Notas iniciais
Penúltimo capítulo. Essa minha história de 3 caps é apenas um contonque fiz em um momento de breve inspiração. Obrigada por lerem.

Uma dúvida cruel me martelava a cabeça naquele momento: eu abandonaria a cirurgia e a adiaria para outra data ou a fazia eu mesma?

Eu sabia que jamais desistiria de uma cirurgia então me sobrou apenas uma opção: terminá-la. Aprendi uma coisa logo no meu primeiro semestre de medicina: que você não trabalha para você, mas sim para o paciente. O que você fizer em um hospital refletirá diretamente no paciente e é seu papel fazer com que sua interferência seja positiva.

Olhei para minha paciente inconsciente. O que aconteceria se ela morresse? Quantos chorariam por ela? Ela sentiria dor? Como eu conviveria com isso? Estava imersa nesses pensamentos quando alguém entrou na sala.

— Oi. — Era o Will.

— Você está bem?

— Acho que melhor que você. — Ele fez uma careta. — E agora?

— Eu não sei — confessei com a voz quase sumindo.

Meus olhos se encheram de lágrimas; odiava ficar indecisa.

— Vai dar tudo certo. Eu vim te ajudar.

Ele observou minhas luvas sujas de sangue e me olhou com piedade.

Depois sussurrou:

— Vá em frente.

Eu precisava daquilo. Precisava que alguém dissesse que tudo daria certo. Fiquei mais concentrada e prossegui. Will não era cirurgião, mas foi melhor ficar ali com alguém do que sozinha.

Mais duas horas se passaram e eu já estava terminando. Estava aflita, mas até aquele momento tudo estava dando certo. Foi a coisa mais difícil que já havia feito até os vinte anos de idade. Hoje posso dizer com a maior felicidade que eu consegui terminar aquela cirurgia tranquilamente. Uma estagiária foi melhor que um médico formado.

— Você se saiu muito bem — me elogiou Will horas depois do processo cirúrgico.

— Sem você eu não teria conseguido.

— Eu não fiz nada. Você é que possui um grande talento.

— Você também.

— Não. Eu não. A culpa de o médico ter ido embora foi minha. Sou péssimo no que faço.

— Não diga isso. Ele foi um covarde, eu sei que a culpa não foi sua.

Sei que ele ainda carregava aquele peso mesmo sendo em vão. Não gostava de vê-lo chateado e me senti inútil sem poder dizer algo que o deixasse contente.

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Depois do dia do incidente, Will sumiu. Não o vi mais nos estágios e toda a vez que o procurava em seu quarto o Talis dizia que ele não estava. Também pensei que parte da tristeza dele era culpa minha por não ter correspondido seu ‘eu te amo’, por não tomar uma atitude em relação a nós.

Jamily também estava muito chateada por ter me deixado só em meio uma cirurgia. Eu a disse que estava tudo bem, que eu a entendia, mas foi assim por mais de duas semanas: Will totalmente ausente na minha vida, Jamily triste sem seu ânimo que sempre estimei e todos me aplaudindo por ter salvado uma vida.

Mas foi em uma tarde que tudo isso mudou. Fui até o quarto de Will como ia todos os dias. Mas nesse dia eu obtive uma informação. Talis disse que Will estaria na lanchonete perto da praça naquele exato momento. Saí desesperada para meu quarto e peguei um guarda chuva. Naquele dia estava chovendo muito como ainda não havia chovido no mês.

Atravessei toda a pracinha apressadamente enquanto a chuva caia sem dó. Logo avistei a lanchonete que estava quase vazia. Havia apenas um jovem alto de cabelos loiros debruçado em uma das mesas. Era ele, era Will. Fechei meu guarda chuva ao entrar na lanchonete e fui até a sua mesa.

— Olá — disse não contendo sorrisos.

Ele levantou a cabeça e se endireitou na cadeira. Voltou a me olhar como me olhava antes só que ainda estava bastante abatido.

