Minha história

1 MINHA HISTÓRIA


Hoje segui o primeiro mandamento dos pensadores: “Se ninguém te ouve, escreva”.
Fiquei riscando a cama com a ponta de um livro de capa dura, a cabeceira vai ficar marcada, como eu fiquei marcado, escrevi: “Eu estou aqui”.
De crises existências eu entendo, sempre tem alguém que faz você se perguntar, "será que eu faço alguma diferença para alguém?".
Fiquei olhando para as paredes verdes do meu quarto, vieram-me na cabeça tantas perguntas, tantas incógnitas que antes tinham resposta, mas então nós crescemos e o coração parece que vai parar em cada fracasso, em cada amor em vão.
E na minha paranoia eu olhei em baixo da cama, fiquei com os olhos arregalados procurando algo, um monstro, algum inseto, não sei, no momento eu estava longe.
Olhei para o teto, vi aranhas, uma luz incandescente, que me acendeu literalmente, sentia-me viajando no meu próprio eu, a minha alma era o chão e o meu céu, o vazio.
Não via órgãos, nem via meu corpo quando procurava minha mão, tudo era na base da imaginação, tentava imaginar garotas, quadros com elas dentro, amores imortais... Tentei imaginar todos os meus amigos conhecendo o universo que eu tanto escrevia, sim, era de mim que eu escrevia.
E entre toda a minha imaginação, havia algo que não deveria estar ali, uma porta, com mãos negras marcadas, veio-me na cabeça o segundo mandamento dos pensadores: “Quando encontrar a porta da sua existência não a abra até ter certeza que é capaz de lutar contra si mesmo”. Aquela porta me dava a certeza que era ali que eu devia estar, como eu gosto de me perder em devaneios.
Quando me aproximei da porta, algo me dizia, uma sombra do meu lado com a cabeça abaixada, que naquela entrada estaria os pensamentos mais obscuros, os meus piores monstros e o lobo que eu criei comendo o cordeiro.
Fiquei com medo, estava indeciso e isso era normal na minha idade, a juventude te passa insegurança, pus a mão na maçaneta e senti frio, arrepiei-me e com um calafrio que me percorreu soltei repentinamente a maçaneta.
Eu podia voltar atrás ou simplesmente entrar, seria como uma prova de fogo e por mais incrível que pareça, gosto de provas difíceis.
Fui avante, entrei com o peito estufado e quando dei o primeiro passo após de ter passado a porta, cai num vazio, na vertigem vi meus pais, meus amigos perdidos no tempo, o que interrompeu aquela despencada foi uma folha que bateu na minha face, tudo ficou branco e eu fiquei ali parado com a folha na mão me perguntando o que tinha acontecido.
Observando a folha, vi que era uma das minhas histórias, rotulada de “Breu da obscuridade”, fiquei abismado no início, mas depois me lembrei de que era o meu universo, eu encontraria tudo que passei na minha existência, de monstros aos sentimentos mais puros, veria a minha infamidade e a minha compaixão.
Uma voz veio do nada e começou a conversar comigo.

— Esse é o seu mundo Davi.

— Quem é você?

— Não se faça de tolo, eu sou você.

— O que tem haver tudo isso?

— Esse branco sem caminhos e sem nada?

— Sim.

— É uma página em branco, histórias que você se arrependeu de começar a escrever e simplesmente apagou, deletou.

— E a minha desculpa foi que eu não queria eternizar um sentimento no papel!

— Exatamente... Muitas das suas histórias você nunca mostrou a ninguém.

— Medo de ser repreendido.

— Quando começou a escrever sobre a sua vida tinha em mente as diversas interpretações que as pessoas tirariam lendo suas histórias que falavam de amor,morte,horror, dos mais cordiais dos sentimentos aos mais obscuros.

— Tem histórias que guardo comigo até que eu encontre alguém disposto a olhar o mundo da minha forma e ler a minha história com outros olhos.

Ouvi um estralar de dedos, logo o cenário mudou e eu estava numa floresta.

— O que você fez?

— Lembra do lobo e do cordeiro?

— Personagens do meu interior na adolescência.

