Minha cara e magra, amiga Ana
2 Creme de avelã
Notas iniciais
Era oito horas da manhã, estava de férias mas tinha costume de acordar cedo, podia aproveitar mais o dia e comer mais coisas diversas.
Levantei arrumei minha cama e fui até o quarto da minha mãe. Ela não estava lá, provavelmente ficou mais tempo no hospital.
Meu pai esta internado, foi diagnosticado com anemia profunda, estágio 3. De acordo com o médico é quase uma leucemia.E desde então ela passa mais tempo no hospital do que em casa. Eu vou lá as vezes, mas não gosto desses ambientes, não gosto de ver meu pai com vários furos nas veias e cheio de cabos conectados nele. Então ela fica lá, dia e noite olhando ele, acariciando seus cabelos e segurando a mão enrugada que já esteve lá muitas vezes quando precisou.
Arrumei a cama dela, guardei algumas roupas que estavam espalhadas pelo quarto quando avistei 20 reais na comoda com um bilhete escrito pela minha mãe "compre algo para comer, vou chegar depois do almoço. beijos, te amo."
"Nossa, vi no comercial da tv duas garotas se lambuzando de nutella e isso ficou na minha cabeça, preciso de nutella, faz tempo que não como. obrigada pelo dinheiro mãe, me salvou."
Peguei o dinheiro e já me troquei com pressa porque se eu fosse rápida o suficiente, chegaria na padaria a tempo da segunda fornada de pães fresquinhos sair.
Moro em um prédio de 50 andares e meu andar é logo o 44 oque torna ir de escada impossível para mim, tem um elevador com ar condicionado e bem espaçoso, nem penso na possibilidade de ir pelas escadas.
No elevador fico me encarando nos espelhos que me cercam :
"Caramba Isa, olha seu tamanho! tá ridícula com esse shorts, eles apertam suas coxas oque realça mais suas celulites. Que pernas molengas. eca. Meu cabelo é grande, castanho natural mas olha essas pontas todas mastigadas e quebradas... E esses óculos que só me ajudam a deixar essa cara de criançona nerd. Preciso cuidar mais da minha aparência. Próximo dinheiro que minha mãe deixar, prometo comprar uns cremes e maquiagens"
Mas logo meus pensamentos de auto destruição foram interrompidos pelo som das portas do elevador. Sai e já fui em direção ao mercado que era apenas algumas ruas do meu prédio. Foram quinze minutos andando mas pra mim parecia uma eternidade, o suor e cansaço ja estavam presentes.
Entrei no mercado e já fui na sessão de doces, meus preferidos. Peguei dois bolachas recheadas, uma barra de chocolate, leite condensado e claro, um pote grande de nutella. Fui na sessão de pães e peguei 5 deles. 3 eram para mim e 2 caso minha mãe chegasse com fome. (Ou caso eu continuasse com fome) Eu sempre comi muito bem, comigo não tem miséria, se to com fome eu como mesmo. Como até eu matar a fome.
Ja na fila do caixa, coloco todos os itens e sem querer deixo meu pote de nutella cair no chão, mas alguém pega e o entrega pra mim. Ao olhar, repentinamente eu me assusto e logo em seguida me sinto envergonhada. Lá estava ela, Ana, com seu vestidinho soltinho e suas finas e belas pernas a mostra. Havia se passado duas semanas desde a vez que a vi na academia, mas essa era a segunda vez que a encontrei. Ela olha pra mim com um sorriso meio forçado, e fica encarando fixamente minhas compras postas no balcão.
– São todas pra você? — ela pergunta com ar de irônia.
–São sim, acordei com muita vontade de comer nutella, vou me acabar com pão. Gosta?
– Não!! — disse ela em voz alta. — Não me sujo comendo essas comidas gordurosas. E você deveria fazer o mesmo. -
Então ela paga, coloca sua caixinha de chá verde na sacola plastica e sai, andando tão levemente que parecia voar.
Passo todos meus itens para a moça do caixa e retiro as duas bolachas.
"Vamos começar aos poucos" pensei.
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