— Quer sentar? — ele perguntou calmamente.

— Por que você andou sumido? — perguntei sentando-me.

— Tava por aí. Esfriando a cabeça — ele respondeu tão sereno como se sumir do nada fosse a coisa mais normal.

— E onde estava?

— Na casa dos meus pais.

— Você não podia sumir da faculdade sem mais nem menos!

— Não esquenta. — Ele fez silêncio. — Vem cá, quero te mostrar uma coisa.

Ele se levantou e me estendeu a mão. O acompanhei. Ao sairmos da lanchonete ele abriu seu guarda chuva e eu o meu. Caminhamos um pouco até sentarmos em um banco encharcado na praça. A chuva ainda caia de forma insistente como só havia visto chover assim poucas vezes.

— Olha ali. — Will apontou para uma poça d’água no meio da grama. — Aquele pingo era eu.

O encarei por um instante pensando se ele estava ficando louco. Mas se aquilo era um jogo, resolvi entrar nele.

— Eu não vi. Mas então aquela gota sou eu — disse apontando para uma gota que caia do céu.

— Aquela que caiu ali era eu.

— Prefiro aquela outra.

Começamos a apontar para várias gotas que caiam do céu como se fossemos duas criancinhas.

— Quando eu era menor — comecei dizendo. — sempre quis saber como a chuva se formava.

— Mas a gente aprende isso no ensino fundamental.

— Pois é, mas eu pensava que ocorria um processo mágico no céu, que gotas multicoloridas pulavam nas nuvens e caiam transparentes como se a nuvem fosse uma peneira de cores. Só que depois eu aprendi que a chuva era algo muito chato. É apenas uma ligação entre os rios, o ar, as nuvens, sei lá.

— É. Eu também nunca entendi as chuvas, mas teve uma vez que eu perguntei pra minha avó por que a chuva caia do céu. Hoje eu entendo.

— Por quê? — perguntei curiosa como uma criança de cinco anos.

— Ela disse que a chuva vem do céu, mas não está no céu.

— Como assim?

— É como o amor.

— E o que uma coisa tem a ver com a outra?

— Quando você estava na sala de cirurgia e viu o coração da paciente, você também enxergou o amor nele?

— Não.

Ainda não havia entendido a que ponto Will queria chegar até que ele explicou:

— O amor vem do coração, mas não está nele. Agora você entende?

— Tô começando a entender.

Naquele momento eu entendi o que ele estava falando. Eu descobri o que eu tanto almejei descobrir.

— Olha lá! — ele disse empolgado. — Ah, você não viu.

— O que era?

— Minha gota preferida. Só que ela já caiu na grama.

A chuva ainda estava intensa e, mesmo com os guardas chuvas, estávamos molhados.

— E aquela ali é a minha gota preferida.

Ele estendeu a mão na chuva e a deixou molhar. Em seguida ele a estendeu para mim.

— A do meio foi a que eu mais gostei.

Dei um pequeno sorriso e fechei suas mãos com as minhas. Eu havia ido até ele com um propósito e não iria embora sem cumpri-lo.

— Você é a minha gota preferida — falei baixinho, mas sei que ele ouviu.

Estava nervosa, não sabia o que dizer e simplesmente saiu isso. Essa foi a declaração mais constrangedora que alguém poderia dizer, mas ele respondeu:

— E você a minha.

Sempre procurei tomar cuidado com as palavras; sempre pensei antes de dizer algo. Nesse instante ele fixou os olhos em mim como fazia há algum tempo como se esperasse que eu lhe dissesse alguma coisa.
Na verdade eu sempre quis dizer, mas a ideia de expressar essa frase com palavras me assustava. Éramos apenas nós dois no banco da praça enquanto chovia, mas eu consegui dizer:

— Eu te amo.

Notas finais
Daqui a uns minutos posto o último