Minha chuva no deserto
1 Capítulo 1 - O que foi acontecer?
Notas iniciais
Era pra ser uma viagem maravilhosa para um lugar lindo. Era só a viagem do meu aniversário de 15 anos. Mas no momento, eu me arrependia desesperadamente de não ter escolhido uma festa no lugar da viagem e estar nesse exato momento fazendo os preparativos para uma noite monótona, com um vestido incômodo apertando meu corpo, sorrindo para convidados da minha família de quem eu nem gostava muito. Mas eu estava a dezenas, centenas, quem sabe milhares de quilômetros de distância da festa mais próxima — no meio de um deserto. E minha família não estava preparando os últimos detalhes da festa — estava morta, dentro daquele maldito avião a alguns metros de onde eu estava sentada. Dor. Era isso o que me dominava. A dor. Eu pensava que havia conhecido a dor quando tive uma queda feia de bicicleta que me fraturou alguns ossos na infância, mas a dor real não vinha de fora. Vinha de dentro. Eu nunca mais veria o semblante sério de meu pai, o rosto sorridente de minha mãe, meu irmão mais velho nunca mais implicaria comigo assim como o mais novo não brincaria. Ah, se eu pudesse estar morta.
O acidente havia sido realmente feio e matara toda minha família, além do piloto. Mas eu havia sobrevivido. Para ter que suportar a dor. E antes que a dor sentimental passasse, a física acabaria comigo. Eu tinha ferimentos. A água que se encontrava no avião não era suficiente nem para três dias. A comida, menos ainda. E se não morresse de desnutrição ou desidratação, morreria de desespero. Todos os equipamentos de comunicação destruídos, exatamente como eu deveria estar. Dei a última olhada desesperada para a tela do celular — nenhum sinal, nenhuma àrea. Bateria em 81%. Nunca havia me sentido tão só e isolada.
Há dois meses atrás, meus pais haviam me perguntado o que eu queria de presente de aniversário. Uma viagem, respondi. Não queria passar horas em uma festa chata e tediosa, a qual meus amigos de verdade talvez nem pudessem comparecer por estarem viajando de férias. Seria um saco olhar pra cara daquele pessoal que eu nem conhecia direito, e eles pra minha. Os presentes não me importavam, eu já tinha tudo o que queria. Uma boa viagem internacional me satisfaria muito.
Embarcamos no avião particular da família no dia do meu aniversário. O começo da viagem havia sido perfeito. Dentro do avião era fresco e confortável, o frigobar estava cheio. As vantagens de ser rico, eu havia pensado, fechando os olhos e me ajeitando em meu assento. E quando chegássemos ao destino... um hotel caro e chique, diversos passeios... As fotos que eu tiraria, meu Deus, poderia até conhecer um garoto legal que me fizesse esquecer meu quase-ex-namorado. Ligaria pra ele e terminaria tudo, por telefone mesmo, do mesmo jeito que ele havia feito da primeira vez que nos separamos. Eu nem sabia direito porque havíamos voltado, mas apostava que ele nem se importaria muito caso isso acontecesse. Seria a viagem perfeita, a viagem dos meus sonhos. Meus 15 anos seriam perfeitos. Tudo estava tão bem. E agora não poderia estar pior. Quando começamos a sobrevoar um deserto, alguma coisa deu errada no avião. O piloto informou ao meu pai sobre alguma coisa que eu claramente não entendi. Mas dois minutos depois, estávamos todos olhando uns para os outros pela última vez. O último rosto que vi foi o de meu irmão mais novo. 8 anos. Uma vida encerrada aos 8 anos, não fossem os caprichos da irmã. Ah, como eu de voltar no tempo e ter feito uma escolha diferente. Ele usaria um terno em uma festa e não em seu enterro. Tudo dóia. Tudo.
Agora eu estava encolhida na areia. Esperando que a morte que levou tudo o que eu tinha levasse o que me restava: minha alma.
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