Minha amada irmã
3 A Dama Fria
Notas iniciais
Segunda parte das memórias de Amma
O Reino dos Mortos era um lugar muito bonito. Melancolicamente quieto, mas mesmo assim belo. Era um ponto de intersecção de todas as dimensões e o repouso final de todos os seres. Tudo o que era vivo um dia encontraria seu lugar lá, mas, ao contrário do que os vivos sentem ao pensar na morte,estar lá não era algo ruim para os espíritos.
De qualquer ponto do vasto Reino era possível ver o castelo da senhora Morte. Era lá que todas as Damas Frias se encontravam e repousavam,trocando experiências. Sobretudo, aquele era o lar da nossa senhora e sempre era possível vê-la caminhando pelos longos corredores iluminados por velas de chama violeta, que eram sua marca. Ela raramente saia do castelo,pois só recolhia almas grandes e importantes demais para nós, as Damas Frias. Quando todo um sistema planetário morria, era ela que capturava a essência das estrelas e planetas e de todas as almas que haviam lá. A senhora realmente se destacava entre todas nós. Todas as Damas frias eram figuras pálidas e esguias,que trajavam o mesmo longo vestido branco e fluído.Já a Morte era uma figura escura, sempre com pesados vestidos pretos, coberta de mantos e véus, os longos cabelos negros contrastando com sua pele impossivelmente branca. Ela era absolutamente linda, com seus enormes olhos violeta cobertos por espessos cílios negros e sua carnuda boca vermelha como sangue. Eu também me destacava entre as Damas. Primeiro porquê eu era a única Dama Fria que NÃO estava morta, o que resultava em uma série de diferenças entre nós, como a minha pele cor de canela, minha respiração,que deixava uma nuvem de vapor toda vez que eu expirava, ou os sentimentos que martelavam minha mente e não me deixavam trabalhar direito. Fora do castelo, o mundo era dividido em piscinas de Azul e gigantescas árvores,formando enormes bosques alagados. O Azul é um líquido espesso, composto basicamente de magia, que cai incessantemente, como neve, em luminosos flocos azuis. A função do Azul é penetrar na alma dos recém falecidos, limpando os resquícios de sentimentos ruins e medos que os mortos trazem de suas vidas. No momento em que chegam ao Reino dos Mortos, as almas são tão pesadas e saturadas que afundam completamente no azul, mas conforme vão sendo limpas e se livram de suas cargas pesadas elas ficam cada vez mais leves, até flutuarem suavemente pelo ar como balões, partindo para uma nova vida. Eu passava a maior parte do meu tempo ao redor dessas piscinas, observando o ir e vir das almas, me deixando levar pelos meus pensamentos. Será que eu era capaz de reconhecer as almas dos meus pais? De Kota? Quando elas partissem para outra vida, eu seria capaz de enxergar naqueles novos e diferentes seres as pessoas que eu amo? Por que eu não podia descansar em paz ao lado deles? Minha vontade de encontrar aqueles que eu amo, o meu medo dos humanos e de seus deuses de olhos azuis e meu ressentimento por não poder me libertar de tudo, como as almas faziam, atrapalhava muito meu trabalho. A aura pura de uma Dama Fria é capaz de trazer consolo e paz ao recém falecido, fazendo ele aceitar melhor a morte e não resistir ao Azul, o que permite que ele seja rapidamente limpo e possa partir para sua próxima vida. Minha aura inquieta e insegura deixava as almas ansiosas, cheias de dúvidas e medos, o que impedia o Azul de penetrar corretamente nelas e dificultava o processo de limpeza, fazendo com que elas passassem muito tempo no Reino dos Mortos. Isso me rendia várias visitas da Morte.Nenhuma das almas recolhidas por mim deixou o Azul, todas continuavam lá, no fundo das piscinas, se prendendo a uma vida que já não lhes pertencia. Exatamente como eu... A Morte passava horas comigo, caminhando pelos jardins ao redor do Azul. A presença dela me acalmava. Seu olhar era sempre compreensivo e amoroso, exatamente como o de uma mãe. Ela era tão boa comigo que me fazia sentir cada vez pior por dar tanto trabalho, o que frequentemente me fazia chorar como uma criança. Um dia, ela me propôs um trato: ela me daria todas as respostas para as perguntas que