— Vou te mostrar como eles estão.

— Quem venceu aquela disputa?

— Você deu características distintas a cada um, se lembra? O lobo era forte e guardava rancor, o cordeiro via poesia onde não tinha e era fraco, facilmente conturbado com os desejos alheios... Enfim você ouviu muito o Lobo.

— Mas o cordeiro ainda vive dentro de mim?

— Amordaçado!

Lembrei-me de um sábio que me falava que muitas vezes o pior inimigo somos nós mesmos, a minha consciência estava fazendo o que sempre fez, tortura emocional.

— Olha entre aquelas árvores lá no fundo... Vê? O lobo está comendo o cordeiro.

— Eu ainda posso mudar esse quadro.

— Claro que pode, mas isso é depois, vamos agora ver os seus monstros.
A parte mais obscura do meu ser.
A floresta se tornou um vale penumbroso e negro, onde apenas a luz da Lua iluminava.

— Um monstro muito presente nas suas histórias é a Dona Morte, tem medo da morte Davi?

— Morrer faz parte, foi apenas um jeito de dizer que em todos os momentos tem alguém sussurrando no meu ouvido de forma torturante, dei o nome de Morte, ela é apenas mais um objeto de reflexão.

— Fala muito nas suas histórias sobre alguém que te deixou para baixo por muito tempo, não o descreve como um monstro, mas dá a se entender que é um... Quem esse tal monstro? Tão relacionado ao amor?

Engoli seco e respondi.

— Veja esse monstro como a consequência e o desejo, é como se fosse o que eu sempre quis e quando consigo eu viro capacho dele, sofro por causa dele, eu daria o nome desse monstro de Amor.

— Amor? Amor é bom, é um sentimento claro e singelo...

— Há uma das minhas histórias que fala disso, do jeito que vejo o amor, com todo o meu estudo eu sei que ele é muito bom e singelo como disse, mas há vários tipos de amor, há o amor monstro, o presente nas minhas histórias.

— Por que ele te faz tão mal?

— Faz você esquecer quem você aprendeu a amar.

— Isso está confuso, quem é o amor Davi?

— Uma pessoa.

— Essa pessoa te fez amar e depois te deixou?

— Vazio... É isso mesmo, uma coisa que aprendi com os desenhos é que os verdadeiros monstros são os humanos.

— Agora você me esclareceu, então a Morte é uma pessoa?

— Sim, uma personagem.

— Interessante, agora me fale de uma coisa que te assombra! O vazio que você sempre descreve.

— Onde está o vazio era para estar o meu coração, simboliza o roubo do amor e da razão.

— Ainda está vazio?

— Estou preenchendo aos poucos.
— Com o que?

— Alegrias.

— Tudo é passageiro, diz você: alegria passageira!

— Por isso sempre tenho que renovar as minhas inteirações em busca de felicidade momentânea.

— Já tentou recuperar o seu coração?

— Todo dia tento, mas dói lembrar o que já passou.

— Então desiste!

— Sim.

— Incrível! Tudo isso é só o começo, ainda não atravessou o invólucro que faz você pensar que tem sempre a razão.

— Me sinto um garoto bobo com poemas na mão.

— Se irrita facilmente quando não tem palavras para descrever a sua situação.

— O que mais me irrita é isso, nunca contei isso nas minhas histórias.

— Por que te irrita?

— Acho meu vocabulário frívolo e chulo, gosto de palavras novas e quando não as tenho fico inseguro, e se alguém perguntar o que eu tenho? Ou o que eu passo e eu não souber responder?!

— Sabe o segredo para ver o seu verdadeiro interior?

— Qual?

— Soltar tudo que tem guardado ai dentro de ti.

— Monstros, ilusões, amores?

— E tudo mais!

— Uma boa prova.

— Quando conseguir fazer isso, volte a mim.

— Como saio daqui?

— É só fechar os olhos e vai acordar na sua cama, na sua vida pacata.

E assim aconteceu, a vida seguiu e eu vi tudo aquilo apenas como um sonho. Demorei ver que era o início de uma reforma íntima.

FIM

15/07/13

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