Notas iniciais
Primeiro capítulo :)

Quando eu era criança costumava observar a chuva. Queria entender como ela se formava no céu e por que caía em gotas.

Hoje eu sei.

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Frequentava a faculdade de Medicina, na época tinha dezoito anos. Tinha acabado de ser aceita na FEM — Faculdade de Engenharia e Medicina — e me instalado em um quarto junto com Jamily. No meu primeiro dia na FEM, às três da tarde, eu e Jamily passeamos pelo parque em frente à faculdade. A maioria dos estudantes tanto de Medicina quanto de Engenharia passavam por lá todos os dias para desestressar e tranquilizar a mente depois de horas estudando; alguns levavam livros para estudar no tempo livre. Mas eu e Jamily só queríamos jogar conversa fora. Sentamos em um banco e ficamos falando de coisas clichês e fofocando. Foi aí que ele chegou. Cabelos loiros ondulados e curtos; alto, pele clara e com alguns músculos além dos olhos castanhos bem destacados no rosto dele. Jamily ficou com a maior cara de tonta quando o viu. Ele era bonito sim, mas pelo menos consegui disfarçar.

— Olá, meninas — ele falou se aproximando.

— Oi — Jamily respondeu logo e eu depois dela.

— Vocês estão fazendo o quê?

— Medicina — respondi.

— E você? — Jamily perguntou.

— Também.

Ele permaneceu me olhando com um sorrisinho no canto da boca. Não sei se ele estava sendo irônico ou tentando me seduzir, mas achei um pouco estranho. Depois de um minuto me encarando ele seguiu de volta para a faculdade.

No dia seguinte começaram as aulas. Jamily, o garoto que falou com a gente no dia anterior e eu ficamos na mesma sala. Entrei e sentei na segunda cadeira na fila da parede esquerda. O tal garoto do dia anterior sentou na última fila, a da parede direita, mas na mesma posição que a minha, na segunda cadeira. Ele ficou olhando pra mim a aula inteira. Isso era meio que assustador, ele era bonito, mas o jeito como ele ficou me olhando com aquele sorrisinho... Me deixava receosa.

A nossa aula terminou perto da hora do almoço e eu fui falar com ele:

— Ei! — falei quase gritando o puxando pelo braço.

— Que foi? — ele respondeu se virando e sorrindo com a maior cara de inocente.

— Dá pra você parar de ficar me olhando?!

Ele se soltou de mim devagar.

— Qual seu nome?

— Não muda de assunto.

Ele cruzou os braços, ergueu uma sobrancelha e ficou parado me olhando do mesmo jeito que me olhou na praça com aquele sorrisinho fraco dele. Ele não ia ceder às minhas perguntas se eu não respondesse as dele.

— Daniele — disse finalmente.

— Posso te chamar de Dani?

— Não.

— Ok, então qual é seu apelido?

Hesitei um pouco antes de responder, afinal, meu apelido não era “Dani” como os da maioria das Danieles.

— Niele.

Ele pareceu surpreso e disse:

— Você é a primeira que me diz isso. As outras Danieles preferem...

— Eu não sou as outras — respondi firmemente cortando-o.

— Claro que não — ele afirmou descruzando os braços. — então venha almoçar comigo e me conhecer melhor antes de vir me batendo.

— Não posso deixar a minha amiga sozinha.

— Tem certeza que ela está sozinha?

Ele levou os olhos até a mesa onde estava Jamily conversando e sorrindo com uma galera que já deveria estar no segundo ano de medicina. Ela tinha facilidade para fazer amizade. Jamily não era mais minha desculpa para rejeitar a companhia do garoto.

— Tudo bem — respondi por fim.

Sentamos e almoçamos sozinhos em silêncio até ele começar a falar:

— Quer saber meu nome?

— Não. Senão teria perguntado — falei sem ao menos olhar para ele.

— É Willian, mas prefiro ser chamado de Will. — Parecia que ele não percebia que não queria conversar ou fingia não perceber minha ignorância — Do que você gosta?

— Comer em paz — respondi secamente outra vez.

— Se eu disser que te acho bonita você me bate?

— Não, mas iria me irritar.

Dois minutos sentada na mesma mesa que ele e já me senti enjoada. Depois do almoço aproveitei a tarde de folga trancada no quarto estudando.

— Como foi seu almoço com o gatinho? — Jamily perguntou ao entrar no quarto. Nem havia percebido sua presença.

— Com quem?

— Não se faça de desentendida.

Ela se sentou na cama a minha frente enquanto aguardava uma resposta. Olhando-a de frente sua cor morena ficava mais destacada.

— Ah, foi horrível.

— Mentira! — ela afirmou colocando atrás da orelha um fio de cabelo rebelde, mas ele escorregou novamente. Ela amarrou seus cabelos pretos e lisos.

— Ele é ridículo, um enjoo — disse no mesmo tom de antes.

— Mau julgamento seu, amiga. Ele é lindo — ela falou empolgada.

— Mas insuportável.

— Se eu fosse você dava uma chance.

— A quê? Ele não tá gostando de mim.

Fiquei um pouco irritada com a insistência dela e acho que ela percebeu.

— Calma aí. Mas que ele tá dando em cima de você ninguém pode negar.

— Ele gosta de se exibir.

— Ah, fala sério, Niele. Olha só pra você, você é linda.

Não me considero tão bonita assim; meus cabelos eram ondulados e pretos como poderia ser e qualquer outra garota. Alguns dizem que sou branca como a neve e meus olhos são tão verdes quanto uma esmeralda, mas era apenas lisonjeio deles.

— O que isso tem haver?

— Acho que ele tá apaixonado.

— Nada a ver. Você também é bonita.

— Mas ele preferiu você. É o destino de dois corações, duas almas gêmeas que...

— Tá, pode parando. Entre nós não rola nada, eu não gosto dele.

— Não acredito que você tá dispensando o maior gato!

— Não enche. — Joguei-me na cama e cobri o rosto com o travesseiro, mas ainda assim dava pra ouvir a Jamily viajando:

— Ele é perfeito, lindo e tem cara de inteligente. Não sei o que você tem na cabeça que não gosta dele.

Sinceramente, ele podia ser bonito, mas não fui com a cara dele. Ele é muito atirado; não fazia meu tipo.

Notas finais
Comentários são sempre bem-vindos!