atormentavam meu espírito e em troca eu manteria minha mente limpa e meu coração puro na hora de recolher as almas. Foi assim que eu descobri que meus pais já haviam partido, que os poderes de uma Dama não eram fortes o bastante para reconhecer as almas deles e que não era possível de maneira alguma para mim ser limpa no Azul como eles. Uma Dama Fria nasce, ela me contou, de uma alma pura e serena que por algum motivo ainda não consegue ser limpa. Pessoas que morrem cedo por alguma morte súbita ou são assassinadas, mas que não se ressentem por terem falecido se tornam Damas Frias. A energia vital delas não está completamente apagada ainda,então elas servem à Morte, ajudando a dar paz as outras almas, até que sua energia enfraqueça totalmente e elas finalmente possam ser limpas. Mas eu era diferente. Eu não possuía apenas parte da minha energia vital,mas sim toda ela. Não se pode partir para outra vida se você já está vivo. Eu estava presa. Com o coração partido, fiz minha última pergunta. Para onde a alma de Kota havia partido? A Morte então, com um pouco de receio, me disse que ela não havia ido a lugar algum. Demorei um pouco para entender, mas de repente senti meu coração se encher de esperança: ela não havia partido. Meu Kota estava lá, exatamente como eu o conhecia, vivo, exatamente onde eu o havia deixado.
Esse foi apenas o impulso inicial que me convenceria a deixar o Reino dos Mortos. Cada dia que se passava, eu enxergava novas razões para ir embora. As outras Damas me odiavam, pois eu passava muito tempo com a Morte e estava viva. Elas diziam que eu era esnobe, que me recusava a ficar com elas pois me achava melhor que elas, que essa era a razão pela qual eu ficava afastada, apenas contemplando o Azul. Diziam que eu não queria aprender com elas, porque assim eu poderia errar de novo e passar mais tempo com a Morte. Elas realmente me faziam querer ir embora. Além disso, meu tempo com a senhora, apesar de prazeroso, tinha seus custos. O que é vivo não deve ficar na presença dela, pois ela atrai o desastre e a morte. Frequentemente eu expelia grandes quantidades de fluídos vitais, que para mim são o equivalente ao sangue para os humanos. Decidi então começar a procurar maneiras de escapar.Comecei a me aproximar das outras Damas e a observa-las enquanto trabalhavam. Nunca havia me perguntado como nós retornávamos ao Reino dos Mortos e assistindo as outras eu pude ver o que acontecia. Após recolher as almas, a Dama começava a brilhar e seucorpo lentamente se desmanchava, se tornando apenas luz, que de repente sumia, em uma pequena explosão luminosa. Se as almas eram o bilhete de volta para o Reino dos Mortos, logo para não voltar era necessário apenas não recolhe-las. Parecia simples demais.Com certeza deveria existir algum preço, alguma coisa ruim devia acontecer com uma Dama que não fizesse seu trabalho. Passei eternidades na biblioteca do castelo, procurando por um livro que me desse qualquer pista. Inútil, era claro que não haveria um guia prático de como deixar de ser uma Dama Fria em um castelo cheio de Damas Frias! Estava quase desistindo quando reparei nas ilustrações de um livro que outra Dama lia. Era um conto de fadas, A Dama Corrompida. Contava a história de uma Dama que havia realizado barbaridades enquanto buscava conhecimento mágico. Suas maldades acabaram corrompendo a alma dela e ela nunca mais havia conseguido voltar ao Reino dos Mortos. O conto citava um bosque assombrado em um planeta pertencente ao meu sistema planetário natal, onde a dama supostamente vivia. Parecia bem bobo acreditar em contos,mas não me custava nada verificar.Ao menos o bosque era real, e realmente tinha um clima meio macabro. Um pouco a contragosto, comecei a acreditar no livro. Já nas primeiras árvores eu podia sentir aquele terrível clima opressorque, conforme eu avançava, ficava cada vez pior. Meu coração batia forte contra minhas costelas, subitamente apavorado sem razão alguma. Então eu a vi. E ela me viu. E eu soube que havia sido uma péssima ideia ir até lá.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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