Minha chuva no deserto

3 Capítulo 3 - Segundo dia, mais dor, e ele.


Notas iniciais
Oi pessoal! Capítulo novo, depois de tanto tempo... ;u; É que não tenho estado muito bem emocionalmente, e isso junto com o cansaço físico ajuda a criar um bloqueio criativo, por isso não tenho escrito e muito menos digitado - coisas já escritas prontas no caderno - no computador. Enfim, desculpe a demora, mas taí. Vou tentar não demorar tanto para o próximo, hehe. Brincadeira, vai vir bem mais rápido do que este se tudo correr bem. Ah, sim. O espaço obrigatório antes de início de parágrafo não funcionou em dois deles, depois tento consertar, desculpem :/

Acordei com a volta do calor. Eu havia finalmente conseguido voltar a dormir um pouco lá pelo fim da madrugada, mas ainda me sentia exausta. Continuei em meu assento por mais alguns minutos, de olhos fechados, e decidi que não voltaria a dormir ali. A noite havia sido terrível e eu queria nunca mais ter outra daquelas. O avião me fornecia sombra e abrigo — apesar de suas condições danificadas -, mas eu nunca estaria em paz com aqueles... cadáveres — doía como facadas pensar neles daquela forma — ali, me lembrando constantemente de coisas que me causavam desespero. Além disso, com o calor que fazia, eles entrariam em estado de decomposição em breve, o que seria um problema. E eu não tinha forças emocionais — e muito menos físicas — para arrastá-los para fora dali. Especialmente as partes em destroços. Pensar em tudo isso de uma vez só me causava náuseas terríveis. Precisei correr ao pequeno banheiro — pouco danificado em comparação ao resto, por se encontrar nos fundos — e vomitar. O que era péssimo, já que a desidratação com certeza seria causa da minha morte. Após Pôr tudo pra fora, voltei a meu banco e lavei o rosto com o restante da água da garrafa. Meus olhos estavam vermelhos e inchados, como o resto de meu rosto. Fazia tudo sem olhar para os lados. Até que me ocorreu um pensamento. Enquanto sobrevivesse, teria de usar o banheiro. Dei um jeito de abrir a porta mais próxima ao banheiro — o que para minha surpresa, não foi tão difícil — e pendurei um dos cobertores como cortina, separando a área das demais. Podia não dormir mais ali, mas o banheiro era algo que seria difícil de improvisar lá fora.

Passei pela cortina e fui até o compartimento de malas, cheio de danos. Eu não estava mais chorando; continuava triste, mas um certo instinto de sobrevivência tomava parte antes ocupada pela dor. Peguei a maior mala que pude, repleta de inutilidades, e a esvaziei. Comecei e pegar o conteúdo útil das demais e a enchê-la. Em outra, pus todo o conteúdo que ainda prestasse do frigobar e comecei a arrastá-las para fora, pela porta de trás e a me afastar dali. Foi uma caminhada lenta e cansativa. Só parei quando, de onde estava, o avião dava a impressão de ter o tamanho de um carro. Desse modo, apesar de ficar bem longe daquilo tudo, poderia ir uma vez por dia ao banheiro e checar se não vinha nenhum zumbido fraco dos patéticos equipamentos de comunicação.

O que fiz? Sentei na areia, como no dia anterior. Fazia um calor insuportável e tudo era só areia quente e calor. Meu cabelo desmanchava-se no coque e eu suava sem parar. Estava contemplando a areia com toda a minha infelicidade. Achei que fosse voltar a chorar, até que avistei um vulto. O tal vulto foi se aproximando até que eu pude distinguir uma forma humana. Entrei em euforia. Humanos. Ajuda. Quando começou a entrar mais em meu campo de visão, distingui um homem — na verdade, um rapaz, de seus 17, 18 anos. Em uma hora dessas não se repara muito em detalhes. Levantei e comecei a sacudir os braços. Não era necessário, ele já estava vindo em minha direção, mas quanto mais certeza eu tivesse de que acordaria daquele pesadelo, melhor.

– Aqui! — exclamei inutilmente. Ele estava a apenas três metros de mim. – Pelo amor de Deus, você pode me ajudar? Por favor, me tire daqui!

– Quem é você? — perguntou. Na hora, não achei a pergunta tão idiota quanto acharia em condições mais normais. Ele tinha cabelos loiros encaracolados, pele branca levemente rosada e olhos azuis muito claros. Usava roupas um tanto esquisitas, mas isso não me importava nem um pouco. – De onde veio? – perguntou, parecendo desconfiado.

– Ora, eu... — parei para pegar ar. Estava mesmo esbaforida. – Meu nome... meu nome é Julie. Estava viajando com meus pais e... houve um acidente... — fiz uma pausa — um problema com o avião... — apontei para a direção em que o avião se encontrava – Nós caímos e... só eu sobrevivi... eles estão todos mortos... oh meu Deus, você precisa me ajudar!

– Oh. Companhia. — deu um pequeno sorriso.

– Companhia? Não me diga que... você também... — minha voz soava agora decepcionada. Se ele se encontrava em situação semelhante, não poderia me ajudar em nada.

– Então sua máquina de voar deu defeito... Coisas frágeis, essas. — comentou, levando uma das mãos à cintura e uma fazendo sombra sobre os olhos, fitando a direção que eu havia apontado – Igual a de alguém que conheci. Meu primeiro amigo.

– Hmmn... — resmunguei. Aquela história não me interessava. – Bem... você também está perdido? Ou pode me ajudar? Pode me tirar daqui? Tem mais alguém? — As perguntas saíam uma atrás da outra. Eu precisava de alguma esperança.

– Até posso. Mas do jeito que posso você não vai querer.

– Do que está falando? — perguntei, começando a retornar ao desespero de antes – Você cobra por isso? Não tem problema, posso lhe pagar o quanto quiser, apenas... apenas me tire deste lugar! Por favor, eu não aguento mais! — minha voz soava cada vez mais agoniada.

Ele olhou para mim e sacudiu a cabeça num "não".

– Também está perdido, não é? — eu estava prestes a voltar a chorar. Que tipo de cara era aquele?

– Já voltei para casa há muito tempo.

– Como fez isso? Por que está aqui de novo?

Ele voltou a negar com o gesto de cabeça, olhando para o chão desta vez.

– De onde está vindo? — perguntei. Ele continuou em silêncio. – Quem é você? Qual seu nome? — Mais silêncio. – Como me encontrou? Não vai me dizer nada? — Ele não respondeu. – Diabos, por que não me responde? — Sentei na mala e voltei a chorar, exasperada.

– Por que choras? — perguntou ele assustado, depois de um tempo.

– Estou sozinha... — solucei — ... nesta droga de deserto... Vou morrer a qualquer momento, de sede, calor ou frio à noite... Então surge alguém... — fiz uma nova pausa para soluçar – E... E é só um cara maluco... Que... Que não me diz nada... — xinguei alto — Se vai fazer algo comigo, por que não faz de vez? — gritei. Ele se assustou um pouco, e me olhou parecendo triste e confuso ao mesmo tempo – Desculpe... merd... — fechei os olhos cheios de lágrimas.

– Posso lhe fazer companhia — ofereceu, após mais algum tempo. Pela primeira vez percebi o quanto sua voz era gentil. Parecia consoladora. Suspirei e assenti com a cabeça.

Notas finais
Espero que estejam gostando, até a próxima :3 (E se houver algum leitor fantasma, por favor, apareça, isso me incentiva a continuar escrevendo e postando!)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.