, eu morri no mundo humano e foi ai que eu vim parar aqui. Não, não estou no inferno ou no paraíso. Estou no subterrâneo de Drornhan, na cidade de Belushang na nona dimensão. Não me pergunte sobre esse lugar, eu simplesmente só sei isso.
Pude ver a reação de todos assim que acordei. Havia uma enorme bola de cristal no local escuro que me aparentava ser um rio. Consegui ver todos aqueles que eu conhecia reagirem a minha morte. Me lembro perfeitamente da bola de cristal transmitindo minha antiga sala de aula onde havia minha professora de artes anunciando minha morte. As palavras dela são claras para mim até hoje.
“A partir de hoje não teremos mais Alexandro Martinez entre nós pois o mesmo foi encontrado morto em sua casa pela manhã. Sentimos muito pelo ocorrido.”
Sua voz me soava falha, era como se ela realmente estivesse comovida com aquilo e foi ai que eu a vi pegar uma caixa de papelão e colocar por cima da mesa dela, de lá ela começou a tirar alguns pertences meus como alguns quadros que eu havia pintado, composições minhas com dedicatórias e cartas que eu havia escrito ao garoto ruivo que eu amava, mas que me odiava. Ela deu as cartas a ele juntamente a uma música que eu havia composto para ele, distribuiu o resto a cada remetente e logo em seguida colocou algo na televisão da classe, mostrando então um vídeo que eu havia gravado em meu celular. E eu me recordo exatamente o que acontecia.
“Olá, aqui é o Alex. Hm (pausa inconveniente para engolir o choro) eu estou gravando isso porque preciso desabafar em algum lugar. Eu não tenho com quem conversar (engolindo o choro mais uma vez), e não me sinto muito a vontade falando com as paredes. Pelo menos gravando eu vou poder ouvir o quão babaca eu pareço ser depois não é? (risada forçada). O fato é que eu simplesmente não aguento mais, sabe? A vida. Não aguento mais sair da minha cama e viver a mesma rotina entediante e horrível de sempre. Ir para a escola e ter que fingir que está tudo ok e que sou forte o suficiente para não ter sentimentos. Surpresa! Eu tenho sentimentos! (Risada forçada). Eu… (pausa para pensar em algo) hm, eu, hã… eu estou cansado da vida que levo. Meu pai também não me ajuda. Sabe aqueles roxos que geralmente acham que eu arrumei brigando? É tudo ele. Eu gostaria de falar que sou feliz e tranquilo como aparento ser, mas eu não aguento mais nadinha de nada. A minha cabeça está barulhenta e eu não suporto mais passar por tudo que passo. (Pausa um tanto longa e alguns barulhos de papéis ao fundo junto a fungadas). Bom, eu vou terminar essa gravação tocando e cantando uma música que compus. Não é tão ruim (risada forçada e sem graça).
I don’t know what it’s like
To be like this
Feel this way
Please tell me
How to be happy?
Feel alive?
Please tell me
How to survive?
How not to die?
How to continue
Without weakening?
Do not hate me
It's not my fault
I swear
I promise
Just please
I’m sorry for all
To exist…(lágrimas escorrendo e pausa para limpa-las) é… acho que deu, né?”
E então o vídeo chegava ao fim mostrando todos na classe chorando como se fossem absolutamente próximos de mim.
Também me lembro bem da reação de Peter, o ruivo que eu amei, mas que me odiou. Primeiro segurou as lágrimas durante o vídeo e depois quando leu as cartas entregues pela professora, mas escritas por mim, chorou baldes d’água fazendo eu achar que ele realmente se importava. Meu pai também não foi muito diferente dessas pessoas. O vi chegando em casa no outro dia, gritando pelo meu nome e em seguida completando com “esse maldito até agora não chegou” e então ele entrou no banheiro vendo meu corpo morto na banheira e então eu o vi chegar desesperado até meu corpo e chacoalhá-lo implorando para que eu dissesse algo, mas obviamente não aconteceu e então ele abraçou meu corpo como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Chorando rios e rios.
Aquilo era surpreendente.
No meu enterro até Peter foi, todos colocaram flores em minha sepultura e assim que o enterro acabou o ruivo permaneceu por lá. Se aproximou da cova e colocou uma carta lá, como se eu fosse algum dia lê-la, em seguida ele cantarolou um trecho da minha música. “Just please, I’m sorry for all, to exist… Alex.” e logo em seguida saiu. Aquilo foi desconcertante. E como se não bastasse eu também vi os dias seguintes, onde meu pai aparecia em meu túmulo muitas vezes deixando flores e mais flores, chorando, se ajoelhando e gritando por perdão. Onde Peter perdia todo seu humor feliz na escola, onde de garoto popular e super feliz ele passou a ser triste e quieto, não prestava atenção nas aulas e sempre estava distante. Onde uma garota que gostava de mim, cuja a qual eu descobri que gostava de mim só após eu morrer, chorou por alguns dias, mas logo me superou e felizmente seguiu minha vida. Onde Andreas, um garoto um tanto novo na escola que havia tentado se aproximar de mim bastante, chorava por motivos que no ínicio eu não entendia, mas que logo eu entendi quando no meu aniversário ele foi até onde eu gostava de ir e ficou parado lá, chorando feito um bebê. Onde no meu aniversário Peter foi até meu túmulo e deixou uma rosa vermelha em meu túmulo e se sentou ao lado começando a cantar algo triste sobre não aguentar ficar sem minha presença. Onde no meu aniversário Michael chorou mais do que nunca, comprou um bolo e cantou parabéns junto as paredes, fazendo um discurso sobre sentir minha falta. Como se eu fosse ouvi-lo. Onde eu descobri que Michael era realmente um pai, bastava não beber. Onde percebi que Peter me amava, só não admitia. Onde percebi que eu tinha importância, mas ninguém demonstrava. Onde percebi que arruinei a vida de muitos quando tentei salvar a mim mesmo.
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